Margem do Formosa

13 Mapa do caos


O mapa da Fazenda Formosa ocupava quase toda a mesa da cozinha.

Gabriel o desenrolou com cuidado, prendendo uma ponta com a caneca azul do tio Augusto, outra com uma xícara de café vazia e as duas restantes com dois vidros de goiabada que Ana tinha feito naquela tarde. A cena seria quase engraçada, se o papel aberto entre eles não parecesse uma sentença.

A cozinha ainda cheirava a doce queimado, café ]e terra úmida. Sobre o fogão, a panela sacrificada no primeiro lote descansava de molho, escura no fundo, como prova material de que nem todo erro podia ser raspado com facilidade.

Ana ficou de pé, do outro lado da mesa, com os braços cruzados.

Seu Cícero havia voltado para a cozinha depois de testar a água no banheiro, mas permanecia perto da porta, quieto demais. Aquela quietude dizia que ele já conhecia parte da conversa. Talvez não os detalhes. Talvez não os números. Mas o peso, sim.

Gabriel apoiou dois dedos sobre o mapa.

— Aqui é a sede — ele disse.

Ana olhou para o ponto indicado.

A casa. A varanda. O terreiro. O galpão. A horta. Tudo reduzido a linhas, manchas e medidas.

No papel, a Fazenda Formosa parecia organizada.

Do lado de fora, ela sabia, havia lama, mato, bomba temperamental, galinha com vocação criminosa e dívida escondida em cada canto.

— Eu sei onde fica a casa — Ana disse.

Gabriel levantou os olhos para ela.

— Estou começando pelo que você conhece.

— Você podia começar pelo que esconderam.

Seu Cícero respirou fundo.

Gabriel não desviou.

— Posso.

Ele deslizou o dedo pelo mapa até uma área marcada em amarelo.

— Essa parte aqui está arrendada.

Ana inclinou-se um pouco.

A faixa amarela era maior do que ela esperava.

Muito maior.

Pegava o pasto baixo, uma parte larga perto da estrada de serviço e avançava até uma área próxima ao rio Formosa. Não a margem inteira, mas o bastante para fazer o estômago dela apertar.

— Isso é “parte da terra”? — Ana perguntou.

Gabriel respondeu:

— É.

Ana olhou para ele.

— Eu perguntei porque a proporção parecia ter sofrido um acidente.

— É uma parte grande.

— Grande é uma sala. Isso aqui é uma amputação.

Seu Cícero abaixou o olhar.

Gabriel continuou com a voz controlada:

— A sede ficou fora. A horta ficou fora. O pomar também. O galinheiro, o terreiro, o depósito, a casa, o acesso principal…

— Que generoso. Me deixaram as paredes, as galinhas e o problema.

— Ana.

— Não fala como se eu estivesse sendo injusta. Você está me mostrando que a melhor terra, o melhor pasto e uma área produtiva perto do rio estão sob contrato com você.

Gabriel ficou em silêncio por um instante.

— Sim.

A palavra foi curta.

Honesta demais para confortar.

Ana apoiou as mãos na mesa e olhou de novo para o mapa. O amarelo parecia se espalhar mais quanto mais ela encarava.

— Quanto ele recebia por isso?

Gabriel abriu a pasta de couro, tirou uma cópia do contrato e empurrou para ela.

Ana pegou o documento.

Leu a cláusula do valor.

Depois leu de novo.

A risada que saiu dela não tinha humor.

— Isso é mensal?

— É.

— Por essa área toda?

— Sim.

Ela soltou o contrato sobre a mesa.

— Isso não paga nem a soma das dores de cabeça que essa terra me dá.

Gabriel não respondeu.

Ana virou-se para Seu Cícero.

— O senhor sabia o valor?

Seu Cícero apertou o chapéu nas mãos.

— Não certinho, pinguinha.

— Mas sabia que ele tinha arrendado.

— Sabia.

— Sabia que era tanta terra?

