Margem do Formosa
29 O cerco
O portão da Fazenda Formosa apareceu nos faróis pouco depois das duas da manhã.
Ana diminuiu a velocidade para atravessar a entrada, mas não desligou o motor imediatamente quando estacionou diante da casa. Ficou sentada atrás do volante, com as mãos apoiadas no colo e os olhos presos à varanda vazia.
Durante todo o caminho de volta, tentara organizar o que havia acontecido na Fazenda Belmonte em uma sequência lógica.
Ela encontrou os contratos.
Foi exigir respostas.
Gabriel admitiu que os acordos eram bons para ele.
Evitou explicar o que ainda faltava.
Depois a beijou.
A sequência parecia simples quando colocada daquele modo, mas nada no corpo de Ana concordava com a simplicidade. Seus lábios ainda guardavam a pressão da boca dele. A pele do pulso parecia lembrar os dedos de Gabriel, embora ele quase não a tivesse segurado. O cheiro limpo da camiseta continuava preso em algum lugar da memória, misturado ao escritório organizado, à casa impecável e ao som da respiração dele quando ela o puxara pela roupa.
Ana fechou os olhos.
O beijo não foi uma mentira.
Gabriel disse isso, e ela acreditava.
Esse era o problema.
Ser verdadeiro não impedia que fosse conveniente.
Ela desligou o carro e saiu. O ar frio da madrugada tocou seu rosto, mas não afastou o calor incômodo que voltava sempre que recordava a mão dele em sua cintura.
Os documentos estavam dentro da bolsa. Ana os retirou antes de subir os degraus e ficou parada junto à varanda, olhando para as páginas sob a luz fraca que vinha da cozinha.
As assinaturas estavam ali.
Gabriel Belmonte.
Augusto Ferreira.
Mais terra a cada contrato. Condições piores. Valores que pareciam grandes isoladamente e pequenos quando divididos pelo tamanho das áreas entregues.
Aquela era a parte que ela conseguia provar.
O resto ainda era uma sensação.
Ana entrou em casa sem acender a luz da sala. Seu Cícero devia estar dormindo, e ela não queria acordá-lo para explicar por que saíra à meia-noite e voltava com a boca sensível e mais perguntas do que levara.
Colocou os documentos sobre a mesa da cozinha.
O celular vibrou dentro da bolsa.
Ana ficou imóvel.
Não precisava olhar para saber.
Ainda assim, tirou o aparelho.
Havia duas mensagens de Gabriel.
Chegou?
A segunda fora enviada doze minutos depois.
Ana.
Apenas seu nome.
Nenhuma desculpa. Nenhuma explicação. Nada sobre os contratos ou sobre o beijo. Apenas aquela cobrança curta disfarçada de preocupação, como se ele ainda tivesse o direito de exigir confirmação de que ela chegaria em segurança depois de tê-la mandado embora com todas as respostas pela metade.
Ana começou a escrever:
Não é problema seu.
Apagou.
Digitou:
Cheguei.
Também apagou.
A raiva dizia que deveria ignorá-lo. Outra parte, mais honesta e irritante, imaginava Gabriel acordado na varanda, esperando que o celular vibrasse.
Ana bloqueou a tela sem responder.
Colocou o aparelho ao lado dos contratos, mas o nome dele continuou aceso dentro de sua cabeça.
Gabriel Belmonte. Fazenda Belmonte. Terra.
Ela olhou para os documentos novamente.
Nos contratos, as áreas eram descritas por hectares, limites naturais e confrontantes. Algumas mencionavam o rio. Outras, a antiga estrada dos Mendes, a cerca dos Nogueira e terras pertencentes à família Belmonte.
Ana puxou uma cadeira.
Abriu o notebook.
A internet demorou a conectar, oscilando duas vezes antes de estabilizar. Ela digitou primeiro o nome da fazenda de Gabriel, quase por impulso.
As imagens apareceram imediatamente.
Fotografias de leilões. Um galpão de máquinas. Gado premiado. Uma matéria da associação rural sobre modernização da produção. Gabriel aparecia ao lado de autoridades municipais, produtores e animais que pareciam tratados melhor do que muita gente.
