Margem do Formosa
19 Feito na Fazenda Formosa
No fim da tarde, a cozinha parecia ter sido invadida por uma papelaria.
Ana espalhara sobre a mesa folhas brancas, cartolina parda, uma tesoura que mastigava as bordas em vez de cortá-las e três canetas, das quais apenas uma funcionava sem falhar.
Os potes de geleia descansavam sobre um pano perto da janela. Tinham rendido sete pequenos e dois médios. A diferença de tamanho a incomodava, embora Seu Cícero garantisse que ninguém na feira se importaria.
Ana se importava.
Produtos diferentes podiam ter tamanhos diferentes. O mesmo produto, não.
Ainda assim, comprar potes novos consumiria uma parte grande demais do dinheiro que esperavam receber. A solução provisória foi separar os dois maiores e classificá-los como tamanho família.
Seu Cícero leu a etiqueta escrita à mão.
— Família de quem?
— É uma denominação.
— Mas uma pessoa sozinha pode comprar?
Ana ergueu os olhos devagar.
— Pode.
— Então não é só pra família.
— Seu Cícero.
— Tô perguntando pra não confundir o freguês.
Ana empurrou a etiqueta para o lado.
— Pote grande.
— Melhor.
Ela respirou fundo e escreveu outra.
Geleia de goiaba — pote grande.
Abaixo, colocou o preço.
Seu Cícero assobiou.
— Isso tudo?
— Esse é o valor calculado.
— O povo vai achar caro.
— A fruta é da fazenda, mas o açúcar não é. O gás não é. O pote, mesmo reaproveitado, precisa ser substituído quando alguém comprar. Também existe o tempo de produção.
— Já voltamos a cobrar pelo tempo?
— Nunca paramos.
Ele pegou um dos potes e o ergueu contra a luz. A geleia tinha uma cor intensa, entre vermelho e rosa-escuro.
— Tá bonita.
— Estar bonita não basta.
— Na feira, pinguinha, o povo compra com o olho antes de comprar com o bolso.
Ana olhou para os potes desiguais.
As tampas eram de cores diferentes. Uma tinha o desenho apagado de uma marca de palmito. Outra ainda mostrava metade de uma fruta que não era goiaba. O vidro estava limpo e esterilizado, mas o conjunto não parecia um produto. Parecia sobra de despensa.
— Precisamos esconder as tampas — concluiu Ana.
Seu Cícero franziu o rosto.
— Debaixo de quê?
Ela foi até o armário onde havia encontrado alguns panos antigos. Separou um tecido de algodão xadrez, já desbotado, mas limpo e sem manchas.
— Não vai cortar isso, vai? — perguntou Seu Cícero.
Ana parou com a tesoura aberta.
— Por quê?
— Era da dona Lurdes.
Ana observou o tecido.
— Um pano de prato?
— Ela usava pra cobrir pão.
— O pano está guardado há anos.
— Continua sendo dela.
Ana fechou a tesoura.
Não perguntou por que um pano podia pertencer a alguém que já não estava ali enquanto toda a fazenda parecia não pertencer mais a ninguém.
Dobrou o tecido com cuidado e o devolveu ao armário.
— Vou procurar outra coisa.
Encontrou, no depósito, um saco de algodão cru que fora usado para armazenar alguma coisa que Seu Cícero não soube identificar. Lavado, seco e cortado em círculos, o tecido cobriu as tampas. Ana prendeu cada pedaço com barbante fino.
O resultado não era perfeito.
Era melhor do que antes.
Ela posicionou os nove potes em duas fileiras e afastou-se.
— Agora parecem feitos de propósito — disse Seu Cícero.
— Foram feitos de propósito.
— Antes pareciam que tinham acontecido por acidente.
Ana decidiu considerar aquilo um elogio.
Ainda faltava o nome.
Ela havia escrito diversas opções em uma folha.
Produtos Formosa.
Sabores do Formosa.
Delícias da Fazenda Formosa.
Da Nossa Terra.
A última foi riscada com força. Não havia “nossa” coisa alguma. Ainda não.
Seu Cícero leu as opções por cima do ombro dela.
— Delícias parece nome de loja de doce.
— Nós temos doce.
— Também temos ovo.
— Então não serve.
— Sabores?
— Genérico.
— Produtos?
— Frio demais.
— Da nossa terra?
Ana cobriu a frase riscada com a mão.
— Não.
Seu Cícero percebeu que a resposta não era sobre o nome e voltou para a outra ponta da mesa.
