Margem do Formosa
33 Uma saída
Gabriel permaneceu em silêncio por tempo suficiente para Ana acreditar que ele havia entendido.
Ela não esperava consolo. Não sabia o que faria se ele tentasse abraçá-la, e não confiava no próprio corpo perto dele depois do que acontecera na Fazenda Belmonte. Mas esperava alguma coisa que reconhecesse o que acabara de dizer.
Talvez apenas presença.
Gabriel olhou para a horta recém-plantada. Depois para o telhado remendado da casa, para o galpão inclinado e para a bomba junto à parede dos fundos.
Quando voltou a encará-la, havia uma decisão em seu rosto.
— Você não precisa continuar fazendo isso.
Ana franziu a testa.
— Fazendo o quê?
— Carregando a Formosa sozinha.
Por um momento, a frase pareceu cuidado.
Ana sentiu os ombros relaxarem um pouco.
— Seu Cícero ajuda.
— Seu Cícero faz o que pode. Não é a mesma coisa.
— Eu sei.
Gabriel olhou para a terra nas mãos dela.
— Esta fazenda vai exigir dinheiro por muito tempo antes de devolver alguma coisa. A feira foi boa, mas não muda a estrutura. Você precisa recuperar a horta, reformar a cozinha, regularizar a produção, consertar os galpões, substituir equipamento e renegociar dívidas que já estavam atrasadas antes de você chegar.
Ana o observou.
A sensação de alívio começou a diminuir.
— Eu sei o que a fazenda precisa.
— Sabe uma parte.
— Você veio explicar os contratos ou repetir a lista dos meus problemas?
Gabriel passou a língua pelo interior da bochecha, contendo uma resposta.
— Vim porque não queria que você pensasse que estava sozinha diante disso.
A frase poderia ter sido bonita.
Quase foi.
— E o que isso significa? — perguntou Ana.
Gabriel desviou os olhos para a caminhonete estacionada perto da casa.
Aquele pequeno movimento bastou para despertar a desconfiança.
— Gabriel.
Ele respirou fundo.
— Tem uma coisa no carro.
Ana sentiu o peito apertar.
— Que coisa?
— Uma proposta.
O barulho dos insetos pareceu aumentar ao redor deles.
Ana ficou olhando para ele.
— Proposta de quê?
Gabriel não respondeu imediatamente, e o silêncio tornou a pergunta desnecessária.
— Pela Formosa — disse Ana.
— Sim.
A palavra caiu entre os canteiros recém-plantados.
Durante alguns segundos, Ana não conseguiu ligá-la ao homem que acabara de limpar a terra das mãos dela, corrigir suas mudas e dizer que não queria que ela acreditasse estar sendo enganada.
— Você trouxe uma proposta de compra — repetiu Ana.
— Eu não pretendia começar por ela.
— Mas trouxe.
— Trouxe.
Ana soltou uma risada curta, sem humor.
— Você realmente veio preparado para todas as possibilidades.
— Não é isso.
— Não?
Ela apontou para a casa.
— Você chega dizendo que não está fugindo. Ajuda na horta, suja as mãos, promete contar a verdade e espera eu admitir que estou cansada. Aí revela que tem um preço.
— Eu não estava esperando você dizer isso.
— Mas estava pronto.
Gabriel sustentou o olhar dela.
— A proposta já existia.
— Desde quando?
— Antes da feira.
A resposta a atingiu com precisão.
Ana recuou um passo.
— Antes da feira.
— Era uma primeira versão.
— Quantas versões existem?
— Duas.
Ela riu outra vez.
— Claro. Porque uma proposta de compra também precisa de revisão.
— Depois que vi as dívidas e os reparos necessários, aumentei o valor.
A risada morreu.
Ana olhou para Gabriel, tentando descobrir como ele conseguia não perceber o que havia de errado naquilo.
— Você analisou o tamanho do meu desespero e reajustou o preço.
— Analisei o passivo da fazenda.
— É a mesma coisa com linguagem de contrato.
— Não, Ana.
Gabriel deu um passo em sua direção.
— Você acabou de dizer que não sabe se consegue continuar. Existe uma saída que quita as dívidas, garante dinheiro para você recomeçar e impede que a Formosa seja tomada aos pedaços por credores.
— E coloca a terra inteira nas suas mãos.
— Sim.
A honestidade veio rápida demais.
Ana sentiu a anotação de Augusto voltar à memória.
Gabriel é persuasivo demais quando sabe que a pessoa está sem saída.
Ela olhou para as mudas que os dois haviam acabado de colocar na terra.
— Foi por isso que você me ajudou?
Gabriel franziu a testa.
— Na horta?
— Em tudo.
A voz de Ana se tornou mais firme à medida que as peças se alinhavam.
— Na agropecuária, quando Arlindo não quis vender. No Sicoob, quando meu crédito foi negado. Na bomba, nos contratos, na feira. Você sempre estava perto, sempre sabia o que faltava, sempre oferecia exatamente o suficiente para eu continuar.
— Porque você precisava.
— E porque queria a fazenda viva até conseguir comprá-la? Ou queria que eu simpatizasse com você?
