Margem do Formosa

11 Laboratório de goiaba



Quando Ana voltou para a Fazenda Formosa, trouxe três coisas da cidade: uma correia de bomba, uma dívida adiada por sete dias e uma irritação perfeitamente organizada contra Gabriel Belmonte.

A irritação, infelizmente, era a única das três que parecia funcionar sem defeito.

Ela entrou na cozinha, largou a pasta sobre a mesa e olhou ao redor como quem encarava um ambiente hostil.

— Certo — Ana disse. — Se a fazenda não tem crédito, ela vai ter produto.

Seu Cícero entrou logo atrás, carregando uma caixa com vidros vazios encontrados no depósito.

— Que produto, pinguinha?

Ana abriu a pasta e tirou a receita do bolo de milho que havia guardado no dia anterior.

— De qualquer coisa que o tio Augusto tenha deixado escondida nessa cozinha e que São Gabriel ainda aceite comprar sem chamar a vigilância sanitária.

Seu Cícero colocou a caixa sobre a mesa.

— Então é melhor começar pelo caderno.

Ana levantou os olhos.

— Que caderno?

— O de receita.

— Existe um caderno de receita?

Seu Cícero apontou para o armário alto, perto do fogão a lenha.

— Atrás das formas.

Ana encarou o armário.

— E o senhor ia me contar isso quando?

— Quando você perguntasse.

— Seu Cícero, eu não sabia que a pergunta existia.

— Agora sabe.

Ana subiu numa cadeira, abriu o armário e foi tirando formas de bolo, assadeiras antigas, uma peneira torta e uma tampa de panela sem panela correspondente. No fundo, encontrou um caderno de capa dura, manchado de gordura e farinha, com as pontas dobradas.

Na primeira página, escrito com a letra grande e apressada do tio Augusto, havia um aviso:

Receita boa não aceita pressa, economia burra nem gente metida a sabida.

Ana leu em voz alta e estreitou os olhos.

— Ele escreveu isso para mim.

Seu Cícero sorriu.

Ela folheou o caderno. Havia bolo de milho, doce de goiaba, compota de banana, conserva de pimenta, broa, geleia de jabuticaba, doce de abóbora e anotações soltas nas margens.

Não deixar Cícero mexer no açúcar.

Seu Cícero viu a frase e pigarreou.

— Isso aí é calúnia antiga.

Ana virou outra página.

Se Ana estiver na cozinha, dobrar a receita. Menina pequena come como visita grande.

Ana parou por meio segundo.

Depois fechou o rosto e passou para a próxima página.

— Vamos ver a despensa.

A despensa ficava ao lado da cozinha, pequena, abafada e desorganizada com a convicção de um arquivo corrompido. Havia sacos de farinha, açúcar em pote fechado, fubá, vidros vazios, algumas tampas, cravo, canela, dois pacotes de café, uma lata de fermento vencida e outra que talvez ainda tivesse dignidade, além de uma caixa com panos de prato antigos.

Ana começou a separar tudo sobre a mesa.

— Açúcar, fubá, farinha, vidro, tampa, goiaba no pomar, banana talvez, ovos quando as criminosas colaborarem…

Seu Cícero franziu a testa.

— Criminosas?

— As galinhas. Ainda estou esperando o relatório delas.

— Elas botaram hoje.

— Quantos?

— Dezesseis.

Ana pegou a caneta.

— Dezesseis ovos. Ótimo. A organização criminosa tem caixa.

Seu Cícero cruzou os braços.

— Galinha não gosta de deboche.

— Eu também não gosto de botar meta sem dado e mesmo assim estou aqui.

Ela abriu o notebook sobre a mesa da cozinha. O aparelho demorou a ligar, como se também estivesse refletindo sobre as próprias escolhas.

Ana criou uma planilha simples.

Produto. Ingredientes. Custo. Tempo. Rendimento. Preço possível. Lucro.

Seu Cícero olhou para a tela.

— Você vai fazer doce no computador?

— Não. Vou impedir que o doce faça eu trabalhar de graça.

— Receita não se resolve com desaforo, pinguinha.

Ana ergueu a colher de pau como se fosse uma ferramenta cirúrgica.

— Seu Cícero, eu já debugei código legado escrito por homem arrogante, sem documentação e com variável chamada “teste_final_agora_vai”. Eu consigo fazer um doce de goiaba.

