Margem do Formosa

23 Aproximação


Gabriel caminhava pela feira com a tranquilidade de alguém que não precisava abrir espaço porque as pessoas faziam isso por ele. Usava jeans escuro, botas e uma camisa clara com as mangas dobradas. Não estava particularmente bem vestido, mas havia nele uma espécie de ordem que fazia os outros homens parecerem desleixados.

Ele parava a cada poucos metros para cumprimentar alguém. Perguntava pela saúde de um pai, pela colheita de outro, pelo conserto de uma máquina. Quando um menino correu até ele, Gabriel se abaixou para ouvi-lo e retirou alguma coisa do bolso antes de entregá-la à criança.

— Fazia tempo que ele não vinha à feira — comentou Bia.

Ana fingiu verificar as bandejas de ovos.

— Quem?

Bia virou o rosto para encará-la.

— O padre.

Ana soltou o ar pelo nariz.

— Eu não estava prestando atenção em Gabriel.

— Eu não falei o nome dele.

Seu Cícero aproximou-se trazendo uma caixa vazia.

— Gabriel veio?

Ana lançou um olhar para os dois.

— Vocês podem parar de narrar a chegada dele? Eu consigo vê-lo.

— Então tava prestando atenção — concluiu Bia.

Ana pegou uma etiqueta que já estava reta e tornou a ajeitá-la.

— Estou prestando atenção na feira. Ele está na feira.

Bia ergueu a caneca para esconder o sorriso.

— Ele deve ter algum assunto na associação rural — comentou Ana, tentando parecer indiferente.

— Deve — concordou Bia, sem qualquer convicção.

Gabriel parou diante da barraca de café. Ana o viu conversar com o vendedor, receber um copo pequeno e retirar um cartão da carteira. Depois, uma senhora se colocou diante da banca da Formosa, bloqueando a visão.

— A geleia é sua mesmo? — perguntou a mulher.

Ana voltou a atenção para ela.

— É feita na fazenda.

— Mas foi você que fez?

— Com a ajuda de Seu Cícero.

A freguesa olhou para ele.

— Então deve estar boa.

— A parte de medir foi minha — esclareceu Ana.

— A de não queimar foi minha — acrescentou Seu Cícero.

A mulher riu, provou a geleia e levou um pote.

Quando Ana procurou Gabriel outra vez, ele já não estava na barraca de café.

Atendeu alguns clientes. Cortou outras amostras do bolo e ouviu Bia garantir a duas pessoas que a geleia era ainda melhor com pão quente.

O movimento diante da banca diminuiu por alguns minutos.

Ana aproveitou para conferir os registros no celular. Foi então que uma sombra caiu sobre a mesa.

— Quanto custa o doce?

Ela reconheceu a voz antes de levantar os olhos.

Gabriel estava do outro lado da mesa.

Bia se afastou alguns passos, levando consigo a caneca e uma expressão de inocência que não enganava ninguém. Seu Cícero encontrou uma necessidade urgente de organizar caixas vazias perto da traseira da banca.

Ana pousou o celular.

— O preço está na etiqueta.

Gabriel examinou os potes restantes.

— Estou perguntando qual você recomenda.

— Desde quando você precisa da minha recomendação?

— Desde que você virou especialista em geleia.

— Eu não virei especialista.

Gabriel ergueu os olhos para ela, contendo um sorriso.

— Parece decepcionada.

— Estou tentando entender o que você quer.

— Comprar um doce.

— Você não gosta de doce.

— Quem disse?

Ana apontou discretamente para Seu Cícero.

— Uma fonte confiável.

Gabriel olhou para o homem mais velho, que continuou de costas, ocupado demais com uma caixa completamente vazia.

— Seu Cícero diz muita coisa.

— Algumas são verdade.

— Poucas — respondeu Gabriel.

Sem se virar, Seu Cícero falou:

— Continuo ouvindo.

Gabriel pegou um dos potes pequenos e leu a etiqueta.

— Vou levar este.

