Margem do Formosa
21 Banquinha
Às cinco e vinte da manhã, a praça de São Gabriel já estava acordada.
Ana ainda não.
Ela desceu da caminhonete de Seu Cícero com uma caixa de ovos apoiada contra o peito e a sensação de que seu corpo havia sido arrancado da cama antes de terminar de existir.
O céu começava a clarear atrás da igreja. Uma faixa alaranjada aparecia entre os telhados baixos, mas os postes da praça ainda permaneciam acesos, espalhando uma luz amarelada sobre as barracas em montagem.
Havia gente por toda parte.
Homens carregavam caixas de frutas nos ombros. Mulheres estendiam toalhas sobre mesas compridas. Um rapaz descarregava sacos de milho enquanto discutia, em voz alta, com outro homem sobre o lugar correto de estacionar uma caminhonete. Alguém testava o óleo de uma barraca de pastel, e o primeiro cheiro de fritura se misturava ao de café recém-passado, laranja cortada, terra seca e folhas amassadas.
Do outro lado da praça, uma galinha cacarejou dentro de uma gaiola.
Ana virou o rosto na direção do som.
— Não — disse ela. — Galinha, não.
Seu Cícero apareceu atrás dela carregando duas caixas de madeira empilhadas.
— O que tem a galinha?
— Eu passei a semana inteira lidando com galinhas. Hoje é meu dia de lidar com consumidores.
— Tem consumidor que dá mais trabalho.
Seu Cícero colocou as caixas de Gabriel ao lado da mesa reservada para a Fazenda Formosa.
O lugar ficava no meio de duas bancas maiores. À esquerda, um casal organizava fileiras impecáveis de tomates, pimentões e berinjelas. À direita, uma mulher expunha queijos, doces de leite, biscoitos e garrafas de manteiga com rótulos impressos.
A mesa de Ana pareceu menor.
Os nove potes de geleia, os dois bolos, os ovos, as hortaliças e os poucos maços de cheiro-verde, que haviam ocupado quase toda a cozinha da fazenda, cabiam com uma folga constrangedora sobre a banca.
Ana ficou parada diante dela.
— É pouco.
Seu Cícero abriu uma das caixas.
— Ontem também era.
— Na cozinha parecia mais.
— A cozinha é menor que a praça.
— Obrigada pela análise espacial.
Ana desenrolou a toalha que trouxera da fazenda. Era branca, com uma faixa bordada nas pontas, e tinha sido a única que encontrara sem manchas evidentes ou cheiro de armário fechado.
Eles montaram as duas alturas usando as caixas de madeira. Ana posicionou os potes maiores atrás, os menores à frente e deixou um espaço central para a placa:
Feito na Fazenda Formosa.
Logo abaixo, em letras menores:
Receitas, colheitas e produtos da nossa terra.
Os bolos ficaram na ponta da mesa, como Seu Cícero havia recomendado, protegidos por uma redoma de plástico que Ana comprara usada de Marinalva.
Ana arrumou os ovos em grupos de seis. Distribuiu as hortaliças sem amontoar demais. Colocou as cenouras tortas em sacos de papel e escreveu:
Seleção para sopa.
Seu Cícero leu.
— Ainda acho que é cenoura.
— E eu ainda acho que apresentação importa.
Ela conectou a pequena máquina de cartão ao celular, conferiu o sinal e abriu a planilha simplificada que havia preparado para registrar cada venda.
Seu Cícero espiou a tela.
— Vai anotar toda vez que alguém levar um ovo?
— Vou anotar o que sair, a forma de pagamento e o valor.
— E se vier muita gente?
Ana olhou para a banca quase vazia e depois para a praça.
— Esse é um problema que eu gostaria de ter.
As barracas ao redor terminaram de ser montadas.
As primeiras pessoas começaram a circular.
Algumas carregavam sacolas de pano. Outras vinham apenas com a carteira na mão, caminhando devagar e cumprimentando os feirantes pelo nome.
