Margaridas de Inverno
11 Capítulo XI – Lorenzo
Capítulo XI – Lorenzo
Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, pois cada pessoa é única
e nenhuma substitui outra.
Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, mas não vai só
nem nos deixa sós.
Deixa um pouco de si,
e leva um pouco de nós.
Há os que levam muito,
mas há os que não levam nada.
Essa é a maior responsabilidade de nossa vida,
e a prova de que duas almas
não se encontram ao acaso.
Acaso, Antoine de Saint-Exupéry
Veneza, Itália, 2006
Assim que sentou-se no banco acolchoado do vaporetto* que tinha acabado de ancorar à margem, Lorenzo deixou a cabeça tombar para trás, e fechou os olhos durante alguns minutos, até sentir a embarcação zarpar novamente. A decisão de sair de São Paulo tinha feito tão bem a si mesmo, que o peso que sempre lhe curvava as costas todas as manhãs não estava mais ali, tinha desaparecido. O homem nascera e crescera no bairro Bixiga, no estado brasileiro, qual seus pais escolheram para morar. Como fora uma região colonizada por italianos, além das várias visitas ao país natal de seus progenitores, Lorenzo sempre se sentiu mais adequado à Itália. O ritmo incessante de São Paulo lhe deixava com os nervos à flor da pele, nervoso, irritado. E por esse motivo, decidira também, não morar em Milao, cidade cuja seus pais nasceram; seria mudar de continente, e continuar com a mesma rotina. Por fim, decidira morar em Veneza.
A embarcação chegara à seu destino pouco mais de vinte minutos após o embarque. O homem, com os cabelos castanhos-médio e lisos, porém, curtos; os olhos de um verde-menta tão límpido quanto as águas de uma lagoa cristalina e uma barba levemente ruiva cobrindo-lhe o maxilar largo, seguiu seu caminho, cruzando praças e pontes. Estava quase no horário de almoço, por isso, o mesmo tinha de dar passos rápidos se quisesse chegar a tempo.
Numa rua cheia de cafés, lojas de artes e decoração, escondia-se em meio à estas, uma mediana floricultura, pintada em tons de branco e anil. Fora o primeiro lugar em que o homem parara quando voltara à Itália aquele ano, há cerca de quatro meses. As flores, diferente das de outras lojas, ficavam organizadas por espécies e suas variações e não pela cor; observação que Lorenzo pudera fazer por conta de seus estudos na área de biologia. Haviam também brotos, mudas e pequenas árvores em germinação na parte de trás do local, juntamente com a dona e única funcionária, com os cabelos alaranjados que lembravam à Lorenzo tangerinas, e o olhar inocente, repleto de doçura, desprovido de qualquer malícia. Depois de anos, pela primeira vez, o maduro homem, tinha o incessante desejo de ver uma única mulher, todas as manhãs, acordar entre seus braços.
Seu nome era Giuliana.
Assim que cruzou a porta do estabelecimento, o sino que ficava pendurado sobre a mesma soou, trazendo a atenção da mulher em direção ao homem, que sorrira ao vê-la. Levemente assustada, Giuliana demorou alguns instantes para retribuir o ato, mas quando o fez, despertou em Lorenzo uma mínima, mas brilhante faísca, que reacendera seu peito, aquecera suas bochechas, e fizera reviver as borboletas no estômago que o homem sabia que só havia sentido na adolescência.
De nada tinha despertado o corpo daquela que estava a sua frente à primeira vista. Era uma mulher comum, com típicos traços italianos, talvez com as madeixas oriundas da Inglaterra ou Irlanda, mediana, contida. Mas, inexplicavelmente, tudo mudara quando as palavras saíam de sua boca, declamando poemas em forma de prosa, de conversa cotidiana, de rotina batida. “Acho que há pessoas-orquídeas, que gostam de mudanças, do novo, do diferente; e pessoas-tulipas, que veem beleza no tradicional, gostam da mesmice duradoura, que só variam de cor, às vezes”. Giuliana tinha dito isto de forma tão natural, que mal notara quando os olhos de Lorenzo cravaram em seus lábios, e de lá, percorreram todo o seu ser.
Era algo diferente o que ele sentia. Não era amor, pelo menos não ainda, pois o mesmo tinha consciência de que este nobre sentimento vinha depois da relação construtiva de duas pessoas apaixonadas; mas também não era somente interesse, Lorenzo queria conhecê-la o mais fundo que pudesse e ela deixasse, queria poder declamar poemas para mulher, fazê-la sorrir espontaneamente, ouvir sua voz pedindo por suas carícias, pois ele não a tocaria sem sua permissão. Queria que seu sentimento fosse recíproco.
– Lorenzo – Ela sorriu mais uma vez, por trás do balcão, e apoiou o rosto numa das mãos.
– Sentiu minha falta? – Perguntou, aproximando-se e pondo uma mecha do cabelo ruivo sobre a orelha da mesma. Seu sorriso era sutil, sem mostrar os dentes; os olhos, cravados nos dela, pediam uma resposta para a suposta brincadeira, repleta de verdades escondidas.
