O Violento (como o chamarei para diferenciá-lo dos outros) era um revoltado. Ele não entendeu o motivo que levou todos os outros a poupar minha vida ao invés de me matar, como fizeram com os outros. Ele vinha se controlando naquele mês, mas quando viu os outros começarem a abastecer os armários e a geladeira de comida (afinal, sou humana e morreria se não me alimentasse), explodiu. Começou a, sozinho, tentar tornar minha vida um Inferno.

No início, suas tentativas não me incomodavam, pois eram principalmente colocar bolinhas na escada para eu escorregar, ou deixar a janela de meu quarto aberta de madrugada, para ver se eu adoecia e morria sem médicos por perto. Acontece que, frustrado depois de suas primeiras tentativas, começou a tentar me eletrocutar na hora do meu banho, a botar facas no chão para eu pisar em cima e ficar com uma infecção que poderia me matar, a deixar o gás aceso. Chegou até ao cúmulo de tentar me enforcar dormindo!

Ameacei em voz alta fugir, pois estava difícil de aguentar tanto tormento junto, sendo que ainda estava sentindo falta dos pais que eles haviam matado.

Pude sentir metade deles tentando me consolar, enquanto a outra metade se voltava furiosa para Violento. Isso o deixou com muito medo, e pude sentir que estava dando mil e uma desculpas para os outros. Enquanto isso, eu sentia confortáveis brisas fresquinhas como as da manhã rodopiando ao meu redor. Aquilo me deixou calma e levemente sonolenta. Talvez fosse magia.

\"Definitivamente, nunca quero irritá-los...\" — pensei, ao ver que o medo crescia em Violento. Eu entendi perfeitamente naquele momento que, se eles não haviam me matado, tinha um bom motivo, e era bom que eu fosse extremamente cuidadosa para jamais irritá-los, ou do contrário algo ruim poderia acontecer.

No dia seguinte, notei que Violento havia sumido, e a paz voltou a reinar na casa.

Eu não fazia nada muito diferente de antes de meus pais morrerem: continuava a ler, continuava a dormir e acordar cedo, comia nos horários certos, mesmo que não estivesse com fome... A diferença é que de vez em quando eu tinha que ajudá-los fazendo minha própria comida ou varrendo a casa, já que os empregados não estavam vivos para limpar a casa.

Falando neles, no dia seguinte a sua morte, os corpos de todos haviam sumido, e eu achei duas lápides no jardim, uma com o nome da minha mãe e outra com o nome do meu pai. Eles, pelo visto, tiveram consideração comigo, e se condoeram da tristeza de uma garotinha de 14 anos que acabava de virar órfã e estava sozinha no mundo.

Lembrar de tudo aquilo um mês depois, e logo depois da eliminação de Violento me fez querer começar um diário ou algo assim, mas eu nunca havia tentado escrever um diário, e minha letra era deplorável por um motivo simples: falta de prática.

\"Acho melhor esquecer a ideia do diário e simplesmente varrer a sala. Ou o sótão, que com certeza deve estar mais empoeirado.\" — pensei, ao levantar de manhã, dois dias depois que Violento foi morto.

Muitos deles foram ao meu encontro oferecendo ajuda para preparar meu café da manhã, mas dispensei-os dizendo que eu preciso aprender a fazer meu café da manhã sozinha. Troquei minha camisola pelo meu vestido violeta, prendi meus longos cabelos negros e ondulados em um meio rabo, vesti minhas meias e meus sapatos pretos e desci para preparar meu café da manhã.

Alguns deles me ajudaram passando a jarra de leite frio, alguns me deram os ovos para eu fazer, e alguns arrumaram a mesa para facilitar as coisas para mim.

\"Eles até que são legais... São gentis, estão me ajudando... Será que os julguei mal quando fiquei com medo por eles terem matado meus pais?\" — pensei, mas tremi ao lembrar da imagem de meus pais mortos, e do medo que Violento sentiu. A gentileza deles me fez baixar a guarda e quase ceder ao meu novo estilo de vida, mas as lembranças ainda não estavam tão fracas assim para me fazer desistir de tentar ser humana e começar a me adaptar a uma vida cheia de amor com aquelas criaturas invisíveis.

Depois de notar isso, foi difícil não dar nas vistas que eu estava preocupada. Tentei terminar o café da manhã devagar, lavei os pratos devagar e depois peguei a vassoura e varri o sótão até ele estar com o chão quase brilhando sem poeira (se é que tábuas de madeira não polidas podem brilhar).

\"Agora posso ir lá fora brincar um pouco... Só para clarear as ideias...\" — pensei enquanto andava lentamente para fora do sótão.

Quase todos eles me receberam na saída:

\"Aonde você vai?\" — senti como se eles perguntassem, apesar de não escutá-los, exatamente.

— Vou usar o balanço do jardim um pouco — respondi, estranhando minha voz. Há quanto tempo eu não falava?

\"Pode ir então, meu bem...\" — era como se o vento sussurrasse ao meu redor. Realmente, eles pareciam uma coisa tão pacífica que chega enganava. Mas o fato de eles estarem preocupados com a minha saída de dentro da mansão era prova suficiente de que eles estavam de olho em mim e notaram que eu havia ficado um pouco tensa na mesa do café.

Para dissimular um pouco de felicidade e ingenuidade, fui saltitando para o balanço, levando um livro razoavelmente grosso na mão, para o caso de o tédio bater e eu não ter nada para fazer ao ar livre. Como sempre, o jardim estava vazio, meio sinistro, com uma aura meio inumana, provavelmente prova de que a presença deles estava cada vez mais forte na casa. Será que estavam aumentando de número?

Suspirei, e o ar friozinho daquela região isolada me encheu os pulmões, me dando energia e me encorajando. Larguei o livro na grama e me sentei com rapidez no balanço, conseguindo em menos de meio minuto alcançar a altura máxima que se conseguiria naquele balanço. O vento estava gostoso no meu rosto, dando aquela sensação meio entorpecente, estórias pipocando minha mente sobre damas, castelos, assassinatos, amores e desamores, traições, e um final feliz... Quando escutei um barulho estranho. Vindo de fora da casa. De perto do muro. E seguido de um grito de dor.