Margem do Formosa

10 Caixa Rápido



Gabriel demorou a responder.

Não foi uma demora longa. Foi só o suficiente para a sala parecer pequena demais sem Seu Cícero ali dentro.

Ou talvez o problema fosse Gabriel.

Ele continuava sentado do outro lado da mesa, ocupando a cadeira com aquela calma irritante de quem nunca precisou pedir licença para existir. Mesmo assim, Ana teve a impressão de que a distância entre os dois havia encolhido.

Ela percebeu.

Não reclamou.

E isso a irritou mais do que deveria.

Gabriel apoiou os cotovelos nos joelhos e olhou para a pasta aberta diante dela.

— Ana, seu tio arrendou uma parte da terra para mim.

Ana ficou parada.

Por dois segundos, achou que tivesse entendido errado.

— Uma parte quanto? — ela perguntou.

Gabriel ergueu os olhos.

— Uma parte grande.

Ana estreitou os olhos.

— “Grande” é palavra de quem está escondendo o número.

— As áreas de pasto baixo e uma faixa de lavoura perto da divisa — Gabriel disse.

Ana sentiu o rosto perder calor.

— Perto do rio?

— Perto do Formosa — Gabriel respondeu. — Mas não pega a beira toda.

— Ah. Que alívio — Ana disse, seca.

— Não falei para aliviar. Falei porque é verdade.

Ana riu uma vez, sem humor nenhum.

— Claro. Eu adoro ser prejudicada com precisão técnica.

Gabriel não desviou.

— Augusto precisava de dinheiro fixo.

— Então arrendou a terra por um valor fixo que provavelmente nem paga as contas direito — Ana disse.

— Arrendou.

Ana empurrou a cadeira para trás e se levantou.

— Ele devia ter pedido porcentagem do lucro.

— Devia — Gabriel disse.

A resposta veio rápida demais.

Ana olhou para ele.

— Você admite?

— Admito.

— E assinou mesmo assim?

— São negócios Ana. — Gabriel respondeu.

Ana apoiou as duas mãos na mesa, inclinando o corpo na direção dele.

— Muito conveniente.

Gabriel também se levantou, sem pressa.

— Muito.

Aquilo quase a derrubou.

Não a culpa. Não a desculpa. A falta de enfeite. Gabriel dizia as coisas ruins como quem largava uma ferramenta pesada no chão: sem pedir desculpa pelo barulho.

Ana apontou para a porta, como se a saída fosse dele, não dela.

— Você entende que isso me deixa sem terra para produzir?

— Não sem terra — Gabriel disse.

Ana apertou os lábios.

— Gabriel.

— Com pouca terra — ele corrigiu.

Ana respirou fundo pelo nariz.

— Eu tenho uma casa pingando, uma horta enterrada no mato, galinhas que só trabalham quando querem, um freezer morto e uma fazenda que acabou de ser considerada inútil até para pegar crédito pequeno. “Pouca terra”, nesse cenário, é um eufemismo usando bota cara.

A boca de Gabriel quase mexeu.

— Galinhas que só trabalham quando querem? — ele perguntou.

— Não se atreva a achar graça.

Gabriel ergueu uma sobrancelha.

— Estou tentando entender o quadro produtivo.

— Eu vou jogar essa pasta em você — Ana avisou.

Gabriel olhou para a distância entre eles.

Ana pegou a pasta.

Gabriel olhou para a mão dela.

— Ana.

Ela apertou os dedos no papel por um instante. Depois soltou a pasta de volta com força.

— Você é insuportável.

— Eu sei — Gabriel disse.

— Não fale como se fosse uma virtude.

— Em São Gabriel, às vezes ajuda.

— Comigo, não.

Gabriel contornou a mesa.

Ana percebeu o movimento antes que ele chegasse perto. O corpo dela percebeu primeiro, para ser mais exata. Mesmo assim, ela não recuou.

Ele parou perto o bastante para ela sentir o cheiro dele, uma nota amadeirada que parecia absurda dentro daquela sala fria de cooperativa.

— Funciona um pouco — Gabriel disse.

Ana ergueu o queixo.

— Você está confundindo irritação com importância.

— Irritação é importância tentando manter a pose.

— Você sempre fala como se estivesse ganhando uma discussão? — Ana perguntou.

— Só quando estou.

— Então deve ser uma experiência rara.

Dessa vez, ele sorriu de verdade.

Foi pequeno. Rápido. Pior do que deveria ser.

Ana não sorriu.

Ou quase não.

Gabriel baixou os olhos para a folha onde ela havia escrito “trinta dias” e circulado três vezes.

— Você não vai salvar a Formosa tentando fazer em um mês o que Augusto não conseguiu fazer em anos.

A frase acertou um lugar fundo demais.

Ana ficou imóvel.

— Cuidado — ela disse.

Gabriel notou.

A postura dele não mudou muito, mas alguma coisa recuou.

— Não estou falando contra ele — Gabriel disse.

— Está falando como se ele tivesse sido incompetente.

— Não vou amenizar porque ele morreu e porque é você. Ele errou em muita coisa.

Ana deu um passo na direção dele.

