Margem do Formosa

15 Tudo ao mesmo tempo


O primeiro aviso veio discreto.

Um som curto.

Depois outro.

Depois mais três.

Ana olhou para a tela do celular.

As notificações começaram a cair como chuva em telhado furado.

E-mails. Mensagens. Aplicativos. Banco. Grupos. Trabalho. Amigos. Cobranças. Fotos marcadas. Lembretes. Atualizações. Uma promoção de sofá que ela não tinha pedido e que, por algum motivo, pareceu pessoalmente ofensiva.

O celular vibrou tantas vezes seguidas que Seu Cícero olhou com preocupação.

— Vai quebrar?

Ana não respondeu.

A tela se encheu.

129 e-mails não lidos.

47 mensagens.

12 chamadas perdidas.

Atualização pendente.

Pagamento em atraso.

Você foi mencionada em uma conversa.

Ela sentou devagar na cadeira da varanda.

— Acho que a civilização descobriu que eu fugi.

Seu Cícero se aproximou.

— É coisa ruim?

Ana abriu o e-mail.

O primeiro era do antigo trabalho.

Ana, precisamos do acesso ao repositório do projeto Atlas.

Ana, você ainda tem a documentação do módulo de integração?

Ana, o cliente pediu revisão.

Ana, consegue entrar em call hoje?

Ela passou o dedo pela tela. Mais e-mails surgiram. Alguns educados. Outros urgentes. Alguns com aquele tipo de gentileza corporativa que escondia cobrança atrás de “quando puder”.

Ana sentiu os ombros endurecerem.

Abriu as mensagens.

Amigos.

Você chegou bem?

Sumiu, mulher.

Me responde só pra eu saber que está viva.

Você não está fazendo nenhuma loucura, né?

Vi sua foto antiga com seu tio. Pensei em você.

Essa última ela fechou rápido.

Rápido demais.

Seu Cícero percebeu, mas continuou quieto.

O celular vibrou de novo.

Nome do ex.

Ana ficou parada.

A mensagem apareceu na prévia:

Você está mesmo levando essa história da fazenda a sério? Ana, volta pra casa. Isso não combina com você.

O som dos grilos ainda vinha do mato. A bomba trabalhava ao longe. Uma galinha ciscava perto da escada da varanda. O rio Formosa seguia em algum ponto escondido, constante, indiferente ao retorno do Wi-Fi.

Mas, de repente, a varanda pareceu pequena demais.

Ana bloqueou a tela.

O celular vibrou outra vez na mão dela.

Ela desbloqueou.

Outra mensagem dele.

Você não respondeu ninguém. Eu fiquei preocupado.

Depois:

Eu conheço você. Quando você entra nesse modo de provar alguma coisa, se machuca.

Ana ficou olhando para a frase.

Não era uma ordem.

Ainda.

Era pior. Era uma mão conhecida encostando no lugar certo, usando preocupação como chave.

Ela largou o celular sobre a mesa, com a tela virada para baixo.

Seu Cícero perguntou:

— Quer mais café?

Ana soltou uma risada pequena, sem humor.

— Eu queria cinco minutos sem ninguém precisando de mim.

Ele não respondeu logo.

O vento passou pela varanda, levantando a ponta do mapa da fazenda. A caneca azul segurava uma das bordas, mas o papel tremia mesmo assim.

Ana olhou para a lista.

Horta. Pomar. Galinheiro. Cozinha. Depósito. Faixa da estrada. Feira.

Antes da internet, aquela lista parecia grande.

Depois da internet, parecia quase limpa.

A fazenda cobrava com goteira, bicho, barro e dívida.

O mundo antigo cobrava com notificação.

Ela não sabia qual era pior.

— Engraçado — Ana disse.

Seu Cícero sentou-se do outro lado da mesa.

— O quê?

— Ontem eu achei que ia enlouquecer sem sinal. Hoje eu tenho sinal e estou considerando devolver.

Ele sorriu de leve.

— O silêncio daqui assusta no começo.

Ana olhou para o celular.

Ele vibrou de novo.

— O barulho de lá assusta depois.

Seu Cícero ficou quieto.

Ana virou o aparelho, viu mais três notificações e sentiu uma vontade infantil de jogar o celular no mato. Não jogou. Ela era adulta, responsável, dona de uma fazenda endividada e, aparentemente, dependente de uma antena presa num telhado sem plena convicção estrutural.

Em vez disso, abriu o notebook.

Os e-mails carregaram com uma eficiência cruel.

Ela viu o nome de antigos colegas. Viu demandas que já não deveriam estar nas costas dela. Viu amigos tentando alcançá-la. Viu o ex surgindo no canto da tela como uma porta que ela tinha fechado sem trancar.

Ana respirou fundo.

Criou três pastas no e-mail:

Responder depois.

Resolver nunca.

Problemas que não são meus.

Seu Cícero inclinou-se para ver.

— Pode fazer isso?

— Tecnicamente, não resolve nada.

— E por que fez?

— Porque me deu paz por quatro segundos.

O caseiro sorriu.

Ana pegou o celular e abriu a conversa do ex. Os dedos ficaram parados sobre a tela.

Ela digitou:

Cheguei bem. Estou ocupada.

Apagou.

Digitou:

Não vou voltar agora.

Apagou também.

Por fim, não respondeu.

Bloqueou a tela e colocou o celular longe, perto da caneca azul.

— Primeiro a Formosa — Ana disse.

Seu Cícero olhou para ela com cuidado.

— E o resto?

Ana abriu a planilha de custos da feira.

— O resto vai ter que esperar a vez. Pela primeira vez em muito tempo.

O celular vibrou de novo.

Ana não olhou.

Tentou se concentrar na planilha, nos vidros, nas galinhas, no pouco de terra que ainda era dela, nos trinta dias que tinha inventado como se prazo fosse escudo.

Mas o barulho ficou ali.

Mesmo sem som.

Uma cidade inteira dentro da tela.

Uma vida antiga chamando pelo nome dela.

E, ao redor, a Fazenda Formosa continuava quieta, quebrada e exigente.

Pela primeira vez desde que chegou, Ana entendeu que talvez aquela ausência de sinal não tivesse sido um problema.

Talvez tivesse sido descanso.