Notas iniciais
Esse capítulo provavelmente vai ser o último ou penúltimo desse mês, porque estou em semana de provas, tenho que arrumar minhas malas para viajar até sexta e vou passar duas semanas sem internet. E se minha mãe tirar meu pc, fico até o final do ano sem postar nada, então... Sorry people, mas minha vida é uma bagunça, e eu faço tudo o que posso :(

Acordei no dia seguinte ainda preocupada. Eu não sabia como eram as coisas no mundo lá fora, então não sabia se lá as pessoas costumavam cumprir as promessas ou quebrá-las. Se era normal quebrar uma promessa, ele provavelmente não viria naquele dia, nem no seguinte, e se viesse depois de um tempo, viria sem nenhum presente, dando alguma desculpa esfarrapada, como nos livros de romance de minha mãe, quando o homem trai a mulher com outro e depois tenta dar desculpas. Óbvio que ele não era meu homem. Nem sequer sei se era meu amigo. Mas a situação parecia bem possível de acontecer.

Caminhei de um lado para o outro na casa, arrumando quartos, varrendo outros cômodos que eu não havia lembrado de varrer no mês que havia passado, terminando aquele livro e começando outro, me balançando no balanço, cozinhando minha comida... Foi tanta coisa que quando foi dando quatro da tarde, senti meu corpo pesado do cansaço e minhas esperanças indo embora. Sentei no jardim, do lado do balanço, me encolhi toda e comecei a chorar.

Chorei porque naquele momento soube que ele não apareceria e me desesperei. Chorei porque meus pais estavam mortos, assim como os empregados e não tinha ninguém para conversar comigo. Chorei porque me sentia ingrata quando me sentia sozinha, apesar de ter a companhia daqueles seres estranhos. Chorei também porque eu era esquisita, ingênua e burra, e jamais poderia pertencer ao século XXI.

O céu começou a escurecer do nada, e quando olhei para cima com meu rosto molhado pelas lágrimas, notei que algo mais poderia me molhar: chuva. Mas não me importei e coloquei a cabeça entre os joelhos de novo, apesar da vontade de chorar ter passado. Meus olhos ardiam, meus braços e pernas estavam pesados, minha cabeça girava um pouco, e meus pensamentos estavam uma bagunça. Meu cérebro deu defeito e nada mais funcionava, eu não conseguia pensar com clareza.

Foi mais ou menos aí que eu escutei:

— Marie, você está aí?

Num sobressalto, levantei a cabeça e olhei atordoada para os lados, procurando o dono da voz, como se fosse um fantasma ou algo do gênero.

— Quem é? — perguntei, ainda surpresa.

— Esqueceu de mim? Sou o Alex, garota. Ah, já sei. Você está chateada porque eu me atrasei e está fingindo que não me conhece não, é?

Aquela acusação me pegou de surpresa, mas estava tão feliz que nem tentei rebater. Gritei com alegria:

— Alex, você veio!

Ele jogou um saco branco estranho por cima do muro antes de subir e passar para o lado de dentro.

— É, eu vim. Quase que não deu, porque ontem minha mãe enrolou para sair de casa e hoje nós ficamos embrulhando seus presentes. Eu não queria que você soubesse só de bater o olho. Queria que você rasgasse o papel e se surpreendesse. Por isso demorei tanto — ele estava sorrindo, como de costume.

— Eu... Estava chorando porque pensei que você não viria. Eu não sei como as coisas funcionam lá fora, mas nos livros as pessoas mentem muito, enganam muito e quebram muitas promessas. Pelo menos nos livros tristes. E eu não queria que você quebrasse essa promessa de vir hoje. Eu fiquei triste quando você foi embora ontem, com medo de mim — abaixei a cabeça de novo.

Ele correu até mim, levando o saco branco consigo, e quando chegou perto de mim, falou:

— Ei... Ei, seja forte. Eu sei que você não está acostumada com nosso mundo moderno, então eu estou agindo diferente com você. Você é uma exceção, então vou tomar cuidado para nunca te magoar. Lá fora eu posso ser desatencioso, porque as pessoas estão acostumadas a isso. Mas aqui, com você, eu foco toda a minha atenção em você, tentando encontrar a melhor maneira de falar com você. Então nem pensa em alguma coisa assim, tá?

Levantei a cabeça aos poucos, enxuguei o rosto e, olhando-o nos olhos, perguntei:

— Mesmo?

— Mesmo.

— Mesmo, mesmo?

— Mesmo, mesmo — ele deu uma risadinha.

Na onda de felicidade repentina que me invadiu, abracei-o com tanta força que parecia que havia encontrado meu irmãozinho perdido (não tenho nenhum irmão, só para esclarecer), ou algo do tipo.

— Marie? Você está bem? — Alex perguntou, meio surpreso.

— Você não pode imaginar em como eu estou feliz de saber que você se importa comigo... Nunca esperei que alguém do mundo lá de fora fosse ser tão acolhedor e gentil comigo, por isso sempre tive medo de sair. Agora que sei que existem pessoas boas, lá fora não parece mais tão perigoso. Mesmo assim, tenho que admitir que não teria coragem de sair. Não ainda.

Ele retribuiu meu abraço e falou:

— É... Também fico feliz em saber que você está assim tão contente e aliviada. Me faz sentir útil.

Ficamos daquele jeito até ele virar e falar:

— Tudo bem, agora a situação está ficando esquisita.