Seu Cícero demorou um segundo a mais.

— Sabia que era demais, mas ele não tinha como produzir naquela terra.

Ana fechou os olhos, tampando o rosto com as mãos.

A raiva veio em ondas. Primeiro contra Gabriel. Depois contra o tio. Depois contra ela mesma, por ter chegado tarde demais para impedir qualquer coisa.

Quando abriu os olhos, olhou para Gabriel.

— Ele estava desesperado.

Gabriel sustentou o olhar dela.

— Ele precisava de dinheiro pras contas básicas e dívidas urgentes.

— E você ofereceu um valor fixo.

— Ofereci.

— Pouco.

— O que ele aceitou.

Ana afastou-se da mesa como se tivesse levado um empurrão.

— Não faça isso.

Gabriel ficou imóvel.

— Isso o quê?

— Não transforme desespero em escolha só porque tinha assinatura no papel.

A frase acertou a cozinha inteira.

Seu Cícero olhou para ela, depois para Gabriel.

Gabriel baixou os olhos para o mapa.

— Eu não transformei, é assim que negócios funcionam Ana, a gente vê uma vantagem e coloca isso no papel.

— Transformou sim. Agora mesmo.

Ele respirou pelo nariz, devagar. Parecia escolher entre se defender e dizer a verdade.

Ana percebeu.

— Ele devia ter pedido porcentagem do lucro — ela disse.

Gabriel respondeu baixo:

— Devia.

A simplicidade da resposta a atingiu pior do que uma desculpa.

Ana ficou parada.

— E você sabia disso.

Gabriel levantou os olhos.

— Sabia.

O silêncio que veio depois mostrou que não havia mal-entendido.

Sem espaço para ela fingir que ele talvez não tivesse percebido. Gabriel Belmonte percebeu, entendeu e assinou mesmo assim.

Ana olhou para o mapa, para as linhas amarelas, para a caneca do tio segurando a ponta do papel. Aquela caneca velha, lascada, com a frase sobre café e teimosia. A presença dela ali pareceu quase cruel.

— Você viu um homem se afogando — Ana disse. — E jogou uma corda curta o bastante para ele continuar precisando de você.

Gabriel não respondeu de imediato.

Quando falou, a voz saiu mais baixa:

— Eu vi um homem tentando ganhar tempo.

— E comprou esse tempo barato.

— Sim.

Seu Cícero fechou os olhos por um segundo.

Ana sentiu a garganta apertar, mas a raiva segurou tudo no lugar.

— Pelo menos você não está tentando parecer nobre.

Gabriel deu um sorriso sem alegria.

— Não faz o meu estilo.

— Não.

Ela pegou o contrato de novo e folheou as páginas. O papel fazia um ruído seco sob seus dedos. Cláusulas, prazos, repasses, renovação automática, obrigações de manutenção, limitações de uso. Era uma prisão escrita em linguagem educada.

— Quanto tempo falta?

Gabriel respondeu:

— Dois anos e oito meses.

Ana ergueu o rosto devagar.

— Dois anos.

— E oito meses.

— Você falou “oito meses” como se fosse uma gentileza.

— Falei porque é o prazo.

— Que maravilha. Minha ruína também tem prazo.

Ela voltou ao mapa.

— E essa área aqui? — Ana apontou para uma faixa próxima à estrada.

— Uso para passagem de maquinário.

— Sua, na minha fazenda.

— Pelo contrato, sim.

Ana soltou uma risada curta.

— Essa frase está começando a me dar vontade de quebrar alguma coisa.

Gabriel olhou para a panela queimada na pia.

— Recomendo algo que já esteja perdido.

Ana olhou para ele com indignação.

Seu Cícero fez um som baixo, quase um riso.

Ana apontou para os dois.

— Não. Ninguém está autorizado a achar graça.

Gabriel ficou sério de novo.

