Marie das Sombras
4 Diversão
Pela manhã, pude notar que eles estavam meio agitados quando me viram acordar. Provavelmente ficaram o dia anterior inteiro se remoendo sobre quem seria aquele ser humano estranho que ousava se intrometer naquele mundinho privado que eles haviam criado para mim. Mas eu não ousaria deixar que eles tocassem num inocente, em uma pessoa que havia acabado de me conhecer e que não acreditava nem em metade de meu passado recente, porém sombrio. Ele não merecia isso.
\"Querida... Quem era aquele de ontem?\" — senti o ar me perguntar.
— Não sei. Um humano de algum lugar próximo daqui. Aparentemente se perdeu e machucou o dedão do pé. Apenas o auxiliei a cuidar do machucado. Não é ninguém que eu tenha conhecido antes. Nem sei seu nome, para falar a verdade — respondi.
\"Entendemos... Você apreciou a companhia dele ou devemos despistá-lo e não deixar mais que se aproxime?\" — o ar mudou, me perguntando isso.
— Podem deixar ele vir quantas vezes quiser... Ele é estranho, mas sua presença foi, de certa forma, agradável — respondi, notando que talvez o garoto tivesse sido trazido propositalmente para aquela parte da floresta onde minha mansão estava isolada. Provavelmente obra deles. Se eu lhes dissesse que me assustei com a presença do garoto, provavelmente eles jamais deixariam ele se aproximar novamente, e eu ficaria sozinha pelo resto de minha vida. Isso eu com certeza não queria. O mundo lá fora mudaria, coisas novas aconteceriam, e eu continuaria sendo a menina excêntrica cujos pensamentos e vestuário parecem de uma garota do século XIX. Queria pelo menos me atualizar um pouco e conhecer o mundo que era desconhecido. Era assustador, mas fascinante.
Depois disso, eles me deixaram sozinha para que eu pudesse tomar banho e trocar de roupa sozinha, e foram arrumando a mesa do café da manhã para não atrasar as coisas, já que eu decidira varrer a sala principal naquele dia.
Não demorei muito no banho, mas quase todos os meus vestidos já estavam para lavar ou ainda estavam secando, e eu havia colocado o vestido do dia anterior para lavar, porque já o estava usando há quatro dias, e isso era nojeira. Por causa disso, demorei um tempo achando um vestido decente para usar naquele dia.
Depois de fazer um rabo de cavalo, desci para a cozinha, coloquei um avental (o que eu raramente fazia) e anunciei:
— Hoje vou tentar fazer cookies. Vocês me ajudam?
Houve uma agitação feliz no ar, e tudo ficou fresquinho e com cheiro de primavera, sinal de que eles estavam animados. Interpretei aquilo como um sim, então procurei o livro de receitas da minha mãe nos armários até achar. Lá tinha receita para muffins e cookies de vários sabores, mas procurei um simples: de chocolate.
— Tudo bem. Eu escolhi a receita de dez porções de cookie de chocolate. Procurem os ingredientes para mim, e quando tiverem todos, eu começo os procedimentos.
O ar pareceu me responder com um \"Entendido!\" energético e se dispersou, deixando um vazio para trás. Era incrível o quanto eu havia me adaptado àquela vida estranha com aqueles seres invisíveis e que, apesar de cruéis, haviam me poupado a vida. Ficar meio longe deles era estranho. Era como se o ar tivesse ficado pesado demais... Ou era leve demais? Não sabia dizer ao certo. Só sabia que eles faziam falta.
Dali a alguns minutos, quando eu comecei a estranhar a demora, apareceram vários ingredientes flutuantes que atravessaram toda a cozinha até ficarem em cima do balcão onde eu ia preparar tudo.
— Obrigada — eu agradeci, dando um sorrisinho para o ar, e foi como se o ar dissesse \"de nada\" para mim.
Virei-me para o livro de receitas e foquei toda a minha atenção na receita do cookie de chocolate. Fiz passo a passo tudo o que a receita mandava, tomando cuidado em fazer as medidas exatas e quando finalmente ficou pronto e aprovei o gosto, desabei na cadeira da cozinha fisica e mentalmente exausta.
— Ufa... Foi difícil, mas está bom... — suspirei, exausta.
\"Você está bem?\" — senti o ar ficar meio preocupado a minha volta.
— Sim, estou bem. Me diverti muito fazendo os cookies. Não se preocupem comigo.
\"Tudo bem.\" — eles se acalmaram.
Peguei os cookies cuidadosamente e coloquei-os em um pratinho branco, no meio da mesa. Comi mais um cookie, deixando os outros oito para de tarde e subi correndo as escadas, tirando o avental e deixando-o na porta da cozinha.
\"Já vai sem o leite?\" — eles me acompanharam.
Parei com um pé em um degrau e outro no outro, dei meia volta e corri para dentro da cozinha de novo, me servindo rapidamente de um copo de leite e de mais um cookie de chocolate, e depois deixei tudo na pia, correndo direto para meu quarto.
