Margaridas de Inverno

10 Parte II – Capítulo X – Agridoce


Notas iniciais
A música citada do capítulo é originalmente da cantora Robyn, mas eu estaria sendo desonesta se não pusesse o nome de Callum Scott logo abaixo. Sua versão me inspirou para praticamente todo o capítulo.

Parte II

2005, 2006, 2007, 2008



Amo a liberdade, por isso, deixo as coisas que amo, livres. Se elas voltarem, é porque as conquistei. Se não voltarem, é porque nunca as possuí.

John Lennon



Capítulo X – Agridoce

Eu estou no canto, vendo você beijá-la
Eu estou dando tudo de mim, mas eu não sou a garota que você está levando para casa
Eu continuo dançando sozinha

Dancing on my own, Callum Scott

Veneza, Itália, 2005

Era inverno. O céu, impetuoso, pintado por grossas camadas de nuvens cinzentas, não dava uma brecha sequer para os raios solares àquela manhã. A madrugada anterior tinha sido de chuva, raios e trovões. Àquele sábado, Giuliana decidira não abrir a floricultura. Esta, adquirida logo após a morte de Marietta, sua antiga dona, tinha sido deixada pela mesma em um testamento. Os filhos, ao todo cinco, não ousaram reevindicá-la, uma vez que a mãe havia esclarecido sua última vontade. Apesar do receio, Giuli aceitou.

Agora, a mulher, aos 26 anos, tinha duas coisas para chamar de sua. A floricultura e o gatinho, Luiggi. Uma realidade bem precária, imaginava ela, afinal, nem o apartamento conseguira comprar. Ainda morava de aluguel; acabara de se formar há pouco menos de dois anos; e a cada dia que passava, mais sua vida parecia estagnada, retida. Sua mãe, junto com as amigas que tinha feito para fofocar todas as tardes, dizia-lhe: “Precisa arrumar um marido”. E calada, Giuli pensava: “Como a senhora mudou, depois da morte de Camille”. Pegava-se pensando nisso quase todos os dias em que parava e apoiava os cotovelos na minúscula sacada que o apartamento dispunha. Quanto uma perda, pode mudar uma pessoa? Logo, diversos exemplos voavam à sua mente: James, Lea, Henrique, e ela própria. Todos profundamente mudados, inversamente evoluídos, como se invés de seguirem a vida, de amadurecerem, estivessem retrocedendo.

Há cinco anos a mãe de James havia falecido, e o pequeno Ugo, há um pouco mais de seis. Nas datas de tais acontecimentos, Giuliana sempre tirava uma parte da manhã para ir até o cemitério, deixar flores, conversar com ambos, que tinham sido enterrados em túmulos um ao lado do outro. Àquele dia, não seria diferente. Levantou-se da cama, uma hora depois de ter acordado; pusera a ração de Luiggi no pratinho, afagou-lhe o pêlo por alguns minutos, e finalmente elevou-se, alongando as costas e o braços, deixando a calça de algodão escorregar pelas pernas e a blusa do mesmo tecido, sair pelos braços e cabeça. Praticar naturismo dentro de casa havia se tornado uma das coisas mais decorrentes no cotidiano da mulher, assim como duas ou três taças de vinho toda noite, fazendo-a dormir embriada pelo leve torpor do líquido.

Caminhando em direção ao banheiro, a mesma prendia os cabelos em um coque firme e alto, não querendo molhá-los, o clima estava frio, afinal de contas. Os jatos de água quente faziam seu corpo se acalmar, ao mesmo tempo que fazia sentir-se mais vívida, alerta.

Depois da briga com Cármen, a mesma nunca mais tinha a visto. Haviam se conhecido numa padaria do outro lado da cidade, onde a morena vivia, mas como não tinham mais caminhos em comum, encontros, mesmo que por acasos, não aconteceram. Giuliana julgava ter amadurecido muito àquela noite. Aprendera que uma outra pessoa, por mais bem intencionada que fosse, não conseguiria tirar James de seu coração. O rapaz estava seguindo sua vida, e ela tinha que fazer o mesmo. Ela, sozinha, teria que fazer esse sentimento adormecer, e nunca mais acordar. Somente depois disso, poderia pensar em começar um relacionamento. Não queria cometer o mesmo erro que fez com Cármen; se doar pela metade, para uma pessoa que a merecia inteira. E se não conseguisse consolidar tal feito, no mínimo, não feriria mais ninguém.

