Marie das Sombras
6 Feliz aniversário
Notas iniciais
Na manhã seguinte, acordei temendo que todos aqueles presentes não passassem de um sonho bobo, então corri para o guarda roupa e ao abrir, constatei que não havia sido sonho nenhum. Palavras mundanas não podem descrever o quanto fiquei feliz. Na verdade, fiquei tão feliz que chorei. Isso alarmou-os.
\"O que houve? Algo a entristesce?\" — parecia que o ar perguntava.
— Não, não... Na verdade, esstou feliz. Tão feliz que acho que poderia morrer.
\"Não exagere... Se você morresse, não poderia curtir a felicidade.\"
— Sei disso. Mas é que... Não dá para descrever. Eu acordei com medo de que tudo fosse um sonho, e ver que não foi aquece minha alma. Oh, será que ele vai demorar hoje?
\"Ele virá na hora do almoço...\" — eles me informaram. — \"Porém, terá que ir embora um pouco cedo por motivos pessoais.\"
— Como vocês sabem?
\"Ah, Marie, nós sabemos de muita coisa... Sabemos do passado de seus pais, sabemos de seus desejos de fuga, sabemos dos seus possíveis futuros... Sabemos de muita coisa. Estamos apenas esperando que elas aconteçam em seu devido tempo.\"
Senti um calafrio correr pelo meu corpo todo, mas ignorei-o. Estava frio, e como eu ainda estava de camisola, estava com roupa leve.
Peguei a calça jeans e a blusa branca que Alex me dera no dia anterior e fui para o banheiro me trocar. Deixaria para tomar banho depois de brincar.
Quando desci para o café da manhã, o avental estava flutuando na frente do fogão, então presumi que eles adivinharam o que eu faria: ovo mexido. Tomaria leite frio, como sempre.
Aquele dia seria um pouco cheio, pois eu teria de descer até o porão para pegar mais uma caixa de livros. O que eu começara no dia anterior era o último da segunda caixa de livros que eu abri, então eu tinha que pegar novos. Seria difícil para eles também, pois apesar de serem muitos, não creio que todos eles estejam sempre a disposição.
Ao terminar meu café da manhã, eles disseram para que eu aproveitasse para varrer o porão enquanto eles lavavam a louça, que assim que eles terminassem, me ajudariam a remover a caixa de lá de baixo, trazendo-a para cima.
Obediente, desci até o porão com a vassoura e comecei a varrer. O porão estava extremamente sujo, e cheguei até a espanar a caixa que eu ia pegar para ter certeza de que era realmente a caixa de livros. Naquele mês todo que fiquei sozinha, não limpei o porão uma vez sequer. Se aparecessem ratos e baratas lá eu nem poderia reclamar. A culpa era minha mesmo.
Quando finalmente terminei de espanar a caixa e coloquei os últimos grãos de poeira no lixo, senti a presença de vários deles.
\"Chegou a hora, gente. Vamos.\"
Eu então parei para olhar maravilhada o trabalho deles. A caixa começou a flutuar com elegância e naturalidade e em poucos momentos, estava fora do porão, no chão da sala principal (a entrada para o porão era um alçapão escondido debaixo do tapete da sala principal).
— Puxa vida, vocês são fortes... — comentei maravilhada. — Muito obrigada. Podemos deixar aqui mesmo. Qualquer coisa é só eu vir aqui e pegar um livro. Vocês fizeram um ótimo trabalho. Agora eu vou lá usar o balanço um pouquinho, tudo bem? — me virei e saí correndo para fora de casa, para o jardim.
O dia estava com um sol forte, mas tinha várias nuvens, e o vento úmido e gelado que eu tanto amava. Estava um dia quase perfeito. Só faltava algumas flores no jardim, e algumas macieiras cheias de maçãs maduras. Ia ser um cenário perfeito para mim.
Respirei fundo o ar geladinho que batia quando me balançava, ficando serena, sentindo cada célula do meu corpo se acalmar e relaxar. Era uma sensação tão renovadora... Poderia ficar daquele jeito para sempre. Mas ao meio dia, escutei:
— Marie, sou eu, Alex. Você está aí?
Parei o balanço arrastando o pé no chão antes de responder:
— Sim, estou aqui. Você veio almoçar aqui hoje?
— É... Bem, vim. Minha mãe mandou eu dar uma volta antes da gente sair, então aproveitei para passar aqui. Vou ter que voltar lá pelas duas e meia. Tudo bem se eu só ficar aqui duas horas e meia?
— Tudo. Entra que eu vou preparar o almoço.
Saí do balanço enquanto ele pulava pelo muro. Guiei ele novamente até a cozinha, coloquei o avental e comecei a pegar alguns ingredientes.
— Ei, você está usando a roupa que eu te dei! Legal! — ele se animou, ficando feliz.
