Margem do Formosa

17 Incêndio com caneca


A Fazenda Formosa não esperou Ana terminar o café para começar a cobrar.

Às oito e dez, Arlindo mandou mensagem.

Bom dia, dona Ana. Só lembrando que o prazo da agropecuária vence em sete dias. Se precisar de mais alguma coisa, me avisa.

Ana encarou a tela.

— “Se precisar de mais alguma coisa” — ela leu em voz alta. — Que forma delicada de dizer “não esquece que você me deve”.

Seu Cícero colocou o chapéu.

— Arlindo é bom homem.

— Eu não disse que não era. Só disse que a cobrança dele usa perfume.

Às oito e vinte e dois, um fornecedor antigo ligou.

Ana atendeu com a postura de quem ainda acreditava em conversas civilizadas.

— Fazenda Formosa, Ana falando.

Do outro lado, um homem chamado Nelson explicou, com voz mansa demais, que havia uma pendência de entrega de ração, que entendia “a situação”, que tinha consideração por Augusto, mas que também tinha “família e boleto”.

Ana anotou tudo numa folha.

Quando desligou, escreveu:

Nelson — ração — cobrança educada com faca escondida.

Seu Cícero olhou por cima do ombro dela.

— Faca?

— Metafórica.

— Ah.

Às nove, foram para a horta.

A horta, que no dia anterior parecia apenas abandonada, agora parecia ter tomado uma decisão política contra eles. O mato avançava entre as fileiras, as couves estavam furadas, a cebolinha sobrevivia por orgulho e dois pés de tomate tinham desabado sobre si mesmos com a dignidade de quem não queria mais participar.

Ana parou diante do canteiro.

— Seu Cícero.

— Oi, pinguinha.

— A horta piorou desde ontem ou eu estou desenvolvendo percepção?

— As duas coisas.

Ela fechou os olhos.

— Resposta honesta demais para esse horário.

Passaram uma hora arrancando mato. Ana descobriu que a terra entrava sob a unha com uma facilidade ofensiva e que qualquer planta útil era visualmente parecida com alguma planta que queria apenas ocupar espaço.

Ela ergueu uma muda.

— Isso é cheiro-verde ou inimigo?

Seu Cícero olhou.

— Inimigo.

Ana arrancou.

Cinco minutos depois, ergueu outra.

— E isso?

— Cheiro-verde.

Ana olhou para a raiz pendurada na mão dela.

— Eu matei.

— Matou.

— Não havia etiqueta.

Seu Cícero respirou fundo.

— Planta não costuma vir com nome.

— Falha grave de interface.

Às dez e meia, foram ao galinheiro.

As galinhas, que na véspera haviam produzido o suficiente para alimentar alguma esperança, escolheram aquele dia para reduzir a entrega.

Seu Cícero contou os ovos.

— Nove.

Ana ficou parada.

— Nove.

— É.

— Ontem foram dezesseis.

— É.

Ana olhou para as galinhas.

— Alguém aqui está sabotando o fluxo de caixa.

Uma galinha carijó ciscou perto da bota de Seu Cícero com absoluto desinteresse.

Ana apontou para ela.

— Essa sabe de alguma coisa.

Seu Cícero segurou o riso.

— Pode ser calor.

— Pode ser má gestão da equipe.

— Galinha não é equipe.

— A partir do momento em que entra na minha planilha, é.

Ao meio-dia, descobriram que um saco de ração estava perto de vencer.

Ana colocou a mão na cintura.

— Isso estava onde?

Seu Cícero respondeu:

— No depósito.

— Em qual setor do depósito?

Ele pensou.

— Setor dos sacos.

Ana olhou para ele.

— Esse setor foi oficialmente extinto.

Ela arrastou o saco para perto da porta, colou um papel por cima e escreveu:

USAR PRIMEIRO. NÃO IGNORAR. NÃO FINGIR QUE NÃO VIU.

Seu Cícero leu.

— A última parte é pra mim?

— É para a fazenda. Mas, se servir, aproveita.

Depois do almoço, Ana tentou pintar parte da varanda.

A ideia era simples: se a casa parecia menos abandonada, talvez a feira, os fornecedores e a própria Ana acreditassem um pouco mais na operação.

Ela comprara uma lata pequena de tinta branca na cidade, suficiente para “dar uma melhorada”.

A tinta, assim como tudo na Formosa, entendeu a proposta de forma criativa.