Deslizou a meia-calça pelas panturrilhas até estarem devidamente vestidas, pôs um vestido floral, sobretudo verde-escuro e cachecol bege. Optou por botas, porque de acordo com o viu por sua janela, a neve já havia começado a cair. Cruzou a porta de seu apartamento, afundando as mãos nos bolsos e molhando os lábios frequentemente para que não ficassem ressecados.

A fina camada de neve engrossava com o passar de cada minuto. Andando com a cabeça baixa, e o olhar perdido, a mulher não precisava prestar atenção nas ruas em que passava, o caminho estava impregnado em sua mente, e como em todas as vezes que aquilo se repetia, ela agia em automático. A última esquina tinha um canal como seu acompanhante, e a ponte da Academia* logo acima, fazendo-se grandiosa. Sobre seu ferro, o manto branco podia ser avistado de longe, manto este, que também fazia-se presente por cima de todas as gôndulas paradas logo à margem.

A balsa que a levaria até a ilha de San Michele*, onde se localizava o cemitério da cidade, estava ancorada também à margem, esperando o horário marcado para a saída. Uma sairia às nove, outra às dez, e eram as últimas da estação, já que logo mais, dali a alguns dias, as águas começariam a congelar.

A primeira balsa já encontrava-se quase cheia, Giuliana posicionou-se para subi-la, e com a ajuda de um senhor, conseguiu realizar tal feito, sem muitas dificuldades. Sorriu discretamente para o mesmo, e sentou-se, esfregando os dedos, lutando contra a vontade de chorar que a dominava. A viagem não durava mais de vinte minutos, e mesmo assim, a mulher não gostava de presenciar os olhares abatidos, os olhos marejados, as feições cansadas daqueles que assim como ela, estavam indo visitar seus entes queridos que não podiam mais tocar, abraçar, matar a saudade. Encontrou ali, dois dos cinco filhos de Marietta, e acenou com a cabeça compadecida, vendo Gina e Enrico desmancharem-se em lágrimas, diante da morte ainda recente.

Pôs os pés em terra firme, andando sobre o caminho de pedras que iam em direção aos túmulos. Algumas pessoas migravam para a igreja ali também estabelecida, mas depois de anos indo ao local, fazendo o mesmo ritual, deduzira que existiam muitos deles que precisavam mais dos ouvidos de Deus do que ela. Reduziu-se a fazer somente o sinal da cruz, e continuou seguindo em frente.

Apesar da aura de melancolia que envolvia o local, sua aparência não era das piores. Existia verde por todos os lados, desde o gramado às copas das diversas árvores floridas que se encontravam ali. Tudo fora feito meticulosamente para aliviar a tristeza do coração das pessoas, porém, na maioria das vezes, a tentativa era falha.

O gramado das lápides era logo à frente, e o de Camille e de Ugo, não eram difíceis de serem encontrados. Giuliana ajoelhou, tirando uma margarida de talo grande do bolso, cuja tinha pego antes de sair de casa. Deixou-a na grama, entre os dois túmulos e pela primeira vez, permitiu que as lágrimas caíssem. Leu pela milésima vez os escritos ali contidos, e um soluço saiu de sua garganta. “Filho e irmão que conseguira nos fazer amar, como se de nós tivesse saído. Seu sorriso iluminará os céus em noites de extrema escuridão, como a lua que insiste em brilhar, em meio às nuvens cinzentas. Ugo Henrique Velatti, 13 de setembro de 1999”, e à direita, o de Camille: “Esposa e mãe que conseguira trazer amor e felicidade à família, mesmo que por curtos anos. Seus olhos, castanhos e cintilantes, levarão os mesmos sentimentos aos anjos que habitarão com você. Elis Camille Velatti, 20 de dezembro de 2000”.

As lembranças atingiram a mente de Giuliana como uma corrente que levava todos as sensações de conforto que seu corpo teimava em deter. As diversas vezes que dormiu na casa dos Velatti, os jantares, as risadas trocadas entre as famílias, como sua mãe transformou-se com a morte da amiga, as brigas que essa mudança acarretou entre a mesma e Afonso, a partida de James, seu James, seu amigo, seu amor. Que agora estava longe demais para lhe pertencer, longe demais para lhe abraçar e lhe consolar. Longe, tão longe, que quase esqueceu-se do seu cheiro, se não o estivesse sentindo naquele momento, naquele instante, em que seus braços estavam sendo esmagados em um aperto que a mantinha viva; um sopro de felicidade que lhe adentrou as narinas, e fez seu coração vacilar nas batidas.