Ana encarou a folha.
Não precisava de uma marca completa. Ainda não. Precisava apenas de algo que dissesse de onde aqueles produtos vinham e permitisse que alguém se lembrasse deles depois.
Escreveu:
Feito na Fazenda Formosa.
As letras ficaram ligeiramente inclinadas. Ana tornou a escrever em outra folha, mais devagar.
Feito na Fazenda Formosa.
Dessa vez, gostou.
— O que acha? — perguntou ela.
Seu Cícero aproximou-se.
Leu em silêncio.
— Seu tio ia gostar.
A resposta apertou algum ponto sob as costelas de Ana.
— É só uma etiqueta.
— Eu sei.
Seu Cícero voltou a amarrar os maços de cheiro-verde, poupando-a de precisar responder.
Ana cortou pequenos retângulos de cartolina. Escreveu o nome em cada um e prendeu-os aos potes com barbante. Depois fez etiquetas para os ovos, o cheiro-verde e as cenouras.
Nos potes, acrescentou:
Geleia de goiaba.
Nos maiores:
Geleia de goiaba grande.
Ficou limpo. Claro. Honesto.
Também ficou esquecível.
Ana apoiou as duas mãos na mesa.
— Falta alguma coisa.
— Tampa não falta mais — disse Seu Cícero.
— Não estou falando de tampa.
— Preço tá aí.
— Também não é o preço.
— Tem nome da fazenda.
— Exatamente.
Ana olhou para a etiqueta.
O nome dizia onde havia sido feito, mas não dizia por que alguém deveria escolher aquele pote em vez dos outros vinte que provavelmente encontraria na feira.
Na antiga vida, ela chamaria aquilo de diferenciação.
Ali, parecia apenas a pergunta mais básica do mundo:
Por que alguém compraria deles?
Não eram os maiores produtores e não tinham os menores preços.
A variedade era pequena e as embalagens eram reaproveitadas.
A fazenda carregava dívidas, abandono e uma reputação que Ana ainda não compreendia completamente.
O telefone vibrou no aparador da sala.
Ana ignorou, mas vibrou outra vez.
Seu Cícero olhou na direção do som.
— Pode ser importante.
— Se for Gabriel, não é.
— Pode ser outra pessoa.
Ana pegou o aparelho.
Era Gabriel.
Uma fotografia havia chegado junto da mensagem.
Na imagem, aparecia a frente de uma banca simples, provavelmente montada em alguma feira antiga. Atrás dela, um homem mais jovem sorria com um chapéu torto na cabeça. Havia caixas de frutas, garrafas de leite, potes de doce e um cartaz pintado à mão.
Ana ampliou a imagem.
O homem era o tio Augusto.
Mais magro, com o rosto aberto pelo sorriso e uma das mãos erguida como se estivesse discutindo com quem tirava a fotografia.
No cartaz, quase apagado, lia-se:
Fazenda Formosa: receita de casa.
Ana sentiu o peito apertar.
A mensagem de Gabriel veio logo abaixo.
Achei numa caixa de fotografias da associação rural.
Ela demorou a responder.
Por que estava procurando isso?
Os três pontos apareceram.
Não estava.
Ana não acreditou.
Antes que pudesse escrever outra coisa, uma nova mensagem surgiu:
Você perguntou o que vende na feira.
Ela não havia perguntado aquilo a ele.
Talvez Seu Cícero tivesse contado a Marinalva, que contara à irmã, que comentara com o marido, que conhecia alguém na associação rural. Ou talvez Gabriel simplesmente tivesse mandado alguém procurar.
Com ele, as duas hipóteses eram igualmente possíveis.
Ana ampliou a fotografia outra vez.
Havia gente diante da banca. Uma mulher segurava um pote. Uma criança estava comendo alguma coisa enrolada em um guardanapo. O tio parecia cansado e feliz.
Ela digitou:
Eu sei o que vou vender.
A resposta veio quase imediata.
Não sabe.
Ana apertou a mandíbula.
Ovos, hortaliças, geleia e bolo. Está tudo listado.
Isso é o que você vai levar.
Ana esperou.
E o que eu vou vender, então?
Dessa vez, Gabriel demorou um pouco mais.
Não venda doce. Venda lembrança.
Ana releu.
O conselho era irritantemente pretensioso.
Também era irritantemente bom.
Seu Cícero se aproximou para espiar a tela.
— O que ele quer agora?