Na primeira passada, a parede sugou o branco como terra seca chupando chuva.

Na segunda, uma placa antiga de tinta descascou inteira e caiu no chão.

Ana ficou olhando para o buraco irregular.

— Eu pintei ou esfolei a casa?

Seu Cícero aproximou-se.

— Essa parede está úmida.

— Descobri.

— Tem que raspar antes.

— Informação que teria sido útil vinte minutos atrás.

— Pensei que você soubesse.

Ana olhou para ele.

— Seu Cícero, ontem eu achei que correia de bomba era acessório opcional. Não vamos superestimar meu repertório.

Às três, ela foi lavar mais vidros para a goiabada.

Havia doze vidros.

Havia sete tampas aproveitáveis.

Ana espalhou tudo sobre a mesa da cozinha.

— Não.

Seu Cícero entrou carregando ovos.

— O que foi?

— Temos crise de tampa.

— Tampa?

— A parte mais humilhante de qualquer cadeia produtiva. Você tem produto, tem vidro, tem vontade de viver, mas não tem como fechar.

Ela pegou uma tampa enferrujada com a ponta dos dedos.

— Essa aqui parece ter participado de uma guerra.

Seu Cícero examinou.

— Não dá.

— Eu sei que não dá. Só queria que alguém além de mim verbalizasse.

Às quatro e pouco, a geladeira falhou.

Não completamente. Só o suficiente para fazer um estalo, apagar a luz interna e voltar com um ronco grave.

Ana estava na cozinha quando aconteceu.

Ela virou devagar para o aparelho.

— Não.

A geladeira roncou.

— Não começa.

Outro estalo.

Seu Cícero apareceu na porta.

— Ela está cansando.

Ana apontou para a geladeira.

— Ela não tem esse direito. Eu estou cansando e continuo operacional.

O aparelho voltou a funcionar, tremendo de leve.

Ana anotou:

Geladeira: ameaça recorrente. Não confiar.

Às cinco, a bomba fez um barulho.

Pequeno.

Um engasgo.

Nada demais, talvez.

Mas Ana e Seu Cícero congelaram como se tivessem ouvido uma confissão.

— O senhor ouviu? — Ana perguntou.

Seu Cícero respondeu:

— Ouvi.

— Isso foi normal?

Ele demorou.

— Mais ou menos.

Ana largou a caneta.

— Seu Cícero, “mais ou menos” é a frase oficial da Formosa?

— É que a bomba às vezes reclama.

— Eu também reclamo. Nem por isso tento destruir o abastecimento.

Ela foi até a varanda, sentou-se à mesa e puxou a lista do dia.

A lista tinha começado simples.

Agora parecia ter criado filhotes.

Cobrar valores pendentes.

Ver ração vencendo.

Comprar tampas.

Limpar horta.

Separar poedeiras.

Consertar parede antes de pintar.

Monitorar geladeira.

Ouvir bomba.

Responder fornecedor.

Ver embalagem.

Calcular feira.

Não jogar celular no rio.

Ana leu a última linha e percebeu que não lembrava de ter escrito.

Seu Cícero colocou uma xícara de café diante dela.

— Pausa.

— Não tenho tempo para pausa.

— Tem tempo para cair dura?

Ela olhou para ele.

— O senhor está usando lógica contra mim.

— Aprendi olhando você.

Ana pegou a xícara.

As mãos estavam sujas de terra, tinta, açúcar seco e um pouco de ração. O cabelo escapava do prendedor. A camiseta tinha uma mancha branca de tinta na barriga e outra vermelha de goiaba perto da manga.

O celular vibrou sobre a mesa.

Ela nem olhou.

A fazenda fazia barulho ao redor: galinha, bomba, geladeira, vento, telha, folha, um rangido que talvez fosse a casa e talvez fosse a paciência dela.

Ana tomou um gole de café frio.

— Sabe qual é a sensação?

Seu Cícero sentou-se ao lado dela.

— Qual?

— Que eu estou tentando apagar incêndio com uma caneca.

Ele olhou para a xícara na mão dela.

— Pelo menos tem café.

Ana riu.

Dessa vez, riu de verdade.

Pouco.

Cansada.

Quase derrotada.

Mas riu.

Depois abriu a planilha de novo.

Porque o incêndio continuava.

E, até segunda ordem, a caneca era tudo que ela tinha.