Margem do Formosa

30 Manipulação


Ana levantou pouco depois das sete, embora não tivesse certeza de que chegara a dormir.

Tomou banho, prendeu o cabelo e vestiu a primeira roupa limpa que encontrou. O rosto no espelho parecia mais pálido, com sombras profundas sob os olhos, mas ela não tentou esconder. Não pretendia ir à cidade, atender clientes ou sorrir para ninguém.

Pretendia encontrar Gabriel.

Na cozinha, os contratos continuavam exatamente como os deixara. Seu Cícero estava diante do fogão, passando café, e não perguntou de imediato por que havia papéis espalhados sobre a mesa.

Ele apenas colocou uma caneca diante dela.

— Você saiu de noite.

Ana segurou a caneca com as duas mãos.

— Saí.

— Foi onde?

— Na Fazenda Belmonte.

Seu Cícero interrompeu o movimento da colher.

— Sozinha?

— Não levei as galinhas.

— Não faz graça.

— Eu não estou fazendo.

Seu Cícero olhou para o rosto dela por alguns segundos, como se procurasse marcas de alguma coisa que Ana não pretendia explicar.

— Falou com ele?

— Tentei.

— E conseguiu?

Ana olhou para a anotação do tio.

— Gabriel é muito bom em não responder.

Seu Cícero se aproximou da mesa e leu a frase escrita por Augusto. O silêncio dele mudou.

— Onde achou isso?

— Dentro de um dos cadernos.

Ana abriu o mapa e mostrou as marcações vermelhas.

— Essas propriedades são de Gabriel ou de empresas ligadas à família dele. A Formosa está no meio. Se ele comprar, une tudo.

Seu Cícero acompanhou o desenho com os olhos, mas não demonstrou surpresa suficiente.

Ana percebeu.

— O senhor sabia.

— Sabia que as terras dele tinham crescido.

— Sabia que cercavam a Formosa?

Seu Cícero demorou um pouco.

— Seu Augusto comentava que Gabriel comprava tudo que encostava na cerca dele.

— E ninguém achou isso importante?

— Terra troca de dono, pinguinha. Aqui, acontece devagar. Quando a gente percebe o desenho, já passou muito tempo.

Ana puxou o mapa de volta.

— Eu percebi.

Seu Cícero pousou a mão sobre a mesa.

— E agora?

Ana pegou a chave do carro.

— Agora ele vai responder.

Ela mal havia dado dois passos em direção à varanda quando o som de um motor surgiu na entrada da fazenda.

Por um instante, Ana pensou que Gabriel estivesse vindo até ela. O coração reagiu antes que pudesse impedir, acelerando com uma mistura de raiva e algo que se recusava a nomear.

Então o carro apareceu depois da curva.

Não era a caminhonete preta.

Era um sedã escuro, baixo e limpo demais para aquela estrada, avançando com extremo cuidado entre os buracos. O motorista desviou de uma poça, reduziu diante de uma parte de cascalho e estacionou perto dos degraus da varanda.

Ana reconheceu o veículo.

A chave do Corolla continuava em sua mão.

— Quem é? — perguntou Seu Cícero.

Ela não respondeu.

A porta do carro se abriu.

Rafael desceu usando sapatos de couro, calça escura e uma camisa clara perfeitamente passada. Parou assim que colocou os pés no terreiro, examinando a poeira ao redor como se o chão devesse ter sido avisado de sua chegada e preparado uma superfície melhor. A última vez que Ana o vira, ele estava encostado na porta do apartamento deles, dizendo que ela precisava escolher entre aquela vida organizada que tinham construído e a insistência dela em voltar para a fazenda do tio. Ela escolhera sair, com uma mala pequena e a sensação de que estava abandonando algo que nunca fora totalmente seu.

Depois levantou os olhos para ela.

A expressão que trouxe no rosto era preocupação evidente: sobrancelhas contraídas, boca tensa, um alívio quase dolorido ao encontrá-la inteira.

— Amor.

Ele abriu os braços, sugerindo um abraço.

Ela não se moveu.

O gesto permaneceu no ar por um instante antes de ele baixar as mãos.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou Ana.

— Vim ver você.

— Sem avisar?

— Eu avisei. Você não respondeu.

Ana sentiu a culpa habitual reagir dentro dela antes mesmo que pudesse pensar.

— Eu vi as mensagens. Desculpa. Nos primeiros dias, estava sem sinal. Depois as coisas ficaram complicadas e eu…

Ela parou no meio da frase.

