Margem do Formosa

26 Fazenda Belmonte


Ana ficou alguns minutos parada no meio do escritório, com um dos contratos aberto sobre a mesa e os outros espalhados ao redor.

Ana tornou a fazer as contas no celular.

Não precisava. Já sabia o resultado.

Ainda assim, dividiu o valor de cada contrato pela quantidade de hectares e observou o preço diminuir a cada renegociação.

— Você sabia — murmurou.

A frase ficou suspensa no escritório abafado.

Gabriel sabia que o acordo era ruim. Já havia admitido isso no Sicoob, sentado diante dela com aquela calma insuportável, como se reconhecer o fato bastasse para deixá-lo no passado. Mas aqueles documentos mostravam que não se tratara de uma única decisão ruim de Augusto.

Havia repetição.

Gabriel voltara à mesa de negociação mais de uma vez. A cada retorno, saíra com mais terra.

Ana fechou o contrato com tanta força que a poeira se desprendeu da capa.

Pegou a pasta inteira, hesitou e retirou apenas três documentos. Não confiava em si mesma para deixar os originais dentro do carro no meio da noite, mas também não pretendia chegar à casa de Gabriel apenas com acusações. Fotografou as páginas, enviou os arquivos para o próprio e-mail e guardou as cópias impressas na bolsa.

Quando saiu do escritório, a casa estava mergulhada em silêncio. Seu Cícero já havia se recolhido, e a única luz acesa vinha do corredor. Ana atravessou a sala, pegou a chave do carro sobre o aparador e calçou os primeiros sapatos que encontrou.

O celular marcava meia noite e três.

Ela ignorou.

Na varanda, o ar da noite estava mais fresco, carregado pelo cheiro do rio e pela umidade da terra. Os insetos cantavam no escuro, indiferentes à descoberta que fazia seu coração bater depressa demais.

Ana entrou no Corolla e colocou o telefone no suporte.

Abriu o aplicativo de mapas.

Digitou:

Fazenda Belmonte.

O endereço apareceu imediatamente, acompanhado por fotografias, avaliações e um marcador localizado do outro lado de São Gabriel. A propriedade era conhecida o suficiente para estar cadastrada como se fosse hotel ou ponto turístico.

— Claro que está no GPS — murmurou Ana, iniciando a rota. — Provavelmente a terra se localiza sozinha por medo de desobedecer.

O caminho indicado passava pela cidade e seguia por uma estrada estadual antes de entrar em uma via particular. Ana dirigiu depressa nos trechos asfaltados e reduziu apenas quando o carro começou a sacudir na estrada de terra.

A raiva a mantinha acordada.

Cada vez que o silêncio permitia, ela ouvia novamente a voz de Gabriel:

Seu tio precisava de dinheiro.

Ele assinou.

Eu não obriguei ninguém.

Frases verdadeiras, percebeu Ana. Verdadeiras do modo mais conveniente possível.

Na entrada da Fazenda Belmonte, o GPS anunciou que ela havia chegado, embora ainda houvesse um portão alto diante do carro e uma estrada iluminada desaparecendo entre árvores.

Ana abaixou o vidro.

Uma câmera estava presa ao pilar de pedra. Antes que ela encontrasse qualquer botão, uma luz vermelha se acendeu e o interfone emitiu um ruído.

— Boa noite — disse uma voz masculina. — Posso ajudar?

— Ana Ferreira. Preciso falar com Gabriel.

Houve uma pequena pausa.

— O senhor Gabriel está esperando?

— Não.

— A senhora tem algum assunto agendado?

Ana olhou para o relógio do painel.

Meia-noite e dezessete.

— Tenho documentos provando que ele se aproveitou de um homem endividado. Isso conta como agendamento?

O silêncio do outro lado durou mais dessa vez.

— Um momento, senhora.

Ela esperou com as mãos apertadas no volante. Se recusassem a entrada, deixaria o carro ali e iria a pé. Ou buzinaria até Gabriel acordar. A segunda possibilidade parecia mais satisfatória.

O portão começou a se abrir.

Ana acelerou antes mesmo de haver espaço suficiente e precisou frear para não atingir a lateral de ferro.

A estrada interna era larga, nivelada e ladeada por postes baixos que iluminavam jardins bem cuidados. Não havia buracos, mato invadindo o caminho nem qualquer sinal de que uma tempestade pudesse interromper o acesso. À esquerda, Ana avistou um galpão enorme, com telhado novo e máquinas agrícolas guardadas em fileiras. Mais adiante, cercas claras acompanhavam pastagens extensas que desapareciam na escuridão.

A propriedade não parecia uma fazenda.

Parecia uma empresa que havia aprendido a se disfarçar de paisagem.

Ana percorreu quase dois quilômetros antes de enxergar a casa.

Diminuiu a velocidade sem querer.

A residência ficava em uma elevação, cercada por árvores antigas e jardins iluminados. Era grande, mas não ostentava colunas exageradas, estátuas ou qualquer decoração que pudesse ser chamada de espalhafatosa. A riqueza estava na pedra clara da fachada, nas amplas janelas, no telhado impecável e na varanda que se estendia por toda a frente da construção.

Tudo parecia caro.

Ana estacionou atrás de uma caminhonete preta e desligou o carro. Por alguns segundos, ficou observando a casa através do para-brisa.

Pensou no telhado da Formosa coberto por remendos. Na bomba que ameaçava parar. Nas janelas empenadas, nos móveis antigos e nos contratos em que Augusto cedera mais terra para conseguir dinheiro suficiente para continuar adiando o colapso.

Gabriel vivia ali.

Enquanto Augusto negociava pedaços da fazenda, Gabriel voltava todas as noites para uma casa onde nada parecia estar prestes a desabar.

A raiva recuperou toda a força.

Ana saiu do carro, atravessou o caminho de pedras e subiu os degraus da varanda. Havia uma campainha ao lado da porta, mas ela apertou o botão tantas vezes que os toques se sobrepuseram dentro da casa.

Esperou cinco segundos.

Bateu com a mão fechada.