Gabriel permaneceu em silêncio por tempo suficiente para Ana acreditar que ele havia entendido.

Ela não esperava consolo. Não sabia o que faria se ele tentasse abraçá-la, e não confiava no próprio corpo perto dele depois do que acontecera na Fazenda Belmonte. Mas esperava alguma coisa que reconhecesse o que acabara de dizer.

Talvez apenas presença.

Gabriel olhou para a horta recém-plantada. Depois para o telhado remendado da casa, para o galpão inclinado e para a bomba junto à parede dos fundos.

Quando voltou a encará-la, havia uma decisão em seu rosto.

— Você não precisa continuar fazendo isso.

Ana franziu a testa.

— Fazendo o quê?

— Carregando a Formosa sozinha.

Por um momento, a frase pareceu cuidado.

Ana sentiu os ombros relaxarem um pouco.

— Seu Cícero ajuda.

— Seu Cícero faz o que pode. Não é a mesma coisa.

— Eu sei.

Gabriel olhou para a terra nas mãos dela.

— Esta fazenda vai exigir dinheiro por muito tempo antes de devolver alguma coisa. A feira foi boa, mas não muda a estrutura. Você precisa recuperar a horta, reformar a cozinha, regularizar a produção, consertar os galpões, substituir equipamento e renegociar dívidas que já estavam atrasadas antes de você chegar.

Ana o observou.

A sensação de alívio começou a diminuir.

— Eu sei o que a fazenda precisa.

— Sabe uma parte.

— Você veio explicar os contratos ou repetir a lista dos meus problemas?

Gabriel passou a língua pelo interior da bochecha, contendo uma resposta.

— Vim porque não queria que você pensasse que estava sozinha diante disso.

A frase poderia ter sido bonita.

Quase foi.

— E o que isso significa? — perguntou Ana.

Gabriel desviou os olhos para a caminhonete estacionada perto da casa.

Aquele pequeno movimento bastou para despertar a desconfiança.

— Gabriel.

Ele respirou fundo.

— Tem uma coisa no carro.

Ana sentiu o peito apertar.

— Que coisa?

— Uma proposta.

O barulho dos insetos pareceu aumentar ao redor deles.

Ana ficou olhando para ele.

— Proposta de quê?

Gabriel não respondeu imediatamente, e o silêncio tornou a pergunta desnecessária.

— Pela Formosa — disse Ana.

— Sim.

A palavra caiu entre os canteiros recém-plantados.

Durante alguns segundos, Ana não conseguiu ligá-la ao homem que acabara de limpar a terra das mãos dela, corrigir suas mudas e dizer que não queria que ela acreditasse estar sendo enganada.

— Você trouxe uma proposta de compra — repetiu Ana.

— Eu não pretendia começar por ela.

— Mas trouxe.

— Trouxe.

Ana soltou uma risada curta, sem humor.

— Você realmente veio preparado para todas as possibilidades.

— Não é isso.

— Não?

Ela apontou para a casa.

— Você chega dizendo que não está fugindo. Ajuda na horta, suja as mãos, promete contar a verdade e espera eu admitir que estou cansada. Aí revela que tem um preço.

— Eu não estava esperando você dizer isso.

— Mas estava pronto.

Gabriel sustentou o olhar dela.

— A proposta já existia.

— Desde quando?

— Antes da feira.

A resposta a atingiu com precisão.

Ana recuou um passo.

— Antes da feira.

— Era uma primeira versão.

— Quantas versões existem?

— Duas.

Ela riu outra vez.

— Claro. Porque uma proposta de compra também precisa de revisão.

— Depois que vi as dívidas e os reparos necessários, aumentei o valor.

A risada morreu.

Ana olhou para Gabriel, tentando descobrir como ele conseguia não perceber o que havia de errado naquilo.

— Você analisou o tamanho do meu desespero e reajustou o preço.

— Analisei o passivo da fazenda.

— É a mesma coisa com linguagem de contrato.

— Não, Ana.

Gabriel deu um passo em sua direção.

— Você acabou de dizer que não sabe se consegue continuar. Existe uma saída que quita as dívidas, garante dinheiro para você recomeçar e impede que a Formosa seja tomada aos pedaços por credores.

— E coloca a terra inteira nas suas mãos.

— Sim.

A honestidade veio rápida demais.

Ana sentiu a anotação de Augusto voltar à memória.

Gabriel é persuasivo demais quando sabe que a pessoa está sem saída.

Ela olhou para as mudas que os dois haviam acabado de colocar na terra.

— Foi por isso que você me ajudou?

Gabriel franziu a testa.

— Na horta?

— Em tudo.

A voz de Ana se tornou mais firme à medida que as peças se alinhavam.

— Na agropecuária, quando Arlindo não quis vender. No Sicoob, quando meu crédito foi negado. Na bomba, nos contratos, na feira. Você sempre estava perto, sempre sabia o que faltava, sempre oferecia exatamente o suficiente para eu continuar.

— Porque você precisava.

— E porque queria a fazenda viva até conseguir comprá-la? Ou queria que eu simpatizasse com você?