Nos soltamos ao mesmo tempo, corando. Estávamos sozinhos (ou quase), mas era extremamente embaraçoso ficar abraçados daquele jeito.

— Bem, erm... — tentei mudar de assunto. — O que você trouxe para mim, então?

Ele, lembrando-se do saco, apanhou-o e abriu-o, revelando vários embrulhos de presente. Tinha embrulho com ursinho, com bonequinha, com flores, com corações... Várias estampas lindas que eu nunca havia visto.

Maravilhada, depois de um templo comtemplando os embrulhos, comecei a pegá-los e abri-los cuidadosa e delicadamente para não rasgá-los. O primeiro era uma blusa branca com um desenho estranho no meio e dizeres numa língua estranha. Mas mesmo assim era bonita.

— Alex, é linda! Mas... Como se usa?

— Você veste ela da mesma maneira que veste seus vestidos. Ela é apenas mais curta que um vestido, então você tem que usar com uma saia, um short ou uma calça. Acho que ficaria perfeita com a calça jeans que eu trouxe. É essa do embrulho de ursinhos — ele apontou para o embrulho da calça jeans.

Abri, e era muito parecida com a dele, exceto pelo fato de que era menos larga e menor. Eu era bem mais baixa que ele, e ele deve ter mentalmente medido meu tamanho para comprar.

— Obrigada. Como eu experimento? — perguntei.

— Bem... Você tira o vestido, coloca a camisa como se fosse vestir um vestido bem curto e a calça você coloca uma perna em cada espaço e depois fecha o zíper e o botão na frente. Olha... — ele pegou a calça da minha mão para fazer uma demonstração. — Essa parte fica para trás, e essa para frente. Essa da frente tem um zíper, que você pode abrir e fechar e um botão que você encaixa e desencaixa da casinha dele.

— Entendi... — falei maravilhada. Aquele era um mecanismo simples, mas eficiente de fechar as coisas. Bem melhor do que vários grampos, alfinetes, broches ou coisas do tipo. Fitas eram as piores, porque afrouxavam sozinhas e o vestido ficava meio desfigurado no corpo.

— Ah, mais uma coisa — ele falou, lembrando-se de algo e pegando um embrulho pequeno. — Minha mãe disse que talvez você ainda use espartilho, e mandou eu lhe dar estes... Bem, são sutiãs. São mais confortáveis do que um espartilho. Pelo menos ela me garantiu que eram — ele ficou vermelho até as orelhas quando disse isso. E eu entendi bem o porquê.

Acho que, no final, era tão embaraçoso para ele falar de espartilhos (no caso, sutiãs) e calcinhas comigo quanto era embaraçoso para mim escutar ele falar das próprias cuecas.

Agradeci e, sem nem mesmo abrir, chamei-o para entrar e deixei-o esperando em meu quarto enquanto eu ia no banheiro.

A calça até que eu consegui vestir, mas não conseguia fechar aquele tal de sutiã de jeito nenhum. Se amarrar o espartilho sozinha já era o cúmulo, imagina encaixar um fechinho tão fino. E era nas minhas costas, sem ter como olhar ou me orientar direito. Não vi outra saída:

— Alex, como se fecha o sutiã? — perguntei, corando na mesma hora. Talvez ele não soubesse, e eu não queria que ele pensasse que eu era burra.

Demorou alguns segundos até que ele respondesse:

— Desculpe, Marie. Eu não sei explicar direito como se faz isso. Por que você não pede para aqueles seres te ajudarem? Eles talvez saibam encaixar o fecho.

Foi só na hora que ele disse que eu lembrei, como num estalo, de que os seres invisíveis que estavam naquela casa podiam me ajudar.

\"Quer nossa ajuda?\" — eles me perguntaram sem fazer som.

— Sim... Poderiam me ajudar a fechar isto? — perguntei.

\"Claro que podemos...\" — eles se moveram suavemente, e de repente o sutiã estava devidamente fechado em volta de meu busto. Era mais confortável que um espartilho, realmente, mas me dava a impressão de que eu estava quase sem roupa. Era meio estranho para mim.

Coloquei a blusa e logo depois saí do banheiro.

— Como fiquei? — perguntei, mordendo o lábio inferior de nervoso.

Ele ficou pasmo, depois deu um sorriso tímido e disse:

— Serviu direitinho. Ficou muito bem em você, Marie. Tá muito linda.

Corei um pouquinho com o elogio e sorri de tão radiante que fiquei. Aquela roupa que me deixou tão bonita me fez ter curiosidade de abrir os outros embrulhos, e achei lá uma variedade de coisas: tinham outros sutiãs, calcinhas, uns dois vestidos curtos, uma saia, short jeans e um tênis (aquele treco estranho que parece um sapato com enchimento, e que Alex chama de tênis).

Infelizmente não pude experimentar todos, porque Alex teve que ir embora às cinco da tarde, mas guardei todas as roupas no meu guarda roupa para poder usá-las depois. Mudei para a camisola às seis da tarde, jantei e fui dormir depois de ler um pouco mais do livro que havia começado. Não devia passar das sete.

Alex prometera que voltaria no dia seguinte, e dessa vez com algum livro novo. Ele notou que eu caminhava com os livros na mão para cima e para baixo, então decidiu me trazer algum \"romance melado para garotas românticas\", como ele disse. Se bem que, como ele disse isso rindo, acho que ele até que gostava um pouco desses romances. Quem sabe? Só poderia saber no dia seguinte, apesar de estar super ansiosa.