Ana entrou em casa sem olhar para trás.

Atravessou a sala com a chave do carro ainda presa na mão e os contratos apertados contra o peito. O silêncio que encontrou dentro da casa não era verdadeiro. A voz de Rafael continuava nela, misturada à própria gritaria, às coisas que dissera e às que teria dito se não tivesse conseguido parar.

Você está descontrolada.

A frase permanecia grudada às outras, mais antigas, que ela não conseguia mais separar com precisão.

Ana passou pela cozinha. O mapa marcado de vermelho ainda estava aberto sobre a mesa, cercado pelos contratos, pelos cadernos de Augusto e pela anotação que havia transformado o beijo de Gabriel em outra coisa.

Gabriel é persuasivo demais quando sabe que a pessoa está sem saída.

Ela não parou.

Entrou no corredor, fechou a porta do quarto e deixou a pasta cair sobre uma cadeira. A chave do carro foi parar no criado-mudo. Ana tirou os sapatos sem desamarrá-los e sentou-se na beirada da cama.

As mãos tremiam.

Não sabia se era de raiva, exaustão ou vergonha.

Talvez das três coisas.

Durante alguns minutos, ficou olhando para os próprios dedos, ainda marcados pela força com que segurara a chave. Rafael havia chegado vestido como se viesse resgatá-la de uma vida errada e fora embora levando a certeza de que ela perdera o controle.

Ana odiava ter lhe dado aquilo.

Odiava também que parte do que dissera fosse verdade.

Ela havia desaparecido aos poucos. Evitara conversas, cedera finais de semana, cancelara visitas. Mas, ao gritar, tudo parecera menos uma descoberta e mais uma arma lançada contra ele. Agora não sabia quanto daquelas lembranças pertencia à realidade, quanto fora deformado pela raiva e quanto tempo passara ignorando o próprio desconforto até ele se tornar impossível de explicar sem explodir.

Ana deitou-se sem trocar de roupa.

A luz da manhã entrava pela janela voltada para o pomar. Entre as frestas da cortina, ela conseguia ver parte das goiabeiras, o telhado baixo da cozinha e uma faixa do terreiro onde a poeira levantada pelo carro de Rafael já havia desaparecido.

A fazenda voltara ao normal depressa demais.

Uma galinha cacarejou perto da janela. Mais longe, alguma ferramenta caiu dentro do galpão. O vento movimentou as folhas do pomar, produzindo um ruído contínuo que Ana lembrava de ouvir quando criança, deitada naquela mesma cama.

Naquela época, o quarto parecia maior.

A janela também.

Havia também, em algum lugar mais antigo da memória, a ausência dos pais de Ana. Eles morreram quando ela ainda era criança, e as fotografias da fazenda nunca os mostravam com frequência — apenas ecos em relatos de Augusto e Seu Cícero, como se a vida deles tivesse sido interrompida antes de se fixar nas imagens.

Ela fechou os olhos.

Não dormiu.

Algum tempo depois, três batidas leves soaram na porta.

Ana não respondeu.

Seu Cícero esperou um pouco antes de bater novamente.

— Pinguinha?

Ela passou o antebraço sobre o rosto, embora não estivesse chorando.

— Pode entrar.

A porta abriu devagar.

Seu Cícero apareceu carregando um objeto grande contra o peito. Era um álbum de fotografias antigo, de capa marrom, com as bordas gastas e uma faixa de tecido protegendo a lombada.

Ele entrou sem perguntar se Ana estava bem. Também não comentou a discussão, a voz alta ou o carro que acabara de deixar a fazenda.

Apenas fechou a porta e permaneceu perto dela.

— Posso sentar?

Ana afastou os pés para abrir espaço na lateral da cama.

Seu Cícero sentou-se com cuidado e colocou o álbum entre os dois.

— Achei isso no armário da sala — explicou ele. — Pensei que podia ajudar.

Ana olhou para a capa.

— Ajudar com o quê?

Seu Cícero passou a mão sobre o couro gasto.

— Não sei ainda.

A resposta quase a fez sorrir.

Ele não abriu o álbum. Deixou que Ana decidisse.

Ela demorou um pouco antes de puxá-lo para o colo. A capa resistiu, presa pelo tempo, e produziu um estalo quando finalmente cedeu.