— É. Eu gostei muito dela. É diferente das roupas que eu estou acostumada, mas combinou melhor comigo. A propósito, o que você quer almoçar?
— Qualquer coisa que você fizer está de bom tamanho.
— Pode ser bife e arroz?
— Pode.
— Então tá.
Enquanto eu pegava as coisas, perguntei:
— Por que você vai ter que voltar mais cedo hoje, Alex?
— Porque hoje é meu aniversário e minha mãe quer comemorar saindo pra algum lugar.
Deixei a panela escorregar de minhas mãos com o susto.
— Hoje você faz dezesseis anos?! — expressei meu espanto nesta simples frase.
Ele pareceu também surpreso com a minha reação, pois falou:
— É... Eu não tinha te contado?
— Não... — dei um sorrisinho, achando graça.
— Xii, foi mal. Juro que não foi minha intenção chegar sem avisar nada. Jurava que já tinha te falado. Ah, mas se tivesse falado, você também teria me contado o seu, não é mesmo?
— É. O meu é daqui a... — contei mentalmente. — Dois meses e três dias.
— Até que está consideravelmente perto — ele sorriu.
— É mesmo... — comentei, meio distraída. Já estava fazendo a comida.
Um silêncio mortal se instalou na cozinha durante todo o tempo em que eu fiquei cozinhando. Quando finalmente servi a mesa, decidi quebrar o silêncio falando qualquer coisa:
— Toma cuidado que está quente.
— Sim, mamãe — ele brincou.
Comecei a cortar meu bife enquanto falava:
— Então... O que você vai ganhar de presente?
— Eu pedi um iPod da minha mãe, mas não tenho certeza se ela vai me dar. Os iPods são coisas muito caras.
\"Um iPod? Que diabos é isso?\" — pensei, intrigada. Ele aparentemente notou, pois explicou:
— Os iPods são aparelhos eletrônicos onde nós podemos colocar música para escutar. Se eu ganhar hoje, amanhã eu trago para você ver.
— Tudo bem — concordei alegremente, já colocando uma garfada de comida na boca.
Ambos comemos rapidamente para podermos aproveitar bem os momentos que teríamos naquela tarde, já que ela seria curta.
Brincamos de pique pega, ele me balançou no balanço, eu li alguns trechos da história para ele e, quando parei, ele disse:
— Quase ia esquecendo! Minha irmã adora esse tipo de coisa romântica melosa que eu te falei ontem, então peguei um livro dela emprestado para você. É de uma tal de Meg Cabot. Nunca li nenhum livro, mas as garotas leem muito os livros dela. Talvez você goste.
Olhei para o livro, fascinada. A capa era bem diferente da dos livros maltratados pelo tempo da minha mãe. As páginas estavam em um estado quase impecável, enquanto as dos livros de minha mãe estavam amareladas, algumas manchadas e até com alguns rasgos. Mesmo sendo cuidadosa, eu quase rasgara várias folhas, tamanha era a fragilidade da estrutura da folha.
— Ele está em ótimo estado... — comentei com ele.
— Minha irmã cuida dos livros como se fossem seus próprios filhos. Eu disse a ela que você era uma das garotas mais cuidadosas que eu já vi, e só aí que ela me deixou pegar o livro. Prometi a ela que se o livro chegasse com o menor dos amassados, eu compraria um novo para ela, então cuide dele como se fosse sua vida.
— Claro — sorri para ele. Por reflexo, olhei para o relógio e desanimei. — Que pena, são duas e meia.
Ele olhou para o relógio sobressaltado e disse:
— Droga, tenho que ir. Bem, então a gente se vê amanhã.
— Tudo bem. Amanhã vou fazer um bolo para comemorar seu aniversário, tá?
Vi ele corar um pouco enquanto corria para o muro antes de responder:
— Não precisa...
Depois, subiu o muro e pulou para o outro lado.
\"Precisa sim.\" — pensei comigo mesma, teimosa.
Subi para o quarto e dediquei o resto da tarde a devorar aquele livro do século XXI que ele trouxera, tanto que esqueci de lanchar e de tomar o chá das cinco. Era muito diferente dos livros que eu havia lido. A narrativa, a linguagem, o cenário e a personalidade dos personagens era bem diferente. O estilo de escrever também. Era bem peculiar, mas prendeu minha atenção de um jeito que eu não conseguia parar de ver. Fui dar por mim quando começou a escurecer, lá para as cinco da tarde, quase seis.
Desci para fazer o jantar, deixando as vinte últimas páginas para antes de dormir.
O legal de ter terminado a história antes de dormir foi que eu sonhei com a história do livro. Foi um pouco diferente, e os personagens não eram os mesmos do livro, mas era basicamente a mesma história. Também sonhei com o bolo perfeito para comemorar o aniversário de Alex. Ele teria o bolo que merecia. E quem o faria? Eu.
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