Margem do Formosa
12 Ele
Gabriel Belmonte apareceu na Fazenda Formosa depois do anoitecer.
Não buzinou. Não chamou. Apenas surgiu no terreiro com a caminhonete preta, os faróis atravessando o mato alto e batendo na varanda como se a casa tivesse sido pega fazendo algo errado.
Ana estava na cozinha, com o notebook aberto, a mesa tomada por vidros de doce, anotações, tampas, contas e uma panela queimada em estado de luto.
Ela ouviu o motor e fechou a cara antes mesmo de olhar pela janela.
— Não.
Seu Cícero, que lavava um pano na pia, perguntou:
— Não o quê, pinguinha?
— Ele.
— Quem?
A porta da varanda rangeu.
— Boa noite — Gabriel disse da sala.
Ana apontou a colher de pau para o corredor.
— Exatamente.
Gabriel apareceu na entrada da cozinha carregando uma pasta de couro numa mão e um tubo enrolado de papel na outra. Parou ao sentir o cheiro no ar.
— Goiaba.
Ana estreitou os olhos.
— Impressionante. Além de dono informal da cidade, também identifica frutas pelo cheiro.
— Qualquer criança de São Gabriel identifica doce de goiaba.
— Então parabéns pela conquista escolar.
Gabriel olhou para a mesa.
— Fez para vender?
Ana respondeu:
— Fiz para decorar a cozinha com viscosidade.
Seu Cícero pigarreou.
— Ela fez para a feira.
Gabriel entrou um passo e examinou os vidros sem tocar.
— A cor tá boa.
Ana ficou imediatamente desconfiada.
Ele quase sorriu e levantou a pasta.
— Trouxe o contrato e o mapa.
A cozinha ficou mais quieta.
Ana olhou para o tubo de papel. O corpo dela reagiu antes da cabeça: ombros tensos, dedos apertando a colher, respiração presa.
— Agora?
— Você pediu hoje.
— Eu pedi muita coisa desde que cheguei. A fazenda ignorou quase tudo.
Como se tivesse ouvido a deixa, um barulho seco veio da lateral da casa.
Depois, silêncio.
Depois um engasgo metálico.
Depois nada.
Seu Cícero prendeu o pano na porta da geladeira.
— A bomba.
Ana fechou os olhos.
— Não.
Outro som veio do lado de fora, mais baixo. Um gemido de motor tentando trabalhar sem conseguir.
Gabriel já estava virando para a porta.
— Desliga a chave antes que queime.
Ana largou a colher sobre a mesa.
— Claro. A bomba esperou você chegar para provar que você estava certo.
Ele já atravessava a sala, apoiou a pasta e o mapa em uma mesa. Seu Cícero pegou a lanterna e saiu atrás dele. Ana foi junto, mais por indignação do que por utilidade.
A bomba ficava numa construção baixa perto da lateral da casa, meio escondida pelo mato. A noite estava úmida, cheia de grilos, e a luz da lanterna recortava o chão irregular. Ana quase tropeçou numa mangueira, recuperou o equilíbrio sozinha e olhou para Gabriel como se ele tivesse causado aquilo à distância.
— Não fala.
Gabriel ergueu as mãos.
— Eu nem respirei.
A casinha da bomba não tinha porta, Seu Cícero entrou primeiro e sentiu o cheiro de metal quente, fumaça e umidade.
Gabriel se agachou sem cerimônia e arregaçou as mangas da camisa.
Ana notou as mãos dele antes de conseguir evitar.
Mãos grandes, marcadas, com veias aparentes e pequenos cortes cicatrizados. Mãos de quem sabia usar ferramenta, puxar arame, segurar animal, abrir portão emperrado. Não eram mãos decorativas. Não combinavam com a forma como a cidade abria caminho para ele. Ou talvez combinassem demais.
Gabriel pegou a lanterna da mão de Seu Cícero.
— A chave está desligada?
Seu Cícero respondeu:
— Está.
Gabriel tocou a correia antiga com dois dedos.
— Quase arrebentou.
Ana cruzou os braços.
— Quase é uma palavra otimista.
— Quase é a diferença entre conserto barato e motor queimado.
— Eu entendi. A bomba também está fazendo escolhas financeiras ruins.
Seu Cícero abriu a sacola da agropecuária e tirou a correia nova.
— Trouxemos a peça.
Gabriel olhou para ele.
— A B-48?
Ana respondeu antes:
— Sim. O senhor fiscal de bomba garantiu isso na loja.
Gabriel pegou a peça e passou os dedos por ela, verificando a borracha.
— Pelo menos você escuta quando é necessário.
— Eu escuto informação útil. A pessoa que entrega é que às vezes estraga.
Ele riu baixo, sem levantar os olhos.
Aquilo irritou Ana.
O fato de ela ter gostado do som irritou mais.
Gabriel trabalhou com Seu Cícero como se os dois já tivessem repetido aquele gesto dezenas de vezes. Seu Cícero segurava a lanterna, Gabriel soltava o parafuso. Gabriel pedia a chave antes de Ana sequer entender qual ferramenta seria, e Seu Cícero entregava. Quando uma porca emperrou, Gabriel bateu de leve no metal, ajustou o ângulo e tentou de novo.
Nada de discurso. Nada de pose.
Só trabalho.
Ana ficou ao lado, inútil e atenta.
— Você conhece bem essa bomba — ela disse.
Gabriel respondeu sem olhar para ela:
— Conheço.
— Conhece a casa, a bomba, o depósito, a correia certa, a peça ruim da agropecuária…
— Está fazendo uma lista?
— Estou pensando se te coloco como ativo, passivo ou ameaça operacional.