Na primeira página, havia uma fotografia da varanda da Fazenda Formosa muito antes das infiltrações, das telhas remendadas e das tábuas soltas. A mesa grande de madeira ocupava o centro, coberta por uma toalha clara. Redes pendiam dos ganchos nas extremidades, e várias pessoas estavam sentadas ao redor.

Ana reconheceu Augusto, mais jovem, inclinado sobre a mesa enquanto cortava um bolo.

No colo dele havia uma menina de cabelos pretos, franja torta e os dois joelhos sujos.

— Eu devia ter uns quatro anos — disse Ana.

— Quase cinco — corrigiu Seu Cícero. — Foi no aniversário de dona Lurdes.

Ana aproximou o álbum.

Na foto seguinte, ela aparecia descalça na beira do rio Formosa, com a barra do vestido molhada e os braços levantados enquanto Augusto tentava impedi-la de entrar mais fundo. Atrás deles, o rio parecia maior, largo e brilhante sob o sol. Havia uma canoa presa a uma árvore e toalhas abertas sobre a grama.

— O rio sempre foi daquele tamanho? — perguntou Ana.

— Continua igual. Você que cresceu.

Ela passou para a próxima página.

Ana segurava uma espiga de milho quase do tamanho do próprio braço. Na fotografia ao lado, estava sentada sobre um saco de ração, com palha presa ao cabelo e uma expressão séria enquanto Seu Cícero, muitos anos mais novo, apontava para alguma coisa fora do enquadramento.

— Eu lembro dessa blusa — murmurou Ana.

— Sua mãe reclamou quando viu a sujeira.

— Ela sempre reclamava.

— Seu tio disse que roupa de criança tinha obrigação de voltar suja.

Mais adiante, havia fotografias da cozinha. Dona Lurdes, de presença serena e mãos que pareciam sempre saber o peso exato do mundo, estava diante do fogão, mexendo uma panela grande. Augusto segurando uma forma de bolo de milho com um pano enrolado nas mãos. Ana em pé sobre uma cadeira, tentando alcançar a massa com uma colher.

Em uma das fotos, ela tinha farinha no rosto.

Augusto ria atrás dela.

Ana permaneceu olhando por tempo demais.

A cozinha era reconhecível, mas viva de uma forma que ela quase não recordava. As prateleiras estavam cheias de potes. Havia ervas secando perto da janela, panos coloridos cobrindo pães e uma fileira de panelas brilhando sobre o fogão. Pela porta aberta, via-se a mesa da varanda ocupada por pessoas.

A Fazenda Formosa não parecera sempre cansada.

Tinha sido barulhenta.

Cheia.

Na página seguinte, Ana aparecia no galinheiro, fugindo de um galo com os braços levantados. Depois, coberta de lama perto do curral. Em outra, dormia atravessada em uma das redes da varanda, com um pé descalço pendendo para fora enquanto Augusto lia numa cadeira ao lado.

— Ele ficava aí até você acordar — contou Seu Cícero.

— Por quê?

— Porque você dizia que a rede virava barco quando dormia sozinha.

Ana tocou a borda da fotografia.

Não se lembrava disso.

Também não se lembrava do chapéu de palha sobre a barriga de Augusto, do rádio pequeno no chão ou do copo de café sobre o braço da cadeira. Eram detalhes de uma vida que fora dela e, ao mesmo tempo, parecia pertencer a outra pessoa.

As páginas avançavam pelos anos.

Havia festas juninas no terreiro, mesas compridas sob bandeirinhas, espigas assadas perto de uma fogueira e crianças correndo entre os adultos. Havia um Natal na varanda, com um pinheiro pequeno montado dentro de um balde de metal e caixas de presente sob a mesa. Havia pescarias no rio, colheitas no pomar, tardes na cozinha e fotografias diante de animais que Ana já não sabia nomear.


Os pais de Ana apareciam nas primeiras fotografias. Ela ainda se lembrava deles, embora essa dor já estivesse há muito tempo adormecida.

No começo, Ana também estava em quase todas.

Depois começou a aparecer menos.

