Margem do Formosa
34 Dia seguinte
Ana acordou antes do despertador, embora não pudesse dizer que havia dormido.
Permaneceu alguns minutos deitada, olhando para o teto do quarto enquanto a claridade avançava lentamente pelas frestas da cortina. O álbum de fotografias ainda estava sobre a cômoda, fechado, com a capa marrom voltada para ela. A simples presença do objeto parecia exigir alguma coisa que Ana não tinha condições de oferecer.
Do outro lado da casa, Seu Cícero abriu uma porta. Depois vieram o arrastar de uma cadeira na cozinha, o som da chaleira sobre o fogão e as galinhas começando uma discussão que, pela intensidade, parecia envolver terras, herança e traição.
A fazenda havia acordado.
Aquilo lhe pareceu profundamente injusto.
Depois da visita de Rafael, do álbum, da pergunta que fizera sobre Augusto e da proposta que Gabriel trouxera debaixo do braço, alguma parte infantil de Ana esperava que o mundo tivesse a decência de parar. Que a horta suspendesse o crescimento, os animais desistissem da fome e as dívidas concordassem em não vencer até que ela decidisse o que sentir.
ada disso aconteceu.
Ana se levantou.
Não olhou novamente para o álbum. Também não pegou o celular para verificar se Rafael havia escrito ou se Gabriel tentara explicar alguma coisa depois de ir embora. Levou o aparelho para a cozinha e o deixou virado para baixo sobre a mesa, como se aquela posição fosse suficiente para impedir que qualquer homem entrasse em seu dia.
Seu Cícero colocou uma caneca de café diante dela.
— Dormiu?
Ana puxou a cadeira e abriu o notebook.
— O suficiente.
Seu Cícero permaneceu de pé, esperando.
— Então não dormiu — concluiu ele.
— Dormir está com prioridade baixa hoje.
— Pra quem não dormiu, devia estar alta.
Ana abriu a planilha com os resultados da primeira feira.
— A prioridade é a próxima feira.
Seu Cícero observou o rosto dela, mas não insistiu. Pegou a própria caneca e sentou-se do outro lado da mesa.
Ana conferiu novamente os números, embora já os conhecesse. Receita bruta, ingredientes, embalagens, gás, transporte, taxa da banca e horas de trabalho. A margem continuava pequena. A proposta de Gabriel seria capaz de apagar todas aquelas linhas de uma vez, mas Ana se recusou a pensar nisso.
Em vez disso, abriu uma nova página.
No alto, escreveu:
Critérios de investimento — Fazenda Formosa.
Abaixo, digitou:
1. Baixo custo inicial.
2. Produção ou retorno rápido.
3. Aproveitamento do que já existe.
Seu Cícero inclinou a cabeça para enxergar a tela.
— Isso é plano pra quê?
— Para não gastarmos dinheiro consertando coisas que não vão gerar dinheiro de volta.
— O trator precisa de conserto.
— O trator está fora.
— O galpão também precisa.
— Fora.
— A cerca perto do rio…
Ana levantou os olhos.
— A gente não vai reformar uma fazenda inteira com o dinheiro de nove potes de geleia.
— Eram nove antes de abrir o de provar.
— Obrigada pela precisão.
Seu Cícero tomou um gole de café.
— Seu Augusto começava pelo que tava mais quebrado.
— E tudo está quebrado.
— É.
— Então esse critério não serve.
Ana puxou o caderno da feira e começou a listar os produtos vendidos. A geleia tivera a melhor margem. O bolo atraíra pessoas e ajudara a vender o doce. Os ovos tinham saída estável, embora pouca capacidade de crescimento imediato. As hortaliças variavam mais, mas permitiam combinações e traziam fregueses que procuravam itens para o almoço.
Ao lado de cada produto, ela anotou custo, tempo de preparo, validade aproximada e quantidade disponível.
Seu Cícero acompanhou em silêncio até Ana escrever rabanete.
— Você vai plantar rabanete?
— Cresce rápido, ocupa pouco espaço e dá para vender em maço.
— O povo daqui não compra muito.
— Porque quase ninguém leva para a feira.
— Ou quase ninguém leva porque o povo não compra.
Ana parou de digitar.
— Esse tipo de circularidade argumentativa não ajuda.
— Ainda acho que tomate vende mais.
— Tomate demora, exige cuidado, estraga depressa e qualquer chuva errada destrói metade.
— Mas todo mundo compra tomate.
Ana virou o notebook um pouco na direção dele.
