Margem do Formosa

2 Garota da Capital


Gabriel Belmonte tinha imaginado muitas versões da sobrinha de Augusto.

Na maioria delas, ela durava pouco.

Pelo que ouvira na cidade — e São Gabriel era uma máquina eficiente de ouvir coisas antes que fossem ditas —, Ana vinha da capital, trabalhava com computador, morava em apartamento caro e tinha terminado um relacionamento de um jeito feio o bastante para transformar herança rural em plano de fuga.

Gabriel esperava uma mulher elegante demais, perfumada demais, impaciente demais. Alguém que olharia para o mato alto e veria sujeira. Para o curral vazio e veria fracasso. Para as dívidas e veria motivo suficiente para assinar a venda antes do primeiro mês acabar.

Ele tinha contado com isso.

Talvez até apostado nisso.

Mas a mulher parada na varanda da Fazenda Formosa não correspondia exatamente à fantasia que ele preparara.

O cabelo preto, curto, estava úmido nas pontas por causa do calor. A franja grudava de leve na testa. Ela usava jeans, camiseta simples e um All Star branco que já havia perdido a batalha contra a lama de forma humilhante. Não parecia frágil. Parecia irritada. E havia uma diferença importante entre uma coisa e outra.

Gabriel estacionou a caminhonete perto do terreiro e desceu sem pressa.

O velho Cícero o observava como se Gabriel tivesse trazido uma praga na sola da bota.

Ana, por outro lado, não desviou o olhar.

— Cícero — Gabriel cumprimentou.

— Seu Gabriel — Seu Cícero respondeu.

A resposta veio seca.

Gabriel quase sorriu. O caseiro nunca gostara dele. Homens antigos tinham um talento especial para guardar rancor em silêncio, como quem guarda faca amolada na gaveta.

Ele voltou os olhos para Ana.

De perto, ela parecia ainda menos com a figura que ele imaginara. Bonita, sim. Bonita de um jeito que irritava um pouco, porque não parecia se esforçar para isso. Mas havia olheiras sob os olhos, lama na barra da calça e uma pasta de documentos apertada contra o corpo como se fosse um escudo.

— Você deve ser a Ana — Gabriel disse.

— E você deve ser o homem que entra na propriedade dos outros sem pedir licença — Ana respondeu.

Seu Cícero tossiu, escondendo um riso.

Gabriel inclinou a cabeça, aceitando o golpe.

— A porteira estava aberta.

— Isso é uma explicação ou uma confissão? — Ana perguntou.

Dessa vez, Gabriel sorriu de verdade. Pequeno. Quase contra a vontade.

— Seu tio costumava me receber aqui.

Algo no rosto dela mudou ao ouvir “seu tio”. Pouco, mas Gabriel viu. Um endurecimento ao redor da boca. Uma defesa sendo levantada antes mesmo de ela perceber.

— Meu tio não está aqui — Ana respondeu. — Então algumas permissões ficam suspensas até segunda ordem.

Seu Cícero olhou para ela com um orgulho discreto, desses que pais tentam esconder quando o filho acerta a primeira pedrada.

Gabriel enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta.

— Justo.

Ana esperou.

Ele percebeu que ela não preencheria o silêncio para facilitar a vida dele. Era um mau hábito nas pessoas da cidade: algumas aprendiam a negociar antes mesmo de aprender a plantar qualquer coisa.

— Vim saber se você chegou bem — Gabriel disse.

Ana olhou para o Corolla enlameado, depois para o próprio tênis, depois de volta para ele.

— Cheguei inteira. O carro talvez precise de terapia.

— Essa estrada não é feita para carro baixo — Gabriel disse.

— Percebi quando o assoalho começou a pedir demissão — Ana respondeu.

Seu Cícero soltou uma risada curta.

Gabriel olhou para o veículo pequeno, preso numa camada de barro perto da varanda, e depois para a mulher à sua frente. A fantasia dele de uma herdeira delicada começava a desmanchar. Não porque ela parecesse preparada. Não parecia. Ela estava evidentemente chocada, desconfortável e tentando fingir que mosquitos não a estavam devorando viva.

Mas havia um tipo específico de teimosia no jeito como ela mantinha os ombros retos.

Aquilo poderia ser um problema.

— A fazenda está pior do que você esperava — Gabriel disse.

Ana ergueu uma sobrancelha.

— Você sempre começa conversas apontando desastres óbvios ou hoje é uma ocasião especial?

— Depende do desastre.

