Margem do Formosa
8 A quem São Gabriel obedece
A Agropecuária São Gabriel tinha cheiro de ração. Havia sacos empilhados até quase o teto, botas penduradas na parede, uma sela exposta como se fosse peça de museu e um papagaio verde em um poleiro perto do caixa, olhando para todo mundo com evidente desprezo.
— Esse papagaio é funcionário? — Ana perguntou baixo.
Seu Cícero respondeu no mesmo tom:
— É o Nicolau.
— Ele morde?
— Só quem deve.
Ana olhou para o papagaio.
O papagaio olhou de volta.
— Então espero que ele não tenha acesso ao histórico da Formosa.
Atrás do balcão, Arlindo, o dono da loja, ergueu os olhos de um catálogo de peças. Era um homem grande, de bigode grisalho e camisa polo verde e amarela, com a expressão cautelosa de quem já tinha visto muita gente pedir fiado com esperança demais.
— Cícero.
— Arlindo.
Eles apertaram as mãos.
Arlindo olhou para Ana.
— A sobrinha do Augusto.
Ana respirou fundo.
— Ana. Estou considerando mandar fazer uma faixa. Ou um sino. Toda vez que eu entrar num lugar, alguém toca e anuncia.
O papagaio abriu as asas.
— Ana! Ana! Ana!
Ela virou lentamente para o poleiro.
— Isso foi coincidência?
Seu Cícero apertou os lábios para não rir.
Arlindo pareceu se animar.
— Nicolau aprende rápido.
— Péssima notícia para a minha privacidade.
Seu Cícero entregou a lista ao balcão.
— A gente precisa dessas coisas.
Arlindo pegou o papel e leu em voz alta:
— Correia de bomba, ração de poedeira, arame, prego, fita isolante, mangueira, lâmpada, veneno de formiga…
Ana acrescentou:
— E um orçamento de freezer.
Arlindo levantou os olhos.
— Freezer?
— Sim. O nosso entrou em aposentadoria sem aviso prévio.
— Que marca?
Ana olhou para Seu Cícero.
Seu Cícero olhou para o teto.
— Branca.
Ana voltou para Arlindo.
— Aparentemente, a marca é branca.
O papagaio gritou.
— Ele está julgando a gente? — Ana perguntou.
— Todo dia — Arlindo respondeu.
Ele separou alguns itens no balcão, mas foi ficando mais devagar conforme avançava na lista. A expressão dele mudou de vendedor para portador de má notícia.
Ana reconheceu na hora.
Era a mesma cara do advogado quando disse “tem algumas pendências”.
— Qual é o porém? — Ana perguntou.
Arlindo pigarreou.
— A conta da Fazenda Formosa está complicada.
— Complicada tipo “vamos conversar” ou complicada tipo “o papagaio vai me atacar”?
Nicolau inclinou a cabeça.
Ana apontou para ele.
— Ele não está ajudando.
Arlindo abaixou a voz.
— Não é má vontade, moça. Seu Augusto era homem direito, mas deixou muita coisa em aberto. Ração, remédio, peça, entrega…
— Homem direito também deixa dívida — ela disse.
Arlindo ficou sem jeito.
— Eu não quis dizer…
— Eu sei.
E sabia mesmo. Essa era a parte insuportável. Ninguém parecia querer machucá-la de propósito. Só estavam todos muito acostumados a falar da Fazenda Formosa como se ela já tivesse perdido.
Ana apoiou as duas mãos no balcão.
— O que eu consigo levar hoje sem vender um rim ou prometer meu primogênito?
Arlindo abriu a boca.
Antes que ele respondesse, uma voz veio da porta:
— Depende. O rim está em bom estado?
Ana fechou os olhos.
Claro.
Gabriel Belmonte entrou na agropecuária como se a loja tivesse sido construída em torno dele e esquecido de avisar aos outros clientes.
Não houve alarde.