Seu Cícero soltou uma risada baixa.
Gabriel puxou a correia velha com força. O movimento fez a manga da camisa subir um pouco mais no antebraço.
Ana olhou e tentou desviar, tarde demais. Gabriel percebeu.
— Ameaça operacional costuma dar prejuízo — ele disse.
— Ativo também deprecia. — Ana respondeu virando o rosto.
— Depende da manutenção. — Gabriel respondeu.
Seu Cícero tossiu de um jeito alto demais.
Ana olhou para ele.
— O senhor está bem?
— Poeira, pinguinha.
— Não tem poeira.
— Então é idade.
Gabriel encaixou a correia nova e testou a tensão com o polegar.
— Liga.
Seu Cícero foi até a chave e acionou.
A bomba engasgou uma vez.
Ana prendeu a respiração.
Engasgou de novo.
Depois firmou.
O som do motor se estabilizou, mais baixo, mais limpo. Do encanamento veio uma vibração discreta. Água começou a correr em algum ponto da casa.
Seu Cícero sorriu.
— Agora vai.
Gabriel limpou as mãos num pano velho.
— Por hoje.
Ana fechou a cara.
— Você estraga até a vitória.
— Vitória mal cuidada vira despesa grande.
— Já pensou em bordar isso numa almofada? Combina com ameaça bordada.
Ele saiu da casinha e perguntou a Ana:
— Quer ver o contrato?
Quando voltaram, Gabriel parou na entrada da cozinha e olhou para o notebook aberto.
A planilha ocupava a tela.
Produto. Custo. Tempo. Rendimento. Preço. Lucro. Reinvestimento.
Ao lado, havia:
Ovos. Ração. Vidros. Açúcar. Feira. Dívidas.
Gabriel se aproximou.
Ana fechou o notebook pela metade.
— Não encosta.
— Não encostei.
Ele inclinou a cabeça, divertido.
— Vai convencer a terra com tabela?
Ana abriu o notebook de novo, decidida a não dar a ele o prazer de vê-la defensiva.
— Não. Vou impedir que ela me engane sem recibo.
Gabriel ficou olhando para ela por um instante.
Um instante longo demais.
O humor no rosto dele mudou de lugar. Ficou mais baixo, mais sério, quase respeitoso.
— Isso parece você — ele disse.
Ana não esperava aquela resposta.
— Você não me conhece.
— Conheço pedaços.
— Pedaços não autorizados.
— Os mais interessantes geralmente são.
Ela sentiu o calor subir pelo rosto e odiou a cozinha por estar quente demais para culpar só a frase.
Seu Cícero tirou o boné.
— Vou ver se a água voltou no banheiro.
Ana olhou para ele rápido demais.
— Agora?
Seu Cícero já estava saindo.
— Agora.
— Seu Cícero.
— Precisa testar, pinguinha.
E desapareceu pelo corredor com a sutileza de quem nunca havia sido sutil na vida.
Ana ficou sozinha com Gabriel na cozinha.
A mesa entre eles tinha vidros de doce, contas, uma panela queimada, o contrato e o mapa enrolado.
A vida inteira dela parecia ter virado uma exposição de coisas mal resolvidas.
Gabriel colocou a pasta sobre a mesa, mas não abriu.
— Você queimou a panela.
Ana cruzou os braços.
— É parte do processo. Ela morreu contribuindo para pesquisa e desenvolvimento.
Gabriel pegou um dos vidros de goiabada contra a luz.
Dessa vez, Ana não impediu.
— Vai vender por quanto?
Ela respondeu rápido:
— Ainda estou calculando.
— Calculando com vergonha ou com lucro?
— Como assim?
— Cidades pequenas compram história junto com doce. Se vender como “doce de goiaba”, vai ter que cobrar pouco. Se vender como receita do Augusto, feita na Fazenda Formosa, pode cobrar melhor.
Ana ficou quieta.
A sugestão era boa.
Irritantemente boa.
— Você está tentando me ajudar ou tentando valorizar uma fazenda que quer comprar barata depois?
Gabriel colocou o vidro de volta na mesa.
O rosto dele fechou de leve.
— Hoje eu vim entregar o contrato.
— E consertar a bomba... E dar opinião sobre doce.
— A bomba se ofereceu e o doce estava olhando para mim.
Ana respirou fundo para não rir. Mas também não conseguiu manter a raiva inteira.
Gabriel puxou uma cadeira.
— Vamos ao que dói?
Ana olhou para a pasta.
Contrato.
Mapa.
Terra arrendada.
Gabriel Belmonte na cozinha dela, com as mangas dobradas, as mãos ainda marcadas de graxa e uma presença que resolvia problemas sem pedir permissão.
Ela puxou a cadeira do outro lado.
— Vamos.
Ele abriu a pasta devagar.
Do banheiro, a voz de Seu Cícero veio distante:
— A água voltou!
Ana manteve os olhos no contrato.
— Pelo menos alguém voltou.
Gabriel ouviu.
Ela soube que ele ouviu.
Mas ele não perguntou.
Só desenrolou o mapa entre os vidros de goiaba e segurou as pontas com duas xícaras.
A Fazenda Formosa apareceu sobre a mesa em linhas, divisas e manchas de terra que, no papel, pareciam muito mais fáceis de controlar do que eram do lado de fora.
Gabriel apontou uma área com o dedo.
— Aqui começa o arrendamento.
Ana se inclinou sobre o mapa.
O ombro dele ficou perto do dela.
Perto demais.
Dessa vez, ela percebeu.
Também não reclamou.
E isso, mais uma vez, irritou quase tanto quanto ele estar certo.
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