Margem do Formosa
20 Ainda tem farinha
O som de um motor surgiu do lado de fora.
Ana levantou a cabeça.
Seu Cícero continuou separando as espigas como se não tivesse ouvido nada.
— O senhor sabia que ele vinha?
— Ele disse que podia passar.
— Quando?
— De manhã.
Ana fechou os olhos por um instante.
— E o senhor não achou importante me contar?
— Você tava ocupada interrogando os ovos.
Ana abriu os olhos a tempo de perceber o próprio reflexo escuro no vidro da janela. Havia farinha em uma das faces, um risco branco que ia da maçã do rosto até perto da boca.
Ela passou a mão depressa.
— Saiu?
Seu Cícero olhou para ela.
— O quê?
— A farinha.
— Quase.
Ana tornou a esfregar o rosto, dessa vez com o pano preso à cintura.
Depois olhou para a mesa.
Os potes estavam alinhados. As etiquetas, presas. Os maços de cheiro-verde, amarrados. Ainda assim, ela aproximou dois vidros, endireitou uma cartolina que já estava reta e empurrou para debaixo do caderno a folha cheia de cálculos.
— Não mexe muito, não — aconselhou Seu Cícero. — Vai acabar desarrumando.
— Estou só conferindo.
Ana puxou as mangas da camisa para baixo, percebeu que uma estava mais dobrada do que a outra e tratou de igualá-las. Em seguida, soltou o cabelo que havia prendido de qualquer jeito para cozinhar, tentou ajeitá-lo com os dedos e, irritada com a própria atitude, tornou a prendê-lo.
Seu Cícero observava tudo em silêncio.
— O que foi? — perguntou Ana.
— Nada.
— O senhor está com cara de alguma coisa.
— Tô com a mesma cara desde de manhã.
Ana pegou um pote e o deslocou dois centímetros para a esquerda.
— Está melhor assim.
— Tá igual.
Os passos de Gabriel atravessaram a varanda antes que ela pudesse responder.
Pesados, firmes, sem nenhuma hesitação que sugerisse a possibilidade de esperar um convite.
Gabriel apareceu à porta da cozinha carregando duas caixas de madeira empilhadas. Usava uma camisa escura com as mangas dobradas até os antebraços. A poeira nas botas e na barra da calça contrastava com o cheiro discreto de perfume que entrou com ele.
O olhar de Gabriel percorreu a cozinha.
Passou pelos potes, pelas etiquetas, pelas hortaliças organizadas e pela cartolina no centro da mesa. Depois se deteve em Ana.
Por tempo suficiente para fazê-la se lembrar da farinha que talvez ainda estivesse em seu rosto.
Ana cruzou os braços.
— A porta estava aberta, mas isso não significa que você pode entrar.
Gabriel colocou as caixas no chão.
— Seu Cícero me chamou.
Ana voltou-se para o homem mais velho.
— O senhor chamou Gabriel?
— As caixas são boas pra montar a banca em altura.
Ana olhou para elas.
Eram limpas, resistentes e muito melhores do que as que havia encontrado na garagem.
O problema era que Gabriel sabia disso.
— Poderia ter pedido a outra pessoa — disse Ana.
— Poderia — respondeu Seu Cícero.
Gabriel passou o polegar pela lateral de uma das caixas, soltando uma pequena lasca da madeira.
— Mas pediu a mim.
Ana apontou para a caixa.
— É um empréstimo.
— Não sabia que caixas exigiam contrato.
— Com você, até uma caixa exige cláusula de devolução.
Gabriel levantou os olhos para ela.
O silêncio entre os dois durou um pouco mais do que o necessário.
— Devolva na semana que vem — disse Gabriel. — Sem juros.
— Muito generoso.
— Tenho meus momentos.
— Deve ser por isso que são tão difíceis de encontrar.
O canto da boca de Gabriel se moveu, mas ele não chegou a sorrir.
Ele se aproximou da mesa.
Ana permaneceu onde estava, embora seu primeiro impulso tivesse sido recuar, mas não daria a ele essa satisfação.
Gabriel parou diante dos potes, perto o bastante para que ela percebesse melhor o perfume que não combinava com a poeira das botas. Algo amadeirado, limpo e discreto. Pior justamente porque não parecia escolhido para chamar atenção.
Ainda assim, chamou a dela.
Gabriel pegou um dos potes de geleia.
Leu a etiqueta.
— Dona Lurdes.
A provocação desapareceu da voz dele.
— Seu Cícero disse que a receita era dela — explicou Ana.
Gabriel passou o polegar pela borda do tecido amarrado à tampa.
— Era.
— Você conheceu?
— Todo mundo conhecia.
A resposta fechou alguma porta antes que Ana pudesse fazer outra pergunta.
Gabriel virou o pote e encontrou a pequena etiqueta traseira com a data de produção.
— Colocou validade?
— Uma estimativa conservadora. Os potes foram esterilizados, mas não tenho como garantir as mesmas condições de uma produção industrial.
Gabriel tornou a olhar para ela.
— Isso se chama produto de verdade.
Ana tomou o pote da mão dele.
Os dedos dos dois se tocaram por um instante no vidro.
Foi um contato breve, quase nada, mas Ana recolheu a mão depressa demais e precisou fingir que sua única preocupação era verificar se a etiqueta continuava no lugar.
— É um produto de verdade — respondeu ela.