— Você não tem esse direito.

Gabriel sustentou o olhar dela.

— Tenho uma parte desse direito registrada em cartório.

A frase saiu seca.

No mesmo instante, alguma coisa passou pelos olhos dele. Não era arrependimento bastante para limpar o que tinha sido dito. Mas era uma sombra. Uma falha pequena naquela arrogância toda.

Ana esfriou por dentro.

— Foi por isso que você veio? — ela perguntou. — Para me lembrar que tem pedaços da minha fazenda no papel?

Gabriel respondeu baixo:

— Vim porque, se você não entender esse contrato, vai montar plano em cima de terra que não pode usar.

Aquilo era verdade.

Horrivelmente verdade.

Ela passou a mão pela testa e virou para a parede de vidro. Do lado de fora, Seu Cícero estava sentado na recepção, fingindo olhar para o nada com os olhos grudados na porta. Rogério mexia numa impressora como se a impressora tivesse cometido um crime. Uma atendente ajeitava papéis que já estavam ajeitados.

São Gabriel inteira parecia ter um talento péssimo para fingir discrição.

Ana voltou a respirar.

— Então o que sobra? — ela perguntou.

Gabriel não precisou pensar.

— A casa. O terreiro. A horta. O pomar. O galinheiro. A cozinha. O depósito. Um pedaço de terra perto da estrada. E tudo que você conseguir vender antes de depender de plantio grande.

Ana virou devagar.

— Isso é quase nada.

— Não — Gabriel disse. — É pouco.

— Outra verdade?

— Estratégia.

Ela cruzou os braços.

— Está bem. Me ilumina.

Gabriel apontou para a pasta.

— Você está pensando como se a Formosa precisasse voltar a ser fazenda inteira amanhã, mas não precisa.

— Não?

— Precisa gerar caixa — ele disse.

Ana inclinou a cabeça.

— Com o quê? Goteira e ressentimento?

— Ovo.

Ana piscou.

— Ovo.

— As galinhas põem? — Gabriel perguntou.

— Quando se sentem emocionalmente preparadas, aparentemente.

— Então conta e vende.

— Isso não vai pagar as dívidas.

— Não sozinho — Gabriel respondeu.

Ele se inclinou um pouco sobre a mesa, sem tocar em nada.

— Horta resistente. Cheiro-verde. Couve. Mandioca, se tiver. Qualquer coisa que cresça rápido e não peça dinheiro que você não tem. Pomar, se ainda estiver dando fruta. Doce, geleia, compota. Cozinha você tem. Vidro você tem. Receita deve ter. Cícero conhece a feira. E você sabe fazer conta.

Ana não respondeu.

A raiva continuava ali. Mas perdeu espaço.

Pouco.

O suficiente para ser perigoso.

— Venda o que ainda gira — Gabriel disse. — Não o que você gostaria que girasse.

Ana odiou a frase na mesma hora.

Odiou porque fazia sentido.

Ovos, horta, goiaba caindo no pomar, vidros empoeirados no depósito e a receita de bolo de milho que ela tinha visto de relance num caderno velho.

Feira no sábado.

Tudo começou a se alinhar dentro da cabeça dela, contra a vontade dela.

— Isso é conselho ou tentativa de parecer menos vilão? — Ana perguntou.

Gabriel inclinou a cabeça.

— Eu consegui?

— Não.

— Então é um conselho.

Ana puxou uma folha limpa e pegou a caneta. Escreveu rápido, com a letra mais apertada do que o normal.


Gerar caixa sem investimento alto:

1. Ovos

2. Cheiro-verde / couve

3. Goiaba / frutas do pomar

4. Geleia / compota

5. Bolo de milho?

6. Feira de sábado


Gabriel se aproximou para ler.

Ana cobriu a folha com a mão.

— Espaço pessoal.

— Eu nem encostei — Gabriel disse.

— Sua arrogância encostou.

— Ela tem esse costume.

Ana sustentou o olhar dele por um segundo antes de tirar a mão.

Gabriel leu a lista.

— Bolo de milho?

Ana respondeu sem olhar para ele:

— Receita do meu tio.

O silêncio mudou.

Quando Ana ergueu os olhos, a provocação havia sumido do rosto de Gabriel.

— Augusto fazia um bom bolo de milho — ele disse.

Ana apertou a caneta.

— Você comia?

— Quando ele me convidava.

— E ele te convidava?

— Quando queria alguma coisa de mim — Gabriel respondeu.

A risada escapou antes que Ana conseguisse segurar.

Curta. Pequena. Quase um erro.

— Isso parece ele.

O silêncio que veio depois não era confortável. Ainda não. Mas também não era o mesmo de antes. Era menos pontudo, menos armado. Como uma porta que não abriu, mas deixou de estar trancada.

Ana foi a primeira a desviar.

— Se eu fizer isso, preciso de volume. Quantos ovos por dia. Quantos vidros limpos. Quanto açúcar. Quanto custa embalagem. Preço médio na feira. Demanda. Perda. Prazo.

Gabriel assentiu.

— E precisa parar de comprar conserto antes de comprar venda.