Um funcionário que estava encostado numa pilha de sacos endireitou a postura. Um homem que discutia preço de sal mineral parou no meio da frase. Arlindo guardou a lista de Ana como se estivesse prestes a ser fiscalizado. Até o papagaio ficou quieto por dois segundos, o que Ana considerou profundamente suspeito.
Gabriel usava camisa escura com as mangas dobradas, jeans, botas e aquela expressão de quem achava a existência dos obstáculos uma grosseria pessoal. O cabelo estava levemente desalinhado pelo vento, e isso só piorava tudo, porque não parecia descuido.
Ele olhou para Ana.
— Senhorita sistema.
Ana ergueu o queixo.
— Senhor invasão de propriedade.
O canto da boca dele subiu.
— Veio comprar a cidade ou só irritar o comércio local?
— Estou começando pelo comércio. A cidade fica para depois do almoço.
Gabriel se aproximou do balcão e pegou a lista antes que ela pudesse impedir.
— Ei.
— Calma. Não vou corrigir sua letra.
Ele leu a lista, depois olhou para o monte pequeno de itens que Arlindo havia separado.
— Isso aqui não conserta nem a autoestima da bomba.
Ana arrancou a lista da mão dele.
— A bomba e minha autoestima estão em tratamento, obrigada.
Gabriel apontou para a correia sobre o balcão.
— Essa medida está errada.
Arlindo piscou.
— Seu Cícero disse que era…
Gabriel pegou a peça, girou entre os dedos e entregou de volta.
— É correia para bomba menor. A da Formosa é antiga. Motor pesado. Se colocar essa, ela vai aguentar dois dias, arrebentar no terceiro e molhar o que não deve no quarto.
Ana virou-se para Seu Cícero.
— Ele tem razão?
Seu Cícero parecia odiar a resposta.
— Tem.
Ana fechou os olhos por um instante.
Gabriel se inclinou sobre o balcão, olhando para Arlindo.
— Pega a B-48. Tem três no fundo, atrás das caixas de sal. Se tiver alguma ressecada, não empurra essa porcaria para ela.
Arlindo ficou vermelho.
— Eu não ia…
— Ia.
O funcionário ao fundo correu para buscar.
Ana observou Gabriel. Ele não estava só mandando. Sabia exatamente onde ficava a peça, qual servia, qual estava ruim e que Arlindo tentaria se livrar da mercadoria velha se pudesse. Não era pose de poder. Era domínio de território.
Irritante e útil.
Gabriel olhou para a lista de novo.
— Arame, mangueira, lâmpada, ração. Isso ela leva.
Ana apontou a caneta para ele.
— "Ela" está aqui.
— Eu notei.
— Então pare de falar de mim como se eu fosse um pedido em separação.
Gabriel virou o corpo para ela, devagar.
— Você quer que eu fale com você?
— Seria inovador.
— Você precisa de arame, mangueira, lâmpada e ração. Se não levar, vai perder água, galinha, tempo e, dependendo do escuro do galpão, talvez um tornozelo.
Ana abriu um sorriso fino.
— E você precisa de quê? Além de uma aula sobre limites?
— De pouca coisa.
— Modéstia não está na lista, imagino.
— Nunca teve boa margem.
Arlindo voltou com a correia certa. Gabriel pegou, examinou e jogou no balcão.
— Essa.
Ana pegou a peça e olhou para ele.
— Você sempre escolhe as coisas pelos outros?
— Só quando os outros estão prestes a escolher errado.
— Deve ser cansativo ser indispensável.
— Dá para acostumar.
O papagaio gritou.
Ana apontou para o bicho.
— Até ele entrou no culto.
Gabriel olhou para Nicolau.
Uma senhora de vestido florido entrou na loja naquele momento, carregando uma caixa com um pintinho dentro. O pintinho piava com indignação.
— Arlindo, esse bicho não come.
Arlindo abriu a boca para responder, mas a mulher viu Gabriel.
— Seu Gabriel, olha aqui pra mim. Ele está doente.
Gabriel nem suspirou. Pegou o pintinho com uma delicadeza inesperada, examinou o bico, as pernas, a penugem.