Escovei os dentes, refiz meu rabo de cavalo, arrumei o vestido e peguei a vassoura para varrer a sala principal. Desci correndo as escadas, e nas duas horas que se seguiram varri não somente a sala principal, como também a sala de chá, a cozinha e meu quarto (que já estava ficando terrível).
Ainda faltavam algumas horas até ele aparecer (provavelmente), já que os horários dele com certeza eram diferentes dos meus, então eu simplesmente peguei um livro e fui ler no jardim.
Estava um dia fresquinho, meio úmido, do jeito que eu mais gostava, então me empolguei na leitura, e quando fui ver, já tinha lido quase duzentas páginas.
\"Nossa, que horas são?\" — me perguntei. Ao olhar para o céu, ficou claro que horas eram: quase hora do almoço.
Marquei a página em que parei e saí correndo para dentro de casa, mas parei no meio do caminho quando escutei:
— Garota, você está aí?
— Sim, estou — voltei depressa para responder.
— Posso entrar? — ele perguntou, parecendo receoso.
— Claro — sorri.
Ele pulou pelo muro e veio correndo em meu encontro:
— Pensei que tudo não passasse de alucinação, ou que não se lembraria de mim. Pelo visto não foi sonho nenhum e você lembra de mim tanto quanto eu lembro de você.
Sorri para ele e falei:
— Eu estava indo almoçar agora. Você já almoçou, ou vai se juntar a mim? — convidei-o para ser educada, e também porque gostaria da sua companhia.
— Na verdade, eu vim assim que terminei de almoçar... Mas eu posso te acompanhar, se você quiser, e posso até provar um pouco da comida. Só não vou poder comer muito, porque senão minha barriga fica muito cheia. Tudo bem assim?
Mesmo ele dizendo que não poderia comer muito e aquilo me desanimar um pouquinho, fiquei feliz pelo fato de que pelo menos os cookies ele poderia comer.
— Claro. Vem, vou fazer macarrão. Você gosta de macarrão? — notei que se ele não gostasse, não adiantava colocar, ele não iria querer comer.
— Claro que eu gosto! Macarrão é uma delícia.
Sorri para ele e o levei para a cozinha, onde o deixei sentado a mesa, me observando preparar tudo com agilidade e rapidez, pois tinha pressa de servir logo o almoço. Além do mais, estava faminta.
Quando terminei o macarrão, servi uma grande parte para mim e coloquei um pouco em seu prato.
— Se quiser mais, é só pegar da panela. Ah, e tem sobremesa. Fiz cookies de chocolate hoje de manhã, porque imaginei que viria e fiquei com vontade de comer cookie.
— Você fez os cookies?! — ele se surpreendeu.
— Sim. Eu passei a cozinhar depois da morte de meus pais porque não queria que eles fizessem tudo sozinhos. Eles podem ser muitos, mas não tem a obrigação de fazer tudo por mim. Já tenho catorze anos, preciso pelo menos saber limpar a casa e fazer comida.
Ele ficou me olhando um pouco surpreso enquanto eu comia. Será que eram assim tão estranhas as minhas roupas? Por fim ele disse:
— Você só tem catorze anos e já faz tudo isso, enquanto eu, que tenho quinze, quase dezesseis, não sei nem lavar minhas cuecas...
Ao ouvi-lo falando aquela palavra (\"cueca\") com tanta naturalidade, me sobressaltei, mas então lembrei que aquilo não era pensamento do século em que eu vivia, da sociedade lá fora... E tratei de me recompor.
— Bem... — comecei, ainda meio atordoada. — Eu aprendi a cozinhar algumas coisas com os empregados, e meus pais me faziam limpar meu quarto e guardar minhas coisas, então me acostumei a arrumar e a cozinhar algumas coisas. Porém, desde que os empregados morreram, tive que aprender sozinha algumas receitas. Usei uma semana inteira para aprender algumas básicas, e agora cozinho muito bem.
— Então, se você cozinha assim tão bem, vou provar seu macarrão — ele disse, enrolando o macarrão no garfo e assoprando fortemente antes de colocar na boca. Fiquei encarando-o o tempo todo, então a primeira expressão dele não me escapou: espanto.
— O que foi? Você não gostou? — me preocupei. Não devia ter me gabado. Poderia passar vergonha por ser tão metida.
— Não é isso... É melhor que o macarrão da minha mãe. Tem a quantidade certa de manteiga, e não é nem macio demais, nem duro demais. Adorei! Posso vir almoçar aqui mais vezes? — ele pediu (na verdade, quase implorou), olhando-me com fascínio.
— Quantas vezes você quiser. Ah... — lembrei-me. — A propósito, qual o seu nome? Esqueci de perguntar ontem.
— Eu sou Alex. E você?
— Meu nome é Marie. Você conhece muitas garotas com o nome Marie, ou também é um nome estranho?