Ana já conhecia a aparência da propriedade. Tinha acabado de atravessar a estrada iluminada, ver os jardins mantidos e entrar na casa onde tudo permanecia inteiro.
O que procurava agora não era a casa.
Era o tamanho.
Pesquisou:
Fazenda Belmonte São Gabriel área.
A informação não apareceu de forma direta. Vieram reportagens antigas, notas de eventos, registros de compra anunciados em jornais locais e publicações da associação de produtores. Ana abriu várias abas.
Uma matéria mencionava a aquisição da antiga Fazenda Santa Clara.
Outra citava uma parceria produtiva no Sítio Boa Vista.
Um anúncio de leilão indicava que o evento seria realizado na Fazenda Cedro Alto, também pertencente ao grupo Belmonte.
Em uma fotografia aérea publicada durante uma reportagem sobre recuperação de pastagens, Ana reconheceu a curva do rio Formosa.
Aproximou a imagem.
Abriu a bolsa e retirou o mapa antigo da fazenda que levara por engano junto dos contratos. Estendeu-o ao lado do notebook, prendendo uma ponta com a caneca azul de Augusto e a outra com o pote de geleia que guardara da feira.
Comparou a curva do rio.
A estrada.
O fragmento de mata.
As divisas.
Fazenda Santa Clara ficava ao norte da Formosa.
O Sítio Boa Vista começava depois da estrada, no lado leste.
Cedro Alto ocupava uma faixa extensa ao sul.
Ana pegou um lápis vermelho e marcou as áreas.
Pesquisou os nomes dos antigos proprietários citados no mapa. Uma venda da família Nogueira aparecia em uma notícia de oito anos antes. As terras haviam sido compradas por uma empresa rural cujo nome ela não conhecia, mas o quadro societário, mencionado em outra publicação, incluía Gabriel e um primo.
Ana marcou mais uma área.
Do outro lado do rio, a antiga propriedade dos Mendes também aparecia vinculada aos Belmonte.
Outro risco vermelho.
O desenho começou a se formar.
Ana recuou na cadeira.
A Fazenda Formosa estava no centro.
As terras vinculadas a Gabriel avançavam de quase todos os lados, interrompidas apenas pelo contorno irregular da propriedade de Augusto. A Formosa separava duas áreas produtivas, cortava o acesso direto ao rio e obrigava as estradas internas da Fazenda Belmonte a fazer um desvio.
Não era apenas uma terra vizinha.
Era a peça que faltava.
Ana aproximou novamente a imagem aérea. Se Gabriel comprasse a Formosa, uniria as propriedades, ampliaria o acesso à água e controlaria uma extensão quase contínua ao redor daquela parte do rio.
Os contratos já lhe davam acesso a parte do terreno.
A cláusula de preferência lhe dava vantagem sobre o restante.
Ela sentiu um arrepio que não vinha do frio.
— Você não estava ajudando — murmurou.
Mas a frase parecia simples demais.
Gabriel ajudou.
Consertou a bomba. Entregou caixas. Deu conselhos que funcionaram. Comprou a geleia. Percebeu falhas no plano dela antes que se transformassem em prejuízo.
Também queria a terra.
As duas coisas podiam ser verdadeiras.
Eram justamente as verdades que podiam coexistir que a assustavam.
Ana voltou aos papéis. Abriu um dos cadernos encontrados no escritório e procurou as datas dos contratos. Entre contas de ração e anotações sobre o telhado, encontrou referências aos adiantamentos de Gabriel.
Conversar com G. antes do dia 15.
Preciso de mais prazo.
Belmonte aceita aumentar se entrar a faixa do rio.
Ana virou outra página.
Uma folha dobrada escorregou de dentro do caderno e caiu no chão.
Ela se abaixou para pegá-la.
Era uma lista curta de tarefas, escrita com a letra apressada do tio.
Comprar remédio para as galinhas.
Cobrar Valdir.
Consertar a janela do quarto de visitas.
Falar com Gabriel.
Ao lado do último item, Augusto acrescentara uma frase em letra menor. A caneta pressionara tanto o papel que deixara marcas no verso.
Gabriel é persuasivo demais quando sabe que a pessoa está sem saída.
