Margem do Formosa

32 Terra nas unhas


No fim da tarde, Ana estava na horta.

Não sabia exatamente por que escolhera aquele lugar. Talvez porque o quarto ainda guardasse o álbum fechado sobre a cama, e a cozinha continuasse ocupada pelos contratos, pelo mapa marcado de vermelho e pela letra do tio alertando sobre Gabriel. A horta, pelo menos, não lhe pedia que interpretasse nada. A terra estava seca em alguns pontos, compactada em outros, e respondia de maneira simples: ou cedia à enxada ou não cedia.

Ana compreendia resistência física melhor do que compreendia ausência.

Havia passado a última hora tentando abrir uma nova fileira ao lado das alfaces sobreviventes. Seu Cícero dissera que poderiam aproveitar o espaço para cebolinha e salsa, desde que ela não enterrasse as mudas como quem escondia provas de um crime. Ana respondera que sabia diferenciar plantio de ocultação de cadáver, mas, depois de ele sair, já não tinha tanta certeza.

A barra de sua calça estava escura de terra. Um dos joelhos doía por ter permanecido tempo demais agachada, e havia barro sob suas unhas, na lateral do rosto e provavelmente em lugares que ela só descobriria no banho.

Ela pressionou a terra ao redor de uma muda, afastou-se para observar e percebeu que a fileira fazia uma curva gradual para a esquerda.

— Não — murmurou Ana. — Você vai crescer reta nem que eu precise estabelecer uma governança.

Retirou a muda e tentou novamente.

Foi quando ouviu o motor da caminhonete atravessar o terreiro.

Ana parou com as mãos enterradas na terra.

O corpo reconheceu Gabriel antes que a razão decidisse como reagir. Seu coração acelerou, e a lembrança da boca dele surgiu com a precisão inconveniente de uma coisa que não havia sido convidada.

Logo depois vieram o mapa.

As terras cercando a Formosa.

A mensagem sem resposta.

A anotação de Augusto.

Gabriel é persuasivo demais quando sabe que a pessoa está sem saída.

Ana voltou a pressionar a terra, agora com força demais.

A caminhonete desligou.

Uma porta bateu.

Ela poderia ter entrado em casa, lavado as mãos e esperado por ele na varanda com os contratos organizados diante de si. Poderia ter assumido uma postura controlada, profissional, impermeável.

Não se moveu.

Quando Gabriel apareceu na lateral da casa, Ana ainda estava agachada entre os canteiros, segurando uma muda cuja raiz começava a secar ao vento.

Ele parou junto à cerca baixa.

Usava jeans, botas e uma camisa azul-escura com as mangas dobradas. Parecia cansado. Não tanto quanto ela, mas o suficiente para haver uma sombra sob seus olhos e menos precisão do que o habitual no cabelo.

Gabriel observou a fileira torta.

— O que você está plantando?

— Uma estrutura operacional de cheiro-verde.

Ele desviou os olhos para as mudas.

— Parece cebolinha.

— Essa é a versão simplificada para pessoas que não entendem gestão.

O canto da boca dele se moveu, mas o sorriso não chegou a se formar.

Ana percebeu que Gabriel também não sabia como começar aquela conversa.

Isso lhe trouxe uma satisfação pequena.

Ela voltou ao trabalho.

— Seu Cícero está na casa — informou Ana. — Se veio falar com ele.

— Não vim falar com Seu Cícero.

— A bomba ainda funciona.

— Eu não perguntei da bomba.

Ana ergueu os olhos.

— Da última vez, foi a primeira coisa que perguntou.

— Da última vez, você quase derrubou minha porta depois da meia-noite. Achei razoável presumir uma emergência.

A lembrança da casa dele, do escritório e do beijo passou entre os dois sem ser nomeada.

Ana enterrou a muda depressa demais.

Gabriel franziu a testa.

— Está muito funda.

— Não está.

— Está cobrindo o colo.

— Eu sei onde fica o colo de uma planta.

— Sabe?

Ana lançou-lhe um olhar estreito.

— Você veio até aqui para fiscalizar a profundidade da minha cebolinha?

— Não.

— Então não fiscalize.

Gabriel abriu o pequeno portão da horta e entrou.

Ana acompanhou seus passos.

— Eu não te convidei.

— A porteira estava aberta.

— Isso parece ser uma dificuldade recorrente sua com os limites da minha propriedade.

Ele parou ao lado do canteiro e olhou para a muda quase soterrada.

— Posso?

— Não.

Gabriel se agachou mesmo assim.