Ana observou o movimento com desconfiança.

— Por quê?

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Normalmente, quando uma pessoa coloca um produto à venda, espera que alguém compre.

— Você atravessou a feira para comprar uma geleia que podia ter levado ontem.

— Ontem ela ainda não estava à venda.

— Isso nunca impediu você de agir como se as coisas fossem suas.

Gabriel permaneceu em silêncio por um instante. O olhar dele percorreu o rosto de Ana antes de voltar ao pote.

— Hoje eu vim como cliente.

— Isso deveria me tranquilizar?

— Não parece que muita coisa tranquiliza você.

Ana estendeu a mão.

— Doze reais.

Gabriel retirou a carteira do bolso e entregou um cartão.

Ela olhou para ele.

— Você pretende pagar doze reais no cartão?

— Tem valor mínimo?

— Não. Mas existe uma taxa.

Gabriel fez menção de guardar o cartão.

— Posso devolver o doce.

Ana puxou a máquina para mais perto.

— Nem pense nisso.

— Ou posso levar sem pagar.

— Muito menos.

— Então parece que o cartão é a melhor alternativa.

Ana digitou o valor, conferiu a tela e virou a máquina na direção dele.

— Pode pagar por aproximação.

Gabriel olhou para o aparelho como se nunca tivesse visto um.

— Como seria isso?

Ana esperou algum sinal de ironia, mas o rosto dele permaneceu sério.

— Você aproxima o cartão da máquina.

— Em qual parte?

— Na parte de cima.

Gabriel encostou o cartão na lateral.

Nada aconteceu.

Ana fechou os olhos por um segundo.

— Não é aí.

Ele tentou no canto inferior.

— Aqui?

— Gabriel, você está tentando ou está ameaçando a máquina?

— Eu estou seguindo as instruções.

— Está seguindo mal.

Algumas pessoas próximas começaram a diminuir o passo. Bia havia parado junto à barraca de pastel e fingia conversar com a vendedora enquanto olhava diretamente para eles.

Ana estendeu a mão por cima da banca.

— Me dá o cartão.

Gabriel aproximou a mão, mas não soltou o cartão quando os dedos dela o alcançaram.

— Você não disse que ia mostrar?

Ana lançou um olhar estreito para ele.

— Solta.

— Se eu soltar, você faz por mim. Eu quero aprender.

Havia uma seriedade cuidadosa demais na voz dele, mas Ana estava mais preocupada com as pessoas observando do que em decifrá-la.

Ela segurou o pulso de Gabriel, virou a mão dele e ajustou o cartão. O gesto deveria ter sido simples, mas a pele dele estava quente sob a mão dela, e a proximidade transformou aqueles poucos segundos em alguma coisa longa demais.

— Assim — explicou Ana, guiando o cartão até o alto da máquina. — Você só precisa manter perto do símbolo.

Gabriel não olhava para o aparelho.

O olhar dele permanecia na mão dela fechada em torno de seu pulso.

A máquina demorou alguns segundos para reconhecer o pagamento. Ana sentiu a pulsação dele sob os dedos e tentou ignorar a consciência incômoda de que Gabriel também podia sentir sua mão.

O sinal sonoro confirmou a transação.

— Pronto — disse Ana. — Pagamento por aproximação.

Gabriel finalmente levantou os olhos para ela.

— Agora entendi por que chama assim.

Ana percebeu que ainda o segurava e soltou-o imediatamente.

— É o cartão que se aproxima.

— Claro.

— Não tem nada a ver com a minha mão.

— Eu não disse que tinha.

O sorriso que apareceu no rosto de Gabriel foi lento, discreto e satisfeito demais.

Ana franziu a testa.

Então a lembrança voltou.

Ele diante da barraca de café. O copo em uma mão, o cartão na outra. O movimento breve e preciso sobre a máquina. Nem senha, nem dificuldade, nem pergunta.

Aproximação.

Ana ficou imóvel por um instante, enquanto a compreensão se acomodava.