Ele deu um sorrisinho e respondeu:
— Não, não é estranho. É um nome até popular. Conheço várias Maries.
Suspirei de alívio e voltei a comer meu macarrão com mais rapidez do que de costume. Eu estava animada com a presença de Alex. Ele era alto-astral e parecia ser boa pessoa. Mesmo assim, eles ficavam na defensiva. Talvez para o caso de o garoto ficar agressivo, ou sua presença começar a me desagradar, ou até mesmo para o caso de eu querer fugir com ele.
Ao terminarmos o almoço, lhe ofereci os cookies, e ele comeu cinco deles, deixando apenas dois para mim, o que não fazia mal, já que eu havia comido três de café da manhã e minha barriga já estava cheia.
Ele me perguntou se a casa era grande, então levei-o em um passeio pela casa toda, desde a cozinha, no primeiro andar, até o sótão que tinha uma entrada no teto de meu quarto. Meu quarto ficava no segundo andar.
— Uau... Isso tudo está tão cheio de poeira. Você está mesmo morando aqui, sozinha. Dá para ver pelo estado da casa e pela falta de... Sei lá, cheiro humano. Presença humana talvez seja mais adequado. O lugar tem um aspecto meio sombrio, como se estivesse abandonada aos espíritos... — ele se interrompeu e mudou o tom de voz: — Ei, é verdade mesmo esse negócio sobre... Esses seres invisíveis?
Olhei para ele completamente séria e disse:
— Bem, se você não acredita, eu posso pedir que eles demonstrem levatando algo. Só que você não poderá ouvi-los, nem vê-los, e nem tocá-los.
— Espera. Como não vou poder tocá-los se eles tocam em outros objetos?
— Não sei. Já tentei tocar em um deles quando vi um jarro de leite flutuando, mas não toquei em nada. Peguei o ar, pois apesar de haver uma presença forte ali, não tinha nada material, não tinha uma pessoa ou algo parecido ali.
— Isso é estranho... — ele pareceu meio chocado com a informação.
— Concordo que é estranho, mas são eles que me vigiam e que cuidam de mim agora. Vocês podem me trazer o meu livro que eu deixei no jardim? — perguntei ao vento.
Senti que alguns deles se dispersaram para pegar o livro e em poucos instantes nós dois vimos o livro vir flutuando até minha mão.
— Obrigada — agradeci a eles, e foi como se o vento se alterasse para tentar formar um sussurro: \"De nada\".
Alex sacudiu meu braço e sussurrou com força:
— Você viu isso?! O livro entrou aqui flutuando e depois que você falou obrigada parecia que o vento estava cantando uma resposta! — ele me olhou com um pouco de medo nos olhos. Aquilo me entristeceu um pouco.
— Não fique com medo de mim. Eu aprendi a conviver com eles, e aposto que você gostaria deles também se houvesse ficado tão sozinho quanto eu fiquei. Eles não me fizeram mal. Não vão fazer mal a você.
Ele tentou se acalmar e disse:
— Marie, acho melhor eu voltar para casa para esfriar a cabeça. Eu ainda não absorvi direito.
— Não vá! — me desesperei.
— Eu prometo voltar amanhã. Prometo, sério. Olha, vou trazer presentes para você, mas só se me deixar ir agora para poder chamar minha mãe para as compras. Você concorda?
Eu não queria deixá-lo ir, mas a ideia de ganhar presentes era muito tentadora. Não pude resistir, então respondi:
— Só se prometer voltar amanhã. E vai ter que compensar por hoje.
Ele sorriu um pouco e falou:
— Tá...
Saiu um pouco tonto do quarto, esbarrando na minha cômoda, provavelmente ainda chocado com o que tinha visto. Mas eu havia contado para ele. Por que ele não havia acreditado em mim, se nossas idades eram tão próximas? Aquilo me chateou profundamente.
Passei grande parte da tarde no balanço, me balançando com certa fúria e ao mesmo tempo melancolia. O céu mudou completamente e eu continuava a me balançar com vigor, sem notar o cansaço, a fome ou o frio que estava começando a fazer, até que eles chegaram e perguntaram sem som:
\"Querida, o que está fazendo a essa hora da noite aqui fora? Você não jantou ainda, nem nada. Ande, entre em casa, jante e vista sua camisola para dormir\".
— Estou indo... — respondi, raspando o pé no chão para conseguir parar o balanço e entrando em casa.
Eles haviam preparado meu jantar, então apenas tive que sentar e comer, e quando cheguei no quarto, a cama estava pronta e minha camisola estava dobrada sobre o travesseiro, pronta para eu vestir.
— Obrigada — agradeci. Todos eles mandaram uma brisa fresca em resposta.
Me troquei ainda meio chateada e fui dormir chateada, mas meus sonhos foram bons, então não reclamei. Acordar na manhã seguinte foi revitalizante, pois eu tinha certeza de que Alex viria. Afinal, ele me prometera, não prometera?
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