– Ah – Escutou o grunhido rouco, com aquela voz que havia engrossado sim, mas que ainda era dele. – como eu senti sua falta.

– Eu estou tendo algum tipo de alucinação. – Afirmou para si mesma, ainda sentindo o abraço em volta de si, sentindo a testa dele apoiada na parte de trás de sua cabeça. Levantou a mão no ar, tomando a coragem que julgava não ter, e fincou primeiro as unhas, logo depois, acariciando um dos braços, agora maiores, com veias saltadas, revestidos por uma camada de pêlos lisos. Ainda mantinha os olhos fechados. – Eu vou abrir os olhos, e você não vai estar aqui. – Disse ela, com a voz totalmente embargada pelo choro, os soluços entrecortando-a. – É sempre assim. Eu sonho com você, mas acordo, olho ao redor e não tem nada. Nada; você nunca está lá. – E chorou ainda mais forte, os ombros tremiam, James a apertava ainda mais; costas contra peito, os cheiros misturando-se, lágrimas caindo de ambos.

– Estou aqui. – Falou, depois de engolir em seco, depois de tentar conter o que tinha dentro do peito. – Pode olhar, pode me arranhar, fazer o que quiser, eu não vou sair daqui.

E assim ficaram, embalados pela onda de dor que pairava por dentro de si próprios, com as lembranças, a nostalgia sufocando-os, mesmo assim, deixando-os vivos, para que sempre sentissem, para que sempre doesse. James gostaria de virá-la em sua direção, de olhá-la nos olhos, dizer-lhe que voltou, voltou para ficar, que não deveria ter ido embora. Mas, sabia que ela precisava de seu tempo, que precisava assimilar os acontecimentos, além da já amargura daquele dia, que também o envolvia. Giuliana, respirando em forma automática, anestesiada em relação a tudo ao seu redor, pregava os olhos lentamente, lágrimas não mais caíam, mas o rosto ainda continuava molhado. O silêncio deixava que a mesma quase ouvisse as batidas de seu coração; estava doente de dor, mas inexplicavelmente feliz por tê-lo tão perto. Uma antítese ambulante.

– Mais forte. – Ela pediu, quase inaudivelmente, um sussurro bem baixinho.

– O quê? – Assustou-se, de imediato.

– Me abrace mais forte, pelo amor de Deus! – Falou mais alto, deixando os soluços saírem novamente, e sentindo os ossos de seus braços serem quase esmagados em meios aos dele. Virou-se, ainda de joelhos, e o envolveu da mesma forma; sentindo a quentura de seu pescoço, a rala barba roçando-lhe o rosto, e caramba! Como ela gostava daquilo! Amassou seu casaco azul-marinho, ralou os próprios joelhos no gramado, fazendo-os segurarem seu peso e desfiarem a meia-calça que usava. Sentia tanta saudade, era algo tão imenso que saía de seu ser, que mesmo ele estando ali, mesmo estando tão perto, o sentimento não acabara. Ainda doía, ainda alfinetava seu coração, mas era um desconforto suportável. Ela suportaria tudo, porque ele estava ali! Estava em seus braços novamente, com os olhos azuis repletos de lágrimas dizendo-lhe, mesmo sem palavras, que também sentia o mesmo. Que sentiu sua falta, que havia voltado. Em meio ao choro, Giuli sorriu.

*

– Tenho tanto para lhe dizer… – Murmurou James, enquanto no sofá do apartamento de Giuli, encontrava-se sentado, com a mesma entre suas pernas, abraçados, acariciando-lhe os cabelos alaranjados. Suspirou, para logo após, aspirar o aroma que a mesma emanava, e depositar um beijo casto em sua cabeça.

– Podemos só dormir, hoje? – Ela perguntou, ainda de olhos fechados, quase caindo no sono. – Passe o dia comigo, durma aqui, eu ainda não matei a saudade que tenho de você.