Ana ficou olhando.
A mão que parecia capaz de quebrar uma mesa segurava o animal como se segurasse uma coisa feita de açúcar.
— Está frio — Gabriel disse. — E fraco. Separou dos outros?
— Separei.
— Bota perto de lâmpada, água com açúcar um tiquinho só e ração fina. Se não reagir até amanhã, chama o Zé Mariano.
A senhora assentiu como se tivesse recebido sentença de especialista.
— Obrigada, meu filho.
Ana arqueou uma sobrancelha.
Gabriel devolveu o pintinho e, sem mudar de expressão, virou para Arlindo:
— E para de vender pintinho pequeno demais para dona Lurdes. Ela tem pena e compra. Você sabe disso.
Arlindo levantou as mãos.
— Chegou assim do fornecedor.
— Então troca de fornecedor.
A loja ficou quieta.
Não foi um silêncio de medo puro. Era outra coisa. A cidade conhecia Gabriel. Sabia que ele era arrogante, mandão, difícil. Mas também sabia que ele via tudo. O saco vencendo na prateleira. A peça errada. A senhora que comprava por dó. O funcionário que escondia produto ruim no fundo.
Ana percebeu com irritação que o poder dele não vinha só do dinheiro.
Vinha de atenção.
Gabriel sabia onde apertar porque prestava atenção.
E isso era muito mais perigoso.
Arlindo pigarreou.
— Seu Gabriel, boto o restante na conta da Formosa?
Ana respondeu antes:
— Não.
Gabriel respondeu ao mesmo tempo:
— Sim.
Os dois se olharam.
Nicolau gritou.
Ana apontou para o papagaio sem desviar os olhos de Gabriel.
— Eu vou transformar esse animal em testemunha.
Gabriel parecia divertido.
— A conta é sua. O prazo é meu.
— Isso não faz sentido.
— Faz para Arlindo.
Arlindo, traidor, assentiu.
Ana virou para ele.
— O senhor está muito confortável sendo cúmplice.
— Eu vendo ração, moça. Não entro em guerra de gente bonita.
— Guerra de gente bonita? — Ana repetiu.
Gabriel sorriu.
— Ele tem olhos.
Ana sentiu calor subir pelo pescoço.
— A guerra é administrativa.
— Claro — Gabriel disse. — Toda guerra boa começa com planilha.
Ana o ignorou e falou com Arlindo:
— Eu pago a correia e parte da ração agora. O resto, se houver resto, eu decido depois de consultar minhas finanças.
Gabriel cruzou os braços.
— Suas finanças estão no Sicoob.
Ana congelou por meio segundo.
— Como você sabe para onde eu vou?
— Porque você não veio à cidade comprar pão de queijo. Veio atrás de peça, crédito e informação. Peça está aqui. Crédito, aqui você não tem. Informação, começa no banco.
— Você fala como se minha vida tivesse índice.
— Tem. Você só ainda não organizou.
Aquilo a ofendeu quase pessoalmente.
— Senhor Belmonte…
— Gabriel.
— Senhor Belmonte — Ana repetiu, com mais gosto. — Eu não preciso que você desenhe minha manhã.
Ele se aproximou meio passo. Não o bastante para encurralar. O bastante para obrigar a atenção dela a não escapar.
— Precisa, sim. Só não quer que eu seja a pessoa a fazer isso.
A frase atingiu mais fundo do que deveria.
Porque lembrava outra coisa. Outro homem. Outro tom. Outra tentativa de dizer quem ela era, o que combinava com ela, o que ela conseguiria ou não fazer.
Ana fechou a expressão.
Gabriel percebeu a mudança.
E, pela primeira vez desde que entrou, a provocação dele recuou um pouco.
— Ana — Gabriel disse, mais baixo. — Eu não estou mandando você voltar para casa.
Ela ficou imóvel.
A mensagem do ex queimou na memória como uma notificação mal apagada.
"Isso não combina com você."
Gabriel sustentou o olhar dela.
