Margem do Formosa

1 Fazenda Formosa


Ana não lembrava de São Gabriel ser tão longe.

Na memória dela, a estrada até a fazenda do tio Augusto tinha cheiro de goiaba madura, vento entrando pela janela e aquela sensação elástica da infância, quando qualquer viagem parecia caber dentro de uma música no rádio. Agora, adulta, depois de quatro horas de asfalto, duas paradas em postos de gasolina duvidosos e vinte e sete minutos em uma estrada de chão que parecia ter sido desenhada por alguém ressentido, a lembrança começava a parecer propaganda enganosa.

O Corolla gemeu ao passar por mais uma vala.

— Desculpa — Ana murmurou, segurando o volante com as duas mãos. — Eu também não sabia que a gente vinha morrer aqui.

O carro respondeu com um estalo seco em algum lugar embaixo do painel.

Ela diminuiu a velocidade, embora fosse difícil chamar aquilo de velocidade. A estrada era estreita, ladeada por mato alto, cercas tortas e árvores que se inclinavam sobre o caminho como se quisessem conferir quem era a infeliz chegando. O céu estava pesado de umidade. O ar tinha cheiro de terra molhada, capim esmagado e alguma coisa doce demais apodrecendo no calor.

O celular, preso no suporte do painel, exibia uma mensagem cruelmente simples:

Sem serviço.

Ana soltou uma risada curta.

— Claro. Porque sinal de internet seria luxo burguês demais.

Ela tinha saído da capital com duas malas, um notebook, uma planilha financeira mal preenchida pelo advogado do inventário e uma convicção frágil de que recomeçar longe de tudo talvez fosse melhor do que continuar perto do homem que tinha transformado o apartamento dela em campo minado emocional.

A Fazenda Formosa, pelo menos, era dela.

Essa frase tinha soado bonita quando o advogado disse.

Agora, com o Corolla raspando a barriga em uma pedra no meio da estrada, soava mais como uma ameaça.

O portão apareceu depois de uma curva fechada, quase engolido pelo mato. Duas colunas antigas, descascadas, sustentavam uma placa de madeira pendurada por uma corrente enferrujada.

Fazenda Formosa

O nome resistia ali com uma dignidade cansada, embora a palavra “formosa” parecesse, no mínimo, uma opinião bastante otimista.

Ana parou o carro antes do portão e ficou alguns segundos olhando.

Aquilo era menor do que ela lembrava. Ou talvez fosse maior, mas de um jeito errado. Mais vazio. Mais abandonado. Na infância, a entrada tinha sido imponente. Havia flores perto da cerca, galinhas ciscando no terreiro, o tio Augusto rindo alto na varanda com uma caneca de café na mão.

Agora havia lama, mato até a cintura, uma cerca caída e um enxame de mosquitinhos girando em torno do retrovisor.

Ela abriu a porta e pisou fora.

Seu All Star branco afundou na lama com um som obsceno.

Ana olhou para o pé.

O tênis, comprado numa loja climatizada e usado até então em cafeterias, coworkings e supermercados com piso encerado, desapareceu até quase a lateral.

— Não — ela disse, como se a lama pudesse negociar.

Tentou puxar o pé. A lama chupou o tênis de volta.

Ana respirou fundo.

Um inseto pousou no braço dela.

Ela bateu nele.

Outro pousou no rosto.

— Certo. Vocês vieram em comissão de boas-vindas.

Com esforço, libertou o pé e deu dois passos cambaleantes até o portão. A corrente estava enrolada, mas sem cadeado. Quando empurrou a madeira, o portão rangeu tão alto que um bando de pássaros levantou voo de uma árvore próxima, fazendo Ana dar um pulo ridículo.

Ela olhou em volta, ofendida com a própria reação.

— Eu só não esperava efeitos sonoros.

Entrou com o carro devagar, desviando de buracos, pedras, galhos e de uma mangueira caída que atravessava parte do caminho. A casa surgiu aos poucos, no alto de uma pequena elevação.

E Ana sentiu alguma coisa dentro dela baixar o volume.

A casa do tio Augusto ainda estava ali.

O último lugar onde ela lembrava de ter sido amada sem precisar provar nada.

Mas não era a casa da lembrança.

O telhado tinha falhas escuras, como dentes faltando. A pintura amarela desbotara para um bege triste, descascando em placas. Uma das janelas estava coberta por madeira. A varanda, onde ela jurava ter visto o tio debulhar milho enquanto contava histórias absurdas sobre onças, tinha uma tábua quebrada bem no meio. O jardim da frente se transformara em uma confusão de capim, ervas daninhas e roseiras secas.

Atrás da casa, o galpão pendia para um lado, vencido pelo tempo. Mais adiante, o curral parecia vazio. Um trator antigo permanecia parado perto de uma árvore, coberto por lona rasgada, como um bicho grande demais que alguém tivesse desistido de salvar.

Ana desligou o motor.

O silêncio veio cheio de barulhos: cigarras, folhas, algum rangido metálico ao longe, o zumbido persistente dos insetos. Um silêncio vivo. Insistente. Desconfortável.