Ana levantou os olhos.

— Freezer é caro — Gabriel disse. — Se você não tem produto com giro certo para congelar, ele vira monumento à sua ansiedade. Arame conserta perda. Mangueira evita desperdício. Ração mantém produção. Freezer espera.

Ana apontou a caneta para ele.

— Isso foi útil de um jeito profundamente irritante.

— Estou num bom dia.

— Não se acostume.

Ela fez outra coluna.

Não comprar agora: freezer.

Comprar se gerar ou evitar perda: ração, arame, mangueira, correia.

Gabriel observou a folha com atenção.

— Você é rápida.

Ana não levantou os olhos.

— E você é mandão. Cada um aparece com o defeito que tem.

Ele riu baixo.

O som foi curto, grave e próximo demais.

Ana sentiu antes de decidir se queria sentir. Então endireitou as costas e voltou ao assunto como quem fecha uma gaveta com pressa.

— Sobre o contrato — ela disse.

Gabriel ficou sério de novo.

— O que tem? — ele perguntou.

Ana pousou a caneta sobre a mesa.

— Eu quero uma cópia.

— Você vai ter — Gabriel respondeu.

— Hoje — Ana exigiu.

— Hoje — ele confirmou.

Ela apontou a caneta para a pasta.

— Também quero o mapa da área arrendada.

Gabriel assentiu.

— Eu mando junto.

— E quero saber o prazo — Ana disse. — Data de início, data de término, possibilidade de rescisão e qualquer multa escondida em letra pequena.

Gabriel sustentou o olhar dela.

— Essa parte vai doer.

Ana não piscou.

— Tenho opção?

— Não — ele respondeu.

— Então faça doer de uma vez.

Por um instante, ele pareceu aprovar a resposta.

— Certo — Gabriel disse.

Rogério bateu de leve na porta de vidro, como se pedisse licença para entrar na própria sala.

Ana não desviou os olhos de Gabriel.

— Mais uma coisa.

— Diga — Gabriel respondeu.

— Você usou sua conta como garantia na agropecuária, mas poderia pagar minha dívida inteira, não poderia?

Gabriel não tentou parecer melhor do que era.

— Poderia.

O estômago de Ana apertou.

— Mas não vai.

— Não.

— Por quê? — ela perguntou.

Gabriel chegou um pouco mais perto.

Dessa vez, a distância ficou curta o suficiente para Ana ter de inclinar o rosto para continuar olhando para ele.

— Porque se eu pagar, você vai gastar metade da sua força me odiando pela dívida errada — Gabriel disse. — E a outra metade tentando provar que não precisava de mim. Você não tem força sobrando para desperdiçar comigo.

Ana ficou calada.

Gabriel continuou, mais baixo:

— Eu não vou te dar uma coleira com formato de favor.

Aquilo entrou nela por um caminho inesperado.

Porque era exatamente o tipo de coisa que outro homem teria feito. Pagar. Sorrir. Esperar gratidão. Cobrar obediência depois, em parcelas pequenas, educadas, sufocantes.

Ana baixou os olhos para a folha.

Quando falou, a voz saiu controlada demais.

— Você fala bonito para alguém que acabou de admitir que tem um contrato prendendo minha terra.

Gabriel respondeu:

— Eu não disse que sou bom.

Ana olhou para ele de novo.

— Não. Não disse.

Rogério bateu outra vez, mais constrangido.

Gabriel se afastou primeiro.

O ar voltou à sala como se alguém tivesse aberto uma janela.

— Entra, Rogério — Gabriel disse.

O gerente entrou segurando três cafés que ninguém tinha pedido.

— Achei melhor trazer — Rogério disse.

Ana pegou um.

— Obrigada.

Rogério se sentou com cuidado, olhando de Ana para Gabriel como quem tenta descobrir se houve briga, acordo ou crime.

— Então… como seguimos? — o gerente perguntou.

Ana ajeitou a folha sobre a mesa.

— Sem crédito grande por enquanto. Quero renegociação do que estiver vencido, levantamento completo da conta, cópia da documentação da cooperativa, posição da cota capital e uma simulação pequena. Só se couber no fluxo de trinta dias.

Rogério piscou.

— Certo.

Gabriel se sentou ao lado dela.

Não à frente.

Ana percebeu.

Rogério pigarreou.

— E a geração de caixa?

Ana respondeu antes que Gabriel abrisse a boca:

— Feira de sábado. Produto de giro rápido. Ovos, horta e alguma coisa da cozinha. Eu ainda vou calcular.

Gabriel olhou para ela de lado.

— Está vendo? Partes menores.

Ana não olhou para ele.

— Não se empolgue. Você continua sendo uma parte grande do problema.

— Mas não impossível — Gabriel disse.

Ela virou o rosto.

A frase ficou entre os dois.

Ana não sorriu.

Mas também não negou.

Do lado de fora, São Gabriel continuava observando através do vidro.

Dentro da sala, pela primeira vez desde que chegara, Ana não tinha uma solução.

Mas tinha uma direção.

E, contra todas as preferências pessoais dela, Gabriel Belmonte havia ajudado a apontar.