O horário de almoço já havia passado. Ambos comeram em um restaurante típico da cidade, caminharam pelas praças; o rapaz queria voltar a ver tudo aquilo que não conseguira há anos; e pouco conversaram, afinal de contas. As luvas que o mesmo detinha quando a encontrara no cemitério, já jaziam em seus bolsos há tempos; os dedos de ambos entrelaçaram-se desde a saída do local, e não mais se afastaram. A mágoa que Giuliana carregara no peito durante anos, fora substituída pelo medo da perda, em questão de instantes. Não queria falar, saber da vida que mesmo consolidou em outro continente, ter o conhecimento de que talvez aquilo tivesse prazo de validade. Afogar-se em ilusões, parecia tão mais fácil.

– Não posso dormir aqui, fiore. – Sussurrou, pesaroso, como se as palavras que professasse ferissem a si mesmo. O silêncio rodeado de dor e desespero alojou-se na sala, e lágrimas contidas e teimosas, formaram-se nos olhos da mulher. Ela não queria chorar, não queria demonstrar que o sentimento do passado ainda existia dentro de si. Ele estava ali, abraçando-lhe e lhe dando amor, mas nada era estável ou sólido; eram amigos, somente amigos. – Quero te levar a um lugar à noite.

Fungando levemente, Giuli o encarou. – Que lugar?

Gentilmente, o homem enxugou as lágrimas alheias com os polegares, e a fitou nos olhos com afeto. – Tenho que te contar algo. – Molhou os lábios, e deu uma pequena pausa. – Voltei para ficar. – Murmurou.

Ainda o encarando, Giuliana entreabriu os lábios diversas vezes tentando fazer algo soar por suas cordas vocais, mas palavras, não vieram. Lágrimas grossas voltaram a cair, batidas desenfreadas cruzaram seu peito, e um sorriso despontou em sua face, como a primeira flor de primavera, que desabrocha depois de um longo inverno.

– Não brinque comigo dessa maneira. – Ela pediu.

– Não estou brincando. – Foi sincero. – Já providenciei um apartamento, e até já estou empregado. Terminei o doutorado há poucos meses, vou lecionar na universidade. – Sorriu, e segurou seu rosto entre as grandes mãos. – Não irei embora, Giuli.

A mulher avançou em sua direção, roubando do mesmo um abraço que logo foi devolvido. Chorou forte, com a face colada a seu pescoço, apertou os dedos em seus ombros, e deixou que pouco a pouco, o coração se tranquilizasse. Seriam aquelas as melhores palavras que já ouvira em toda sua vida? Não, as melhores não. Mas, ela queria ouvi-las.

– Eu te amo, Jamie. Te amo tanto, que não sei como consegui aguentar tanto tempo distante.

Sua cintura foi ainda mais presa em meio aos braços do homem, mas palavras que respondessem as anteriores, não vieram. Ele mantinha o aperto da mulher, sem querer soltá-la em nenhuma hipótese, mas a cada minuto que se passava em silêncio, mais a mesma mergulhava num mar salgado, onde não conseguia por os pés no chão. Giuliana estava se afogando, e James não a salvara.

Foram cinco minutos inteiros, antes que se afastassem. A face dele também estava molhada, seus olhos igualmente tristonhos; James sabia que aquilo doeria. Fora um sentimento alimentado na infância, que crescera junto com os mesmos, e fora interrompido por uma tragédia. Mesmo com a distância, era impossível dizer que não a amara e desejara todos os benditos dias, que não sentira uma saudade que parecia matar-lhe aos poucos. Mas, também sabia, que o “eu te amo” que Giuli queria ouvir, agora, ele só poderia dizer a outra pessoa.

– Eu também te amo, Giuli. – Falou, tentando fazer o queixo parar de tremer. Sem sucesso, fechou os olhos, e deixou que destes, cachoeiras saíssem. – Você… – Soluçou. – Você é minha melhor amiga. – E abaixando o olhar, Giuliana tentou entender tudo o que estava acontecendo. As palavras saídas da boca dele não carregavam o mesmo significado que as dela, ele não mais a amava da mesma forma que ela. Tudo atingiu Giuli de forma abrupta e cruel. Ele estava ali, à seu lado, mas ela continuava sozinha. – Eu estou noivo, Giuli. – Segredou-lhe, mas a mesma continuou imóvel. – Ela se chama Pérola.

