Margem do Formosa
3 Lista de Prioridades
Ana ficou olhando para a estrada por alguns segundos depois que a caminhonete de Gabriel Belmonte desapareceu atrás das árvores.
O cheiro de diesel ainda pairava no ar, misturado ao barro e ao mato molhado.
— Ele sempre aparece assim? — Ana perguntou.
Seu Cícero ajeitou o chapéu na cabeça.
— Seu Gabriel tem o costume de achar que todo caminho leva onde ele quer.
Ana olhou para ele.
— E leva?
Seu Cícero demorou um instante.
— Aqui, não devia.
A resposta ficou no ar, pesada o bastante para Ana entender que havia coisa ali. Coisa antiga. Coisa que talvez ela não quisesse abrir naquele momento.
Ela se virou para a porta da casa.
— Certo — Ana disse, apertando a pasta de documentos contra o peito. — Vamos ver o tamanho do estrago.
Seu Cícero abriu passagem, mas não entrou primeiro.
— A casa é sua, pinguinha.
Ana quase respondeu que a casa era do tio Augusto, em vez disso, entrou.
Sentiu o cheiro de madeira úmida antes de qualquer coisa, viu a poeira parada e o tecido da cortina fechado tempo demais. A sala estava escura, com móveis cobertos por lençóis amarelados, retratos tortos na parede e uma cristaleira antiga cheia de xícaras desiguais. No canto, uma goteira pingava dentro de uma bacia de alumínio.
Plim... Plim... ... ... Plim...
Ana parou no meio da sala.
— Ele ainda deixa a bacia aí? — Ana perguntou.
Seu Cícero entrou atrás dela.
— Quando chove forte, pinga nesse canto.
Ana olhou para o teto manchado.
— Antes era uma gotinha dramática. Agora parece que o telhado está pedindo aposentadoria.
Seu Cícero riu baixo.
Ana abriu a pasta, pegou uma caneta e escreveu no verso de uma conta vencida.
— Certo. Prioridades. Telhado, água, energia, estoque, dívidas.
Ela falou como se estivesse organizando uma reunião, não entrando numa casa que parecia guardar a respiração havia meses.
A caneta falhou no último item.
Ana riscou o papel até a tinta voltar.
— Claro. Até a caneta aderiu ao colapso operacional.
Seu Cícero olhou para o papel.
— Colapso o quê?
— Nada. Nome de cidade grande para “deu ruim”.
Ele sorriu.
Ana deu alguns passos pela sala. O assoalho rangeu sob o All Star ainda sujo de lama. Sobre uma mesa lateral, havia marcas antigas de copo, um rádio velho e uma pequena queimadura na madeira.
Ela tocou a marca com a ponta dos dedos.
— Essa aqui foi da história da estrela, não foi?
Seu Cícero sorriu mais.
— Seu Augusto dizia que uma estrela caiu pela janela e queimou a mesa.
— E eu acreditei.
— Você tinha sete anos, pinguinha.
— Eu era impressionável.
— Era nada. Você discutiu com ele três dias depois dizendo que estrela não cabia na janela.
Ana riu, mas desviou o olhar depressa.
— Ele inventa cada coisa.
Seu Cícero não corrigiu.
A cozinha ficava logo depois da sala. Era simples, antiga e mais clara, apesar das manchas nas paredes. Havia panelas penduradas, potes de vidro nas prateleiras, um fogão a lenha escurecido pelo uso e uma geladeira velha que soltava um zumbido irregular, como se reclamasse de existir.
Sobre a mesa, uma caneca azul descansava ao lado de um coador de pano seco.
Ana parou.
A caneca tinha uma lasca na borda e uma frase quase apagada:
Café resolve metade. Teimosia resolve o resto.
— Ele ainda usa essa? — Ana perguntou.
A voz saiu mais baixa do que ela queria.
Seu Cícero acompanhou o olhar dela.
— Era a preferida dele.
Ana tocou a alça da caneca, mas não a levantou.
— Claro que era. Frase arrogante. Combinava.
Ana afastou a mão e voltou para o papel.
— Cozinha. Fogão a lenha funciona?
— Funciona.
— Gás?
— No fim.
— Geladeira?
Seu Cícero fez uma careta.
— Funciona quando quer.