Ana bloqueou o telefone.
— Exibir arrogância em formato de mensagem.
— Ele é bom nisso.
— Muito.
Ana voltou para a mesa.
Pegou uma das etiquetas e virou-a.
No verso, escreveu:
Receita antiga da Fazenda Formosa.
Observou as palavras.
Não estavam completamente corretas. A receita era de dona Lurdes, não da fazenda. Mas talvez as duas coisas não fossem separadas. Ela havia cozinhado ali. O tio aprendera ali. Ana provara aquela geleia quando criança, provavelmente naquela mesma mesa.
A receita pertencia às pessoas.
A fazenda era o lugar que ainda as guardava.
Ana passou a frase para a frente da etiqueta.
Geleia de goiaba
Receita antiga da Fazenda Formosa
Abaixo, em letras menores:
Feito na Fazenda Formosa.
Seu Cícero leu.
Dessa vez, não fez nenhuma brincadeira.
Pegou o pote com as duas mãos e examinou a etiqueta como se precisasse confirmar que era real.
— Essa é a receita de dona Lurdes — disse ele.
— Eu sei.
— Então devia ter o nome dela.
Ana pensou por alguns segundos.
Havia pouco espaço na etiqueta, mas espaço não era o problema.
— Ela se importaria?
— Dona Lurdes brigava quando seu tio dizia que tinha feito a geleia sozinho.
— Então se importaria.
Ana substituiu a etiqueta.
Geleia de goiaba
Receita de Dona Lurdes, da Fazenda Formosa
Ela mostrou a Seu Cícero.
— Assim?
Ele assentiu devagar.
— Assim.
Ana repetiu a frase nos outros oito potes.
Em cada etiqueta, a caligrafia saiu um pouco diferente. A quinta ficou torta. Na sétima, precisou apertar as últimas palavras. A nona tinha uma pequena mancha de tinta perto do nome de dona Lurdes.
Nada daquilo passaria em um teste de padronização.
Ainda assim, quando terminou, os potes pareciam pertencer ao mesmo lugar.
Não a uma linha de produção fordiana, mas a uma história.
— O bolo também tem receita antiga? — perguntou Ana.
Seu Cícero começou a separar o milho.
— Tem.
— De quem?
— Do seu tio.
Ana ergueu as sobrancelhas.
— Ele fazia bolo?
— Fazia quando dona Lurdes viajava.
— E ficava bom?
Seu Cícero demorou um pouco.
— Com café, descia.
Ana reprimiu uma risada.
— Não podemos colocar isso na etiqueta.
— Pode escrever que é receita dele. Só não precisa prometer demais.
Ana puxou outra cartolina.
Bolo de milho do Seu Augusto.
Parou.
O nome do tio no papel pareceu íntimo demais.
Pensou em trocar por Receita antiga da Fazenda Formosa, como Gabriel havia sugerido sem sugerir exatamente. Seria mais fácil, mais comercial e menos doloroso.
Mas também seria apagar Augusto de uma coisa que fora dele.
Ela manteve.
Bolo de milho do Seu Augusto
Feito na Fazenda Formosa
— Ficou bom — disse Seu Cícero.
Ana fitou a etiqueta.
— Espero que o bolo fique também.
— Eu ajudo.
— Isso não me tranquiliza.
— Dona Lurdes ensinou seu tio. Seu tio me ensinou.
— Acabamos de dar uma volta completa.
— Você gosta de volta.
Eles trabalharam até o céu começar a escurecer do lado de fora da janela.
Ana refez os preços considerando as porções de amostra. Separou uma pequena reserva para troco. Anotou quantos produtos precisavam ser vendidos para cobrir o açúcar, o gás e as embalagens. Depois calculou quantos teriam de vender para sobrar dinheiro suficiente para comprar sementes novas.
A meta era pequena.
Pequena o bastante para parecer possível.
Grande o suficiente para doer se não alcançassem.
Ela escreveu no rodapé da página:
Prioridade: vender produtos transformados.
A geleia e o bolo davam mais retorno do que vender as goiabas e o milho crus. Os ovos garantiriam movimento. As hortaliças ajudariam a banca a parecer viva. O cheiro-verde, barato, poderia aumentar a quantidade de vendas.
Não era muito.
Mas já não era apenas uma pilha de coisas colhidas às pressas.
Era uma oferta, um começo de catálogo.
Uma tentativa de transformar terra, tempo e memória em dinheiro sem destruir o que ainda restava dos três.
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