Margem do Formosa

28 Sem resposta


O polegar dele tocou a linha de sua mandíbula. Ana sentiu o contato como uma pergunta feita em outra linguagem, uma que não exigia confiança para ser compreendida.

— Não faça isso para me distrair — disse ela.

— Eu não deveria fazer de jeito nenhum.

— Não foi o que eu disse.

O olhar dele se prendeu ao dela.

— Eu sei.

Por um instante, nenhum dos dois se moveu.

Ana ouviu o próprio fôlego, o som distante do relógio em algum lugar da casa. A raiva continuava ali, mas havia mudado de forma, misturada ao desejo que passara tempo demais fingindo não reconhecer.

Gabriel inclinou-se apenas o suficiente para que a respiração dele tocasse sua boca.

Ainda era possível recuar, mas Ana não recuou.

O primeiro contato foi contido, quase cauteloso. Os lábios de Gabriel tocaram os dela como se ele ainda esperasse ser impedido.

Ana sentiu a prudência dele e se irritou com ela.

Segurou a camiseta de Gabriel junto ao peito e o puxou.

O beijo mudou.

A mão dele encontrou sua cintura, firme, trazendo-a para mais perto enquanto a outra subia até sua nuca. Ana sentiu as costas tocarem a borda da mesa e abriu a boca sob a pressão dos lábios dele.

Gabriel beijava com atenção suficiente para perceber cada reação e segurança demais para fingir que não sabia o efeito que causava. A língua dele tocou a dela devagar, aprofundando o beijo enquanto seus dedos se fecharam nos cabelos dela.

Ela deveria afastá-lo.

Em vez disso, segurou-o com mais força.

A raiva encontrou uma saída no beijo. Ana mordeu de leve o lábio inferior dele, e Gabriel soltou um som baixo que vibrou contra sua boca. A mão em sua cintura apertou, deslizando até suas costas

Por alguns instantes, não houve contratos.

Houve apenas o calor do corpo de Gabriel contra o dela, os dedos dele em sua nuca e a sensação perturbadora de finalmente tocar aquilo que os dois vinham contornando.

Quando Gabriel se afastou, não foi muito.

Ela continuava segurando a camiseta dele.

Gabriel olhou para sua boca antes de fechar os olhos por um instante.

— Isso foi uma péssima ideia.

— Você parece muito satisfeito para alguém arrependido.

— Não estou arrependido.

— Então por que foi uma péssima ideia?

Ele abriu os olhos.

— Porque você veio aqui querendo respostas.

A consciência retornou devagar.

Os contratos continuavam sobre a mesa.

Ana soltou a camiseta dele.

— E continuo querendo.

A mão de Gabriel ainda estava em sua cintura. Ele a retirou.

A ausência do toque pareceu mais brusca do que o próprio beijo.

— Hoje não.

Ana passou a língua pelos lábios, tentando recuperar a capacidade de pensar.

— Então foi isso?

— Isso o quê?

— Uma maneira de encerrar a conversa.

A expressão dele se fechou.

— Não.

— Funcionou.

— Por alguns minutos.

Ana pegou os contratos e os colocou dentro da bolsa. Seus dedos tremiam, o que a deixou ainda mais irritada.

— Você sabia que isso ia me distrair.

Gabriel não respondeu imediatamente.

Essa hesitação bastou.

— Sabia. — Ana falou, enquanto levantou os olhos até ele olhar pra ela.

— Eu sabia que queria beijar você.

— Não foi o que perguntei.

Ele passou a mão pelos cabelos, afastando-os da testa.

— Quando comecei, não estava pensando nos contratos.

— E depois?

Gabriel sustentou seu olhar.

A honestidade veio contra a vontade.

— Depois percebi que você tinha parado de perguntar.

Ana sentiu o calor do beijo transformar-se em algo amargo.

— E não parou.

— Não.

A palavra permaneceu entre os dois.

Gabriel não tentou se justificar. Aquilo deveria ser melhor do que uma mentira, mas não era.

— Então você conseguiu o que queria — disse Ana.

— Não.

Ela colocou a bolsa no ombro e caminhou até a porta do escritório. Quando passou por ele, Gabriel segurou seu pulso.

Dessa vez, Ana olhou primeiro para a mão dele.

Gabriel soltou.

— O beijo não foi pra te enganar.

Ana sentiu o peito apertar, mas manteve a voz firme.

— Isso não faz o resto virar verdade.

Ela deixou o escritório.

Marta estava no corredor, segurando uma bandeja com duas xícaras de café. Ao ver Ana, olhou rapidamente para seu cabelo desalinhado e depois para Gabriel, que surgia atrás dela.

A empregada não comentou.

Apenas se afastou para abrir passagem.

— A emergência acabou? — perguntou Marta.

Ana parou.

— Não. Só foi adiada.

Ela atravessou o hall e abriu a porta.

Gabriel a acompanhou até a varanda.

— Você não devia dirigir assim.

Ana voltou-se para ele.

— Assim como?

— Com raiva.

— Eu vim com raiva.

— Agora está pior.

— Mérito seu.

Gabriel desceu um degrau, mas Ana ergueu a mão.

— Não venha atrás de mim.

Ele parou.

— Ana.

— Quando eu fizer a próxima pergunta, você vai responder.

— Depende da pergunta.

Ela soltou uma risada incrédula.

— É claro que depende.

Ana caminhou até o carro. Abriu a porta, mas, antes de entrar, olhou de volta.

Gabriel continuava na varanda, descalço, com a camiseta amassada e a expressão mais difícil de ler do que qualquer contrato.

Por um instante, ela sentiu vontade de voltar.

A constatação foi humilhante.

Ana entrou no carro e bateu a porta.

Durante o caminho de volta, não ligou o rádio. O gosto de Gabriel permanecia em sua boca, misturado à raiva e à certeza incômoda de que havia correspondido porque quisera.

Ela fora à Fazenda Belmonte exigir a verdade.

Voltava com as mesmas perguntas, uma lembrança que não conseguiria ignorar e a suspeita de que Gabriel sabia exatamente onde tocar quando queria que alguém parasse de resistir.