Margem do Formosa

7 O que São Gabriel sabia


Ana descobriu que São Gabriel tinha sinal de celular antes mesmo de ver a praça.

O aparelho vibrou no porta-copos do Corolla com tanta violência que ela quase desviou para dentro de uma valeta.

— Agora você volta? — Ana perguntou para o celular. — Depois que eu quase fui adotada por um gambá?

Seu Cícero, no banco do passageiro, segurava a lista de compras no colo e fingia não achar graça da briga dela com objetos inanimados.

— Aqui na entrada da cidade pega melhor — ele explicou. — Perto da fazenda, só se subir no morro ou no pé de manga.

— Claro. Porque infraestrutura de telecomunicação devia mesmo depender de frutífera.

O celular vibrou de novo.

Depois outra vez.

E outra.

Ana estacionou perto da praça antes de olhar. Havia mensagens antigas chegando todas de uma vez: notificação do banco, cobrança, uma propaganda de internet que parecia deboche e, no meio de tudo, o nome que ela tinha tentado não procurar.

O ex.

A mensagem era curta.

Você está mesmo levando essa história da fazenda a sério? Ana, volta pra casa. Isso não combina com você.

Ela ficou olhando para a tela.

O barulho da cidade pequena continuou ao redor: uma moto passando devagar, uma senhora chamando alguém na calçada, sinos pendurados na porta de uma loja, um caminhão descarregando engradados.

Seu Cícero percebeu o silêncio.

— Algum problema, pinguinha?

Ana bloqueou a tela.

— Não. Só uma praga urbana tentando se adaptar ao sinal rural.

Ele não perguntou. Talvez por delicadeza. Talvez porque já soubesse que algumas dores vinham com nome próprio e não precisavam ser apresentadas.

Ana respirou fundo e olhou pela janela.

São Gabriel era menor do que ela lembrava, mas não pequena o bastante para ser simples. A praça tinha árvores antigas, bancos de cimento, uma igreja clara no fundo, crianças de uniforme atravessando a rua e uma fileira de comércios baixos com toldos coloridos. A cidade cheirava a pão fresco, café coado, fruta madura e poeira quente.

Na esquina, uma padaria exibia uma placa escrita à mão:

Pão saindo agora.

Ana apontou.

— A gente começa ali.

— Pela bomba d’água?

— Pelo café. Eu funciono antes da bomba, Seu Cícero.

Ele sorriu.

A Padaria São Bento era estreita, cheia e barulhenta. O balcão de vidro exibia pão francês, broa de milho, rosca doce e biscoitos de polvilho. O cheiro era tão bom que Ana sentiu uma traição imediata ao próprio mau humor.

Atrás do balcão, uma moça de rabo de cavalo e olhos curiosos ergueu a cabeça.

— Seu Cícero! O senhor sumiu.

— Tava lá na Formosa, Bia.

O olhar da atendente saltou para Ana com velocidade impressionante.

— Então você é ela.

Ana piscou.

— Depende do crime.

Bia arregalou os olhos e depois riu.

— A sobrinha do seu Augusto. A da capital.

Ana olhou para Seu Cícero.

— A cidade toda recebeu memorando?

— Aqui a notícia anda sozinha — ele respondeu.

Bia apoiou os cotovelos no balcão, interessada demais.

— Você veio ficar mesmo?

Ana sentiu a pergunta atravessar a padaria. Dois homens numa mesa perto da janela reduziram a conversa. Uma senhora fingiu escolher roscas com muita atenção.

— Vim — Ana respondeu.

— Na Formosa?

— Normalmente a dona da fazenda mora na fazenda.

Bia ficou sem graça.

— Não, é que… faz tempo que aquilo lá está difícil.

Ana manteve o rosto firme.

— Eu notei. A casa fez questão de me atualizar.

A moça sorriu, mas com cautela.

— Seu Augusto segurou como pôde.

A frase veio sem maldade, e talvez por isso incomodou mais.

Ana pegou uma bandeja.

— Dois cafés e quatro pães de queijo, por favor.

Seu Cícero corrigiu:

— Seis.

Ana olhou para ele.

— Seis?

— A manhã vai ser comprida.

— O senhor está me assustando.

— Melhor comer.

Eles tomaram café em pé, perto do balcão. Ana tentava se concentrar na lista: correia da bomba, ração, pregos, arame, uma extensão decente, orçamento de freezer, informação sobre dívida, contato de fornecedor. Mas a cidade parecia se organizar em volta dela como um sistema de vigilância afetiva.

Quando saíram da padaria, Bia chamou:

— Ana?

Ela se virou.

— Se precisar de alguma coisa… minha mãe conhecia seu tio.

Ana assentiu, sem saber o que fazer com aquela gentileza.

— Obrigada.

Na mercearia ao lado, a situação foi menos gentil.

