Eu não sei ao certo o que são essas coisas, nem o porquê de estarem aqui comigo, apenas sei que estão. Não posso vê-las, nem tocá-las, mas posso sentir sua presença ao meu redor, sussurrando palavras em meus ouvidos quando durmo, quando aparece comida do nada na geladeira, quando meus pesadelos são tão grotescos que tenho que acordar quatro vezes durante a noite para me acalmar, quando trancam os portões para me impedir de fugir. Eles estão aqui e, por algum motivo, me querem. Me querem aqui, trancada, entre eles, onde podem me vigiar e tentar me mudar.

Até mês passado minha vida era feliz, monótona e longe de todo tipo de vida humana dessa terra. Os únicos seres humanos que eu conhecia eram meus pais e os empregados, e isso me fazia crer que éramos únicos no mundo, porque era o que realmente parecia. Estávamos isolados de todos os bens e males que o mundo lá de fora poderia oferecer, até porque quem saía da casa para comprar mais comida eram os empregados. Eu passava as tardes lendo livros do mundo de lá de fora que minha mãe havia encaixotado e escondido no sótão quando engravidou de mim e se mudou por vontade própria para aquela área isolada com meu pai. Eu era curiosa demais e vivia mexendo em tudo, por isso achei aquelas caixas cheias de livros. Não era analfabeta, então comecei a lê-los para matar o tédio que veio assim que me achei grandinha demais para brincar com bonecas e correr atrás dos empregados. Ainda gostava dos balanços, mas não dá para se balançar a tarde toda.

Bem, um mês atrás essas coisas apareceram. Meus pais e os empregados não notaram sua presença, já que são adultos e não tem a mesma imaginação que uma criança ou um adolescente, mas assim que senti sua presença, pude prever que algo ruim aconteceria. Apenas não imaginei que todos os seres humanos daquela casa (com exceção de mim) fossem morrer subitamente e sem nenhuma explicação.

Lembro que acordei de manhã sozinha, sem Amélia ou Gabriela me chamando para o café da manhã. O sol já estava alto, o que significava que já não eram mais seis da manhã. Alarmada com isso, saí do quarto chamando meus pais, que não responderam. Ao chegar no quarto dos dois, encontrei-os com os rostos meio que secos, os olhos quase saltando do rosto, roxos em volta e com as bochechas esverdeadas. Gritei de susto, e se houvesse algo em meu estômago, teria vomitado.

Outra coisa que notei foi que ninguém havia corrido para ver o que teria me feito gritar, então corri para o andar debaixo para encontrar todos os empregados caídos no chão, espalhados pelo primeiro andar, e todos no mesmo estado que meus pais.

Corri para a escada, onde tropecei sozinha e resolvi parar lá, no meio da escada, ao invés de correr para meu quarto. Chorei por mais tempo que posso dizer, pois não tinha relógios a vista então além de não saber as horas, não estava ainda tentando ter noção do tempo.

Teria chorado mais se não tivesse sentido como se eles me falassem \"Não tenha medo... Não lhe faremos mal...\".

Naquele dia eu decidi que tentaria conviver com eles, e se eles tentassem me fazer algum mal, simplesmente fugiria e procuraria a população mais próxima. Sabia que não seria assim tão simples, já que eles trancavam tudo quando notavam que eu pretendia, mesmo que bem remotamente, fugir. Mesmo assim, era meu único plano, já que ninguém sabia da existência de minha mansão, de tão afastada que era.

Vinha vivendo aquele mês todo em paz com eles, mesmo que sua existênica, por vezes, fosse incômoda, já que não se podia vê-los, apenas falar-lhes, mas estava começando a me acostumar. Foi aqui que um deles ficou violento.