Margem do Formosa
27 GABRIEL!
— GABRIEL!
Nenhuma resposta.
Ana tornou a bater, agora com força suficiente para fazer a porta vibrar.
— GABRIEL BELMONTE!
A porta se abriu de repente.
Ana precisou recuar para não acertar a mulher que surgiu do outro lado.
Ela devia ter pouco mais de cinquenta anos, usava um robe escuro sobre a camisola e mantinha os cabelos presos em uma touca de seda. Seu rosto mostrava mais irritação do que susto.
— A senhora sabe que horas são?
Ana continuava com a mão levantada.
— Sei.
— Então imagino que tenha uma explicação muito boa para quase derrubar a porta.
— É uma emergência.
A mulher olhou para Ana dos pés à cabeça, detendo-se na bolsa presa contra o corpo e no cabelo desalinhado pela viagem.
— Alguém está ferido?
— Ainda não.
A expressão da mulher não se alterou.
— Isso não soa como emergência.
— Depende da resposta dele.
— De quem?
— Gabriel.
A mulher soltou o ar pelo nariz.
— Naturalmente.
Ela abriu um pouco mais a porta, mas permaneceu no caminho.
— O senhor Gabriel está dormindo.
— Ele pode acordar.
— A senhora não quer voltar amanhã?
— Não.
— Telefonar?
— Também não.
— Marcar um horário civilizado?
— Menos ainda.
A mulher a observou por alguns segundos, como se tentasse decidir se Ana era perigosa, inconveniente ou apenas jovem demais para compreender as regras da casa alheia.
Passos soaram no interior.
— Marta?
A voz de Gabriel veio rouca de sono.
Ana sentiu o corpo inteiro ficar alerta.
Ele apareceu no corredor atrás da empregada, passando a mão pelo cabelo desarrumado. Vestia uma calça escura de tecido leve e uma camiseta cinza, amassada de um lado. Estava descalço. Sem as botas, a camisa bem ajustada e a postura calculada que usava na cidade, parecia mais jovem e menos inacessível.
Ainda assim, ocupou o espaço no instante em que surgiu.
Gabriel estreitou os olhos ao reconhecer Ana.
— O que aconteceu?
Ela abriu a boca, mas ele já procurava sinais de ferimento.
— É a bomba de novo?
A pergunta veio tão imediata que parte da raiva de Ana perdeu o equilíbrio.
— Não é a bomba.
Gabriel olhou para trás dela, na direção do carro.
— Seu Cícero está bem?
— Está.
Os ombros dele relaxaram apenas um pouco. Gabriel voltou a passar a mão pelos cabelos, tentando afastar o sono.
— Então por que você está quase derrubando minha porta à meia-noite?
— Porque preciso falar com você.
— Podia ter ligado.
— Você podia ter contado a verdade.
A sonolência desapareceu dos olhos dele.
Marta olhou de Gabriel para Ana.
— Vou fazer café — anunciou a mulher.
— Não precisa — respondeu Ana.
Marta já se afastava.
— Não é para a senhora.
Gabriel esperou até a empregada desaparecer no corredor. Depois abriu a porta por completo.
— Entre.
Ana permaneceu na varanda.
— Não vou demorar.
Ele encostou uma das mãos no batente.
— Você dirigiu até aqui no meio da noite, quase assustou Marta para fora da própria pele e está com a bolsa apertada como se carregasse uma arma. Vai demorar.
— São contratos.
— Nesse horário, podem ser as duas coisas.
Ana entrou.
O hall era amplo, com piso de madeira escura e uma escada que subia acompanhando a parede. Havia quadros antigos, fotografias em preto e branco e um aparador sobre o qual descansava uma bandeja com chaves. Nada parecia escolhido por decorador para impressionar visitas. A casa tinha idade, história e manutenção suficiente para preservar as duas coisas.
Isso a irritou ainda mais.
Gabriel fechou a porta.
— Sala ou escritório?
— Você tem um escritório organizado?
Ele inclinou a cabeça.
— Tenho até gavetas.
— Que evolução.
Gabriel apontou para uma porta à direita.
O escritório dele era o oposto do de Augusto. Os documentos estavam guardados em armários de madeira. Havia pastas identificadas, uma mesa sem papéis empilhados e um mapa da região ocupando parte da parede. Um computador permanecia fechado ao lado de um telefone e de uma luminária.