— Então deve ser um talento útil por aqui — Ana disse.

Gabriel olhou ao redor: o galpão torto, o curral vazio, a cerca vencida, o mato engolindo as laterais da casa. Conhecia cada sinal de abandono. Conhecia também o peso dos papéis que ela segurava. Dívida não ficava apenas em cartório. Dívida aparecia no telhado, no pasto, no ar parado de uma propriedade que tinha parado de girar.

— Augusto lutou bastante — Gabriel disse.

A frase saiu mais baixa do que pretendia.

Ana percebeu.

— Você fala como se ele tivesse ido embora há cem anos — ela disse.

Gabriel sustentou o olhar dela por um segundo a mais do que deveria.

— Às vezes parece.

O silêncio que veio depois não foi vazio. Foi cheio demais.

Ana apertou a pasta contra o peito.

— Você conhecia bem ele? — ela perguntou.

— Todo mundo conhecia Augusto — Gabriel respondeu.

— Não foi o que eu perguntei.

Seu Cícero ficou imóvel ao lado da porta.

Gabriel sentiu o velho observando cada respiração sua. Havia coisas enterradas naquela fazenda que não precisavam de enxada para voltar à superfície.

— Conhecia o suficiente — Gabriel respondeu.

Ana não pareceu satisfeita, mas guardou a pergunta.

Por enquanto.

— Bom — Ana disse, descendo um degrau da varanda.

A madeira reclamou sob o peso dela.

— Como aparentemente a cidade inteira sabe mais sobre a minha herança do que eu, talvez você possa me explicar por que está aqui de verdade.

Gabriel olhou para o tênis dela afundando de novo na lama.

— Cuidado — ele disse.

— Com o quê? — Ana perguntou.

O pé dela deslizou.

Gabriel avançou por instinto e segurou o braço dela antes que Ana perdesse o equilíbrio. Foi rápido. Prático. A mão dele fechou em torno do cotovelo dela, firme, quente, cheia de calos.

Ana ficou parada.

Ele também.

Por um instante, entre a lama, os insetos e a casa caindo aos pedaços, os dois se encararam perto demais.

Então Ana puxou o braço.

— Eu tinha controlado.

— Claro — Gabriel disse.

— Tinha.

— Pareceu muito técnico.

— Eu trabalho com sistemas — Ana disse. — Quedas são só falhas temporárias de estabilidade.

Gabriel riu pelo nariz.

— Isso vai ser divertido.

— Para quem? — Ana perguntou.

— Para a cidade.

Ana estreitou os olhos.

— Você é sempre tão acolhedor?

— Só quando estou tentando causar boa impressão — Gabriel disse.

— Péssima notícia: falhou.

Gabriel inclinou o corpo ligeiramente, como se confidenciasse algo.

— Ainda bem. Eu ficaria preocupado se tivesse dado certo.

Seu Cícero deu um passo à frente, protetor.

— Dona Ana acabou de chegar — Seu Cícero disse. — Tem muita coisa pra ver dentro de casa.

— Imagino que tenha — Gabriel respondeu.

Ana o observava como se tentasse catalogá-lo. Gabriel conhecia aquele olhar. Não era admiração. Era análise. Como se ele fosse um problema a ser dividido em partes menores até revelar a lógica interna.

Ele não gostou de ser observado daquele jeito.

Gostou menos ainda de gostar.

— Senhor Belmonte — Ana disse, com uma formalidade repentina que soou mais ofensiva do que um xingamento. — Se veio me dar boas-vindas, obrigada. Se veio me vender alguma coisa, hoje não. Se veio me comprar alguma coisa, menos ainda.

A frase acertou o ar entre eles.

Seu Cícero olhou para Gabriel.

Gabriel manteve o rosto imóvel.

Então ela sabia alguma coisa. Ou desconfiava. Talvez o advogado tivesse mencionado o contrato. Talvez Augusto tivesse deixado alguma carta. Talvez fosse só instinto.

— Não vim comprar nada — Gabriel disse.

Não hoje, completou uma parte antiga dele.

Ana ouviu o que ele não disse, ou pelo menos pareceu ouvir.

— Ótimo — ela respondeu.

Gabriel olhou para a casa. Depois para o galpão. Depois para o mato, para a cerca, para o carro baixo, para a mulher de tênis branco enlameado segurando documentos como se planilhas pudessem impedir cupim de comer viga.

— Mas vou te dar um conselho — Gabriel disse.

— Eu não pedi.