Ela pegou a pasta no banco do passageiro e desceu.

Dessa vez, escolheu melhor onde pisar. Não adiantou muito. A lama encontrou o tênis com a precisão de um sistema bem treinado.

Ana encarou a casa.

— Então é isso — disse baixo.

Não houve resposta.

Por um segundo, uma lembrança atravessou a garganta dela: o tio Augusto abrindo os braços na varanda, chamando-a de “minha programadorazinha” antes mesmo de ela saber o que era programar, só porque a menina gostava de desmontar controle remoto e organizar os pregos dele por tamanho.

Ana apertou a pasta contra o peito e subiu os degraus da varanda com cuidado.

A segunda tábua estalou sob seu peso.

Ela congelou.

— Perfeito. A casa também tem senso de humor.

Antes que pudesse testar a próxima tábua, uma voz veio de dentro.

— Dona Ana?

A porta se abriu com dificuldade, empurrada por um homem magro, de pele queimada de sol, cabelo branco ralo e olhos úmidos de reconhecimento. Ele usava camisa xadrez, calça velha e botas enlameadas. Parecia menor do que ela lembrava, mas o sorriso era o mesmo.

— Seu Cícero?

O rosto dele se abriu inteiro.

— Ah, minha pinguinha.

Ana mal teve tempo de largar a pasta antes de ser puxada para um abraço apertado, cheio de cheiro de café, fumo de corda e sabão de coco. Ela ficou rígida por meio segundo, surpreendida pelo afeto bruto, e depois cedeu.

Seu Cícero a abraçou como quem recebia de volta uma filha perdida, não a nova proprietária de uma fazenda falida.

— Você cresceu — ele disse, afastando-se para olhar o rosto dela. — Mas esse olho assustado continua igualzinho.

Ana tentou rir.

— Eu não estou assustada.

No mesmo instante, alguma coisa correu pelo canto da varanda.

Ela virou o rosto rápido.

— Aquilo era um rato?

Seu Cícero acompanhou o olhar, sem pressa.

— Lagarto.

— Grande daquele jeito?

— Filhote.

Ana fechou os olhos por um segundo.

— Certo. Não estou assustada. Estou recalibrando expectativas.

Seu Cícero não entendeu, mas sorriu como se entendesse. Depois o sorriso dele diminuiu. Ele olhou para a casa, para o terreiro, para o mato tomando conta de tudo.

— Seu tio queria ter deixado isso aqui mais arrumado pra você.

A frase atingiu Ana num lugar baixo, sem defesa.

Ela desviou o olhar para a lateral da varanda, onde uma cadeira de madeira estava tombada, tomada de poeira. Imaginou o tio Augusto sentado ali. A risada dele. A mão grande apontando para o rio Formosa ao fundo da propriedade, dizendo que água boa nunca abandonava terra de gente teimosa.

— Ele devia ter me avisado que estava tão ruim — Ana falou, ainda olhando para a cadeira. — Mas o tio Augusto sempre foi dramático pra umas coisas e mudo pra outras.

Seu Cícero passou a mão na nuca.

— Era o jeito dele, pinguinha.

— É o jeito dele — ela corrigiu, baixo demais para soar como bronca.

O caseiro ficou quieto.

Ana fingiu não perceber.

Ela abriu a pasta e tirou alguns papéis amassados da viagem: notificações de dívida, lista de fornecedores, um contrato antigo que o advogado marcara com post-its coloridos e uma relação de equipamentos que, segundo o documento, “exigiam manutenção”.

Ela olhou para o trator coberto pela lona rasgada.

— Manutenção — repetiu. — Palavra generosa.

Seu Cícero acompanhou o olhar dela.

— A gente dá um jeito.

Ana virou-se para ele.

— “A gente”?

O velho caseiro ergueu o queixo com uma dignidade simples.

— Eu fiquei aqui com seu tio esse tempo todo. Não ia embora agora que você chegou.

O peito de Ana apertou.

Ela não estava preparada para aquilo. Para a lama, os insetos, a ruína, as dívidas, o cheiro de abandono — talvez. Para alguém permanecer, não.

Antes que pudesse responder, o som de outro motor quebrou o ar.

Não era o ronco cansado do Corolla. Era mais grave, mais seguro, vindo pela entrada da fazenda como se conhecesse cada buraco e tivesse permissão para atravessá-los.

Seu Cícero ficou sério.

Ana percebeu.

— Quem é?

O caseiro demorou um segundo antes de responder.

— Gabriel.

O nome veio pesado, quase mastigado.

Ana franziu a testa.

— Gabriel quem?

O veículo apareceu atrás das árvores antes que Seu Cícero respondesse: uma caminhonete preta, alta, limpa demais para aquela estrada, avançando pelo caminho de terra com a confiança irritante de quem nunca precisou pedir licença a lugar nenhum.

Seu Cícero soltou o ar pelo nariz.

— Gabriel Belmonte.

Notas finais
Curiosidade: A ambientação é baseada na chácara que eu cresci e tenho as melhores memórias da minha infância. Espero que curtam ;)