Ana parou diante do mapa.
Os limites das propriedades eram mais nítidos do que no documento antigo da Formosa. Algumas áreas estavam marcadas com cores diferentes, mas ela não teve tempo de examiná-las antes que Gabriel acendesse a luz.
— Sente-se — disse ele.
— Prefiro ficar em pé.
Gabriel foi até a mesa e apoiou-se na borda, ainda tentando entender o que a levara ali. O sono deixara uma sombra leve sob os olhos dele, e o cabelo continuava caindo sobre a testa. Aquela versão desprevenida de Gabriel não combinava com a frieza das assinaturas nos documentos.
Ana abriu a bolsa e retirou as cópias.
Jogou-as sobre a mesa.
— Quantas vezes você renegociou com meu tio?
Gabriel baixou os olhos para os contratos.
Não precisou lê-los para reconhecer.
— Três.
— Há quatro documentos.
— O primeiro não foi renegociação. Foi o acordo inicial.
— Que alívio. Então você só voltou três vezes para tirar mais terra dele.
Gabriel ergueu o rosto.
— Eu não tirei nada. Augusto arrendou.
— Em condições cada vez piores.
— Ele precisava de adiantamentos.
— E você precisava de terra.
— Precisava.
A resposta direta a fez hesitar.
Ana esperava negação, justificativa ou alguma manobra mais elaborada. Gabriel apenas se afastou da mesa e cruzou os braços.
— Você sabia que ele estava desesperado.
— Sabia que estava endividado.
— Não faça isso.
— O quê?
— Trocar a palavra para parecer menos grave. Ele não estava só endividado. Estava sem saída.
Gabriel sustentou o olhar dela.
— Augusto sempre acreditava que encontraria uma saída.
— E você acreditava?
Ele demorou um pouco.
— Nem sempre.
Ana riu sem humor.
— Mas continuou oferecendo dinheiro.
— Ele continuou pedindo.
— Você podia ter recusado. Podia ter oferecido condições melhores.
— Podia.
A facilidade com que Gabriel admitia cada ponto era enlouquecedora. Ele não parecia culpado o suficiente, nem defensivo o bastante para que Ana encontrasse onde atingir.
— Então por que não fez?
Gabriel descruzou os braços.
— Porque não era caridade.
— Finalmente.
— Nunca disse que era.
— Não. Você só aparece quando a bomba quebra, entrega caixas para a feira, dá conselhos e faz parecer que está tentando salvar alguma coisa.
— Eu consertei a bomba porque, se ela queimasse, a sede ficaria sem água.
— E a sede está dentro da terra que você quer comprar?
A pergunta fez alguma coisa mudar no rosto dele.
Muito pouco.
O suficiente.
Ana avançou até a mesa.
— Você quer a Formosa.
— Já sabe disso.
— Eu sabia que tinha feito uma proposta ao meu tio.
— Fiz mais de uma.
— E fez contratos que deixavam cada vez menos fazenda para ele administrar.
— Os contratos deram dinheiro para Augusto continuar administrando o que restava.
— Você está se ouvindo?
Gabriel empurrou os documentos para o centro da mesa, alinhando as bordas com um gesto automático.
— Seu tio precisava de dinheiro rápido. O banco não liberava mais crédito. Os fornecedores tinham parado de esperar. Ele tinha folha, ração, manutenção e dívida vencendo. Eu ofereci dinheiro em troca do uso da terra.
— Em troca de quase nada.
— O valor estava no contrato.
— Um valor ruim.
— Para ele, talvez.
— Para você, ótimo.
— Sim.
Ana o encarou. A palavra foi pior do que qualquer tentativa de defesa.
— Você não tem vergonha?
Gabriel apoiou as mãos na mesa.
— Do negócio?
— De ter visto um homem se afogando e jogado uma corda curta o bastante para ele continuar precisando de você.
O silêncio que se seguiu teve peso.
Gabriel desviou os olhos para os contratos. O maxilar dele se contraiu antes de voltar a encará-la.
— Augusto não era uma criança.
— Não. Era um homem sozinho, endividado e orgulhoso demais para pedir ajuda direito.
— Ele pediu.
— Para você.
— Porque eu podia pagar.
— E porque você queria o que ele tinha.
Gabriel permaneceu calado.
Ana sentiu a raiva aumentar diante da ausência de resposta.