Depois de alguns instantes entorpecida pela informação, a mulher o encarou. – Nome latino. – Disse.

– Seu pai é porto-riquenho, a mãe é americana. – Falou. – A conheci em Chicago, há dois anos.

Mirando os olhos no teto, Giuli respirou fundo. Há dois anos, a mesma havia ligado para ele, logo após a briga com Cármen, e descoberto que o mesmo estava com outro alguém. Giuli sabia que James deveria manter alguns relacionamentos casuais no outro país, mas mesmo sem ter o conhecimento, algo a dizia que a mulher que estava com ele àquela manhã, era a mesma que agora, dizia ser sua noiva. Pérola. Agora, o nome da dona do coração de seu amado, era Pérola.

– O que posso dizer? – Encarou-o e mesmo com o rosto molhado de tristeza, forçou um sorriso. – Desejo… que sejam felizes. Pode não parecer, mas estou sendo muito sincera. – Confessou.

– Acredito em você, fiore. – Segurou-lhe o rosto, e beijou-lhe a testa com força. Depois de instantes, encostou a mesma à sua. – Marquei um encontro com todos os familiares e amigos, na casa de meu pai. – Disse-lhe. – Irei apresentá-la. Giuli, eu queria muito que você estivesse presente.

Levando todos os planos de garrafas de vinho vazias, e choros pela madrugada, de Giuli por água à baixo, o rapaz a envolveu nos braços novamente. Porém, desta vez, Giuli não o retribuiu. Algo entorpecia sua mente, latejava o coração, adormecia as pontas dos dedos. Mesmo sabendo que não suportaria passar mais de alguns instantes olhando-os, a mulher não sabia dizer-lhe “não”. Enxugou as lágrimas, disfarçou a dor e assentiu. Doeria sim, ela sabia, mas precisava disso para dar-se conta que ilusões teriam de deixar de existir. Jamie voltou, mas agora, pertencia a outra.

*

Sentada em um sofá marrom, num dos cantos da sala de recepção da casa dos Velatti, Giuli, sentada e ereta, estava. Levava no corpo um peso que julgara não poder carregar por muito tempo, mas que faria de tudo para suportar. Olhava-o de longe, de jeans e suéter, conversando animadamente com William e sua noiva, Nicola, enquanto bebericavam de taças de vinho. A mulher não aceitou a bebida quando lhe ofereceram, pois sabia que se começasse, não teria como parar. Em certo momento, os olhos de Jamie cruzaram-se com os seus, e levantando a taça para a mesma em sinal de cumprimento, o homem sorriu. William seguiu-o com o olhar, e quando ambos encararam-se, o francês lançou-lhe um sorriso triste e deprimido, como se dissesse: “Sei o que está passando, sinto muito”. Mas, com a ciumenta noiva em seu encalço, trocar mais do que duas palavras, seria impossível.

O vestido que trajava era num tom claro de amarelo, com passarinhos por todos os lados. Giuliana não conseguia deixar a parte “jovenzinha” de seu espírito morrer, de tal modo, que não via-se vestindo roupas ousadas e sensuais. Por alguns instantes, pensou: “Talvez, seja esse o meu problema. Talvez, eu ainda não seja tão ‘mulher’”. E de imediato, repreendeu-se. Franziu as sobrancelhas e tentou enfiar na própria cabeça que James não estava noivo por conta de seus adjetivos, mas sim, porque simplesmente havia se apaixonado por outra pessoa. A culpa não fora sua, e nem de ninguém; acontecera, fora a vida. Também desejou poder conseguir realizar tal feito, algum dia.

Não mais que de repente, uma das portas do cômodo se abriu, e todos os presentes direcionaram as atenções para a mulher ali parada. Tinha cabelos longos e castanhos, onduladamente lisos; olhos na mesma cor, que expressavam apreensão e temor; a pele lisa e parda, num tom que Giuli sempre achara lindo; e os lábios pintados de vermelho, que de súbito, deram a ruiva, a imagem de marcas pelo corpo do amado que já não era mais seu.

James aproximou-se da mesma, sorrindo encantado. Segurou em sua mão, sussurrou-lhe algo ao pé do ouvido que a fez sorrir, e beijou-lhe os lábios de forma tão carinhosa, que fez o queixo de Giuliana tremer.