— Você já sabia.

Gabriel guardou o cartão na carteira sem qualquer pressa.

— Sabia o quê?

— Pagar por aproximação. Eu vi você comprando café.

A satisfação no rosto dele aumentou apenas o bastante para confirmar tudo.

Ana apoiou as duas mãos na mesa.

— Você estava brincando comigo.

Gabriel inclinou a cabeça.

— Demorou um pouco.

— Você fingiu que não sabia usar a máquina só para me fazer pegar na sua mão?

— Não pedi que você pegasse.

— Você encostou o cartão em todos os lugares, menos no certo.

— Talvez eu aprenda melhor com demonstração prática.

Ana olhou ao redor. Bia havia desistido de fingir desinteresse e sorria abertamente junto à barraca de pastel. Seu Cícero continuava organizando a mesma caixa.

— Isso é ridículo — disse Ana.

— Funcionou.

— O pagamento?

Gabriel olhou para a mão que ela havia soltado.

— Também.

Ana sentiu o rosto aquecer.

Pegou o pote de geleia e o estendeu na direção dele com mais força do que o necessário.

— Sua compra.

Gabriel recebeu o vidro, mas seus dedos tocaram os dela de propósito dessa vez. Ana soltou o pote tão depressa que ele precisou segurá-lo com a outra mão.

— Cuidado — disse Gabriel. — É um produto de verdade.

— E custa doze reais. Se quebrar, você compra outro.

— É uma estratégia de venda agressiva.

— Você ainda não viu nada.

O sorriso dele permaneceu por alguns segundos antes de desaparecer sob uma expressão mais atenta.

Gabriel olhou para os espaços vazios na banca, para as caixas já sem produtos e para a planilha aberta no celular.

— Você montou uma boa banca.

Ana demorou a responder.

— Isso foi um elogio?

— Não foi difícil. Você só precisava parar de explicar a composição química da geleia para quem queria passar no pão.

Ana estreitou os olhos.

— Você estava me observando.

— A praça é pequena.

— Essa desculpa serve para tudo em São Gabriel?

— Para quase tudo.

Gabriel tornou a olhar para o celular sobre a mesa.

— Guarde os nomes de quem comprou e o que cada pessoa levou.

— Eu já estou registrando as vendas.

— Eu não falei de vendas. Falei de gente.

Ana franziu a testa.

— Qual é a diferença?

Gabriel apoiou o pote contra a palma da mão.

— A venda termina quando a pessoa paga. O cliente volta.

A resposta não veio em tom de provocação. Por isso, Ana prestou atenção.

Ela olhou para a planilha. Havia produto, quantidade, valor e forma de pagamento, mas nenhum nome. Nenhuma preferência. Nenhuma indicação de quem comprara geleia, quem levara ovos e quem perguntara se ela voltaria na semana seguinte.

— Você podia ter dito isso antes — murmurou Ana.

— Você teria usado?

Ela ergueu os olhos para ele. Gabriel percebeu que não receberia resposta e recuou um passo.

— Guarde o último pote.

Ana olhou para a única geleia que ainda estava sobre a mesa.

— Por quê?

— Foto, encomenda, amostra para comércio. Você precisa mostrar o produto mesmo depois de vender o estoque.

— Eu já tinha pensado nisso.

— Claro que tinha.

Dessa vez, Ana não soube se ele acreditava nela ou se continuava brincando.

Gabriel se afastou da banca com o pote nas mãos. Depois de alguns passos, virou-se.

— Semana que vem, eu tento pagar sozinho.

— Semana que vem, você paga em dinheiro.

— Achei que gostasse de tecnologia.

— Gosto. De gente inconveniente, não.

— Isso parece um problema seu, Ana.

Ele continuou andando antes que ela encontrasse uma resposta adequada.

Bia retornou no mesmo instante, ainda sorrindo.

— Ele realmente não sabia usar a máquina?

Ana pegou o celular e começou a abrir uma nova coluna na planilha.

— Sabia.