— Todo mundo também perde tomate. Primeiro eu quero produto que cresça rápido, estrague menos e não exija que a gente venda a alma junto.
Seu Cícero passou a mão pelo queixo.
— Sua alma vale quanto?
— Hoje, pouco. Mas não quero reduzir mais a margem.
Ele escondeu um sorriso dentro da caneca.
Ana voltou à lista. Cebolinha, salsa, alface e rabanete entraram como prioridade. Cenoura permaneceria, mas seria plantada apenas na área já preparada. Tomate, pimentão e qualquer cultura que exigisse estrutura maior ficariam para depois.
No pomar, as goiabas continuavam disponíveis. Nem todas eram bonitas o suficiente para venda direta, mas isso deixava de ser um problema quando viravam doce. Ana acrescentou compota ao lado de geleia.
— Dona Lurdes fazia compota? — perguntou ela.
— Fazia.
— Tem receita?
— Deve ter no caderno.
— Quanto tempo dura?
— Bastante.
Ana fechou os olhos por um instante.
— “Bastante” não é unidade de medida.
— Pra doce, quase sempre é.
Ela acrescentou uma observação para pesquisar conservação e rendimento. Não tinha dinheiro para testar dez receitas, mas podia separar um lote pequeno e comparar custo, tempo e aceitação.
Depois passou para o milho.
— O bolo vendeu bem — disse Ana. — Mas esperar a forma esfriar atrasa tudo.
— Só tem duas.
— Precisamos de mais duas.
— Panela também.
— Uma panela grande primeiro. Forma é mais barata, então talvez consigamos as duas coisas.
Ana abriu a página de despesas e criou uma ordem de compra.
Potes e tampas vinham antes de qualquer equipamento. Sem embalagem, não havia produto vendável. Em seguida, uma panela maior, porque permitiria preparar outro lote de geleia sem esperar que a primeira fosse lavada e liberada. Depois, formas de bolo. Caixas de madeira e uma pequena prateleira para a banca entravam antes de uma barraca nova.
Seu Cícero apontou para a lista.
— A barraca de Marinalva é bonita.
— E cara.
— Protege do sol.
— Podemos usar uma lona por enquanto.
— Não vai ficar tão bonita.
— Bonito é a fase dois. Na fase um, precisamos parar de perder dinheiro.
Ela olhou pela janela para a varanda descascada, o telhado remendado e a garagem onde o trator continuava coberto pela lona rasgada. A vontade de consertar tudo ainda existia. Cada estrutura quebrada parecia acusá-la de negligência, mas Ana começava a compreender que urgência visual não era a mesma coisa que prioridade financeira.
O trator impressionava mais do que uma caixa de tampas.
As tampas, porém, permitiam vender.
— Nada de reforma grande — decidiu Ana. — Nada de equipamento caro. Tudo que comprarmos precisa liberar produção ou evitar perda.
Seu Cícero olhou para o corredor que levava ao escritório de Augusto.
— Seu tio não gostava de fazer pequeno.
— Meu tio deixou um trator morto, três contratos ruins Talvez o problema fosse justamente esse.
A frase saiu mais dura do que Ana pretendia.
Seu Cícero baixou os olhos para a caneca.
Ela sentiu o arrependimento surgir, mas não pediu desculpas. Não porque achasse que ele não merecia, e sim porque qualquer menção a Augusto ameaçava abrir novamente o lugar que ela estava tentando manter fechado.
Ana voltou à tela.
— Variedade não significa comprar mais coisa — disse, mudando de assunto. — Significa usar a mesma matéria-prima de mais de um jeito.
Ela abriu uma tabela nova e começou a organizar os ingredientes.
Goiaba: geleia, compota e amostra para acompanhamento do bolo.
Milho: bolo, broa e, se sobrasse quantidade suficiente, curau em porções pequenas.
Ovos: venda direta, bolo e broa.
Cenoura: venda por unidade, kit para sopa e, mais adiante, conserva.
Cheiro-verde: maço individual, combinação com ovos e kit para sopa.
Seu Cícero aproximou a cadeira.
— Vai fazer broa?
— O senhor sabe fazer?
— Sua tia Lurdes sabia.
— Isso não responde.
— Ajudei algumas vezes.
Ana ergueu uma sobrancelha.
— Ajudou ou ficou perto do fogão dando opinião?
— Mexi a massa.
— Então vamos testar.
— Hoje?
— Hoje.
Seu Cícero olhou para o relógio da parede.
— Ainda nem deu sete.
— Melhor. Temos o dia inteiro.
Ele tornou a olhar para ela, agora com mais atenção.