— Por isso mesmo ele ainda é grátis.

Ana cruzou os braços.

Gabriel apontou com o queixo para a propriedade.

— Não se apaixone pela lembrança antes de entender o tamanho do problema.

A expressão dela se fechou.

— Essa fazenda é minha.

— Por enquanto.

O silêncio caiu de uma vez.

Seu Cícero endureceu.

Ana não piscou.

Gabriel percebeu tarde demais como a frase tinha soado. Ou talvez tivesse soado exatamente como precisava soar para manter a distância entre eles. A verdade era que havia muitas maneiras de interpretar aquelas duas palavras.

A mais gentil era: essa fazenda podia engolir Ana antes do fim da estação.

A mais honesta, Gabriel preferiu não examinar.

Ana desceu o último degrau da varanda, agora tomando cuidado com a lama, e parou diante dele com o queixo erguido.

— Então é bom a gente esclarecer uma coisa logo no primeiro dia, senhor Belmonte.

— Gabriel — ele corrigiu.

— Eu não perguntei — Ana respondeu.

A boca dele ameaçou sorrir.

Ana continuou:

— Eu não dirigi horas por uma estrada que odeia carros, não atolei meu tênis favorito nesse pântano decorativo e não vim morar numa casa possivelmente sustentada por rancor e cupim para desistir porque um fazendeiro decidiu me assustar na varanda.

Gabriel ficou em silêncio.

Seu Cícero parecia prestes a aplaudir.

Um mosquito pousou na bochecha de Ana.

Ela deu um tapa em si mesma, com força demais.

A dignidade da frase sofreu um pequeno abalo.

Gabriel baixou os olhos por um segundo, contendo o riso.

— Mosquito daqui também não respeita proprietária nova — ele disse.

Ana apontou para ele.

— Não terminei.

— Notei.

— Eu posso não entender de curral, pasto, fornecedor, trator, safra, seja lá o que estiver morrendo naquele galpão ou por que aparentemente os lagartos daqui têm porte de jacaré. Mas eu entendo de problema. E problema, senhor Belmonte, a gente quebra em partes menores até parar de parecer impossível.

Pela primeira vez desde que descera da caminhonete, Gabriel não encontrou uma resposta imediata.

Ela estava errada sobre muita coisa. A terra não obedecia como código. Chuva não seguia cronograma. Bicho adoecia, preço caía, gente mentia, máquina quebrava no pior dia possível. Fazendas não eram sistemas limpos. Eram organismos teimosos, caros e temperamentais.

Mas havia algo naquela mulher, coberta de picadas e lama, diante de uma casa quase vencida pelo abandono, que parecia absurdamente disposta a brigar com o inevitável.

Gabriel conhecia aquele tipo de teimosia.

Tinha sido o que mais odiara em Augusto.

E talvez o que mais respeitara também.

Ele deu um passo para trás.

— Nesse caso, Ana, bem-vinda à Fazenda Formosa.

Ela sustentou o olhar dele.

— Obrigada.

Gabriel abriu a porta da caminhonete, mas antes de entrar, olhou para Seu Cícero.

— A bomba d’água ainda falha depois das seis? — Gabriel perguntou.

Seu Cícero fechou a cara.

— Falha.

— Troca a correia antes que queime o motor — Gabriel disse. — Tem uma na oficina velha, atrás das caixas de peça.

Ana franziu a testa.

— Como você sabe disso?

Gabriel apoiou o braço na porta aberta.

— Eu conheço essa fazenda há mais tempo do que você lembra dela.

A frase ficou no ar, incômoda.

Então ele entrou na caminhonete, ligou o motor e foi embora pelo mesmo caminho de terra, deixando para trás o cheiro de diesel, uma sugestão útil e mais perguntas do que respostas.

Ana ficou olhando até o veículo desaparecer atrás das árvores.

Depois virou-se para Seu Cícero.

— Eu não entendi metade do que ele falou e não gostei dele.

Seu Cícero olhou para a estrada vazia.

— Melhor assim.

Ana encarou o caseiro.

— Por quê?

O velho demorou a responder.

— Porque homem bonito e perigoso dá mais trabalho quando a gente gosta.

Ana abriu a boca, fechou de novo e decidiu que, naquele momento, preferia enfrentar a casa caindo.

Atrás dela, a Fazenda Formosa rangeu ao vento, como se tivesse rido primeiro.

Notas finais
Curiosidade: até hoje eu passo os mesmos perrengues quando vou à chácara.