Já estava explicando demais.

Rafael aproveitou o silêncio e caminhou até a varanda.

— Eu fiquei preocupado. Todo mundo ficou.

— Eu disse que estava bem.

— Você mandou uma mensagem dizendo que tinha chegado a uma fazenda quase sem água e depois sumiu.

Ele subiu o primeiro degrau, mantendo os olhos em Ana. Quando um mosquito passou perto de seu rosto, afastou-o com irritação e olhou para a lateral da casa.

— Isso aqui está pior do que eu imaginava.

Ana apertou a chave na mão.

— A casa precisa de reparos.

— A casa precisa ser interditada.

Seu Cícero permaneceu junto à porta da cozinha. Rafael pareceu notá-lo apenas naquele momento.

— Bom dia, senhor.

— Bom dia — respondeu Seu Cícero, sem sorrir.

Rafael voltou-se para Ana.

— Podemos conversar sozinhos?

Ela quase disse que sim.

Era o que costumava fazer: facilitar, evitar constrangimento, tirar outras pessoas do caminho para que ele não se sentisse exposto.

Ana olhou para Seu Cícero.

— Ele pode ficar.

Rafael demorou um pouco para reagir.

— Claro. Como você preferir.

O tom era gentil, mas ainda assim carregava algo que Ana não sabia nomear — como se ele estivesse tentando não contrariá-la.

Ele subiu os outros degraus e parou diante dela. Seu perfume era conhecido, cuidadosamente discreto, ligado a apartamentos limpos, restaurantes, elevadores espelhados e manhãs em que Ana escolhia a roupa pensando no que ele consideraria adequado.

Durante muito tempo, aquele cheiro significara casa.

Agora não combinava com a varanda.

— Você parece exausta — disse ele.

O olhar percorreu o rosto dela, o cabelo preso sem cuidado e a barra da calça marcada por uma mancha de terra.

Ana resistiu ao impulso de ajeitar a roupa.

— Eu dormi pouco.

— Eu percebi.

A resposta veio suave, quase cuidadosa — e ainda assim Ana sentiu um desconforto antigo, difícil de explicar.

Ele tentou tocar o braço dela. Ana recuou antes do contato.

A mão dele ficou suspensa.

— O que aconteceu?

— Nada que diga respeito a você.

A frase saiu mais dura do que ela pretendia.

Ele respirou fundo.

— Está vendo? É exatamente por isso que eu vim. Você não está bem.

Ana sentiu a raiva da noite anterior reagir.

— Eu disse que dormi pouco.

— Você sempre dorme pouco quando está se desorganizando.

— Eu não estou me desorganizando.

Os contratos espalhados sobre a mesa da cozinha apareceram no campo de visão dela. A anotação de Augusto. O mapa cercado. O beijo de Gabriel. Talvez estivesse, sim, desorganizada, mas aquilo não dava ao ex o direito de decidir o significado.

— Vamos entrar? — ele perguntou, olhando para as cadeiras antigas da varanda. — Está cheio de mosquito aqui.

— Conversamos aqui.

Rafael passou os olhos pela casa outra vez.

— Tudo bem. Vou ser direto. Eu vim buscar você.

Ana olhou para o carro.

Havia uma mala no banco traseiro.

A certeza dele a irritou mais do que a frase.

— Eu não pedi para ser buscada.

— Eu sei que está magoada.

— Não tem relação com mágoa.

— Tem relação com o quê, então? Com essa fazenda?

Ele abriu uma das mãos na direção do terreiro, incluindo a casa, o galpão e o curral no mesmo gesto — não exatamente desprezo, mas uma dificuldade evidente de entender aquele lugar.

— Você largou tudo para vir morar aqui e tentar salvar uma propriedade falida.

— Eu não estou brincando.

— Ana, você foi vender geleia em uma feira.

Ela ficou imóvel.

— Como sabe disso?

— As pessoas comentam. Você acha que ninguém da cidade fala com gente de fora? Tem foto sua circulando.

— Eu vendi produtos da fazenda.

— Exatamente.

Ele soltou uma pequena risada, mais nervosa do que cruel.

— Você é programadora. Trabalhava com projetos grandes, clientes importantes, tecnologia. Agora está cozinhando doce e discutindo preço de ovo.

— As duas coisas exigem trabalho.

— Não são a mesma coisa.

— Eu não disse que são.

— Então por que está fingindo que isso combina com você?

A pergunta tocou a mensagem que ele enviara dias antes.