O dono, um homem baixo chamado Valdir, reconheceu Seu Cícero e olhou Ana de cima a baixo com uma pena que ela detestou de imediato.

— A menina do Augusto — ele disse.

Ana sorriu sem mostrar os dentes.

— Ana.

— Claro, claro. Ana. Vai tocar a Formosa agora?

— Essa é a ideia.

Valdir soltou um suspiro comprido, como se estivesse diante de um animal machucado.

— Seu tio segurou aquilo lá até onde pôde. Agora, moça… tem terra que sabe a hora de trocar de mão.

O silêncio ficou duro.

Seu Cícero fechou a cara.

Ana apoiou a lista no balcão.

— Interessante. A terra comentou isso com o senhor ou foi só opinião de balcão?

Valdir se atrapalhou.

— Não falei por mal.

— Imagino que não. Quase ninguém fala por mal quando está enterrando os outros antes da hora.

Seu Cícero baixou a cabeça para esconder um sorriso.

Ana comprou só o básico: fósforo, sabão, pilhas, café, uma lanterna pequena. Valdir explicou, com excesso de cuidado, que a conta antiga da fazenda estava “parada” e que ele preferia não pendurar mais nada antes de “acertarem as coisas”.

Ana pagou no débito.

O comprovante saiu da maquininha como uma pequena humilhação formal.

Do lado de fora, ela respirou fundo.

— Isso vai acontecer em todas as lojas?

Seu Cícero olhou para a praça.

— Em algumas.

— Ótimo. Vou criar uma coluna nova: estabelecimentos que já me declararam morta.

— Pinguinha…

— Estou brincando.

Ele não pareceu convencido.

Antes de chegarem à agropecuária, uma mulher saiu de uma loja de roupas com sacolas no braço e óculos escuros grandes demais para a sombra da calçada. Era elegante de um jeito estudado: vestido claro, sandália fina, cabelo castanho perfeitamente escovado. Ela parou ao ver Ana, e o sorriso que abriu parecia bonito só até chegar aos olhos.

— Você deve ser Ana — a mulher disse.

Ana já estava começando a odiar aquela frase.

— E você deve ser alguém que eu ainda não tive o prazer de evitar.

Seu Cícero tossiu.

A mulher tirou os óculos devagar.

— Helena Vilar.

O nome não significou nada para Ana, mas significou alguma coisa para Seu Cícero. Ela percebeu pelo jeito como ele ficou mais quieto.

— Prazer — Ana respondeu, sem muita convicção.

Helena olhou para a roupa simples de Ana, depois para o All Star já marcado de barro seco.

— Corajosa, você. Pouca gente da capital aguenta a Formosa por mais de uma semana.

— Estou no segundo dia. Ainda posso decepcionar suas estatísticas.

Helena sorriu.

— Gabriel disse que você tinha resposta rápida.

Ana sentiu o nome dele como uma pedra pequena jogada na água.

— Gabriel fala de mim?

— Gabriel fala de tudo que pretende resolver.

A frase veio doce. Venenosa o suficiente para não precisar levantar a voz.

Ana inclinou a cabeça.

— Que curioso. Eu não sabia que estava com defeito.

Helena pareceu gostar da resposta e odiá-la ao mesmo tempo.

— Não leve para o lado pessoal. Ele tem mania de comprar problema dos outros.

Seu Cícero deu um passo discreto para perto de Ana.

— A gente precisa ir, pinguinha.

Ana sustentou o olhar de Helena por mais um segundo.

— Foi um prazer quase completo.

Helena recolocou os óculos.

— Bem-vinda a São Gabriel, Ana.

Elas seguiram em direções opostas.

Ana esperou alguns passos antes de falar:

— Eu deveria saber quem é essa mulher?

Seu Cícero coçou a nuca.

— Dona Helena é de família antiga.

— Tradução?

— Tem dinheiro, tempo livre e memória boa demais.

— E Gabriel?

Seu Cícero olhou para a fachada da agropecuária adiante.

— Gabriel é assunto que a cidade gosta de temperar.

Ana acompanhou o olhar dele.

A Agropecuária São Gabriel ficava na esquina, com sacos de ração empilhados na entrada, botas penduradas na vitrine, cheiro de milho, couro, remédio veterinário e terra seca. Homens de chapéu conversavam perto da porta. Um funcionário carregava uma sela no ombro. No letreiro, as letras vermelhas estavam desbotadas pelo sol.

Ana apertou a lista na mão.

— Correia da bomba, ração, arame e o mínimo de dignidade comercial.

Seu Cícero abriu a porta para ela.

— Vamos ver o que dá pra salvar.

Ana entrou na agropecuária achando que ia negociar com uma loja.

Ainda não sabia que estava prestes a ver como São Gabriel realmente funcionava.