Margem do Formosa

6 Auditoria no galinheiro


Depois do café, Seu Cícero levou Ana pelo terreiro com a paciência de quem apresentava uma família difícil.

O galinheiro foi o primeiro.

Era maior do que Ana esperava e mais caótico do que qualquer estrutura com portas deveria ser. Havia ninhos improvisados, tábuas frouxas, uma tela remendada com arame e galinhas entrando e saindo como se o conceito de limite físico fosse uma sugestão.

Ana parou diante da cerca.

— Quantas galinhas tem?

Seu Cícero respondeu:

— Botando ou passeando?

Ana virou o rosto devagar.

— Eu queria que essa pergunta não fizesse sentido.

— Tem umas que não botam mais. Tem umas novas. Tem umas que somem e voltam. — respondeu seu Cícero.

— Elas somem?

— Galinhas tem caminhos.

Ana anotou na prancheta improvisada:

Galinheiro: contar aves. Separar poedeiras. Ver ração. Ver tela.

Uma galinha ciscou perto do tênis dela.

Ana apontou a caneta para o bicho.

— Você está oficialmente sob auditoria.

A galinha ignorou.

Seu Cícero olhou para ela com cuidado.

— Auditoria é ruim?

— Depende do que a galinha está escondendo.

Ele riu, mas o riso morreu quando chegaram à horta.

Ou ao que um dia fora a horta.

Ana reconheceu algumas fileiras por pura boa vontade. Havia couve resistindo em um canto, cebolinha quase soterrada e pés de tomate inclinados como idosos cansados. O resto era mato, folhas secas e uma cerca baixa parcialmente caída.

Ela ficou quieta por alguns segundos.

Seu Cícero se adiantou:

— Seu Augusto limpava quando dava.

Ana não respondeu de imediato. A frase tinha defesa. Tinha cansaço. Tinha lealdade.

Ela se agachou, tocou a terra com os dedos e viu que ainda estava úmida.

— A terra parece boa.

— É boa. Perto do rio Formosa, tudo pega se cuidar direito.

— Então o problema não é a terra.

Seu Cícero cruzou os braços.

— O problema era falta de braço, dinheiro e tempo.

Ana levantou o olhar para ele.

— Eu sei.

Ele não pareceu convencido.

Ela se levantou e limpou a mão na calça.

— Eu não estou dizendo que foi descuido. Estou dizendo que virou gargalo.

— Gargalo? — perguntou seu Cícero.

— Um ponto onde tudo trava. A horta podia produzir, mas sem gente para limpar, sem controle do que planta e sem venda certa, ela vira mato caro.

Seu Cícero ficou olhando para a horta.

— Seu Augusto fazia como dava, pinguinha.

Ana guardou a caneta por um momento.

— Eu sei. Eu só preciso entender o “como dava” antes que o “como dava” me enterre viva.

A resposta pareceu acertar o lugar certo. Seu Cícero baixou os ombros, menos armado.

— Então vamos no galpão.

O galpão ficava atrás da casa, pendendo ligeiramente para um lado, como se tivesse desistido de fingir postura. Dentro, o cheiro de ferrugem, óleo velho, saco de ração e madeira úmida era forte.

Ana parou na entrada.

— Isso aqui é um cômodo ou uma cena de crime?

Seu Cícero acendeu a luz.

Ela piscou duas vezes antes de firmar.

Havia ferramentas quebradas em cima de uma bancada, caixas sem identificação, sacos de ração empilhados perto demais da parede, potes vazios, peças de trator, mangueiras, arames, vidros guardados, um freezer antigo encostado no fundo e três cadernos em lugares diferentes, todos com aparência de terem sobrevivido a alguma tragédia líquida.

Ana caminhou até o freezer.

— Funciona?

Seu Cícero fez silêncio.

Ana olhou para ele.

— Essa pausa foi a resposta?

— Parou no começo do ano.

— Com coisa dentro?

— Tinha umas polpas.

Ana fechou os olhos.

— Eu não vou abrir.

— Melhor não.

Ela anotou:

Freezer: morto. Não abrir sem apoio emocional.

Depois foi até os sacos de ração. Pegou um deles, procurou a validade e franziu a testa.

— Esse vence semana que vem.

Seu Cícero se aproximou.

— Ainda dá pra usar.

— Dá. Mas se ninguém sabe quanto tem, quanto usa por dia e quando vence, a fazenda perde dinheiro assim.

Ela apontou para as prateleiras.

— Esses vidros são para quê?

— Doce, conserva, geleia. Seu Augusto guardava.

Ana pegou um vidro, examinou contra a luz e colocou de volta.

— Isso ainda pode servir.

— Pode.

