Margem do Formosa
4 Banho de caneca
Às seis e vinte e três da tarde, Ana descobriu que Gabriel Belmonte era o tipo mais irritante de homem.
O tipo que estava certo.
Ela girou o registro do chuveiro pela terceira vez e encarou as três gotas frias que caíram do cano com a dignidade de uma torneira ofendida.
Ping.
Ping.
Ping.
— Não — Ana disse para o chuveiro. — Nem começa.
O chuveiro não começou.
Ana, ainda com o cabelo preso de qualquer jeito e a barra da calça suja de lama até a canela, fechou os olhos. Dois segundos era o tempo máximo permitido para desespero antes de transformar aquilo em tarefa.
Ela abriu a porta do banheiro.
— Seu Cícero?
Do corredor, veio a voz calma do caseiro:
— Pois não, pinguinha?
— A água acabou.
Seu Cícero apareceu com uma lanterna na mão, como se a frase não tivesse nenhuma urgência.
— Não acabou, não. É a bomba.
Ana respirou fundo.
— A bomba que falha depois das seis?
Seu Cícero coçou a nuca.
— É.
Ana apertou a toalha contra o peito.
— A bomba que o Gabriel Belmonte disse que falhava depois das seis?
— A mesma.
Ana encarou o teto.
— Que maravilha. A casa está tentando me ensinar humildade usando meu desafeto como material didático.
Seu Cícero franziu a testa.
— Quer que eu busque água no tambor?
Ana voltou os olhos para ele.
— Quero. Mas quero que fique registrado em ata que estou aceitando ajuda sem concordar com o universo.
— Registro feito.
Ele saiu pelo corredor com a tranquilidade de quem já tinha visto coisas muito piores do que uma mulher urbana derrotada por encanamento antigo.
Ana entrou de novo no banheiro e examinou o espelho manchado. Parecia outra pessoa ali. O cabelo preto estava úmido de suor, a franja grudada na testa, havia uma picada vermelha no queixo e uma expressão de quem tinha perdido uma discussão para a infraestrutura rural.
Um inseto pousou na pia.
Ana olhou para ele.
— Você paga aluguel?
O inseto voou.
— Foi o que eu pensei.
A energia piscou.
Uma vez.
Duas.
Na terceira, a lâmpada ficou fraca, amarelada, transformando o banheiro num cenário de filme barato.
Do forro veio um arrastar baixo.
Ana ficou imóvel.
— Seu Cícero?
Ele voltou com a água logo depois em um balde com uma caneca boiando.
— Oi, pinguinha?
— Tem alguma coisa andando em cima da minha cabeça.
Seu Cícero respondeu de longe, sem nenhuma preocupação:
— Deve ser só o gambá.
Ana abriu a porta devagar.
— Só?
— Ele mora no forro faz tempo. Não mexe com ninguém.
Ana olhou para o teto.
— Ele sabe que eu não autorizei sublocação?
Seu Cícero colocou o balde dentro do banheiro.
— Amanhã eu vejo isso.
— Amanhã o gambá ainda vai estar aí?
— Se ele não sair.
Ana encarou o caseiro.
Seu Cícero sorriu, sem maldade.
— Banho de caneca refresca.
— Refresca a alma ou só acaba com a autoestima?
— Um pouco dos dois.
O banho durou sete minutos, três sustos e uma negociação silenciosa com a água fria. Quando saiu, Ana estava limpa o suficiente para não chorar por motivos sanitários, mas cansada demais para comemorar.
Na cozinha, comeu tapioca com queijo e café requentado. Seu Cícero se desculpou pela simplicidade. Ana disse que estava ótimo. E estava, de algum jeito. Talvez porque a fome rebaixasse padrões. Talvez porque havia algo reconfortante na mesa antiga, no barulho dos grilos e na presença quieta dele lavando uma xícara na pia.
Depois, tentou resolver o problema mais urgente da vida moderna: sinal.
Subiu numa cadeira perto da janela da sala, ergueu o celular acima da cabeça e ficou parada como uma antena humana.
Nada.
Foi até a varanda.
Nada.
Perto da cozinha.
Nada.
No corredor, junto à foto antiga dela com a espiga de milho, apareceu uma barrinha fraca.
Ana arregalou os olhos.
— Achei.
A barrinha sumiu.
— Traidora.
Seu Cícero passou pela sala carregando a lanterna.
— Sinal pega melhor perto do rio.
Ana olhou para a escuridão lá fora.
— Depois do gambá, eu vou deixar o rio para amanhã.
Mais tarde, no quarto onde dormia quando criança, Ana se sentou na beirada da cama estreita. A casa fazia barulhos próprios ao redor dela: madeira estalando, vento passando pelas frestas, água pingando em algum ponto distante, o gambá administrando seus negócios no forro.
Pela janela, o pomar era só sombra.
Ana pegou o celular.
Sem serviço.
Mesmo assim, abriu a conversa do tio Augusto.
A última mensagem dele ainda estava ali, antiga demais, simples demais:
Quando vier, faço bolo de milho.
Ana ficou olhando para aquilo por algum tempo.
Depois digitou:
Cheguei. Você podia ter avisado que a Formosa estava tentando se decompor em paz.
Leu uma vez.
Quase sorriu.
Apertou enviar.
A mensagem ficou parada, com aquele pequeno sinal de falha que parecia zombar dela.
Ana deitou devagar, ainda segurando o celular contra o peito.
No teto, alguma coisa arranhou a madeira.
Ela fechou os olhos.
— Boa noite pra você também.
A casa rangeu.
Do lado de fora, o rio Formosa seguia em algum lugar escuro, invisível, fazendo o único som daquela noite que parecia saber para onde estava indo.
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