Estava sendo pior do que imaginara. Saber somente com palavras, fora mil vezes mais fácil do que presenciar. Ele estava amando, ela pôde ver. Estava apaixonado, irradiando felicidade por todas as partes do corpo, e mesmo tendo o coração destroçado de tal forma que quase fazia-lhe perder as forças, ela sorriu por cima do choro. Um sorriso casto, sem mostrar os dentes, de contentamento e conformação. Ela o fazia feliz, e isso era o bastante.

Sentiu um afago nos ombros, e assustada, virou-se na direção contrária. Ninguém a vira, ou notara. De seus olhos, um fino caminho de lágrimas caía, e mesmo turvos, conseguiram identificar o loiro de olhos azuis e tristonhos, que lhe acarinhava a pele em gesto de consolação. Num só olhar, se comunicaram como não faziam há meses, e num gesto de afeto, o mesmo lhe beijou a têmpora de forma calma e demorada.

– Posso te tirar daqui, se quiser. – William sussurrou.

Imperceptivelmente, a mesma negou. – Eu vim até aqui, não posso sair sem ao menos conhecê-la. – O homem suspirou, e assentiu. – Onde está sua noiva? – Ela perguntou.

– Entretida com alguma conversa sobre arranjos florais para o casamento. – Respondeu.

– Will, vá até ela, agora! – Disse, nervosa, mas baixo o bastante para que só ele escutasse. – Sabe que Nicola não gosta de mim, se nos ver aos sussurros, irá brigar com você. Ande!

– Tenho uma amiga que precisa mais de mim do que ela, neste momento. – Foi ríspido. – Não sou um cachorrinho que se rende aos caprichos de Nicola, Giuli.

A mulher virou-se completamente em sua direção, e lhe fitou nos olhos de forma dura e decidida. Deus sabia o quanto precisava de Will naquele momento; de um colo para se aconchegar e chorar, do silêncio confortável que o mesmo lhe proporcionava, dos afagos e beijos nas têmporas, que o homem sempre lhe deu. Sem malícia, sem cobranças, só por gostar. Mas, atrapalhar um noivado que estava às vésperas do casamento, não condizia com o feitio de Giuliana. Nunca condiria.

– Com quem você compartilha a cama todas as noites?

– O quê? – Franziu o cenho, incrédulo.

– Quem faz seu café pelas manhãs, te dá amor, carinho? Quero que me responda, William. – Perguntou a mulher.

Depois de alguns segundos em silêncio, Will desviou o olhar. – Nicola. – Respondeu.

– Então, nunca – Engoliu em seco. – nunca a ponha em segundo plano. Nunca ponha nada e nem ninguém a sua frente. – As lágrimas tinham voltado a cair, mas logo foram enxutas; Giuliana não queria mais chorar. – Já fizeram isso comigo, Will, e você sabe o quanto doeu. Não fira a mulher que ama.

Sem palavras para contrapor as da amiga, William, calado ficou. Viu-a se afastar e o próprio coração apertar, sabendo o quanto ela estava quebrada, e mesmo assim, forte. Não decepcionaria James, por mais que soubesse que conhecer aquela que seria sua noiva, faria um mal tão grande a si mesma, que quando cruzasse a porta de casa, se derramaria em prantos por todo o resto da noite. Will não compreendia aquele sentimento que parecia ser alimentado por somente uma das partes, que fazia bem no começo, há ano atrás, mas que agora, só a machucava. Sentia-se triste por não poder fazer nada a respeito, e inútil por saber que se a mulher não se livrasse logo daquilo, passaria o resto de seus dias, sozinha e depressiva. Por fim, suspirou, soltando os ombros de uma só vez, e migrando para o lado da futura esposa, que ao notar novamente sua presença, sorriu abertamente e lhe beijou os lábios.

Giuliana estava na sacada da antiga casa, com uma taça de vinho em uma das mãos, tomando goles longos e rápidos. O líquido queimava um pouco sua laringe, mas a mesma gostava. Sentir desconforto físico, por mínimo que fosse, amenizava o do peito. Ela sabia que muitas dessas ainda desceriam por sua garganta pelo decorrer daquela noite. Em sua casa, em sua cama, com a porta trancada, sozinha.