— Eu não disse que não era.
— O jeito como falou disse.
Gabriel inclinou-se ligeiramente, aproximando o rosto do dela.
— Você escuta muita coisa que eu não digo.
— Porque você costuma esconder justamente a parte que importa.
O olhar dele permaneceu preso ao dela.
Ana sentiu a resposta antes de ouvi-la.
— E você costuma decidir o que encontrou antes de procurar direito.
Seu Cícero pigarreou perto do fogão e começou a escolher o milho.
Nenhum dos dois olhou para ele.
Ana segurava o pote junto ao corpo. Gabriel estava perto demais. Não o suficiente para tocá-la, mas o bastante para que a cozinha parecesse menor e o ar mais quente.
— Foi você que procurou a fotografia? — perguntou Ana.
— Já disse que encontrei.
— Você não encontra nada por acaso.
— Isso foi um elogio?
— Foi uma acusação.
— Soou melhor que as outras.
Ana apertou os dedos ao redor do vidro.
— Por que mandou aquilo?
Gabriel desviou os olhos para a etiqueta com o nome de Augusto, deixada ao lado dos ingredientes do bolo.
— Porque seu tio sabia vender.
— Mas a fazenda está falida.
A frase atingiu alguma coisa nele.
Foi rápido, mas Ana viu.
Os dedos de Gabriel percorreram a lateral do pote que ela ainda segurava, perto demais dos dela, antes de ele afastar a mão.
— Uma coisa não elimina a outra — respondeu Gabriel, recuando um passo.
A distância devolveu ar à cozinha, embora Ana não tivesse percebido que estava prendendo a respiração.
Gabriel apontou para os potes.
— Não coloque todos em linha reta, faça duas alturas e deixe um aberto para provar.
— Já planejei tudo isso.
— Então está aprendendo.
Ana ergueu o queixo.
— Não graças a você.
— Claro que não.
A concordância tranquila a irritou mais do que uma provocação.
Gabriel se abaixou, pegou uma das caixas e a colocou sobre a mesa. Organizou três potes em cima e dois à frente. O gesto foi rápido, seguro e visualmente eficiente.
— Os maiores atrás — explicou Gabriel. — Senão escondem os menores.
Ana observou a disposição.
Era igual à que havia desenhado no caderno.
Quase igual.
A versão dele estava melhor, o que ela jamais admitiria, nem sob tortura.
— Você pode ir embora agora — disse Ana.
Gabriel apoiou as duas mãos na mesa, uma de cada lado da caixa.
— Posso.
Ele não se moveu.
Ana também não.
— Então vá — insistiu ela.
Gabriel olhou novamente para a etiqueta.
— “Receita de Dona Lurdes” vende melhor que “receita antiga”.
Ana sentiu uma satisfação pequena e inconveniente.
— Essa parte foi ideia minha.
— Eu imaginei.
— Como?
Gabriel a encarou.
— Porque você faz questão de dar nome às coisas.
A frase não pareceu falar da geleia.
Ana abriu a boca, mas nenhuma resposta pareceu segura o bastante. Gabriel percebeu. Ela soube pelo modo como os olhos dele desceram por um instante até sua boca antes de voltarem aos seus.
Antes que Ana decidisse se aquilo realmente havia acontecido, Gabriel endireitou o corpo.
— A feira começa cedo. Chegue antes das seis ou vai ficar com o pior lugar.
— Seu Cícero disse cinco e meia.
— Pela primeira vez, escute ele sem discutir.
— Eu escuto.
— Não escuta, não. — Seu Cícero respondeu.
Ana lançou um olhar ofendido na direção dele.
Gabriel sorriu dessa vez.
Não foi o sorriso largo e sedutor que provavelmente usava quando queria alguma coisa. Foi breve, torto e quase involuntário.
Isso o deixou mais perigoso.
— Boa sorte, Ana — disse Gabriel.
Ela não esperava ouvir o próprio nome daquele jeito, sem ironia e sem provocação.
— Não preciso de sorte.
Gabriel caminhou até a porta.
Antes de sair, olhou por cima do ombro.
— Todo mundo precisa. Gente inteligente só não depende dela.
Quando os passos desapareceram na varanda, Ana permaneceu olhando para a porta.
O motor ainda não havia ligado. Mesmo assim, ela continuou imóvel, como se alguma parte dela esperasse que Gabriel voltasse.
Seu Cícero surgiu ao lado dela com duas espigas de milho.
— Ele deu algum conselho bom?
Ana desviou os olhos da porta e pegou a caixa que Gabriel havia organizado.
Desfez toda a disposição dos potes.
— Não.
Montou novamente.
Os potes maiores atrás. Os menores à frente. Duas alturas.
Exatamente como ele havia feito.
Seu Cícero observou o trabalho, depois olhou para o rosto dela.
— Ainda tem farinha perto da orelha.
Ana levou a mão depressa ao local.
Seu Cícero começou a rir.
— Não tem, não. — Ela falou enquanto lançava o pano contra ele. — Vai cuidar do milho.
Ainda rindo, Seu Cícero se afastou.
Ana colocou no topo da caixa a pequena placa de cartolina:
Feito na Fazenda Formosa.
Abaixo, acrescentou:
Receitas, colheitas e produtos da nossa terra.
Ficou olhando para a palavra nossa.
Dessa vez, não riscou.
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