Ana endireitou as costas.
Uma mulher de vestido florido diminuiu o passo diante da banca. Olhou para os potes, depois para Ana.
O reconhecimento surgiu no rosto dela.
— É a sobrinha do seu Augusto, não é?
— Sou — respondeu Ana.
A mulher tornou a olhar para os produtos.
— Voltou pra ficar?
A pergunta veio antes de qualquer interesse pela geleia.
— Estou na fazenda.
— Mas vai ficar?
Ana sorriu com esforço.
— Pretendo.
A mulher fez uma expressão que podia significar surpresa, pena ou dúvida. Talvez as três coisas.
— A Formosa tava tão parada…
— Não está mais.
A mulher apertou a alça da sacola.
— Boa sorte, viu?
Ela foi embora sem comprar nada.
Ana acompanhou seus passos por um instante.
— Primeira interação — disse Seu Cícero. — Foi boa.
— Ela desejou sorte para uma pessoa que acha que está prestes a sofrer um acidente.
— Ainda assim, desejou.
Um homem passou, leu os preços e continuou andando.
Duas senhoras pararam diante da banca. Uma cochichou alguma coisa no ouvido da outra. As duas olharam para Ana ao mesmo tempo.
Ela sustentou o sorriso.
— Bom dia.
— Bom dia — responderam quase juntas.
Uma delas pegou um pote de geleia.
— Quanto?
Ana indicou a etiqueta.
— Doze reais o pequeno. O maior sai por dezoito.
A senhora devolveu o pote ao lugar.
— Lá no fundo tem por dez.
— O nosso é feito com goiabas da fazenda e com uma receita antiga de dona Lurdes.
A mulher deu de ombros.
— Açúcar com goiaba é açúcar com goiaba.
As duas seguiram adiante.
Ana olhou para Seu Cícero.
— Elas não queriam a história.
— Nem todo mundo quer.
— Gabriel disse para vender lembrança.
— Gabriel fala muita coisa.
— Dessa vez, ele estava errado.
— Ainda é cedo.
Ana verificou o horário.
Seis e dezessete.
Nos quarenta minutos seguintes, ninguém comprou.
As pessoas passavam.
Algumas cumprimentavam Seu Cícero. Outras paravam para perguntar por Augusto, pela fazenda, pela estrada, pelo telhado da casa ou se era verdade que Ana havia largado um emprego importante na capital.
Poucas perguntavam pelos produtos.
Nenhuma abria a carteira.
Ana começou a reconhecer os diferentes tipos de olhar.
Havia curiosidade, pena, havia desconfiança.
E havia algo pior: uma satisfação discreta, cuidadosamente escondida atrás de comentários gentis, como se algumas pessoas tivessem vindo confirmar que a sobrinha da cidade não duraria nem uma manhã atrás de uma banca.
Ela reorganizou os potes pela terceira vez.
— Se mexer mais uma vez, vai gastar a geleia pelo lado de fora — comentou Seu Cícero.
— A disposição pode estar errada.
— Tá bonita, pinguinha.
— Bonita não significa eficiente.
— O povo ainda tá comprando verdura.
Ana olhou para a banca de tomates ao lado.
A mulher mal precisava falar. Os clientes chegavam, escolhiam, pesavam e pagavam. Ela conhecia os nomes, perguntava pelas famílias e separava pedidos que pareciam ter sido combinados havia semanas.
Ali, as vendas aconteciam dentro de uma rotina antiga.
A Fazenda Formosa não fazia mais parte daquela rotina.
Talvez nunca tivesse feito.
Ana pegou a faca e cortou uma fatia fina do bolo de milho. Dividiu-a em cubos pequenos e organizou os pedaços sobre um prato.
— Amostras.
— Bolo dado.
— Custo de aquisição.
— Você prometeu não chamar ninguém disso.
Antes que Ana respondesse, uma voz surgiu do outro lado da mesa.
— Eu aceito ser adquirida.