Ana encarou a geladeira e anotou:
Geladeira instável.
Depois olhou de novo para o aparelho.
— Isso aqui vai virar planilha nem que seja por humilhação.
Seu Cícero não entendeu, mas riu mesmo assim.
Na parede da cozinha, alguns papéis estavam presos por ímãs enferrujados: contas antigas, telefone de veterinário, um calendário velho e uma receita escrita à mão. Ana se aproximou.
Bolo de milho
A letra era grande, torta, impaciente. No fim da receita havia uma observação:
Se Ana estiver aqui, põe mais queijo.
Ana ficou imóvel por um segundo.
Depois arrancou o papel com cuidado e o colocou dentro da pasta, entre as dívidas.
Seu Cícero viu, mas não comentou.
Ana fechou a pasta rápido demais.
— Próximo.
Eles seguiram pelo corredor. As paredes tinham tinta descascada, fotografias antigas e marcas de umidade perto do rodapé. Ana passou por uma foto sua criança, segurando uma espiga de milho enorme, e fingiu que não sentiu nada.
Não com sucesso.
— Eu lembro desse dia — ela disse.
— Você queria plantar a espiga inteira.
— Parecia eficiente.
— Seu Augusto disse que não era assim.
— E eu discordei com fundamentos.
— Você tinha seis anos.
— Fundamentos pequenos, então.
Seu Cícero soltou uma risada curta.
O quarto onde Ana dormia quando criança ficava na ala direita da casa. A porta abriu com um rangido baixo. O cômodo estava empoeirado, com uma cama estreita, cortinas antigas e uma janela voltada para o pomar tomado pelo mato.
Na parede, ainda havia riscos de lápis marcando sua altura.
Ana se aproximou.
Ana — 8 anos. Reclamou da medição.
Ela leu a anotação e quase sorriu.
— Ele nunca apagou isso? — Ana perguntou.
Seu Cícero ficou na porta.
— Nunca.
Ana passou o dedo por uma das marcas. O pó grudou na pele.
— Ele roubava na medição. Sempre abaixava o lápis.
— Dizia que você crescia rápido demais.
Ana tirou a mão da parede.
— Dramático.
Ela respirou fundo, olhou ao redor e deu um passo para trás.
— Depois eu vejo esse quarto com calma.
Seu Cícero assentiu.
Eles voltaram pelo corredor. Antes de chegarem à sala, Ana notou uma porta fechada no lado esquerdo da casa, mais afastada dos cômodos de convivência. A madeira era mais escura, marcada por arranhões perto da maçaneta.
— E ali? — Ana perguntou.
Seu Cícero acompanhou o olhar dela.
— Escritório do seu tio.
Ana parou diante da porta.
— Ele trabalhava aqui?
— Trabalhava. Guardava papel, conta, contrato, caderno de anotação… essas coisas.
Ana pousou a mão na maçaneta.
Não estava trancada.
Mesmo assim, ela não abriu.
O silêncio atrás daquela porta parecia diferente do resto da casa. Mais fechado. Mais paciente.
— Tem muita dívida aí dentro? — Ana perguntou.
Seu Cícero suspirou.
— Deve ter.
— Documento importante?
— Também deve ter.
— Coisa que vai me dar dor de cabeça?
— Com certeza.
Ana soltou a maçaneta.
— Então não vou abrir agora.
Seu Cícero pareceu surpreso.
— Não?
— Não. Hoje eu já conheci lama, mosquito, goteira, geladeira com personalidade e Gabriel Belmonte. Tenho limite.
O canto da boca de Seu Cícero subiu.
— Justo.
Ana olhou para a porta mais uma vez.
— Amanhã eu vejo o que ele deixou aí.
Seu Cícero ficou quieto.
Ana percebeu a frase tarde demais. O que ele deixou. Como se Augusto tivesse apenas saído para uma viagem longa demais e esquecido de organizar a volta.
Ela ajeitou a pasta contra o peito.
— Por enquanto, a gente começa pelo que pode cair na minha cabeça.
No mesmo instante, uma gota pingou na bacia da sala.
Plim.
Ana apontou para o teto.
— Exatamente.
Seu Cícero riu baixo e caminhou para a cozinha.
Ana ficou mais um segundo diante da porta do escritório.
Depois virou as costas.
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