Marie das Sombras
3 Estranho
Era um grito humano. O que significava que tinha um humano gritando. Um humano. Eu nunca havia visto ou escutado um humano que não fossem meus pais ou os empregados. A sensação que eu senti foi a mais irracional possível: senti medo.
Parei abruptamente o balanço arrastando o pé no chão e fiquei imóvel, encarando o muro.
— Ai... Ai... Putz... Ferrei meu dedão... Ai...
\"Putz? O que será que é isso? Algum deus pagão?\" — pensei ao escutar a pessoa praguejar. Não havia lido sobre nenhum deus que se chamasse Putz nos livros de minha mãe, mas do jeito que a pessoa colocou na frase, era o que parecia ser: um deus pagão.
— Quem... Quem está aí?! — perguntei com uma voz esganiçada antes que pudesse pensar direito.
Aparentemente a pessoa atrás do muro ficou surpresa ao escutar a voz de alguém vinda de detrás do muro, pois ficou um silêncio incômodo no ar até que o dono da voz perguntou:
— Tem alguém aí?
Comecei a tremer de medo, paralisada no balanço, sem saber como agir. Podia sentir que eu estava com os olhos arregalados, meu corpo estava todo rígido e eu, apesar de ter um milhão de respostas diferentes para dar, não conseguia achar minha voz para poder falar.
— Alô? tem alguém aí? — o estranho perguntou de novo. Para meu espanto, dessa vez subindo o muro para olhar para dentro.
— O que você...?! — foi tudo que consegui dizer, pois fiquei muda de susto. Era um garoto mais ou menos da mesma idade que eu, com roupas muito diferentes das minhas. Usava uma calça larga e de um azul meio estranho, com uma camisa negra estampada com dizeres em uma língua estranha, e um chapéu gozado na cabeça. Tinha tipo uma aba por cima da testa e o resto era colado na cabeça.
— Ah, é uma garota. Eu nem sabia que tinha uma casa aqui, no meio da floresta. Por que você está usando esse vestido estranho? Você é uma cosplayer, ou algo do tipo?
— Quê? O que diabos é um cosplayer? E isso é meu vestido, oras! Eu uso vestidos normais! Suas roupas é que são estranhas! Que chapéu é esse na sua cabeça? E por que suas calças são tão largas? Além do mais, que língua é essa na sua camisa? Não está nem bordada nela! Como foi aparecer aí?
O garoto pareceu tão chocado quanto eu. Minha fúria repentina também não era muito racional, mas eu estava com medo, estava agindo na defensiva.
— Como assim, esquisito? Isso é um boné. Todo mundo usa. E minhas calças são largas porque são masculinas. Se eu usasse calças justas, achariam que sou gay ou viado. Isso na minha camisa está escrito em inglês, e obviamente não está bordado, já veio assim na camisa.
— Como assim? Meninas usam calça também? E o que é gay? Pensei que veado fosse um animal. Agora estou confusa.
O garoto pulou de cima do muro e começou a se aproximar, o que me alarmou:
— Ei, espera! — gritei, em pânico.
Ele parou na minha frente, olhando bem nos meus olhos e me avaliou durante um longo tempo... Tão longo que eu sentia que ia desmaiar de nervoso a qualquer momento. Por fim, ele declarou:
— Você é meio esquisita. Parece que veio do século XIX, tipo naqueles filmes antigos...
— Eu não sei do que você está falando... — gaguejei, tremendo ainda. — Tudo bem que meus pais se isolaram quando minha mãe engravidou, e os livros que eu leio dá para notar que são consideravelmente antigos... Mas acho que nasci no século XX, e agora estamos no século XXI. Estou certa ou errada?
Parecia que eu havia falado que era de outro planeta, de tão surpreso que o garoto pareceu.
— Sim, estamos no século XXI. Então você deve ser uma garota normal... Mas por que é tão diferente das garotas que eu conheço?
— Talvez pelo fato de que moro afastada de todos os humanos do mundo lá de fora. O que acha disso?
— É... Faz sentido — ele coçou a cabeça, como se estivesse tentando enterrar a informação no cérebro. — Então... Seus pais também se vestem assim, desse jeito estranho?
Lembrar de meus pais assim, sem aviso, foi doloroso, então fiquei muda de repente e senti meus olhos arderem um pouco.
— Ei... Ei, o que foi? — o garoto ficou em dúvida se tocava meu braço para me consolar ou se não fazia nada. Optou por encostar de leve no meu braço e, vendo que eu não rejeitei o toque, colocou a mão toda lá.