Bia, da padaria, estava diante da banca com o cabelo preso em um coque alto e um saco de pão pendurado no braço. Usava um avental amarelo por cima da roupa e carregava uma caneca de café na outra mão.
— Bia — disse Ana, aliviada demais para esconder.
A atendente olhou para a mesa inteira.
— Então é verdade.
— O quê?
— Que a Fazenda Formosa voltou pra feira.
Bia pegou um pedaço de bolo antes de Ana oferecer.
Mastigou devagar.
Seu Cícero observou a reação dela com atenção.
— E aí? — perguntou ele.
Bia ainda estava mastigando.
— Calma, Seu Cícero. Isso aqui não é prova de velocidade.
Ela terminou, passou a língua pelo canto da boca e apontou para o bolo.
— Tá bom.
Ana estreitou os olhos.
— Só bom?
— Você quer elogio verdadeiro ou elogio de amiga?
— Não somos amigas.
— Então esse foi o verdadeiro.
Bia pegou outro pedaço.
— Com café, fica melhor.
Seu Cícero abriu um sorriso.
— Eu falei.
— O senhor disse que com café descia — corrigiu Ana.
— É a mesma coisa.
Bia aproximou-se dos potes.
— Essa é a geleia que está todo mundo comentando?
— Quem está comentando?
— Marinalva, Seu Cícero, o rapaz da internet, duas mulheres na padaria e uma pessoa que eu não conheço, mas que parecia saber mais da sua vida do que você.
Ana olhou para Seu Cícero.
— Eu só falei das bandejas.
— Em São Gabriel, bandeja também dá notícia — respondeu ele.
Bia leu uma das etiquetas.
A brincadeira desapareceu um pouco do rosto dela.
— Dona Lurdes.
— Você conheceu? — perguntou Ana.
— Pouco. Eu era menina. Mas lembro dos doces.
Bia pegou o pote menor.
— Vou levar um.
Ana demorou um instante para reagir.
— Qual?
— Esse.
— Pequeno?
— É o que eu tô segurando.
— Certo.
Ana alcançou o celular e abriu a planilha. Registrou o produto, o valor e a forma de pagamento.
— Dinheiro ou cartão?
Bia colocou uma nota de vinte sobre a mesa.
— Dinheiro.
Ana conferiu o troco duas vezes antes de entregar.
Bia segurou a nota devolvida, mas não saiu.
— Você vai me dar uma colher pra provar a geleia?
Ana apontou para o pote que Bia havia acabado de comprar.
— A senhora comprou. Pode provar em casa.
— “A senhora” é a sua falta de café falando?
— É falta de venda.
Bia riu.
— Abre um dos seus, Ana. Se ficar escondendo, ninguém vai saber se vale doze reais.
Ana olhou para os nove potes.
Abrir um significava reduzir o estoque vendável.
Também significava cumprir o plano original.
Ela pegou o menor, retirou o tecido da tampa e abriu.
O lacre improvisado soltou com um estalo baixo.
Ana colocou uma pequena porção sobre um pedaço de bolo e entregou a Bia.
Bia comeu.
Dessa vez, fechou os olhos por um instante.
— Agora ficou perigoso.
— Perigoso como?
Bia apontou o pedaço restante para as pessoas que passavam.
— Perigoso de eu ter que levar dois.
Ela pegou outro pote.
Ana tentou não demonstrar o impacto.
— Então são dois?
— São.
Bia se voltou para a praça e ergueu a voz:
— Dona Marinalva, prova isso aqui!
Ana sentiu o estômago apertar.
— Não precisa gritar.
— Na feira precisa.
Marinalva vinha passando com um pacote de bandejas de ovos debaixo do braço. Aproximou-se, provou o bolo com geleia e começou a discutir com Bia sobre a quantidade de açúcar.
A discussão atraiu uma terceira mulher.
Depois uma quarta.
Em menos de cinco minutos, havia seis pessoas diante da banca.
