Margem do Formosa

16 Preocupação


Ana tentou ignorar o celular.

Conseguiu por quase cinco minutos.

Ele vibrava sobre a mesa da varanda, perto da caneca azul do tio Augusto, enquanto ela fingia estudar a planilha de custos da feira. Na tela do notebook, as colunas continuavam abertas: produto, custo, tempo, rendimento, preço, lucro.

Mas o nome dele no celular parecia maior que qualquer número.

Ana pegou o aparelho.

A primeira mensagem era quase bonita.

Eu sei que errei com você.

Ela ficou parada.

A segunda veio logo abaixo.

De verdade, Ana. Eu pensei muito. A culpa foi minha também. Eu devia ter te ouvido mais. Desculpa.

Ana leu uma vez.

Depois outra.

Havia um tempo em que aquelas palavras teriam sido suficientes para desmontá-la. Não porque resolvessem alguma coisa, mas porque ela quisera tanto ouvi-las que teria aceitado qualquer versão delas, mesmo atrasada, mesmo pequena, mesmo vindo grudada em tudo que ele nunca dizia.

O celular vibrou de novo.

Mas você também falou coisas horríveis pra mim. Você foi embora sem pensar em ninguém. Deixou todo mundo preocupado. Eu fiquei sem saber se você estava bem.

Ana sentiu algo afundar dentro do peito.

A desculpa durara duas mensagens.

Na terceira, já tinha virado cobrança.

Seu Cícero, sentado na outra ponta da varanda, percebeu o silêncio.

— É ele, pinguinha?

Ana não respondeu de imediato.

Outra mensagem apareceu.

Eu preciso que você volte. Isso não é vida pra você. Você nunca quis essa fazenda de verdade. Agora está agindo como uma criança birrenta, como se não precisasse de ninguém, como se tivesse que provar alguma coisa pra todo mundo.

Ana baixou o celular devagar.

O terreiro à frente dela continuava igual: mato alto, galinhas ciscando, sol batendo na lateral descascada da casa. A bomba fazia um ruído baixo ao longe. O rio Formosa corria em algum lugar escondido, indiferente.

Ela leu a mensagem outra vez.

Criança birrenta.

Não era a pior coisa que ele já tinha dito. Era justamente por isso que doía. Porque vinha embalada em preocupação. Porque parecia conselho. Porque, durante muito tempo, Ana teria tentado explicar que não era birra, que não queria preocupar ninguém, que só precisava de espaço, que talvez ele tivesse razão em alguma parte, que talvez ela estivesse mesmo exagerando.

Os dedos dela foram até o campo de resposta.

Ela digitou:

Eu não fui embora pra te punir.

Parou, apagou, digitou:

Você não sabe o que eu quero.

Apagou também.

Por fim, bloqueou a tela e colocou o celular virado para baixo.

Seu Cícero esperou.

Ana pegou a caneta.

— Não vou responder agora.

A voz dela saiu firme o suficiente para enganar alguém que não a conhecesse.

Seu Cícero conhecia.

Ana olhou para a planilha.

As letras estavam um pouco borradas, embora ela não estivesse chorando.

Ana puxou o notebook para mais perto.

— Primeiro a Formosa.

O celular vibrou outra vez.

Ela não olhou.

Mas a frase ficou ali, andando por dentro dela como bicho no forro.

Você nunca quis essa fazenda de verdade.

Ana encarou a lista de tarefas, os custos, as dívidas, os produtos que ainda nem sabia se conseguiria vender.

Talvez ele tivesse razão em uma coisa.