— Foi isso que você fez? Esperou até ele não ter escolha e ofereceu exatamente o suficiente para ele aceitar?
— Ele tinha escolha.
— Qual?
Gabriel se afastou da mesa e caminhou até o mapa na parede. Apontou para uma das áreas, embora Ana não soubesse o que significava.
— Vender o gado antes de perder valor. Reduzir a operação. Demitir gente. Arrendar parte da terra para outro produtor. Vender a fazenda inteira. Pedir recuperação da dívida. Havia escolhas.
— Todas ruins.
— Eu não criei as dívidas dele.
— Mas lucrou com elas.
Gabriel virou-se.
— Sim. É assim que negócios funcionam, se eu não fizesse, outro faria.
Outra admissão.
Outro lugar onde Ana esperava encontrar resistência e encontrou apenas uma verdade.
— E agora? — perguntou ela. — Está esperando eu chegar ao mesmo ponto?
— Não.
A resposta a deixou sem reação por um instante.
Gabriel voltou à mesa, mas não se colocou atrás dela. Parou diante de Ana, mantendo uma distância que parecia deliberada.
— Você veio aqui querendo que eu diga que enganei Augusto, forcei a assinatura dele e planejei cada conta atrasada da Formosa. Não vou dizer porque não foi isso que aconteceu.
— Então o que aconteceu?
— Ele precisava de dinheiro. Eu queria ampliar minha operação. Fizemos acordos que atendiam aos dois naquele momento.
— E destruíam a fazenda aos poucos.
— A fazenda já estava afundando.
— Você ajudou a empurrar.
— Talvez.
A palavra veio mais baixa.
Ana apertou os dedos ao redor da alça da bolsa.
— Talvez?
— Eu devia ter feito algumas coisas de outra forma.
— Que coisas?
Gabriel desviou os olhos por um instante.
— Essa conversa não vai acontecer inteira hoje.
Ana sentiu a indignação subir até o rosto.
— Você não decide isso.
— Você chegou aqui meia-noite, sem dormir, depois de encontrar documentos que ainda está tentando entender.
— Eu entendi o suficiente.
— Entendeu uma parte.
— Então me explique o resto.
— Não.
A negativa foi calma.
Irrevogável.
Ana avançou mais um passo.
— Você vai me responder.
Gabriel não recuou.
— Não desse jeito.
— Que jeito seria mais conveniente? Com seu advogado? No Sicoob? Depois de você preparar uma versão que faça parecer que explorou meu tio por preocupação com o bem-estar dele?
— Eu nunca disse que estava preocupado com o bem-estar dele.
A frieza da frase a atingiu.
— Pelo menos agora você está sendo honesto.
Gabriel passou a mão pelo rosto. O cansaço voltou a aparecer, não como sono, mas como uma irritação contida.
— Eu respeitava Augusto.
— Você tem uma maneira estranha de demonstrar respeito.
— Respeitar não é proteger alguém de todas as decisões ruins que ele toma.
— Não. Para você, respeitar é assinar embaixo e aproveitar.
Gabriel se aproximou.
— Cuidado, Ana.
Ela ergueu o queixo.
— Isso é uma ameaça?
— É um aviso para não transformar seu tio em uma vítima incapaz de escolher. Ele odiaria isso.
A frase acertou.
Ana sentiu como se ele tivesse colocado a mão dentro de uma ferida que ainda não compreendera e apertado.
— Não fale como se o conhecesse melhor do que eu.
Gabriel a observou em silêncio.
Não precisava dizer nada.
A ausência de Augusto nos últimos anos, as mensagens não respondidas, as visitas adiadas e o contato reciclado se levantaram entre os dois sem que Gabriel soubesse de tudo.
Ou talvez soubesse o suficiente.
— Você não tem esse direito — disse Ana.
A voz saiu menos firme.
— Qual?
— De saber coisas sobre ele que eu não sei.
A expressão de Gabriel mudou.
A dureza diminuiu, mas não desapareceu.
— Eu estava aqui.
Ana sentiu a frase atravessá-la.
— E eu não estava. É isso?
— Não foi o que eu disse.
— Não precisava.
Ela se afastou, mas Gabriel segurou seu braço antes que alcançasse os contratos.
O toque não foi forte. Ainda assim, Ana parou.
— Solta.
Gabriel soltou imediatamente.