— A área da horta ainda é sua. O pomar também. A parte atrás do galpão pode ser recuperada. A faixa perto da estrada dá para usar para venda direta, se você for esperta.

— Se eu for esperta.

— Você é.

Ana não esperava aquilo.

A frase não veio com deboche. Nem com sedução. Veio como constatação prática, e talvez por isso a incomodou mais.

Ela desviou para o mapa.

— Não use elogio como ferramenta, Gabriel.

— Não era elogio.

— Então era o quê?

O canto da boca dele quase se moveu, mas ele conteve.

Ana passou o dedo sobre a área não marcada. Era pequena comparada ao resto. Pequena, mas não inexistente.

Ela odiou perceber isso com ele na frente.

— Você disse no Sicoob para vender o que ainda gira — Ana falou. — E sabia que eu não podia fazer plantação grande.

— Sabia.

— Então sua dica não era generosidade. Era informação privilegiada.

Gabriel respondeu:

— Era o que eu faria no seu lugar.

— Você tem um talento quase artístico para ser útil e insuportável ao mesmo tempo.

— Já ouvi muito isso.

— Mulheres inteligentes ou credores?

— Os dois costumam ter boa memória.

Ana não quis saber quantas mulheres entravam naquela frase. Não naquele momento. Não quando já tinha motivos suficientes para se irritar.

Ela pegou a caneta e puxou uma folha.

— Certo. O que fica fora do arrendamento?

Gabriel observou a mudança.

— Vai anotar agora?

— Não. Vou desenhar pra me sentir acolhida.

Seu Cícero abaixou a cabeça, sorrindo.

Gabriel apontou as áreas uma por uma.

— Sede. Horta. Pomar. Galinheiro. Depósito. Galpão, apesar do estado. Uma faixa de terra perto da estrada. Pequena área de mandioca, se ainda tiver alguma coisa viva lá. E a beira mais estreita do rio deste lado.

Ana anotou rápido.

— A horta está meio morta, mas existe. O pomar tem goiaba. Galinheiro tem produção variável e má conduta. Cozinha produz doce com índice moderado de tragédia. Depósito tem vidro. Galpão tem ferramenta quebrada e ameaça biológica no freezer.

Gabriel olhou para ela.

— Ameaça biológica?

Seu Cícero respondeu:

— Freezer parou com polpa dentro.

Gabriel fez uma careta discreta.

— Não abre sem máscara.

Ana apontou a caneta para ele.

— Finalmente concordamos em algo.

Ela voltou à folha.

— O que você produz na parte arrendada?

Gabriel estreitou os olhos.

— Por quê?

— Porque eu quero saber se o valor fixo que ele aceitou foi ruim ou criminosamente ruim.

Seu Cícero murmurou:

— Pinguinha…

Gabriel respondeu antes que o caseiro completasse:

— Pasto rotacionado e lavoura em parte da área.

— Lavoura de quê?

— Milho e soja, dependendo do ciclo.

Ana absorveu.

— Então você não só lucra com a terra. Você lucra com escala e paga um valor fixo mesmo quando o lucro sobe.

— Sim.

Ana largou a caneta.

— Eu quero te jogar no rio.

Gabriel respondeu calmo:

— O rio Formosa tem pedra. Você teria trabalho pra tirar o corpo depois.

— Estou disposta a avaliar custo-benefício.

Dessa vez, ele sorriu.

O suficiente para a irritação dela encontrar outro problema.

Ana voltou ao contrato.

— Tem multa para rescisão?

Gabriel ficou mais sério.

— Tem. Alta o bastante para não fazer sentido agora.

— Para mim ou para você?

— Para a fazenda.

Ela leu a cláusula até encontrar o valor. O rosto dela perdeu um pouco da cor.

— Isso é ridículo.

— É contrato.

— Contrato também pode ser ridículo.

— Pode.

Ana fechou o documento com força.

Seu Cícero colocou a mão no encosto de uma cadeira.