— Então por que…

— Bia.

— Eu só perguntei.

Seu Cícero colocou a caixa vazia debaixo da mesa.

— Tem gente que aprende melhor com demonstração.

Ana olhou para ele.

Ana decidiu que discutir com os dois ao mesmo tempo seria desperdício de energia. Criou uma coluna chamada cliente, outra chamada produto preferido e uma terceira para possível encomenda.

Enquanto digitava, sentiu que alguém a observava.

Levantou os olhos.

Gabriel estava perto da saída da praça, conversando com Arlindo. Como se tivesse sentido o olhar dela, virou o rosto na direção da banca.

Os olhos dos dois se encontraram.

Ele ergueu o pote de geleia em uma saudação silenciosa.

Ana respondeu levantando a máquina de cartão, como se pudesse atirá-la nele àquela distância.

Gabriel riu.

— Pinguinha — chamou Seu Cícero. — Tem freguês.

Ana desviou o olhar.

Uma mulher aguardava diante da banca com a última alface na mão.

— Os ovos estão frescos?

— Foram recolhidos ontem. Se algum estiver ruim, a senhora me procura na próxima feira e eu troco.

A freguesa olhou para a banca quase vazia.

— Você vai voltar?

A pergunta fez Ana olhar para a placa no alto da caixa. Depois, olhou para Seu Cícero. Ele fingia verificar os ovos, mas aguardava a resposta.

— Vou — disse Ana.

A mulher levou a alface e os ovos.

Às onze e vinte, restavam três fatias de bolo, uma bandeja de ovos e o último pote pequeno de geleia. Ana decidiu guardar o vidro. Precisava fotografar a embalagem, calcular melhorias e ter uma unidade para oferecer a algum comércio local.

Não era sentimentalismo, explicou a si mesma.

Eles começaram a desmontar a banca sob o sol forte do fim da manhã. A praça ainda cheirava a pastel, café e milho cozido. Ana sentou-se sobre uma das caixas emprestadas por Gabriel e abriu a planilha.

Conferiu o dinheiro, somou os pagamentos em cartão e descontou o troco inicial, o açúcar, parte do gás, as embalagens, as bandejas, os guardanapos e a taxa da máquina.

Seu Cícero se inclinou por cima do ombro dela.

— Quanto deu?

— Vendemos quase tudo.

— Isso eu sei. Eu tava aqui.

— A geleia teve a melhor margem. O bolo vendeu mais depois que começamos a servir com o doce. As hortaliças giraram quando montei as combinações. Os ovos foram mais estáveis.

Seu Cícero apontou para a tela.

— Isso é bom?

Ana olhou para o valor final.

Era suficiente para comprar sementes, repor o açúcar, conseguir alguns potes e pagar uma parte pequena da dívida na agropecuária.

Pequena demais.

— É um começo.

Seu Cícero sentou-se ao lado dela.

— Começo é bom.

— Não paga dívida.

— Ainda não.

Ana tornou a olhar para a praça. Pela primeira vez desde que chegara, Ana não teve a impressão de que a cidade olhava para a Formosa apenas como uma propriedade morta esperando comprador. Durante algumas horas, a fazenda produzira algo que as pessoas desejavam.

E elas haviam pagado por aquilo.

O orgulho surgiu pequeno, cauteloso, ainda incapaz de silenciar as dívidas e os reparos que a esperavam. Mesmo assim, ela permitiu que permanecesse.

— Semana que vem precisamos trazer mais geleia — disse Ana. — E menos alface, se a horta não melhorar. Quero testar porções menores de bolo, talvez com embalagem individual. Também precisamos encomendar os potes antes e calcular se compensa manter dois tamanhos.

Seu Cícero sorriu.

— Então nós vamos voltar.

Ana olhou para ele e depois para a última caixa vazia.

— Nós vamos voltar.

A Fazenda Formosa tinha vendido bem.

Não o suficiente para estar salva.

Mas, pela primeira vez, também não parecera condenada.