— Estou dizendo onde o chão cede antes de você pisar.
Ana não respondeu.
Seu Cícero observava os dois em silêncio.
Arlindo fingia organizar notas fiscais.
Ana desviou primeiro, irritada por ter sido vista.
— Eu vou ao Sicoob — ela disse. — Sozinha.
Gabriel apoiou as mãos no balcão.
— Não vai.
Ana virou devagar.
— Como?
— Não vai sozinha.
— Olha só, que rápido voltamos ao problema do mandão.
— A gente tem um contrato.
O mundo pareceu dar uma pequena parada.
Ana franziu a testa.
— A gente quem?
— Eu e a Formosa.
Seu Cícero baixou o olhar.
Ana percebeu e não gostou.
— Que contrato?
Gabriel olhou para Seu Cícero, depois para Ana. Por um instante, a expressão dele fechou. Não como quem não sabia a resposta. Como quem sabia demais.
— Um contrato antigo — Gabriel disse.
Ana riu uma vez, sem humor.
— Antigo é o telhado. Antigo é o freezer morto. Antigo é o papagaio agindo como advogado de cobrança. Eu perguntei que contrato.
Gabriel pegou a lista do balcão, dobrou com calma e entregou para ela.
— O tipo de contrato que faz o gerente do Sicoob atender melhor se eu estiver do lado.
— Isso não é resposta.
— Não. É aviso.
Ana segurou a lista com força.
Seu Cícero falou baixo:
— Pinguinha…
Ela olhou para ele.
— O senhor sabia?
O caseiro apertou o chapéu entre as mãos.
— Sabia que tinha papel entre eles. Não sei dizer direito o quê.
Ana voltou para Gabriel.
— E você sabe.
— Sei.
— E não vai me contar aqui porque gosta de plateia, mas não gosta de verdade.
A boca de Gabriel quase sorriu, mas os olhos não acompanharam.
— Cuidado, Ana. Você está começando a me entender.
— Péssima notícia para nós dois.
Ele se afastou do balcão.
— Vamos ao Sicoob.
— Eu não disse que você podia ir comigo.
— Disse quando herdou a Formosa.
Ana pegou a correia, indignada, e pagou o que conseguiu pagar sem discutir mais, porque qualquer palavra extra naquele balcão seria munição para a cidade inteira até o fim da semana. Arlindo prometeu separar o restante “até ela decidir”. Gabriel olhou para ele de um jeito que transformou “até ela decidir” em “não venda para ninguém”.
Quando saíram, o sol da praça bateu forte no rosto de Ana.
Ela parou na calçada, ainda com a lista na mão e uma pergunta nova instalada no peito.
Contrato.
A palavra tinha cheiro de armadilha.
Gabriel ficou ao lado dela, tranquilo demais.
Na rua, duas pessoas cumprimentaram:
— Seu Gabriel.
— Belmonte.
— Bom dia, seu Gabriel.
Ele respondeu a cada uma com um aceno curto. Sem simpatia exagerada. Sem esforço. A cidade se abria para ele como porteira bem lubrificada.
Ana olhou para a placa verde do Sicoob do outro lado da praça.
Depois olhou para Gabriel.
— Eu sou a dona da fazenda — ela disse.
Gabriel a encarou.
— No papel.
Aquilo deveria ter soado só como provocação.
Ana ergueu o queixo.
— Então vamos ver o que o papel sabe.
Gabriel abriu caminho com um gesto da mão.
— Depois de você, dona da Formosa.
Ana passou por ele.
— Se me chamar assim de novo nesse tom, eu mando o papagaio te processar.
Atrás deles, de dentro da agropecuária, Nicolau gritou novamente.
Gabriel riu baixo.
Ana odiou o som.
Principalmente porque, por meio segundo, teve vontade de rir também.
E atravessou a praça rumo ao Sicoob com a sensação incômoda de que a Fazenda Formosa era dela, sim.
Mas São Gabriel ainda obedecia a Gabriel Belmonte.
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