Margem do Formosa
9 Empréstimo não cooperativo
O Sicoob de São Gabriel tinha o ar-condicionado forte demais e uma televisão muda passando cotação de boi, milho e uma propaganda institucional com pessoas felizes demais para quem lidava com dinheiro.
Ana entrou primeiro, com a pasta apertada contra o peito.
Gabriel Belmonte entrou logo atrás, sem pressa.
Seu Cícero veio por último, segurando a sacola da agropecuária como se uma correia de bomba pudesse servir de arma, caso necessário.
A agência não estava cheia, mas todas as pessoas viraram o rosto quando Gabriel passou.
— Seu Gabriel — disse uma atendente.
— Senhor Belmonte — cumprimentou um homem perto do caixa.
— Bom dia, seu Gabriel — falou outro, tirando o chapéu.
Ana parou ao lado de uma cadeira.
— Impressionante — Ana disse. — Você vem aqui ou recebe dízimo?
Gabriel olhou para ela.
— Depende do mês.
— Era uma crítica.
— Soou como observação financeira.
Ana respirou fundo e foi até a mesa de atendimento. Uma moça de unhas vermelhas tão grandes que Ana se perguntou como ela conseguia usar o computador. A moça sorriu com gentileza calculada.
— Pois não?
Ana respondeu:
— Eu preciso falar sobre a situação da Fazenda Formosa. Crédito, dívida, conta, qualquer coisa que não envolva um papagaio gritando que eu devo na minha cara.
A atendente olhou para Gabriel. Depois para Ana. Depois para Gabriel de novo.
Ana apoiou a mão no balcão.
— Eu sou a pessoa falando.
A moça se endireitou.
— Claro. Só um momento.
Gabriel inclinou-se um pouco para perto de Ana.
— Você tem um jeito delicado de conquistar aliados.
Ana não olhou para ele.
— E você tem um jeito silencioso de sequestrar atenção. Todos temos defeitos.
A atendente voltou.
— O gerente pode receber vocês.
Ana seguiu pelo corredor curto até uma sala de vidro. A placa na mesa dizia:
Rogério Azevedo — Gerente de Relacionamento
Rogério era um homem de quarenta e poucos anos, camisa social clara, cabelo bem penteado e um sorriso de quem sabia negar coisas sem parecer grosseiro.
Ele se levantou imediatamente ao ver Gabriel.
— Seu Gabriel.
Ana ergueu a mão.
— Antes que comece: Ana. Sobrinha do Augusto. Dona da Fazenda Formosa. A mulher que precisa conversar sobre a conta. Ele veio de decoração.
Gabriel puxou uma cadeira e sentou.
— E mal posicionada — Ana completou.
Rogério riu com cautela, como quem não sabia se tinha permissão.
— Dona Ana, prazer. Sinto muito pelo seu tio.
Ana abriu a pasta rápido demais.
— Vamos falar da fazenda.
Seu Cícero, que estava atrás dela, baixou os olhos.
Gabriel não entendeu e não disse nada.
Rogério percebeu e mudou o tom.
— Claro. Sente-se, por favor.
Ana sentou. Seu Cícero ficou ao lado da porta. Gabriel se recostou na cadeira com uma tranquilidade irritante, como se já soubesse o final daquela conversa.
Ana odiou isso antes mesmo de confirmar.
Rogério abriu o sistema no computador.
— A senhora pretende manter a atividade rural?
Ana respondeu:
— Pretendo fazer a fazenda parar de sangrar dinheiro nos próximos trinta dias. Depois pretendo discutir ambições maiores com ela.
Rogério piscou.
— Certo.
Gabriel comentou:
— Tradução: sim.
Ana olhou para ele.
— Eu ia chegar lá.
— Em três parágrafos. — Gabriel respondeu inclinando a cabeça pra trás.
— Senhor Belmonte.
— Gabriel.
— Decoração não opina.
Rogério pigarreou e continuou:
— A Fazenda Formosa tem vínculo antigo com a cooperativa. Seu Augusto era cooperado.
Ana franziu a testa.
— Cooperado é tipo cliente?
Rogério explicou:
— Não exatamente. A cooperativa não funciona igual a um banco comum. O associado não é só cliente. Ele participa da cooperativa, tem cota capital, movimenta produtos, pode acessar crédito e, quando há resultado positivo, recebe parte conforme as regras da cooperativa e a movimentação dele.
Ana olhou para a tela.
— Então eu herdei dívida e uma participação?
— De forma simplificada, sim. Há uma conta capital vinculada ao cadastro dele. Com o inventário, podemos atualizar a titularidade ou abrir o processo correto para a senhora.
Ana inclinou o corpo para frente.
— Posso usar essa cota para pagar a agropecuária?
Rogério fez a expressão de quem lamentava dizer não.
— Não diretamente. Conta capital não funciona como conta corrente. E há regras para resgate.
Ana encostou na cadeira.
— Claro. Seria muito simples. A fazenda é contra soluções simples.