Em uma fotografia, já adolescente, Ana estava sentada na mureta da varanda com os braços cruzados e o celular na mão. Augusto aparecia ao fundo carregando uma cesta de goiabas. Ela não olhava para ele nem para a câmera.

Na página seguinte, havia apenas duas fotos de uma visita rápida. Ana diante da casa, usando uma mochila. Ana dentro do carro, acenando pela janela.

Depois, um Natal.

Ela estava ao lado do tio, mas havia um espaço estranho entre os dois. Augusto sorria para a câmera. Ana olhava para o celular.

— Eu lembro desse dia — disse ela.

Seu Cícero não perguntou o quê.

Ana lembrava de Rafael mandando mensagens porque chegaria cedo ao apartamento. Lembrava de ter pedido a Augusto que adiantasse o almoço. Lembrava de recusar o bolo, dizendo que comeria na estrada.

Não lembrava do que conversara com o tio.

Virou a página.

As fotografias da fazenda continuavam.

Augusto diante do galpão.

Seu Cícero segurando um leitão.

Dona Alzira na varanda com um pote de geleia.

O rio durante uma cheia.

Um pé de goiaba carregado.

A mesa vazia depois de um almoço.

Ana não estava em nenhuma.

Ela procurou nas páginas seguintes, passando-as mais depressa.

Uma festa sem ela.

Uma colheita sem ela.

Augusto sentado sozinho na varanda, com a caneca azul diante de si.

Em outra fotografia, ele aparecia perto da entrada da fazenda segurando uma placa nova. Estava mais magro. A pintura da casa já começava a descascar atrás dele.

Ana voltou duas páginas, como se pudesse ter deixado alguma foto passar.

Não havia.

— Ele continuava tirando fotos — disse ela.

— Seu Augusto gostava de guardar as coisas.

— Mesmo quando eu não vinha.

Seu Cícero manteve os olhos no álbum.

Ana passou a ponta dos dedos sobre uma fotografia do tio sentado à mesa da cozinha. Havia cadernos abertos diante dele, recibos espalhados e uma expressão de cansaço que ela agora reconhecia.

A data escrita atrás da foto correspondia a uma das semanas em que Augusto lhe telefonara três vezes.

Ana não atendera.

Na primeira chamada, estava em uma reunião.

Na segunda, jantava com Rafael e amigos.

Na terceira, viu o nome do tio na tela e pensou que retornaria no dia seguinte.

Não retornou.

— Eu sempre achava que tinha tempo — disse Ana.

Seu Cícero apoiou as mãos sobre os joelhos.

— A gente quase sempre acha.

Ela virou mais uma página.

Estava vazia.

Não havia fotografia depois daquela.

Ana olhou para a folha grossa e amarelada, depois voltou ao retrato de Augusto na cozinha.

Sua garganta se fechou, mas nenhuma lágrima veio.

Era como se o corpo se recusasse a avançar até o lugar onde a perda se tornaria real.

Ela sabia o que tinha acontecido. Sabia desde antes de chegar à fazenda. Assinara documentos. Falara com pessoas. Entrara na casa sem encontrá-lo. O número dele já pertencia a outra pessoa.

Ainda assim, alguma parte dela continuava esperando.

Ana levantou os olhos para Seu Cícero.

— Seu Cícero…

Ele se virou para ela.

A pergunta demorou a sair.

— Ele morreu mesmo?

O rosto do homem se contraiu. Seu Cícero respirou fundo antes de responder.

— Morreu, pinguinha.

Ana olhou novamente para a fotografia.

Esperou que alguma coisa acontecesse.

Que a verdade abrisse o peito. Que o choro viesse. Que a casa mudasse de tamanho ou o quarto se tornasse mais vazio.

Nada aconteceu.

Ela apenas fechou o álbum.

O som da capa encontrando as páginas pareceu definitivo demais.

— Eu ainda não consigo acreditar nisso.

Seu Cícero não tentou convencê-la.

Pousou a mão sobre o álbum fechado, perto da mão dela, sem cobri-la.

Os dois permaneceram sentados em silêncio enquanto, do lado de fora, o vento atravessava o pomar e fazia as folhas das goiabeiras tocarem umas nas outras.

A fazenda continuava viva ao redor deles.

Augusto, não.

Notas finais
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