— É... É só que... Bom, meus pais morreram mês passado então... Então eu... Eu... Ainda não superei completamente — soltei.
— A-ah... — ele ficou um pouco chocado. — Calma, calma, não chora... Sério, eu nunca vi uma garota chorando na minha frente assim, então não sei direito o que fazer...
— Eu... Eu também nunca chorei na frente de um estranho... — falei, tentando conter o choro e notando como aquela situação era estranha.
Ele me abraçou desajeitadamente e disse:
— Pronto... É o básico a se fazer, pelo que eu sei, ao consolar alguém... Não fica assim não... Mas olha, não tem uma pessoa aí, cuidando de você?
— Não... Os empregados morreram também, e eu não conheço nenhum dos meus parentes... Porém... — me interrompi.
— Porém o quê? — ele perguntou, me abraçando mais forte.
— Existem umas criaturas invisíveis convivendo comigo. Elas trazem a comida que eu como, me ajudam com a limpeza da mansão e velam meu sono quando eu durmo. Inclusive sumiram com os corpos dos empregados e fizeram duas lápides para meus pais no outro jardim. São gentis, mas jamais quero saber o que aconteceria comigo se eles ficasem furiosos. Afinal, são os responsáveis pela morte de meus pais, ao que deu a entender.
Senti o corpo do garoto estremecer. Depois, ele relaxou e deu uma risadinha:
— Então, isso significa que você mora sozinha nessa mansão enorme, convivendo com seres invisíveis?
— Não ria. Não estou mentindo. Acha que depois de um mês eu estaria viva, sem ninguém para sair e comprar comida? Se fiquei com medo de você, imagina de um adulto! Acho que desmaiaria!
Ele se distanciou um pouco para me encarar surpreso:
— Você ficou com medo de mim?
— Claro que fiquei! Você é o primeiro ser humano que vejo, fora meus pais e os empregados!
— Puxa vida... — ele soltou, mais surpreso ainda, só que meio maravilhado. Aquilo me lembrou do deus Putz.
— A propósito... Que deus pagão era aquele? — perguntei com curiosidade, a tristeza sumindo.
— Que deus pagão? — ele estranhou, me soltando e olhando com uma cara interrogativa para mim.
— Aquele que você praguejou... Deus Putz... — tentei lembrá-lo.
Ele explodiu em uma gargalhada. Na verdade, riu tanto que caiu no chão. Literalmente.
— O que tem tanta graça? — perguntei, meio encabulada.
— É que... Que... — ele tentava falar a medida que recuperava o ar. — Não era um deus... Era apenas uma exclamação! — ele se levantou antes de continuar: — Na cidade mais próxima daqui, nós usamos essa exclamação para qualquer coisa. No caso, eu usei porque machuquei o meu dedão do pé... A propósito, você tem band-aid?
— Band-aid? — ainda estava meio sem graça, mas ainda não estava entendendo o que ele estava falando.
— É, curativo...
— Tenho atadura. Serve?
Ele deu de ombros, então convidei-o a entrar, pegando meu livro do chão antes.
Subimos até meu quarto e achei rapidamente uma atadura na gaveta do criado-mudo.
— Tome, enrole isto no pé e depois amarre. Não tenho nada para grudar — falei.
— Tá, né...? — ele resmungou.
— Não vai me agradecer? — me surpreendi. Fiquei revoltada com o fato de ele não me agradecer. Eu estava fazendo um favor, e sem pedir nada em troca.
— Ah, valeu...
Eu ia perguntar o que diabos era \"valeu\", mas aceitei aquilo como um obrigada e me calei. Já tinha passado vexame o suficiente para vinte anos.
Quando ele terminou, falou:
— Foi mal, mas eu já demorei muito aqui e meus amigos devem estar preocupados. Tenho que ir, viu?
— Tá, tudo bem... — fiquei meio desanimada. Acho que havia gostado da presença dele na casa. Ficar um mês sem entrar em contato com nenhum ser humano tinha me deixado carente.
— Posso voltar amanhã? — ele perguntou, meio receoso.
— Claro! — me animei.
— Tudo bem — ele sorriu. — Até amanhã. Tchau — ele se despediu, e eu o acompanhei com os olhos até vê-lo subir o muro e desaparecer do outro lado.
\"Ah, que pena... Nem perguntei seu nome.\" — me dei conta mais tarde, ao lembrar do curto momento que ficamos juntos.
Seres humanos não eram tão assutadores quanto eu havia pensado. Eram mais normais do que eu poderia imaginar.
Fui dormir naquela noite ainda com o garoto esquisito na cabeça, e tive sonhos ótimos. De manhã é que foi um caos.
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