Margem do Formosa

22 Atendimento ao cliente


Depois da primeira hora sem vendas, o movimento diante da banca mudou tão depressa que Ana não teve tempo de aproveitar o alívio.

Ela descobriu que três fregueses indecisos eram capazes de ocupar o espaço de dez pessoas, principalmente quando cada um segurava um produto diferente e queria saber, ao mesmo tempo, o preço, a procedência e por que as cenouras da Formosa tinham crescido daquele jeito. Também descobriu que ninguém respeitava uma fila que não estivesse desenhada no chão.

— Eu cheguei primeiro — reclamou uma mulher, equilibrando duas alfaces contra o peito.

— Mas eu só quero pagar o cheiro-verde — respondeu o homem atrás dela, estendendo algumas moedas por cima de seu ombro.

A mulher virou-se para ele.

— O cheiro-verde estava na minha frente.

— Mas a senhora não está levando cheiro-verde.

— Não quer dizer que eu não pudesse levar.

Ana olhou de um para o outro, avaliou o dinheiro nas mãos dos dois e concluiu que aquela discussão tinha menos relação com os produtos do que com alguma disputa antiga da qual preferia não participar.

— Eu consigo receber os dois pagamentos — disse Ana. — Desde que ninguém mude de ideia nos próximos vinte segundos.

O homem colocou as moedas sobre a mesa. A mulher levantou as alfaces para que Ana as visse. Ela calculou os valores, entregou dois trocos diferentes e registrou as vendas no celular antes que outra pessoa lhe perguntasse se os ovos eram realmente da fazenda ou se ela os havia comprado para revender.

Seu Cícero, que embrulhava uma fatia de bolo, acompanhou tudo com um sorriso discreto.

— Tá aprendendo, pinguinha.

— Estou sobrevivendo — respondeu Ana, sem levantar os olhos da planilha.

— Na feira é quase a mesma coisa.

O espaço sobre a mesa começava a aparecer. Restavam cinco potes de geleia, menos de um bolo inteiro, três bandejas de ovos, duas alfaces, duas abobrinhas e um único maço de cheiro-verde. Os pacotes de cenoura para sopa haviam acabado depois que Marinalva anunciou para três fregueses que elas eram “próprias pra caldo”, como se a ideia tivesse sido dela.

Ana não a corrigiu. Uma venda continuava sendo uma venda, independentemente da autoria do argumento.

Aos poucos, ela começou a compreender o ritmo da feira. No início, explicava demais. Quando alguém perguntava pela geleia, Ana falava sobre a esterilização dos potes, a proporção entre fruta e açúcar, a estimativa conservadora de validade e as diferenças entre aquela produção e um processo industrial. Via os olhos do freguês perderem o interesse antes de chegar à metade.

Depois aprendeu a responder apenas:

— É feita com goiaba do pomar da Formosa e a receita era da dona Lurdes.

Aquilo bastava.

Quando alguém dizia que o bolo estava caro, Ana também deixou de recitar os custos do milho, do açúcar e do gás.

— Prova primeiro. — dizia ela, com todo carinho que conseguia reunir em duas palavras.

A maioria provava. Alguns ainda reclamavam do preço, mas compravam mesmo assim.

Quando uma mulher pediu desconto em três maços de cheiro-verde, Ana mostrou o único que restava e ofereceu uma combinação com a alface. A freguesa levou os dois, satisfeita por acreditar que havia conseguido uma vantagem. Ana marcou uma pequena estrela ao lado da palavra combinações em seu caderno.

Bia, que havia retornado da padaria com outra caneca de café, apoiou os cotovelos na lateral da banca e a observou atender um casal.

— Você tá se divertindo.

Ana entregou o troco e fechou a gaveta improvisada de dinheiro.

— Estou trabalhando.

— Tá sorrindo.

Ana tocou o próprio rosto, como se precisasse conferir se aquilo era verdade.

— É atendimento ao cliente.

— Claro.

Bia bebeu um pouco de café, mas seus olhos se desviaram para o outro lado da praça. A mudança na expressão dela fez Ana acompanhar o olhar.

— Olha só quem resolveu aparecer.

O movimento entre as barracas se alterou de maneira quase imperceptível. Um homem que carregava duas caixas de laranja levantou a mão em cumprimento. A dona da banca de queijos interrompeu o embrulho de uma peça para sorrir. Arlindo, da agropecuária, abandonou uma conversa e avançou alguns passos.

Ana não precisava perguntar quem havia chegado.

Ainda assim, olhou.