A obediência deveria ter aliviado a tensão.
Não aliviou.
Ele continuou perto. Perto o suficiente para que Ana percebesse o calor de seu corpo, o cheiro limpo da camiseta e o cansaço nos olhos escuros. Sem botas e sem a postura pública, Gabriel parecia menos intocável, mas não menos perigoso.
— Eu não trouxe você aqui — disse ele.
— Isso deveria significar o quê?
— Que não planejei essa conversa.
— Você planeja todas as outras?
— As que posso.
Ana olhou para os contratos.
— Planejou aqueles.
— Planejei.
— Sabia exatamente o que queria.
— Sabia.
— E agora?
Gabriel demorou um instante.
— Agora o quê?
— O que você quer agora?
Ele a encarou.
A pergunta permaneceu entre os dois com um significado que já não cabia apenas na fazenda.
Ana percebeu isso tarde demais.
Gabriel também.
O olhar dele desceu brevemente até a boca dela e voltou aos seus olhos. Não houve sorriso, provocação ou qualquer tentativa de transformar o momento em brincadeira.
— Você veio aqui perguntar sobre os contratos — disse ele.
— E você continua sem responder.
— Eu respondi mais do que devia.
— Não respondeu o que importa.
— Talvez porque você ainda não saiba o que está perguntando.
Ana sentiu a raiva se misturar a outra coisa, mais quente e menos segura.
— Você faz isso com todo mundo?
Gabriel franziu levemente a testa.
— Isso o quê?
— Faz a pessoa se sentir estúpida até ela esquecer qual era a pergunta.
— Você não parece ter esquecido.
— Ainda.
A palavra saiu antes que ela pudesse impedir.
O olhar de Gabriel voltou para sua boca.
Dessa vez, permaneceu.
Ana deveria ter se afastado.
Em vez disso, ficou onde estava.
— Você sempre consegue o que quer? — perguntou ela.
Gabriel respirou fundo.
— Não.
— Não parece.
— Você não me conhece o bastante para saber.
— Conheço o tipo.
A expressão dele endureceu.
— Não me confunda com outra pessoa.
Ana se lembrou imediatamente.
— Você não sabe nada sobre meu ex.
— Você mostra mais do que pensa.
Ana soltou uma risada breve, sem humor.
— E você não mostra nada.
— Não é verdade.
— Então diga.
Gabriel não respondeu.
— Diga o que você quer — insistiu Ana. — Da fazenda. Do meu tio. De mim. Escolha uma coisa e, pela primeira vez, diga sem transformar em contrato, conselho ou metade de uma verdade.
A mandíbula dele se contraiu.
— Você devia ir para casa.
A resposta a enfureceu.
— É claro. Quando não consegue controlar a pergunta, encerra a conversa.
Ana se virou para pegar os papéis.
Gabriel segurou a borda da mesa ao lado de sua mão, impedindo-a de se afastar sem realmente tocá-la.
— Não faça isso.
Ela olhou para o braço dele, depois para seu rosto.
— Saia da frente.
— Você veio até minha casa no meio da noite exigindo uma verdade que não está preparada para ouvir.
— E você decidiu isso por mim.
— Estou tentando impedir que diga alguma coisa só para machucar você.
— Desde quando se importa?
Gabriel ficou imóvel.
A pergunta o atingiu de um modo que Ana não esperava.
Ele se aproximou devagar, dando a ela tempo suficiente para recuar. A mão dele subiu, mas parou antes de tocar seu rosto. Os dedos dele tocaram uma mecha de cabelo perto de sua face e a afastaram com cuidado.
— Esse é o problema — disse Gabriel.
A voz estava baixa, rouca não mais pelo sono.
Ana sentiu o coração bater com força.
— Qual?
— Eu me importo mais do que devia.
O gesto era leve demais para combinar com o homem que assinara aqueles contratos. Ana deveria ter pensado em Augusto, na terra arrendada e em todas as respostas que ainda não recebera.
Pensou.
Mas também pensou na mão de Gabriel junto à sua na feira. No olhar dele sobre seus dedos. Na cozinha, quando ele se aproximava. No modo como sua presença a irritava porque nunca passava despercebida.
— Isso também é uma resposta incompleta — murmurou Ana.
— É a única que consigo te dar agora.
Ela esperava que ele sorrisse.
Gabriel não sorriu.
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