Sentiu uma presença atrás de si, mas não se virou de imediato. Não queria conversar, demonstrar seu estado, ou fingir estar bem. Começava a se perguntar o que diabos estava fazendo ali.

– Giuliana? – Seu nome foi vozeado de forma suave e temerosa. Cogitara a opção de fingir não ouvi-lo, mas logo repreendeu-se. Deu um último gole, deixando a taça vazia, e encarou a mulher atrás de si.

– Pérola. – Afirmou, e lançou-lhe um mínimo sorriso. – A noiva do meu melhor amigo; é um prazer conhecê-la.

– James falou muito sobre você. – Disse a morena, com os castanhos e profundos olhos vidrados na face delicada, e ao mesmo tempo, dura, a sua frente. – Você é, realmente, tão bonita quanto ele disse que era. – Sendo pega de surpresa, Giuli juntou as sobrancelhas. Não sabia o que deveria esperar daquela desconhecida; talvez palavras inocentes de quem não tinha nenhum conhecimento sobre passado do noivo, talvez palavras rudes regadas a ciúmes; mas elogios? Sinceridade? Sua expressão suavizou com o simples devanear de Jamie falando de si de forma doce. – Eu pedi para que ele te convencesse a me conhecer, não sabia se viria por vontade própria.

– Se vim, foi porque quis. – Respondeu, suave. – Não há motivos para que não viesse.

– Há, sim. – Assentiu. – Nós duas sabemos disso. – Diante da tensão criada por aquelas palavras, Pérola, logo molhou os lábios, e voltou a falar. – Conheci James numa casa de Blues em Chicago, ele estava… muito deprimido. Falou sobre você a noite inteira, e mesmo sem perceber, eu te formulei em minha mente como uma pessoa… encantadora. Ele se arrependeu de ter te deixado, Giuliana, isso eu posso lhe dizer com toda sinceridade. Mas, o tempo foi passando, nós nos aproximamos, juntamos nossas angústias, e cá estamos.

– Por que – Giuli engoliu em seco, e travou o maxilar para não chorar. – está me dizendo isso?

– Porque o amo. – Foi firme e direta. – James diz que não, mas tenho absoluta certeza de que ele voltou para Itália por sua causa. Ele deseja de alguma forma… consertar os erros do passado. Ele nunca me trairia, eu sei disso, mas o mesmo espera que voltando a ter contato direto com você, se redimirá e poderão se tornar melhores amigos novamente. E eu não suportaria vê-lo triste. – Seus olhos brilhavam por conta das lágrimas acumuladas. – Nosso relacionamento não foi proposital, fora algo que acontecera aos poucos, cheio de receio. Quero lhe pedir que não tenha raiva dele… Ele a ama, Giuliana, e sempre amará. Mas, James está apaixonado por mim, e eu por ele. Sei o peso de um amor interrompido, acredite, se eu pudesse fazer algo… – Deixou a primeira lágrima cair. – Mas, estou apegada a ele de tal forma, que não posso sequer pensar em nos afastar. Dói, entende?

– Você não faz ideia de como eu entendo. – Respondeu, com a voz embargada. Enxugou os espaços abaixo dos olhos e soluçou, uma só vez. – Eu nunca cobraria nada a James, eu não tenho direito algum de fazer isso. Quanto a você… – Encarou-a, chorosa. – só o faça feliz, tudo bem? É o bastante.

Pérola assentiu e sorriu por cima das gotículas que ainda caíam. – Eu o farei… Obrigada.

*

A mulher de cabelos alaranjados resolvera sair pelas ruas da cidade, com somente sua toca e seu sobretudo a lhe proteger do frio. Andava devagar, mas firme, as rajadas de vento eram fortes, mas lhe faziam bem. Saíra da casa dos Velatti, triste, porém, mais leve. Sabia que a vida era um jogo cheio de pedras e tropeços, de caminhos longos e estreitos, mas que no final, deveria sim, existir algum pote de tesouros. Seu amigo seguira a vida, estava feliz, e ela também por ele. Agora, seria a sua vez. Viraria a página, tentaria mudar, pelo menos o suficiente, para lhe fazer bem. Ela conseguiria, ela sabia. Tinha que conseguir.

*

Notas finais
Ilha de San Michele*: San Michele é uma ilha de Veneza. A ilha é um cemitério e está associada ao sestiere de Cannaregio.