Ana ficou atrás da mesa, segurando a colher, sem saber a quem atender primeiro.
— Esse bolo é de quê? — perguntou Marinalva.
— Milho — respondeu Ana.
— Milho verde?
— Sim.
— Quanto a fatia?
— Cinco reais.
— Se eu levar duas, faz por oito?
Ana hesitou.
Seu Cícero olhou para ela.
A planilha dizia que duas fatias por oito diminuiriam demais a margem.
— Duas por nove — respondeu Ana. — Ou uma fatia e um maço de cheiro-verde por sete.
Marinalva franziu o rosto.
— O que bolo tem a ver com cheiro-verde?
— Nada. Mas a senhora leva o que quer comer e o que precisa para o almoço.
Bia soltou uma risada.
— Ela vende até a explicação.
Marinalva apontou para Ana.
— Duas fatias por nove.
— Fechado.
Ana cortou as porções, envolveu-as em papel e registrou a venda.
Enquanto ela entregava o troco, Bia colocou um pouco de geleia em outro pedaço de bolo e ofereceu a uma senhora que observava a banca em silêncio.
A mulher era pequena, com cabelos completamente brancos presos na nuca. Usava uma bolsa marrom apoiada no antebraço e segurava o pedaço com cuidado, como se pudesse quebrá-lo.
— Prova, dona Alzira — incentivou Bia.
A senhora levou o bolo à boca.
Ana percebeu o instante em que a expressão dela mudou.
Dona Alzira mastigou devagar. Depois olhou para o pote aberto, para a etiqueta e, por fim, para Ana.
— É a receita da Lurdes?
— Seu Cícero disse que é — respondeu Ana.
— É, sim.
A voz da senhora saiu mais baixa.
Ela provou outra pequena quantidade diretamente da colher que Ana lhe ofereceu.
— Seu Augusto levava um vidro lá em casa quando as goiabas começavam a cair — contou dona Alzira. — Dizia que era pra não desperdiçar. Mas ele levava mesmo quando não tinha tanta goiaba assim.
Ana segurou a colher com mais força.
— Ele gostava da senhora?
Dona Alzira sorriu.
— Gostava de parecer que não gostava de ninguém. Mas era ruim nisso.
Seu Cícero baixou a cabeça para esconder o sorriso.
A senhora tocou a etiqueta com a ponta do dedo.
— Faz tempo que eu não sentia esse gosto.
Ana sentiu alguma coisa se mover dentro do peito.
Não era exatamente tristeza.
Era mais fundo e menos organizado.
Por um instante, ela não viu a feira nem as pessoas diante da banca. Viu o tio Augusto na cozinha da fazenda, provavelmente reclamando do açúcar, enchendo potes desiguais e levando geleia aos vizinhos sob a desculpa de evitar desperdício.
Ana engoliu antes de falar.
— Quer levar um vidro?
Dona Alzira examinou o preço.
— Quero o grande.
Ana pegou um dos dois potes maiores.
— Dezoito reais.
A senhora abriu a bolsa.
— Seu Augusto cobrava menos.
— Seu Augusto provavelmente não calculava o gás.
Dona Alzira soltou uma risada curta.
— Isso é verdade.
Ela entregou o dinheiro.
Ana registrou a venda, embrulhou o pote em papel e o colocou dentro da sacola da senhora.
Antes de ir embora, dona Alzira segurou a mão dela por um instante.
— Não deixa acabar de novo.
Ana não soube se ela falava da geleia ou da fazenda.
Talvez nem dona Alzira soubesse.
— Vou tentar — respondeu Ana.
Quando Ana levantou os olhos, ainda havia gente diante da banca.
Bia já oferecia amostras para um casal.
Marinalva explicava a alguém que as cenouras tortas eram boas para sopa, como se a ideia tivesse sido dela.
Seu Cícero cortava bolo com a concentração de um cirurgião.
Ana respirou fundo.
Depois abriu a planilha.
— Quem é o próximo?
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