— Não precisa fazer tudo hoje, pinguinha.
Ana começou a organizar as tarefas em blocos.
— Preciso descobrir o que funciona antes da próxima feira.
— Dá pra descobrir amanhã.
— Amanhã eu testo outra coisa.
— E quando você descansa?
— Quando a fazenda der lucro.
Seu Cícero não sorriu.
Ana percebeu, mas continuou digitando.
Trabalho era simples. Trabalho tinha começo, sequência e resultado. Mesmo quando falhava, deixava um motivo que podia ser medido, corrigido ou evitado no lote seguinte.
Rafael não era assim.
Augusto não era assim.
Gabriel muito menos.
Ana aumentou a largura de uma coluna.
— Primeiro vamos medir os canteiros que ainda servem. Depois separamos as sementes. Quero estimar quanto cada área consegue produzir sem recuperar o resto da horta.
— A terra não lê estimativa.
— Eu sei. Mas eu leio.
— Tem coisa que só aparece depois que planta.
— Então registramos depois que aparecer.
Seu Cícero levantou-se devagar.
— Vou buscar a trena.
Ana finalmente tomou um gole do café. Estava frio.
Quando Seu Cícero retornou, os dois foram para a horta. Mediram apenas os canteiros menores, próximos à casa, onde a terra já havia sido revolvida e seria mais fácil levar água. Ana recusou a ideia de ampliar a área antes de conseguir aproveitar aquela.
Depois passaram pelo depósito.
Ela encontrou potes que ainda podiam ser usados, três caixas de papelão firmes, barbantes, sacos de papel e duas formas pequenas escondidas atrás de uma panela sem alça. Tudo foi para a cozinha.
No fim da manhã, a mesa estava coberta de objetos separados em três grupos:
Usar.
Consertar.
Comprar.
Seu Cícero deixou um funil amassado no segundo grupo.
Ana passou para o terceiro.
— Dá para desamassar — protestou ele.
— Dá para espalhar geleia pela cozinha enquanto tentamos.
Ele devolveu ao segundo.
Ana tornou a colocar no terceiro.
Seu Cícero esperou que ela se virasse e devolveu novamente.
Quando Ana percebeu, decidiu não discutir. Escreveu funil na lista de compras e deixou o antigo onde estava. Se ele conseguisse fazê-lo funcionar sem transformar o fogão em cena de acidente, seria economia.
Ao longo do dia, Ana se manteve em movimento.
Separou as melhores goiabas. Pesou açúcar. Conferiu sementes. Calculou quantos potes conseguiria comprar com o dinheiro reservado. Pesquisou preços de panelas usadas. Mandou mensagem para Bia perguntando se a padaria tinha formas antigas que pretendia vender.
Não abriu a conversa com Rafael.
Também não abriu a de Gabriel.
Sempre que o pensamento ameaçava voltar ao mapa, ao beijo ou à proposta, Ana criava outra tarefa.
No meio da tarde, Seu Cícero encontrou uma folha presa à parede da cozinha.
Próximo ciclo — prioridade
Repor embalagens.
Aumentar geleia sem aumentar horas.
Testar broa e compota.
Recuperar dois canteiros.
Plantar produtos de giro rápido.
Melhorar apresentação usando o que já existe.
Ele leu até o fim.
— Isso tudo cabe até a feira?
Ana apareceu atrás dele com uma caixa de potes vazios.
— Vai ter que caber.
Seu Cícero voltou-se para ela.
— Você está fugindo de quê?
A pergunta veio tranquila.
Ana quase deixou a caixa cair.
— Não estou fugindo.
— Tá correndo bastante pra quem ficou no mesmo lugar.
Ela apoiou a caixa sobre a mesa.
— Eu preciso trabalhar.
— Precisa.
— Então qual é o problema?
Seu Cícero passou a mão pela nuca.
— Nenhum. Desde que saiba que trabalhar não faz o resto desaparecer.
Ana olhou para o celular virado para baixo.
— Hoje faz.
Ele percebeu que não receberia outra resposta.
Pegou a trena e saiu para medir uma prateleira no depósito.
Ana ficou sozinha na cozinha.
Por alguns segundos, ouviu apenas o tique-taque do relógio e o ruído distante das galinhas. A exaustão pesava sobre seus ombros, mas agora tinha uma lista na parede, produtos possíveis e uma ordem de investimento.
Era pouco.
Era concreto.
Ana abriu o notebook novamente.
O dia seguinte continuaria existindo, com ou sem a permissão dela.
Então ela pretendia chegar antes.
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