— Sua capacidade de ouvir continua impressionante — disse Ana.

Ele afastou a terra com os dedos, expondo parte do caule.

— Se enterrar assim, apodrece.

— Talvez eu estivesse testando a tolerância da planta.

— A planta não precisa ser submetida à sua crise de confiança.

Ana abriu a boca para responder, mas Gabriel pegou outra muda e mostrou o ponto correto em que a raiz terminava e o caule começava.

— Até aqui — explicou ele. — A raiz fica coberta. Isso fica acima.

— Eu entendi.

— Não parece.

— Gabriel.

— Ana.

A resposta veio no mesmo tom que ele usara na feira, quando fingira não saber pagar por aproximação.

Ela sentiu um calor irritante subir pelo rosto.

— Não faça isso.

— Isso o quê?

— Dizer meu nome como se fosse argumento.

Gabriel sustentou o olhar dela por um instante.

— Você faz a mesma coisa.

Ana desviou os olhos primeiro.

Gabriel pegou a enxada pequena e corrigiu o sulco. Seus movimentos eram firmes e econômicos, sem a hesitação que ela tivera durante toda a tarde. Ele retirou torrões, soltou a terra compactada e refez a linha com uma facilidade ofensiva.

Ana cruzou os braços.

— Você está alterando meu projeto.

— Estou impedindo que ele morra na primeira rega.

— Eu tinha um método.

— Tinha uma curva.

Ela olhou para a fileira.

— Era uma adaptação ao terreno.

Gabriel abaixou a cabeça, escondendo um sorriso.

— Claro.

Ana deveria mandá-lo embora.

Em vez disso, pegou as mudas e começou a colocá-las no sulco que ele preparava.

Trabalharam sem conversar durante alguns minutos. Gabriel abria espaço na terra; Ana posicionava as raízes e pressionava o solo ao redor. Quando ela tentava enterrar uma muda além do necessário, ele tocava seu pulso e fazia um gesto curto com a cabeça. Na terceira vez, Ana afastou a mão antes que ele a corrigisse.

— Eu já aprendi.

— Estou vendo.

A voz dele estava baixa, sem ironia.

O silêncio que se estabeleceu não era confortável, mas também não exigia que Ana decidisse imediatamente se o odiava. Havia algo perigosamente comum em trabalhar ao lado dele: a terra grudando nos dedos, o vento movimentando as folhas das goiabeiras, os insetos começando a surgir com a queda da luz.

Gabriel não parecia o homem do mapa.

Parecia apenas alguém que sabia o que fazer com uma enxada e não se importava de sujar as mãos.

Ana sabia que as duas versões eram verdadeiras.

Esse era o problema com ele.

— Você está torta de novo — disse Gabriel.

Ela olhou para a fileira.

— Está reta.

— Você.

Ana percebeu que estava inclinando o corpo para um lado, protegendo o joelho dolorido.

— Estou bem.

Gabriel pousou a enxada.

— Há quanto tempo está aqui?

— Não sei.

— Você comeu?

— Isso é um interrogatório?

— É uma pergunta.

— Então faça apenas uma por vez.

Ele a observou.

— Você comeu?

Ana demorou o suficiente para entregar a resposta.

Gabriel soltou o ar pelo nariz.

— Ana.

— Não estava com fome.

— Você também não dormiu.

Ela apertou a terra ao redor de uma muda.

— Está me observando agora?

— Não exige muito esforço.

— Que delicado.

— Não foi uma crítica.

— Com você, nunca fica claro.

A frase fez Gabriel parar.

Ana continuou mexendo na terra, embora sentisse o olhar dele sobre ela.

— Foi por isso que veio? — perguntou Ana. — Para verificar se eu comi, dormi e plantei a cebolinha na profundidade aprovada pela administração Belmonte?

Gabriel não respondeu imediatamente.

Ele limpou a lâmina da enxada na lateral do canteiro e a deixou no chão.

— Vim porque não queria que você pensasse que eu estava fugindo.

Ana soltou uma risada breve, sem humor.

— Você ficou em silêncio quando mandei a foto do mapa.

— Eu sei.

— Então pareceu bastante com uma fuga.

— Eu precisava decidir como conversar com você.

Ana ergueu o rosto.

— Isso significa decidir o que contar.

— Significa impedir que uma conversa importante aconteça por mensagem às três da manhã.

— A conversa importante deveria ter acontecido antes de me beijar.

O olhar de Gabriel desceu por um instante até a boca dela.

Foi rápido.

Ana percebeu mesmo assim.

— Deveria — admitiu ele.

