Margem do Formosa
25 Escritório
O sono não veio.
Ana permaneceu deitada por quase uma hora, virando o travesseiro, mudando de posição e tentando ignorar a planilha que continuava funcionando dentro de sua cabeça. Cada vez que fechava os olhos, via as etapas da produção se multiplicarem: colher, lavar, cozinhar, embalar, vender. Atrás delas vinham os reparos da casa, a dívida da agropecuária, a ração e a bomba d’água, como uma fila de fregueses que ninguém conseguia organizar.
Pouco antes da meia-noite, ela desistiu.
Levantou-se para buscar água e atravessou a casa sem acender todas as luzes. A claridade da cozinha chegava fraca até o corredor lateral, suficiente para mostrar as paredes descascadas, o piso antigo e a porta do escritório de Augusto.
Ela estava entreaberta.
Ana parou.
Tinha certeza de que a porta permanecera fechada durante o dia. Não trancada, apenas fechada, como se a casa inteira houvesse concordado em não tocar naquele cômodo antes que ela estivesse pronta.
Talvez a madeira tivesse empenado. Talvez o vento tivesse empurrado a porta. Talvez Seu Cícero tivesse entrado procurando alguma coisa e se esquecido de fechá-la.
Qualquer explicação servia, desde que não parecesse um convite.
Ana continuou em direção à cozinha, bebeu meio copo de água e ficou apoiada na pia. Os números ainda estavam na cabeça. Para calcular a próxima produção, precisava saber quanto Augusto costumava pagar pelos potes, onde comprava açúcar, se havia algum fornecedor antigo e se existiam registros das feiras anteriores.
Se as respostas estivessem em algum lugar, provavelmente estavam no escritório.
Não era curiosidade.
Era trabalho.
Ana voltou ao corredor.
Empurrou a porta com a ponta dos dedos.
O ar do cômodo estava mais quente do que no restante da casa, preso havia tempo demais entre paredes fechadas. Cheirava a papel envelhecido, madeira, poeira e um leve fundo de umidade. A luz do corredor revelou uma mesa larga, duas cadeiras, armários de metal e prateleiras ocupadas por caixas, pastas e cadernos.
Não havia qualquer solenidade no lugar.
Só bagunça.
Papéis cobriam parte do chão. Recibos estavam presos sob mapas dobrados. Havia envelopes abertos dentro de caixas de ferramentas, notas fiscais entre livros e cadernos com datas diferentes empilhados sem ordem. Uma gaveta permanecia aberta, abarrotada de documentos, enquanto outra parecia ter sido forçada a fechar sobre uma pasta grossa.
Ana acendeu a lâmpada.
Ela piscou duas vezes antes de estabilizar.
— Tio Augusto, o senhor tinha uma gaveta ou declarou guerra ao conceito de organização?
A própria voz soou estranha naquele ambiente.
Por alguns segundos, Ana esperou a resposta que conhecia. Augusto diria que sabia onde estava tudo. Depois passaria vinte minutos procurando o que ela pedira e terminaria culpando alguém por ter mudado um papel de lugar.
O silêncio continuou.
Ana entrou.
Passou o dedo pela mesa e deixou uma linha limpa na poeira. Perto de um porta-canetas havia uma caneca com o logotipo desbotado de uma cooperativa, ainda contendo duas canetas secas, um lápis curto e uma chave cuja fechadura ela não conhecia.
Ela não começou a abrir gavetas em busca de segredos. Procurou recibos de embalagem, notas fiscais de açúcar e qualquer registro de produção que pudesse ajudar nas contas da feira.
Encontrou contas de energia vencidas, comprovantes de compra de ração, consertos sucessivos da mesma bomba e notas de peças para um trator que não funcionava havia anos. Alguns documentos estavam pagos. Outros tinham anotações nas margens: negociar, esperar venda, falar com Arlindo.
Ana separou os papéis em pequenas pilhas: Pago, Vencido, Sem data, Não identificado.
Em poucos minutos, metade da mesa estava organizada de um modo que provavelmente não acontecia havia anos.
Foi ao puxar uma pasta presa sob um mapa que um conjunto de folhas caiu no chão.
Ana se abaixou.
Na capa transparente, havia uma etiqueta escrita à mão:
Belmonte.
Ela ficou imóvel por um momento.
Depois levou a pasta para a mesa.
O primeiro documento era um contrato de arrendamento entre Augusto e Gabriel. Ana reconheceu o texto que já havia lido no Sicoob, mas aquela parecia ser uma versão anterior. A área descrita era menor. O prazo também.
Doze hectares.
Pagamento fixo.
Reajuste anual.
Assinaturas no fim da página.
Augusto Ferreira.
Gabriel Belmonte.
Ana passou para o documento seguinte.
Era um termo aditivo, assinado dois anos depois. A área arrendada aumentava. O valor total também, mas não na mesma proporção. Quando dividiu mentalmente o pagamento pela quantidade de terra, percebeu que Augusto estava recebendo menos por hectare.
Ela puxou a cadeira e se sentou.
O terceiro documento ampliava novamente a área. Incluía uma faixa próxima ao rio e autorizava Gabriel a utilizar um acesso interno da Formosa. Em troca, Augusto recebera um adiantamento, descontado dos pagamentos futuros.
Ana pegou o celular e abriu a calculadora.