Você nunca quis essa fazenda de verdade.

Ana sentiu a frase antiga voltar, procurando o mesmo ponto ferido.

— Talvez eu ainda esteja descobrindo o que combina comigo.

— Você não precisa se perder para descobrir.

— Eu não estou perdida.

— Está prestes a entrar no carro para ir aonde?

Ana percebeu a chave em sua mão.

— Resolver um problema.

— Com quem?

Ela não respondeu.

Rafael acompanhou seu olhar até os documentos na cozinha.

— É com aquele fazendeiro?

Ana sentiu o corpo ficar alerta.

— Qual fazendeiro?

— Gabriel Belmonte.

Seu Cícero se mexeu discretamente perto da porta.

— Quem falou dele para você? — perguntou Ana.

— Você mencionou o nome nas mensagens. E, como eu disse, tem gente comentando.

— Comentando o quê?

Rafael inclinou a cabeça.

— Que ele anda ajudando você. Que apareceu na feira depois de muito tempo. Que ficou parado na sua banca.

Ana sentiu o beijo voltar à memória. Não havia como ele saber daquilo, mas a culpa súbita fez parecer que sabia.

— Gabriel tem um contrato com a fazenda.

— Claro que tem.

— O que isso quer dizer?

— Quer dizer que um homem como ele não perde tempo sem querer alguma coisa.

A frase atingiu diretamente a descoberta da noite.

Ana apertou a mandíbula.

— Eu sei que ele quer a terra.

— Então venda.

A rapidez da resposta revelou que ele já pensara nisso.

— Não.

— Por quê?

— Porque eu não quero.

— Você acabou de dizer que ele quer a propriedade. Aproveita. Paga as dívidas, encerra essa loucura e volta para casa.

— Esta é minha casa.

Rafael olhou para as telhas remendadas e para a tinta descascada.

— Ana, por favor.

A descrença dele não parecia maldade — parecia incapacidade de enxergar aquilo como escolha possível.

— Você sabe o que eu quis dizer — disse ele.

— Sei — respondeu Ana. — Você quis dizer a casa que escolheu por nós.

— Nossa casa — insistiu ele.

— Seu apartamento — corrigiu ela.

— Você morava lá.

— Morava na parte que eu conseguia caber.

A expressão dele se fechou, mais ferida do que irritada.

— Eu não vim discutir o passado.

— Veio me buscar para voltar.

— Vim porque você está cansada demais para tomar uma decisão racional.

Ana sentiu a raiva subir.

A noite sem dormir, o silêncio de Gabriel diante do mapa, os contratos, o número reciclado de Augusto e a lembrança do beijo começaram a se acumular atrás de seus olhos.

Mesmo assim, tentou manter a voz calma.

— Minha decisão é ficar.

— Você não sabe administrar uma fazenda.

— Estou aprendendo.

— Com quem? Com esse Gabriel?

— Isso não é assunto seu.

— Passa a ser quando você ignora todo mundo e se enfia aqui com um homem que claramente está se aproveitando.

Ana deu um passo à frente.

— Não use Gabriel para fingir que isso é preocupação comigo.

— Eu estou tentando abrir seus olhos.

— Meus olhos estão bem abertos.

— Não parecem.

Ele baixou o tom e se aproximou, assumindo a postura paciente de quem tenta explicar algo difícil.

— Ana, olha para você. Você está cansada, irritada, dormindo mal e falando com todo mundo como se estivesse sendo atacada. Isso aqui não está fazendo bem.

— Eu estou sob pressão.

— Uma pressão que não precisa carregar.

— A fazenda era do meu tio.

— Seu tio deixou uma bomba.

O corpo dela endureceu.

— Cuidado.

— Estou dizendo a verdade. Ele fez dívidas e deixou tudo para você resolver. Você não deve destruir a própria vida por culpa.

Ana viu Augusto assinando contratos. Viu a mensagem para o número reciclado. Ouviu Gabriel dizendo que estivera ali enquanto ela não estava.

Rafael percebeu o silêncio e suavizou o rosto.

— Você não precisa se punir por ter se afastado dele.

Ana engoliu.

— Eu não quero falar sobre isso.

— Eu sei que você se sente mal, mas ficar aqui não vai trazê-lo de volta.

A frase abriu alguma coisa dentro dela.

— Eu disse para não falar sobre ele.

— Alguém precisa falar, porque você não está pensando direito.

— Pare de dizer isso.

— Mas você não está.

Ele apontou para a casa.