Ana leu sem respirar.
A frase não provava crime, ameaça ou fraude. Não dizia que Gabriel obrigara Augusto a assinar. Não retirava do tio a responsabilidade pelas próprias escolhas.
Mas confirmava que ele sabia.
Gabriel identificava o momento em que a necessidade se tornava desespero.
Sabia quanto oferecer.
Sabia até onde pressionar.
Ana colocou a anotação ao lado do mapa marcado de vermelho.
A lembrança do beijo voltou com violência.
Ela havia chegado à Fazenda Belmonte furiosa, cansada e emocionalmente desorganizada. Gabriel percebeu tudo. Percebeu a culpa que ela carregava por não ter estado com Augusto. Percebeu que falar do tio a desarmava. Percebeu o desejo que os dois vinham fingindo não sentir.
E a beijou.
Ana apertou os olhos.
Ele não planejara aquilo desde o momento em que abrira a porta. Ela não acreditava nisso. O desejo dele fora real. A perda de controle também.
Mas Gabriel admitiu que percebeu quando ela parou de perguntar.
A anotação do tio ganhou outro sentido diante dela.
Persuasivo demais quando sabe que a pessoa está sem saída.
O beijo havia feito exatamente isso. Retirara-a da pergunta, confundira sua raiva e a mandara de volta para casa sem uma única resposta completa.
Ana pegou o celular.
A mensagem continuava na tela de bloqueio.
Chegou?
Ela abriu a conversa.
Dessa vez, respondeu:
Cheguei.
Gabriel visualizou quase imediatamente.
Os três pontos apareceram, indicando que ele escrevia. Sumiram. Tornaram a aparecer.
Por fim, chegou apenas:
Ótimo.
Ana fitou a palavra.
Tão curta. Tão controlada.
Ela digitou:
A Fazenda Santa Clara é sua?
A resposta demorou um pouco mais.
É.
E a Cedro Alto?
Também.
As antigas terras dos Nogueira?
Dessa vez, Gabriel não respondeu imediatamente.
Ana olhou para o mapa.
Os três pontos voltaram.
Parte delas. Por quê?
Ela sentiu algo frio acomodar-se no peito.
Ele sabia que ela estava pesquisando. Talvez já imaginasse o que encontraria. Ainda assim, devolvia a pergunta como se não houvesse desenho algum diante dela.
Ana fotografou o mapa marcado de vermelho e enviou.
A imagem foi entregue.
Gabriel visualizou.
Nenhuma resposta veio.
Um minuto.
Dois.
Cinco.
Ana digitou:
A Formosa está no meio.
A mensagem foi visualizada.
Gabriel continuou em silêncio.
Aquilo respondeu mais do que todas as frases que ele lhe negara no escritório.
Ana fechou o notebook e recolheu os documentos. Não os guardou de volta na pasta. Organizou-os sobre a mesa em ordem cronológica, deixando a anotação de Augusto por cima.
Primeiro contrato.
Primeira ampliação.
Faixa do rio.
Preferência de compra.
O mapa cercado.
Ela ainda sentia o beijo, mas agora a lembrança parecia contaminada. Não falsa, mas pior: misturada a uma estratégia que talvez nem Gabriel soubesse separar do próprio desejo.
Ana pegou uma folha limpa e escreveu as perguntas que faria quando voltasse a vê-lo.
Quando você decidiu que queria a Formosa inteira?
Você piorou outras opções de Augusto?
Ajudou porque se importava ou porque precisava preservar a terra até comprar?
O beijo foi uma forma de me calar?
A última pergunta permaneceu diante dela.
Ana passou um risco sobre a frase.
Depois tornou a escrevê-la embaixo.
Não confiava na resposta de Gabriel.
Também não confiava totalmente no que faria quando estivesse perto dele outra vez.
Já começava a clarear quando Ana fechou o notebook. Ela deixou os contratos sobre a mesa e foi para o quarto, mas não chegou a dormir. Passou o restante da madrugada olhando para o teto, alternando entre a lembrança da boca de Gabriel e a imagem da Formosa cercada de vermelho.
Quando o sol nasceu, as duas coisas pareciam fazer parte do mesmo problema.
Fale com o autor