— Não.
A resposta saiu firme.
Ana esperou o complemento.
Gabriel respirou fundo.
— Eu queria impedir que você cometesse os mesmos erros de Augusto.
— Para que eu vendesse em condições melhores?
— Para que você tivesse escolha.
— A escolha entre continuar afundando ou vender para você.
— Há outras escolhas.
— Quais?
Ele ficou em silêncio.
Ana assentiu lentamente.
— Foi o que pensei.
— Não coloque palavras na minha boca.
— Você não coloca nenhuma. Esse é o problema.
Gabriel passou a mão pelos cabelos, espalhando ainda mais a terra na têmpora.
— A Formosa precisa de capital que você não tem. Mesmo que aumente a produção, a margem atual não sustenta os investimentos. Você pode conseguir, mas vai levar anos, e não há garantia de que as dívidas esperem.
— Então você resolveu me salvar.
— Eu resolvi fazer uma proposta justa.
— Você realmente não ouve a si mesmo.
Ana saiu da horta, atravessando o pequeno portão. Gabriel a acompanhou.
— Leia antes de decidir.
— Não preciso ler.
— Precisa, sim. O valor cobre as dívidas, os impostos, os custos de transferência e ainda deixa uma reserva suficiente para você não precisar voltar imediatamente ao mercado de trabalho.
Ana parou.
— Você calculou até quanto tempo eu posso ficar sem emprego.
— Calculei uma margem de segurança.
— Para mim.
— Sim.
— Sem perguntar o que eu quero.
Gabriel perdeu parte da paciência.
— Você acabou de dizer que está exausta, que não sabe se consegue continuar e que esta fazenda está consumindo você. O que eu deveria entender?
— Que eu estava cansada!
A voz dela saiu alta, mas não chegou ao grito.
— Eu que estou cansada, você não sabe o que eu passei hoje. E você ouviu “ela quer vender a fazenda”.
Gabriel ficou imóvel.
Pela primeira vez, pareceu perceber a distância entre o que Ana dissera e o que ele entendera.
— Eu achei que…
— Eu sei o que você achou.
A voz de Ana baixou.
— Achou que meu cansaço era uma oportunidade.
— Não.
— Então por que trouxe a proposta?
— Porque eu sabia que esta conversa aconteceria.
— A conversa sobre comprar a Formosa ou sobre você finalmente contar a verdade?
Gabriel não respondeu rápido.
O silêncio abriu um espaço entre eles.
Ana sentiu algo dentro do peito endurecer.
— Era isso desde o começo?
— Não.
— Qual parte?
Gabriel apertou o maxilar.
— Querer a Formosa não significa que tudo o que fiz foi para comprá-la.
— Mas você queria desde antes de eu chegar.
— Sim.
— E acreditava que eu acabaria desistindo.
Ele demorou um instante.
— Acreditava.
Ana sentiu a resposta como um golpe, embora já a conhecesse.
— Então você ajudou enquanto esperava.
— Ajudei porque precisava de ajuda.
— E esperou que eu percebesse que não era capaz.
— Não foi isso.
— Qual era o plano, Gabriel? Manter a bomba funcionando, impedir que eu fizesse uma dívida pior, me ensinar a vender e esperar até que eu estivesse cansada o bastante para aceitar?
— Não havia um plano desse jeito.
— Mas havia uma proposta.
— Havia.
— Duas versões.
Gabriel fechou os olhos por um instante.
— Ana…
— Não.
Ela levantou a mão.
— Não use meu nome como se fosse diminuir o que está acontecendo.
Ele permaneceu em silêncio.
Ana olhou para a caminhonete.
— Vai buscar.
Gabriel franziu a testa.
— A proposta.
— Você disse que não queria ler.
— Não quero. Mas quero ver.
Gabriel hesitou antes de caminhar até o veículo. Ana permaneceu perto da horta, sentindo a terra secar em suas mãos e a exaustão transformar-se em algo mais frio.
Ele voltou com um envelope pardo.
Não era grosso. Ainda assim, parecia conter todo o peso da propriedade.
Gabriel estendeu o documento.
Ana pegou.
O nome da Fazenda Formosa aparecia na primeira página, seguido pelo valor. Era alto. Mais alto do que qualquer quantia que ela já tivera de decidir sozinha.
O suficiente para pagar as dívidas.
Consertar a vida.
Comprar distância.
Ana virou a página. Gabriel havia incluído um prazo longo para que ela deixasse a casa, assumiria custos de transferência e manteria Seu Cícero empregado, caso ele quisesse.
Tudo calculado.
Até as pessoas.
Ana começou a rir.
Gabriel a observou, desconfortável.
— O que foi?
Ela fechou os documentos.
— Você realmente acha que dinheiro resolve tudo.
— Não tudo.
Gabriel apontou para o envelope.
— Resolve dívida.
A risada desapareceu.
Ana levantou os olhos.
— Não resolve o que você quebrou para criar a dívida.
A frase atingiu Gabriel.
Ele ficou completamente imóvel, e alguma coisa escura atravessou sua expressão antes que conseguisse escondê-la.