— Você realmente acredita que vai salvar isso? Vendendo bolo? Criando planilha? Dependendo de um fazendeiro que provavelmente só está esperando você cansar para comprar barato?

Ana sentiu a voz sair antes que pudesse controlá-la.

— Pelo menos eu estou fazendo alguma coisa.

— Está se humilhando.

— Trabalhar não é humilhação.

— Você passou anos construindo uma carreira para acabar atrás de uma banca, sendo atração para cidade pequena.

— Eu vendi quase tudo.

— E ganhou o quê? Trezentos reais?

O valor aproximado a fez perceber que ele havia procurado informações.

— Quem contou?

— Não importa.

— Importa para mim.

— Está vendo? Você se prende a detalhes e foge do problema. Isso aqui não é você.

Ana respirou fundo.

— Você não sabe mais quem eu sou.

— Eu conheço você melhor do que qualquer pessoa.

— Não.

— Ana.

— NÃO.

A palavra saiu mais alta.

Seu Cícero permaneceu perto da porta, mas não interveio.

Rafael olhou ao redor, atento ao volume da voz dela.

— Não precisa fazer cena.

A frase terminou de romper o pouco controle que restava.

— Cena?

Ana desceu o último degrau e parou diante dele.

— VOCÊ ATRAVESSOU HORAS DE ESTRADA SEM CONVITE, TROUXE UMA MALA PORQUE DECIDIU QUE EU VOLTARIA COM VOCÊ, CHAMOU MEU TRABALHO DE HUMILHAÇÃO, MINHA CASA DE LOUCURA E MEU TIO DE IRRESPONSÁVEL. E AGORA QUER DECIDIR O VOLUME DA MINHA VOZ?

— Abaixa a voz.

— NÃO VOU ABAIXAR.

Um bando de pássaros levantou voo de uma árvore próxima.

Rafael passou a mão pelo cabelo, constrangido.

— Você está descontrolada.

— EU PASSEI ANOS ME CONTROLANDO PARA VOCÊ!

As palavras saíram mais rápidas.

— EU LEMBRO DE ME SENTIR DIMINUÍDA O TEMPO TODO. TALVEZ NÃO FOSSE SEMPRE ASSIM, TALVEZ FOSSE COISA MINHA, MAS ERA ASSIM QUE EU ME SENTIA. EU MEDIA O QUE FALAVA, O QUE FAZIA, O QUE QUERIA… PARA NÃO INCOMODAR.

— Isso não aconteceu assim.

— FOI ASSIM PARA MIM.

— Eu nunca proibi você de vir.

— NÃO PRECISAVA PROIBIR. VOCÊ FAZIA CARA, DIZIA QUE ERA DESPERDÍCIO DE TEMPO E EU ACABAVA DESISTINDO.

— Eu só não gostava daqui.

— EU SEI.

A expressão dele endureceu, mas havia algo de confusão ali também.

— Isso é injusto.

— Talvez seja. Mas é o que ficou em mim.

A frase saiu antes que Ana pudesse segurar.

A dor veio junto, afiada demais. Ela se virou por um instante, tentando recuperar o ar.

Rafael se aproximou.

— É disso que estou falando. Você está se culpando e está descontando em mim.

Ana virou-se novamente.

— Você ajudou.

— Eu não afastei você de ninguém.

— Talvez não diretamente. Mas eu fui me afastando.

— Eu organizei nossa vida porque alguém precisava.

— E eu fui me encaixando nisso até não saber mais onde eu estava.

Ele soltou o ar, impaciente.

— Eu vim até aqui porque me preocupo, Ana. E você está me tratando como inimigo porque é mais fácil do que admitir que cometeu um erro.

— Meu erro foi ficar tempo demais.

O silêncio caiu entre eles.

A expressão dele mudou. Por um instante, Ana viu a dor. Depois ele se recompôs.

— Eu conheço você. Você não é assim.

A frase veio baixa, triste.

Ana olhou para ele e percebeu, com uma clareza súbita, que ele acreditava naquilo. A versão dela que pedia desculpas, aceitava ajustes e evitava conflito era, para ele, a verdadeira. Qualquer mulher fora daquele formato só podia estar confusa, cansada ou sendo influenciada por alguém.

— Não — respondeu Ana, ainda ofegante. — Você conhecia a versão de mim que não dava trabalho.

Ele permaneceu imóvel.

Então seus olhos se estreitaram de leve.

— Está vendo como está falando? Eu vim ajudar e você está gritando comigo na frente de um estranho.