Gabriel disse:
— A fazenda é contra amadorismo.
Ana virou o rosto para ele.
— Você vai comentar cada frase?
— Só as piores.
Rogério consultou algo no sistema.
— A senhora mencionou crédito. Qual seria a finalidade?
Ana abriu uma folha.
— Pagar o que está pendente na agropecuária, regularizar parte dos fornecedores e investir no básico: correia da bomba, mangueira, arame, lâmpada, ração, talvez conserto do freezer. Nada luxuoso. Eu não vim pedir dinheiro para construir piscina. Embora, com a goteira da sala, talvez a casa esteja tentando fazer uma.
Rogério sorriu, mas não se desviou.
— Entendo. O problema, dona Ana, é que a fazenda tem restrições, atrasos e pouca comprovação de receita recente.
Ana respondeu rápido:
— Dívida eu sei que tem. Mas a terra existe, a casa existe, tem galinha, horta, algum estoque, e tem contrato também. — Ana falou apontando pra Gabriel.
Gabriel ficou imóvel.
Foi tão sutil que talvez ninguém percebesse.
Ana percebeu.
Rogério ergueu os olhos da tela.
— Que contrato?
Ana olhou para Gabriel.
Rogério mudou de postura. Não muito. O suficiente.
— O contrato de arrendamento?
Ana sentiu a palavra bater.
— Arrendamento?
Seu Cícero apertou a sacola da agropecuária.
Gabriel continuou calado.
Rogério pareceu entender que havia pisado em chão ruim.
— Achei que a senhora já soubesse.
Ana abriu um sorriso pequeno.
— O dia está cheio de pessoas achando coisas sobre mim.
O gerente respirou com cuidado.
— Existe um contrato antigo entre seu Augusto e o senhor Gabriel. Mas ele, sozinho, não melhora a análise.
Ana apoiou a caneta sobre a mesa.
— Por quê?
Rogério explicou:
— Porque para crédito de giro, principalmente nesse caso, a cooperativa precisa entender capacidade de pagamento. Não basta existir patrimônio ou dívida. Precisa haver fluxo: venda, contrato de fornecimento, recebíveis, produção regular, histórico de entrada de caixa. O contrato de arrendamento gera um repasse fixo, mas não é suficiente para sustentar uma operação nova nem para cobrir o passivo existente com segurança.
Ana ficou em silêncio.
A explicação era educada.
Era lógica.
Era devastadora.
— Então eu não consigo crédito porque estou devendo — Ana disse.
Rogério respondeu:
— Também. Mas não só. A senhora não consegue crédito maior porque, hoje, a fazenda não demonstra como vai pagar.
Gabriel olhou para Ana.
— Problema grande demais para quebrar em partes menores?
Ana virou o rosto devagar.
— Você escolheu esse momento para usar minha frase contra mim?
Gabriel respondeu:
— Escolhi.
— Que coragem.
Seu Cícero deu um passo.
— Seu Gabriel…
Ana levantou a mão sem tirar os olhos de Gabriel.
— Não, Seu Cícero. Deixa. O senhor Belmonte deve estar se divertindo muito vendo a fazenda que ele conhece melhor do que eu ser recusada.
Gabriel não sorriu.
— Eu não estou me divertindo.
— Pareceu.
— Então você está observando mal.
A sala ficou quieta.
Rogério pigarreou, cada vez mais arrependido de ter aceitado aquela reunião.
— Dona Ana, talvez seja melhor eu dar alguns minutos para vocês conversarem.
Ana respondeu:
— Não precisa.
Gabriel disse logo na sequência:
— Precisa.
Ela olhou para ele.
Gabriel inclinou-se um pouco para frente.
— Ana, você acabou de descobrir um contrato que prende a sua terra e uma análise de crédito que prende o seu caixa. Quer discutir isso com plateia ou quer entender o tabuleiro?
Ela odiou a palavra tabuleiro.
Odiou mais ainda querer entender.
Rogério se levantou.
— Vou buscar um café.
Ana falou:
— Eu não pedi café.
Rogério respondeu:
— É para mim.
Ele saiu quase depressa.
Seu Cícero continuou perto da porta, rígido.
Gabriel olhou para ele.
— Cícero, deixa a gente conversar um minuto. Ela precisa fazer perguntas que talvez não queira fazer na sua frente.
Seu Cícero olhou para Ana.
A irritação dela vacilou um pouco.
Ana falou mais baixo:
— Tudo bem, Seu Cícero.
O velho caseiro não gostou. Isso estava claro. Mas assentiu.
— Vou estar ali fora, pinguinha.
— Eu sei.
Seu Cícero saiu e fechou a porta de vidro.
Ana e Gabriel ficaram sozinhos na sala do gerente, com uma mesa entre eles, uma pasta cheia de papéis e uma palavra nova sentada no meio.
Arrendamento.
Ana apoiou os cotovelos na mesa.
— Começa a falar.
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