— E por que está junto com peça enferrujada e veneno de formiga?

Seu Cícero respondeu com sinceridade:

— Porque tinha espaço.

Ana respirou fundo.

— Certo.

Ela puxou uma caixa vazia, virou de cabeça para baixo e usou como mesa. Espalhou os cadernos sobre ela. Um tinha anotações de ovos vendidos. Outro misturava telefone de fornecedor, receita de doce de abóbora e valor de conserto de cerca. O terceiro começava com “contas pagas” e, depois de cinco páginas, passava para uma lista de encomendas de queijo.

Ana folheou tudo em silêncio.

Seu Cícero observava como quem esperava uma bronca.

Ana ergueu o rosto.

— A fazenda não está falida só porque falta dinheiro.

Ele endureceu.

— Pinguinha…

— Não terminei — Ana disse, mais calma. — Ela está falida porque ninguém sabe o que entra, o que sai, o que estraga e o que dá prejuízo.

Seu Cícero desviou o olhar para os cadernos.

— Seu Augusto fazia como dava.

— Eu sei — Ana respondeu. — E talvez tenha sido isso que segurou a Formosa até agora. Mas daqui pra frente, fazer como dá não vai bastar.

O galpão ficou silencioso.

Lá fora, uma galinha cacarejou como se discordasse.

Ana pegou a caneta e abriu uma folha nova.

— Eu não sei plantar direito. Não sei consertar bomba. Não sei negociar ração. E, até segunda ordem, tenho medo de abrir aquele freezer.

Seu Cícero quase sorriu.

Ana continuou:

— Mas eu sei encontrar vazamento.

— Vazamento de água?

— De dinheiro.

Ela escreveu três colunas na folha:

Entra. Sai. Estraga.

Depois fez uma quarta:

Dá lucro.

Seu Cícero se aproximou, interessado apesar de si mesmo.

— E como a gente preenche isso?

— Do jeito mais feio possível no começo. Contando ovo, saco, vidro, ferramenta, dívida, pedido, tudo. Depois a gente melhora.

— E isso salva a fazenda?

Ana olhou ao redor.

O galpão torto. A horta tomada. O galinheiro improvisado. A casa pingando. A geladeira cansada. O escritório fechado. A sombra de Gabriel Belmonte sobre coisas que ela ainda não entendia.

— Não — Ana disse. — Isso só impede a gente de continuar afundando sem saber onde está o buraco.

Seu Cícero assentiu devagar.

— E depois?

Ana marcou um círculo em volta da frase que escrevera no topo da folha:

30 dias.

— Depois a gente descobre o que ainda gira rápido o bastante para virar dinheiro.

— Ovo?

— Talvez.

— Horta?

— Se a gente achar a horta embaixo do mato.

— Doce?

Ana olhou para os vidros vazios guardados na prateleira.

Lembrou da receita de bolo de milho dentro da pasta. Lembrou da caneca azul na cozinha. Lembrou do comentário de Gabriel: não se apaixonar pela lembrança antes de entender o tamanho do problema.

Ela odiou que aquilo ainda estivesse na cabeça dela.

— Talvez doce — Ana respondeu. — Talvez qualquer coisa que a gente consiga produzir sem comprar meio mundo antes.

Seu Cícero passou a mão pelo queixo.

— A feira é sábado.

Ana levantou os olhos.

— Feira?

— Na praça. Seu Augusto vendia umas coisas lá quando a produção ajudava.

Ana ficou imóvel por um segundo.

Depois puxou outra folha.

— Então temos até sábado para descobrir se a Formosa ainda sabe vender alguma coisa.

Seu Cícero olhou para ela com uma mistura de preocupação e orgulho.

— É pouco tempo.

Ana encarou a bagunça do galpão e prendeu a caneta atrás da orelha.

— Ótimo. Pouco tempo reduz a chance de eu pensar demais e fugir.

— Você vai fugir?

Ana olhou para o All Star sujo de barro, depois para o terreiro, depois para a casa velha que rangia ao vento.

— Hoje, não.

Seu Cícero sorriu.

Ana pegou o primeiro caderno e entregou a ele.

— Começamos pelas galinhas.

— Agora?

— Agora.

Ana caminhou para a porta do galpão.

— Seu Cícero, depois da minha primeira noite aqui, eu também não gostei de muita coisa. E continuo de pé.

Lá fora, uma galinha atravessou o terreiro correndo.

Ana apontou para ela.

— Principalmente aquela. Ela tem cara de quem frauda relatório.

Notas finais
Quando temos um problema, às vezes precisamos dividir ele em partes menores pra resolver. Ana usou listas de tarefas e uma matriz do que ela ainda tem. E principalmente, definiu um prazo.