Seu Cícero endireitou o corpo.

— Eu não sou estranho.

Rafael ignorou.

— Você não age assim, Ana. Essa fazenda, essas pessoas, esse Gabriel… tudo isso está fazendo você perder o controle.

Ana abriu a boca para responder, mas parou.

Ele estava usando sua explosão.

Cada grito se transformava em prova. Cada acusação servia para demonstrar que ela não era capaz de decidir. Quanto mais tentasse convencê-lo, mais ele apontaria a tentativa como descontrole.

Ana olhou para a chave presa na mão.

Os dedos doíam.

Ela os afrouxou.

Respirou devagar uma vez. Depois outra.

Rafael confundiu o silêncio com vitória e se aproximou.

— Pronto. Vamos conversar com calma. Pegue algumas roupas. A gente resolve o resto depois.

Ele estendeu a mão para tocar seu ombro.

Ana recuou.

— Não encosta em mim.

A voz saiu baixa.

Ele parou.

— Ana…

— Eu gritei porque estou com raiva. Você vai usar isso para dizer que não sei o que estou fazendo. Talvez eu realmente precise aprender a controlar melhor a minha raiva, mas não para voltar a obedecer você.

— Eu nunca pedi isso.

— Pediu o tempo inteiro. Só chamava de cuidado.

Rafael ficou olhando pra ela.

Ana apontou para o carro.

— Nós terminamos. Você não veio me buscar porque eu não pedi para ser buscada. Você não entra na minha casa, não leva minhas coisas e não decide quando eu estou cansada demais para pensar. E não aparece novamente sem ser convidado.

— Você está falando sério?

— Estou.

— Depois de eu dirigir até aqui?

— A distância que você dirigiu não compra minha decisão.

A irritação apareceu por inteiro no rosto dele.

— E quando isso desmoronar? Quando perceber que não sabe administrar a fazenda, que esse Gabriel usou você e que ninguém daqui vai ajudá-la de verdade?

O nome de Gabriel atingiu a ferida aberta.

Ana sentiu o beijo, o mapa e a anotação de Augusto se misturarem.

Não desviou o olhar.

— Então eu resolvo. Mas agora eu só quero que você vá embora.

— Você vai se arrepender.

Ana sustentou o olhar dele.

— Talvez. Mas vai ser um erro meu.

Rafael soltou uma risada, incrédulo.

— Você acha isso bonito agora. Liberdade, independência, fazenda… Quando tudo desmoronar, não venha dizer que eu não avisei.

— Não vou.

— E não espere que eu esteja disponível para consertar.

A ameaça estava ali: ele retiraria o cuidado caso Ana não aceitasse o controle.

Durante muito tempo, aquilo teria sido suficiente para fazê-la recuar.

Ana apenas abriu espaço no caminho da varanda.

— Boa viagem.

Ele ficou parado por alguns segundos, esperando que ela suavizasse, pedisse desculpas ou ao menos demonstrasse medo da perda.

Ana não fez nada.

Por fim, Rafael desceu os degraus. O sapato afundou em uma parte macia do terreno e ele praguejou baixo, limpando a lateral na grama antes de continuar até o carro.

Ao abrir a porta, voltou-se uma última vez.

— Essa não é você.

Ana segurou a pasta de contratos junto ao corpo.

— Talvez você nunca tenha me conhecido o bastante para saber.

Ele entrou no carro e bateu a porta.

O motor ligou. O veículo deu a volta com dificuldade no terreiro e seguiu em direção à estrada, levando uma nuvem baixa de poeira atrás de si.

Ana permaneceu onde estava até o som desaparecer.

Só então percebeu que tremia.

Seu Cícero aproximou-se devagar, sem tentar abraçá-la ou dizer que tudo ficaria bem.

— Quer um café, pinguinha?

Ana olhou para a chave ainda em sua mão.

Depois para a pasta com o nome de Gabriel.

— Eu ia sair.

— Eu sei.

— Ia atrás dele.

Seu Cícero acompanhou seu olhar até os contratos.

— Ainda vai?

Ana pensou em Gabriel, na anotação do tio e no mapa cercado de vermelho. A raiva continuava ali, mas já não era limpa. Estava misturada à exaustão, ao medo e ao gosto amargo da conversa que acabara de ter.

Chegar à fazenda de Gabriel naquele estado seria oferecer a ele a mesma vantagem que Rafael quase usara: uma emoção grande demais e pouco controle sobre o que ela diria.

Ana soltou o ar.

— Hoje, não.