Fez a conta.
Depois refez.
A cada renegociação, Augusto entregava mais terra para receber dinheiro mais depressa. O valor imediato aumentava, mas as condições pioravam. O prazo ficava maior. A dependência também.
No quarto contrato, havia uma cláusula de preferência caso a fazenda fosse colocada à venda.
Ana releu três vezes.
Gabriel teria prioridade para comprar.
A assinatura de Augusto aparecia no fim da página, ligeiramente mais trêmula do que nos documentos anteriores.
Ana empurrou a cadeira para trás e se levantou.
— O que você estava fazendo?
Dessa vez, não usou senhor.
Andou até o armário, abriu a porta e encontrou outras pastas. Havia correspondências do banco, cobranças, mapas e dois cadernos com o nome de Gabriel repetido em páginas marcadas.
Um dos registros anotava um pagamento recebido antes do vencimento. Outro mencionava uma dívida compensada no arrendamento. Havia números riscados, novos valores escritos por cima e frases interrompidas.
Aceitar agora e reorganizar depois.
Ana apertou o caderno entre as mãos.
Havia situações em que todas as saídas eram ruins. Havia momentos em que o desespero fazia uma porta estreita parecer salvação. Mesmo assim, Augusto não tinha apenas aceitado ajuda. Ele havia entregado a fazenda por partes e deixado que Ana descobrisse o tamanho da perda depois de sua ausência.
A raiva veio antes da culpa.
Era mais fácil sentir raiva.
— Por que você não me contou?
Ana procurou mais documentos. Encontrou outro aditivo, depois outro, cada um concedendo um pouco mais e recebendo um pouco menos. A Formosa não havia sido perdida de uma vez. Tinha sido esvaziada devagar, contrato por contrato, como uma casa da qual alguém retirava os móveis enquanto os moradores ainda dormiam.
Ela pegou o celular.
A conversa com Augusto continuava aberta na mensagem que enviara no quarto.
Volta logo, tio. Eu tô cansada.
Ana digitou abaixo:
O que você estava fazendo?
Enviou.
Depois acrescentou:
Por que não me ligou?
A mensagem foi entregue.
Ana ficou olhando para a tela, respirando depressa. Queria acusá-lo, mas queria também que Augusto aparecesse à porta e dissesse que ela não estava entendendo. Que aqueles contratos faziam parte de um plano. Que havia dinheiro escondido, uma cláusula que ela não tinha visto ou uma explicação capaz de devolver alguma lógica ao que encontrara.
O telefone vibrou.
Por um segundo, Ana acreditou que fosse ele.
A resposta apareceu na tela:
Boa noite. Acho que você está mandando mensagens para o número errado. Esse número é meu há pouco tempo.
Ana não se moveu.
O nome no alto da conversa ainda dizia Tio Augusto.
A fotografia antiga dele continuava ao lado do contato, sorrindo de chapéu na varanda da Formosa. Abaixo, porém, havia uma mensagem escrita por uma pessoa que não sabia quem ele era.
Ana digitou:
Esse número é do Augusto.
A resposta demorou menos de um minuto.
Não conheço nenhum Augusto. A operadora deve ter reciclado o número. Desculpa.
Ela leu a mensagem uma vez.
Depois outra.
A palavra reciclado pareceu absurda. Números podiam ser reciclados. Linhas podiam ser canceladas, transferidas, entregues a desconhecidos.
O histórico continuava ali.
As mensagens antigas continuavam ali.
Mas Augusto não estava mais do outro lado.
Ana começou a escrever:
Ele vai precisar do número quando voltar.
Parou antes de enviar.
Apagou a frase.
Seus dedos ficaram suspensos sobre o teclado. Por fim, digitou apenas:
Desculpa pelo incômodo.
A pessoa respondeu com um breve:
Tudo bem. Boa noite.
Ana bloqueou a tela.
Durante alguns segundos, o escritório ficou completamente silencioso, exceto pelo zumbido da lâmpada e pelo som distante de algum inseto batendo contra a janela.
Ela deveria mudar o nome do contato.
Deveria apagar o número, ou pelo menos parar de enviar mensagens.
Não fez nenhuma das duas coisas.
Colocou o celular sobre a mesa, ao lado dos contratos.
A raiva havia perdido parte da força, mas não desaparecera. Agora estava misturada a uma sensação mais funda, pesada demais para receber nome. Ana passou as mãos pelas páginas, alinhando-as sem perceber.
Primeiro contrato.
Primeiro aditivo.
Segundo aditivo.
Preferência de compra.
Adiantamentos.
Terras junto ao rio.
A história que Augusto não podia mais explicar estava escrita ali, ainda que de forma incompleta.
Gabriel sabia.
Gabriel havia assinado cada página.
Ana fechou a pasta e apoiou as duas mãos sobre ela.
Até aquela noite, salvar a Fazenda Formosa significava consertar estruturas, produzir, vender e pagar dívidas. Era um problema difícil, mas reconhecível. Podia ser dividido em tarefas, custos e prioridades.
Agora havia outra pergunta.
Quem se beneficiara enquanto a fazenda afundava?
Ana olhou para o nome de Gabriel na capa da pasta.
Pela primeira vez, não esperou que o tio voltasse para responder.
Decidiu que perguntaria ao homem que ainda estava ali.
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