— Não.

A resposta saiu firme.

Ana esperou o complemento.

Gabriel respirou fundo.

— Eu queria impedir que você cometesse os mesmos erros de Augusto.

— Para que eu vendesse em condições melhores?

— Para que você tivesse escolha.

— A escolha entre continuar afundando ou vender para você.

— Há outras escolhas.

— Quais?

Ele ficou em silêncio.

Ana assentiu lentamente.

— Foi o que pensei.

— Não coloque palavras na minha boca.

— Você não coloca nenhuma. Esse é o problema.

Gabriel passou a mão pelos cabelos, espalhando ainda mais a terra na têmpora.

— A Formosa precisa de capital que você não tem. Mesmo que aumente a produção, a margem atual não sustenta os investimentos. Você pode conseguir, mas vai levar anos, e não há garantia de que as dívidas esperem.

— Então você resolveu me salvar.

— Eu resolvi fazer uma proposta justa.

— Você realmente não ouve a si mesmo.

Ana saiu da horta, atravessando o pequeno portão. Gabriel a acompanhou.

— Leia antes de decidir.

— Não preciso ler.

— Precisa, sim. O valor cobre as dívidas, os impostos, os custos de transferência e ainda deixa uma reserva suficiente para você não precisar voltar imediatamente ao mercado de trabalho.

Ana parou.

— Você calculou até quanto tempo eu posso ficar sem emprego.

— Calculei uma margem de segurança.

— Para mim.

— Sim.

— Sem perguntar o que eu quero.

Gabriel perdeu parte da paciência.

— Você acabou de dizer que está exausta, que não sabe se consegue continuar e que esta fazenda está consumindo você. O que eu deveria entender?

— Que eu estava cansada!

A voz dela saiu alta, mas não chegou ao grito.

— Eu que estou cansada, você não sabe o que eu passei hoje. E você ouviu “ela quer vender a fazenda”.

Gabriel ficou imóvel.

Pela primeira vez, pareceu perceber a distância entre o que Ana dissera e o que ele entendera.

— Eu achei que…

— Eu sei o que você achou.

A voz de Ana baixou.

— Achou que meu cansaço era uma oportunidade.

— Não.

— Então por que trouxe a proposta?

— Porque eu sabia que esta conversa aconteceria.

— A conversa sobre comprar a Formosa ou sobre você finalmente contar a verdade?

Gabriel não respondeu rápido.

O silêncio abriu um espaço entre eles.

Ana sentiu algo dentro do peito endurecer.

— Era isso desde o começo?

— Não.

— Qual parte?

Gabriel apertou o maxilar.

— Querer a Formosa não significa que tudo o que fiz foi para comprá-la.

— Mas você queria desde antes de eu chegar.

— Sim.

— E acreditava que eu acabaria desistindo.

Ele demorou um instante.

— Acreditava.

Ana sentiu a resposta como um golpe, embora já a conhecesse.

— Então você ajudou enquanto esperava.

— Ajudei porque precisava de ajuda.

— E esperou que eu percebesse que não era capaz.

— Não foi isso.

— Qual era o plano, Gabriel? Manter a bomba funcionando, impedir que eu fizesse uma dívida pior, me ensinar a vender e esperar até que eu estivesse cansada o bastante para aceitar?

— Não havia um plano desse jeito.

— Mas havia uma proposta.

— Havia.

— Duas versões.

Gabriel fechou os olhos por um instante.

— Ana…

— Não.

Ela levantou a mão.

— Não use meu nome como se fosse diminuir o que está acontecendo.

Ele permaneceu em silêncio.

Ana olhou para a caminhonete.

— Vai buscar.

Gabriel franziu a testa.

— A proposta.

— Você disse que não queria ler.

— Não quero. Mas quero ver.

Gabriel hesitou antes de caminhar até o veículo. Ana permaneceu perto da horta, sentindo a terra secar em suas mãos e a exaustão transformar-se em algo mais frio.

Ele voltou com um envelope pardo.

Não era grosso. Ainda assim, parecia conter todo o peso da propriedade.

Gabriel estendeu o documento.

Ana pegou.

O nome da Fazenda Formosa aparecia na primeira página, seguido pelo valor. Era alto. Mais alto do que qualquer quantia que ela já tivera de decidir sozinha.

O suficiente para pagar as dívidas.

Consertar a vida.

Comprar distância.

Ana virou a página. Gabriel havia incluído um prazo longo para que ela deixasse a casa, assumiria custos de transferência e manteria Seu Cícero empregado, caso ele quisesse.

Tudo calculado.

Até as pessoas.

Ana começou a rir.

Gabriel a observou, desconfortável.

— O que foi?

Ela fechou os documentos.

— Você realmente acha que dinheiro resolve tudo.

— Não tudo.

Gabriel apontou para o envelope.

— Resolve dívida.

A risada desapareceu.

Ana levantou os olhos.

— Não resolve o que você quebrou para criar a dívida.

A frase atingiu Gabriel.

Ele ficou completamente imóvel, e alguma coisa escura atravessou sua expressão antes que conseguisse escondê-la.