A resposta direta retirou parte da força do ataque.

Ela se levantou, limpando as mãos na calça, e imediatamente se arrependeu quando a terra úmida deixou duas marcas escuras no tecido.

— Você fugiu quando escolheu não explicar os contratos — disse Ana. — Estava diante de mim. Eu perguntei. Você sabia o que eu queria entender e decidiu que eu ainda não estava pronta.

Gabriel também se levantou.

— Eu adiei.

— Isso é uma palavra mais bonita.

— É uma palavra diferente.

— O resultado foi o mesmo. Eu fui embora sem resposta.

Gabriel passou a mão pelos cabelos, deixando uma pequena mancha de terra perto da têmpora.

— Porque não existe uma explicação de cinco minutos que conserte aqueles contratos.

— Eu não pedi que consertasse.

— Pediu uma verdade completa quando tinha acabado de encontrar uma parte dela.

— E você achou melhor me beijar.

Ele sustentou o olhar dela.

— Não achei melhor.

— Mas fez.

— Fiz.

— E percebeu que eu tinha parado de perguntar.

Gabriel demorou um instante.

— Percebi.

As admissões dele a irritavam porque não vinham acompanhadas da vergonha que Ana queria ver. Ainda assim, havia algo mais difícil do que arrogância no modo como Gabriel respondia. Ele não parecia orgulhoso. Parecia decidido a não se esconder atrás de uma mentira.

— Então não diga que não fugiu — afirmou Ana.

Gabriel aproximou-se um passo.

— Eu não estou fugindo agora.

— Ainda não explicou nada.

— Vou explicar.

Ana procurou no rosto dele o desvio, a provocação ou a condição escondida.

— Tudo?

— Tudo que eu sei.

— Isso é outra resposta cuidadosamente limitada.

— Há coisas sobre Augusto que eu posso explicar. Há decisões dele que eu não posso justificar por ele.

Ana cruzou os braços.

— E as suas?

A mandíbula de Gabriel se contraiu.

— As minhas eu explico.

— Quando?

— Quando você quiser me ouvir sem já ter decidido que cada resposta é uma estratégia.

Ana riu, cansada.

— Você quer que eu confie em você antes de me dar uma razão.

— Quero que me escute.

— Eu escutei ontem.

— Ontem você estava com raiva.

— Continuo com raiva.

— Eu sei.

Gabriel deu mais um passo e parou perto o bastante para que Ana sentisse o cheiro de terra misturado ao perfume dele.

— Também não quero que pense que enganei você — disse ele.

A voz havia baixado.

Ana olhou para as mãos sujas dos dois.

— Você escondeu o que a Formosa representa para as suas terras.

— Não escondi que queria comprar.

— Não contou por que queria tanto.

— Você não perguntou.

A frase escapou antes que Gabriel pudesse contê-la.

Ana levantou os olhos devagar.

Ele percebeu o erro.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Foi exatamente o que disse.

— Eu devia ter contado antes.

— Devia.

Gabriel assentiu.

— E vou contar.

Ana observou o rosto dele por um momento. Estava cansada demais para sustentar outra disputa, cansada demais até para decidir se acreditava.

Virou-se para a fileira recém-plantada.

As mudas pareciam pequenas diante de tudo que ainda precisava ser feito. Pequenas e frágeis, exigindo água, cuidado, tempo e uma quantidade de trabalho que ninguém via quando encontrava um maço de cheiro-verde sobre uma banca.

— Eu não sei se consigo fazer isso — disse Ana.

A frase saiu baixa.

Gabriel permaneceu atrás dela.

— Fazer o quê?

Ana passou as mãos pelo rosto e deixou uma mancha de terra perto da testa.

— Tudo.

Gabriel não respondeu.

— Eu estou cansada — continuou ela. — Cansada de descobrir que cheguei tarde. Cansada de abrir uma porta e encontrar outra coisa que meu tio não contou. Cansada de trabalhar o dia inteiro e terminar com mais problema do que tinha quando comecei.

A voz ameaçou falhar, mas Ana respirou antes que acontecesse.

Gabriel ficou completamente imóvel.

Ana não olhou para ele.

Gabriel se aproximou devagar.

— Ana…

— Eu não quero conselho agora.

Ele parou.

— Certo.

Ela fechou os olhos.

Por alguns segundos, apenas o som das folhas e dos insetos preencheu a horta.

— Eu estou tão cansada — repetiu Ana.

Gabriel olhou para os canteiros, para a casa e para os galpões ao redor.

E compreendeu tudo errado.