Ana percebeu.
— O que foi?
— Você não sabe do que está falando.
— Então explique.
Gabriel desviou os olhos para a casa, como se procurasse tempo nas janelas antigas.
— Eu disse que vou explicar.
— Quando?
— Quando nós dois estivermos em condições de ter essa conversa.
Ana apertou o envelope entre os dedos.
— Ontem eu estava com raiva. Hoje estou cansada. Amanhã você encontra outro motivo.
— Não estou tentando fugir.
— Está adiando.
— Porque existe mais coisa do que você encontrou.
O coração de Ana bateu mais forte.
— Que coisa?
Gabriel olhou para ela.
Havia arrependimento em seu rosto, mas também cálculo. Não o cálculo frio de alguém escolhendo uma mentira. O cálculo de quem media quanto da verdade podia suportar dizer sem perder tudo.
— Gabriel — chamou Ana. — O que você fez?
Ele não respondeu.
O silêncio foi pequeno.
Bastou.
Ana olhou para a proposta, depois para as mãos dele ainda sujas com a terra da Formosa.
Poucos minutos antes, ela acreditara que aquele gesto significava alguma coisa.
Talvez significasse.
Com Gabriel, esse era sempre o problema.
Nada era inteiramente falso.
Nada vinha sem outra intenção misturada.
Ana estendeu o envelope de volta.
Gabriel não pegou.
— Fique com ele.
— Eu não quero.
— Leia quando estiver mais calma.
— Pare de decidir quando eu estou pronta.
— Não estou decidindo.
— Faz isso o tempo inteiro.
Ana soltou os documentos. Gabriel precisou segurá-los antes que caíssem na terra.
— Você identifica o ponto fraco, oferece uma saída e chama isso de escolha.
A expressão dele se fechou.
— Eu não forcei Augusto a assinar nada.
— Eu não falei dele.
Gabriel compreendeu.
A lembrança do beijo surgiu entre os dois.
Ana viu no modo como os olhos dele mudaram.
— Você acha que fiz isso com você — disse Gabriel.
— Ainda não sei o que pensar.
— O beijo não teve relação com a proposta.
— Mas teve relação com as perguntas.
— Eu já admiti que errei.
— Admitir depois não devolve a escolha que você alterou no momento.
Gabriel apertou o envelope.
— Você me beijou de volta.
A frase saiu mais dura do que ele pretendia.
Ana sentiu o impacto, mas não recuou.
— Eu sei.
A resposta pareceu desarmá-lo.
— Eu quis aquele beijo — continuou Ana. — É justamente por isso que você conseguiu me distrair.
Gabriel abriu a boca, mas ela não permitiu.
— E agora fez a mesma coisa de outro jeito. Eu disse que estava cansada e, por um minuto, acreditei que você tinha vindo porque se importava.
— Eu vim porque me importo.
Ana olhou para o envelope nas mãos dele.
— As duas coisas não se anulam, não é?
Gabriel permaneceu em silêncio.
Era uma frase dele. Uma lógica que usava para manter intenções contraditórias dentro da mesma verdade.
Ana sentiu a garganta apertar.
— Você veio me ver e veio comprar a fazenda. Você me ajudou e esperou que eu vendesse. Você me beijou porque queria e deixou o beijo calar a conversa porque era conveniente.
— Ana…
— Todas as coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. Eu entendi.
Ela recuou um passo.
Gabriel tentou se aproximar.
— Não.
A palavra o fez parar.
Ana apontou para a caminhonete.
— Vá embora.
— Nós precisamos terminar essa conversa.
— Não hoje.
— Você acabou de me acusar de adiar.
— Estou adiando — respondeu Ana. — Não fingindo que não estou.
Gabriel a encarou.
O envelope continuava entre os dedos dele, agora manchado nas bordas pela terra de suas mãos.
— Eu vou contar tudo — disse Gabriel.
— Você já prometeu.
— E vou cumprir.
Ana olhou para ele, para a proposta e para o canteiro que haviam plantado juntos.
— Espero que cumpra antes de aparecer com uma terceira versão do preço.
Gabriel recebeu a frase sem reagir.
Por alguns segundos, nenhum dos dois se moveu.
Depois ele guardou o envelope debaixo do braço e caminhou até a caminhonete.
Ana permaneceu junto à horta.
Antes de entrar no veículo, Gabriel se virou.
— O que eu fiz hoje não apaga o que senti ontem.
Ana sustentou o olhar dele.
— Não. Só faz eu me perguntar o que mais estava sentindo junto.
Gabriel não encontrou resposta.
Entrou na caminhonete e partiu.
Ana esperou até o motor desaparecer na estrada. Só então voltou ao canteiro.
As mudas permaneciam alinhadas no sulco que ele corrigira. Pequenas, frágeis e impossíveis de separar entre a parte que ela plantara e a parte que Gabriel ajudara a fazer sobreviver.
Ana pegou a enxada.
Por um instante, pensou em arrancar tudo e começar novamente.
Não fez isso.
A culpa não era das plantas.
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