Ana percebeu.

— O que foi?

— Você não sabe do que está falando.

— Então explique.

Gabriel desviou os olhos para a casa, como se procurasse tempo nas janelas antigas.

— Eu disse que vou explicar.

— Quando?

— Quando nós dois estivermos em condições de ter essa conversa.

Ana apertou o envelope entre os dedos.

— Ontem eu estava com raiva. Hoje estou cansada. Amanhã você encontra outro motivo.

— Não estou tentando fugir.

— Está adiando.

— Porque existe mais coisa do que você encontrou.

O coração de Ana bateu mais forte.

— Que coisa?

Gabriel olhou para ela.

Havia arrependimento em seu rosto, mas também cálculo. Não o cálculo frio de alguém escolhendo uma mentira. O cálculo de quem media quanto da verdade podia suportar dizer sem perder tudo.

— Gabriel — chamou Ana. — O que você fez?

Ele não respondeu.

O silêncio foi pequeno.

Bastou.

Ana olhou para a proposta, depois para as mãos dele ainda sujas com a terra da Formosa.

Poucos minutos antes, ela acreditara que aquele gesto significava alguma coisa.

Talvez significasse.

Com Gabriel, esse era sempre o problema.

Nada era inteiramente falso.

Nada vinha sem outra intenção misturada.

Ana estendeu o envelope de volta.

Gabriel não pegou.

— Fique com ele.

— Eu não quero.

— Leia quando estiver mais calma.

— Pare de decidir quando eu estou pronta.

— Não estou decidindo.

— Faz isso o tempo inteiro.

Ana soltou os documentos. Gabriel precisou segurá-los antes que caíssem na terra.

— Você identifica o ponto fraco, oferece uma saída e chama isso de escolha.

A expressão dele se fechou.

— Eu não forcei Augusto a assinar nada.

— Eu não falei dele.

Gabriel compreendeu.

A lembrança do beijo surgiu entre os dois.

Ana viu no modo como os olhos dele mudaram.

— Você acha que fiz isso com você — disse Gabriel.

— Ainda não sei o que pensar.

— O beijo não teve relação com a proposta.

— Mas teve relação com as perguntas.

— Eu já admiti que errei.

— Admitir depois não devolve a escolha que você alterou no momento.

Gabriel apertou o envelope.

— Você me beijou de volta.

A frase saiu mais dura do que ele pretendia.

Ana sentiu o impacto, mas não recuou.

— Eu sei.

A resposta pareceu desarmá-lo.

— Eu quis aquele beijo — continuou Ana. — É justamente por isso que você conseguiu me distrair.

Gabriel abriu a boca, mas ela não permitiu.

— E agora fez a mesma coisa de outro jeito. Eu disse que estava cansada e, por um minuto, acreditei que você tinha vindo porque se importava.

— Eu vim porque me importo.

Ana olhou para o envelope nas mãos dele.

— As duas coisas não se anulam, não é?

Gabriel permaneceu em silêncio.

Era uma frase dele. Uma lógica que usava para manter intenções contraditórias dentro da mesma verdade.

Ana sentiu a garganta apertar.

— Você veio me ver e veio comprar a fazenda. Você me ajudou e esperou que eu vendesse. Você me beijou porque queria e deixou o beijo calar a conversa porque era conveniente.

— Ana…

— Todas as coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. Eu entendi.

Ela recuou um passo.

Gabriel tentou se aproximar.

— Não.

A palavra o fez parar.

Ana apontou para a caminhonete.

— Vá embora.

— Nós precisamos terminar essa conversa.

— Não hoje.

— Você acabou de me acusar de adiar.

— Estou adiando — respondeu Ana. — Não fingindo que não estou.

Gabriel a encarou.

O envelope continuava entre os dedos dele, agora manchado nas bordas pela terra de suas mãos.

— Eu vou contar tudo — disse Gabriel.

— Você já prometeu.

— E vou cumprir.

Ana olhou para ele, para a proposta e para o canteiro que haviam plantado juntos.

— Espero que cumpra antes de aparecer com uma terceira versão do preço.

Gabriel recebeu a frase sem reagir.

Por alguns segundos, nenhum dos dois se moveu.

Depois ele guardou o envelope debaixo do braço e caminhou até a caminhonete.

Ana permaneceu junto à horta.

Antes de entrar no veículo, Gabriel se virou.

— O que eu fiz hoje não apaga o que senti ontem.

Ana sustentou o olhar dele.

— Não. Só faz eu me perguntar o que mais estava sentindo junto.

Gabriel não encontrou resposta.

Entrou na caminhonete e partiu.

Ana esperou até o motor desaparecer na estrada. Só então voltou ao canteiro.

As mudas permaneciam alinhadas no sulco que ele corrigira. Pequenas, frágeis e impossíveis de separar entre a parte que ela plantara e a parte que Gabriel ajudara a fazer sobreviver.

Ana pegou a enxada.

Por um instante, pensou em arrancar tudo e começar novamente.

Não fez isso.

A culpa não era das plantas.