Seu Cícero pegou o avental pendurado na parede e entregou a ela.

— Então começa lavando a goiaba, doutora do doce.

Meia hora depois, Ana tinha aprendido três coisas.

Primeira: goiaba madura parecia inocente até começar a grudar em tudo.

Segunda: açúcar quente não aceitava arrogância.

Terceira: Seu Cícero tinha um talento irritante para ficar certo em silêncio.

O primeiro lote ficou aguado.

Ana mexeu a panela, encarando a mistura rosada que se recusava a ganhar consistência.

— Isso aqui está líquido demais.

Seu Cícero olhou dentro da panela.

— Está.

— Mas eu segui a receita.

— Seguiu com pressa.

— Eu otimizei etapas.

— Queimou etapa.

— Não queimou. Só… antecipou.

Ele apontou para a panela.

— Então bebe de colher.

Ana fechou a cara.

— Próximo lote.

O segundo lote queimou.

Não um queimado discreto. Um queimado dramático, com cheiro invadindo a cozinha, fumaça subindo e Ana abanando um pano de prato como se tentasse expulsar um espírito culinário.

— Desliga o fogo, pinguinha! — Seu Cícero gritou.

— Eu desliguei!

— Então tira a panela!

— Ela está colada no fogão!

— A panela?

— A minha esperança!

Seu Cícero pegou um pano, afastou a panela e olhou para o fundo escurecido.

— Passou do ponto.

Ana tossiu.

— Passou do ponto é quando fica firme. Isso aqui pediu divórcio da matéria orgânica.

Da janela, uma galinha cacarejou.

Ana virou para ela.

— Sem comentários da auditoria externa.

O terceiro lote parecia promissor até ficar doce demais.

Ana provou uma colherada, arregalou os olhos e ficou imóvel.

Seu Cícero perguntou:

— E aí?

Ana respondeu com dificuldade:

— Acho que acabei de enxergar som.

Ele pegou a colher, provou e fez uma careta.

— Muito açúcar.

— O caderno mandou duas xícaras.

— A goiaba estava mais madura. Aí põe menos.

Ana apontou para o caderno.

— Isso não está escrito.

— Receita também se escuta.

— Receita não tem áudio, Seu Cícero.

— Tem cheiro, tem cor, tem ponto.

Ana passou a mão pela testa.

— Eu sinto falta de mensagens de erro.

Seu Cícero riu.

Ela recomeçou.

Dessa vez, diminuiu o açúcar. Separou as goiabas mais maduras das mais firmes. Anotou tempo de fogo. Marcou quantidade. Pesou o rendimento numa balança antiga que funcionava depois de três tapas laterais. Lavou os vidros. Ferveu as tampas. Reorganizou a mesa em etapas: lavar, cortar, cozinhar, envasar, esfriar.

A cozinha virou uma linha de produção torta, quente e cheirando a goiaba.

Ana olhou para aquilo e sentiu a cabeça finalmente encaixar.

— Colher, transformar, vender, reinvestir — ela murmurou.

Seu Cícero estava fechando um vidro.

— O quê?

Ana pegou a caneta e anotou na planilha.

— Ciclo de sobrevivência.

— Nome bonito para fazer doce.

— Nome bonito ajuda o caos a obedecer.

No fim da tarde, havia seis vidros aceitáveis sobre a mesa. Não perfeitos. Não lindos. Mas vermelhos, brilhantes e com cheiro de infância vendável.

Ana pegou um deles contra a luz.

— Isso compraria uma lâmpada?

Seu Cícero respondeu:

— Se vender bem, compra duas.

Ana sorriu.

Pequeno, cansado, mas verdadeiro.

— Então amanhã a gente faz mais.

Seu Cícero apontou para a panela queimada na pia.

— Antes a gente enterra essa.

Ana olhou para o fundo preto.

— Ela morreu por uma causa comercial.

— Morreu por desaforo.

— Difamação.

Do lado de fora, a tarde caía sobre a Fazenda Formosa. O cheiro de goiaba cozida escapava pela janela, misturado ao capim, ao barro e à água distante do rio.

Pela primeira vez desde que chegara, Ana não olhou para a fazenda e viu apenas ruína.

Viu processo.

Torto, pegajoso, queimado nas bordas, mas processo.