— Talvez seja melhor continuar amanhã.

Ana não tirou os olhos de Gabriel.

— Não. Eu quero terminar.

Gabriel olhou para Seu Cícero.

— Ela aguenta.

A frase podia ter soado arrogante.

Soou quase firme. Quase como se ele estivesse dizendo ao caseiro que ela não era frágil.

Ana odiou que isso a defendesse.

— Não fale por mim — ela disse.

— Não falei.

— Falou.

— Falei sobre você.

— Mesma coisa.

Gabriel abaixou o olhar para o mapa.

A diferença importava pois o ex falava por ela como se a conhecesse melhor. Importava que Gabriel, mesmo arrogante, às vezes parecesse enxergar uma capacidade que ninguém mais estava disposto a admitir.

Isso a deixou ainda mais furiosa.

Ela apontou para o mapa.

— Eu quero uma cópia disso.

— Já trouxe.

Gabriel tirou outra folha enrolada da pasta.

— Quero o contrato digitalizado. Quero histórico de pagamento.

— Vou te mandar.

Ana olhou para o mapa, depois para Gabriel.

A primeira rachadura entre eles deixou de ser uma linha fina. Tornou-se algo visível.

— Você não veio me ajudar porque é bom — ela disse. — Veio porque sabe exatamente o tamanho da armadilha.

— Vim porque, se você não souber, vai cair mais fundo.

— Numa armadilha que também tem sua assinatura.

Gabriel ficou quieto.

Era a resposta mais honesta que poderia dar.

Ana pegou a caneca azul e percebeu que estava segurando a ponta do mapa justamente sobre a área da casa. A frase quase apagada continuava ali:

Café resolve metade. Teimosia resolve o resto.

Ela soltou uma risada triste.

— Tio Augusto, que negociação horrível.

Seu Cícero fechou os olhos.

Gabriel observou Ana com uma atenção mais silenciosa agora.

Ana recolocou a caneca no lugar e empurrou o contrato na direção de Gabriel.

— Leva isso.

Gabriel franziu a testa.

— Você pediu a cópia.

— A cópia fica. O original, ou essa encenação de original, pode levar. Eu não quero dormir na mesma casa que esse papel.

Ele estranhou, mas assentiu.

— Certo.

Ana pegou a cópia do mapa, enrolou e segurou com força.

— Amanhã eu redesenho meu plano com a terra que sobrou. Eu faço o pouco render até incomodar você.

Pela primeira vez naquela noite, Gabriel pareceu não saber se sorria ou se se preocupava.

— Isso é uma meta ruim.

— Para você, talvez.

Gabriel guardou os papéis na pasta. Antes de sair, parou na entrada da cozinha.

— Ana.

Ela não respondeu.

Ele continuou:

— Augusto não era ingênuo.

A frase a atingiu de lado.

Ana virou devagar.

— Isso é defesa dele ou sua?

Gabriel sustentou o olhar dela por um segundo longo. Depois saiu.

Ana ficou parada na cozinha, ouvindo os passos dele atravessarem a sala e a varanda. O motor da caminhonete ligou no terreiro, grave, seguro, irritantemente estável.

Quando o som se afastou, ela olhou para o mapa enrolado em suas mãos.

A Fazenda Formosa, que já parecia pequena demais durante o dia, tinha acabado de encolher ainda mais.

Seu Cícero se aproximou com cuidado.

— Pinguinha…

Ana apertou o mapa.

— Não agora, Seu Cícero.

Ele assentiu, mesmo doendo.

Ana ficou sozinha diante da mesa, entre os vidros de goiaba, a panela queimada e a caneca azul do tio Augusto.

Do lado de fora, o rio Formosa seguia correndo no escuro.

E, pela primeira vez, Ana teve raiva dele também.

Do rio, da terra, de Gabriel. Principalmente do tio.

Porque era mais fácil sentir saudade antes de saber o tamanho da bagunça que ele tinha deixado.