Sabendo que deveria desviar o olhar e fingir vergonha, Giuliana não o fez. Em vez disso, encarou-o com ainda mais avidez e segurança. Tinha uma necessidade inexplicável, que fazia com que a mulher fosse sincera com o homem que estava a sua frente. Diversas palavras lhe escapuliam da boca sem nem mesmo perceber, assim como sorrisos e confissões. Estamos nos tornando bons amigos, ela pensava.
– Senti. – Disse, e foi o bastante para o coração de Lorenzo vacilar nas batidas. Os lábios se repuxaram, o sorriso se alongou, e a mão do mesmo foi parar na bochecha de Giuliana, deslizando pela nuca, e parando em suas costas, consolidando o abraço. Assim como toda floricultura, ela cheirava a uma mistura exótica de lírios e rosas.
A pele da mulher parecia esquentar a cada novo centímetro que seus dedos percorriam, abaixo dos braços, da parte superior das costelas, parando por cima de suas escápulas. O balcão os separava, e mesmo sem saber, ambos o amaldiçoaram. Algo os puxava de encontro ao outro, e não era desejo ou ardência, era terno, carinhoso, quase como se pedissem colo.
Com o nariz sobre lapela do sobretudo de Lorenzo, Giuli aspirou seu cheiro imperceptivelmente e teve o alívio de sentir o mesmo aroma do dia em que se abraçaram pela primeira vez. A mesma não sabia que perfume ele usava, mas tinha a certeza de ter Sândalo entre uma de suas composições. Era fresco e amadeirado, do tipo que faz com que perfumemos toda a casa.
– Deixei de vir esses dias, pois estava organizando uns…
– Você não precisa se explicar. – Disse ela, interrompendo-o, quando ambos já estavam afastados.
Surpreso, o mesmo soltou uma risada nervosa. – Eu sei, eu sei. – Pausou por uns instantes, e suspirou. – Só não queria que pensasse que…
– Só tenho pensamentos bons a seu respeito, Lorenzo. – Foi rápida, e sorriu enquanto dava a volta no balcão, para trocar uma muda de orquídea de lugar. – Fique tranquilo. – Voltou-se para ele, que parecia ter as bochechas rubras, não soube se pelo acanhamento ou pelo vento gelado que adentrava o local.
– Quer almoçar comigo? – Perguntou, de súbito, levantando o rosto para encará-la, ainda dando tempo de vê-la entreabrir os lábios minimamente. – Já está no horário – Disse, diante da surpresa causada. – e gosto da sua companhia.
Ele é seguro, ela pensou. É paciente, experiente e tem a barba mais macia que já toquei. – Claro. – Respondeu. – Só preciso de cinco minutos para fechar a floricultura.
– Eu te espero. – Lorenzo falou, e fez um sorriso sincero brotar dos lábios da mulher. Ela, que sempre teve de esperar, agora, não precisaria mais. E de novo, uma onda de ternura apossou-se de seu coração. Ela gostava de Lorenzo.
*
James estava em um de seus dias mais atarefados. Nem o delicioso aroma do risoto que estava a sua frente, lhe tirava a dor aguda que tinha num ponto fixo da testa, e que corria pelos olhos. Tinha assistido pelo menos quatro apresentações de meia hora cada, que precisariam de sua assinatura ao final do dia, para que fossem aprovadas ou não. Os vários relatórios jaziam em sua pasta, amontoados e desorganizados, pedindo por sua atenção. E em meio a tantos compromissos profissionais, aquela com o mesmo mais gostaria de estar, acabara sempre sendo deixada de lado. Pérola lhe apresentava um sorriso triste, e dizia-lhe para não se preocupar, ela o entendia. Mas, James sabia, a noiva sentia sua falta.
O homem quase podia imaginá-la, sentada em frente a mesa de seu apartamento, mirando o prato e os dedos que carregavam os talheres, mas que não se moviam e nem faziam menção de fazê-lo. A culpa inundou seu peito e fez a dor de cabeça aumentar. Ele estava repetindo o erro, mas com outra pessoa.
Sacou o telefone do bolso, e discou o número de casa. Os bips incessantes e irritantes, fizeram-no pensar que ninguém fosse atender, mas lá estava a voz calma, que sempre cantava para ele, quando pedia.
– Jamie? Não me diga que conseguirá vir almoçar comigo! – A animação na voz da mulher deixou seu coração pesado demais para caber no próprio peito. Mil e uma palavras lhe rondaram a mente, mas nenhuma tomou forma e saiu por seus lábios. Estava paralisado, decepcionado consigo mesmo, por deixar que tudo chegasse a aquele ponto novamente. Por fim, calado permaneceu, com a culpa afogando-lhe a alma e o impedindo de vozear os pensamentos. – Por… por que ligou? – Ela perguntou, com o timbre triste e acanhado.
– Não conseguirei almoçar em casa hoje, bella mia. – Disse-lhe, tristonho. – Mas… que tal jantarmos fora? – Falou a primeira coisa que veio a mente, para que pudesse se redimir. – Desculpe-me se ultimamente, venho me ocupando demais com o trabalho. Sabe, que se pudesse, largaria tudo e passaria o dia inteiro perto de você.
– Eu sei. – Murmurou ela. – Jamie, se esse jantar te atrapalhar em algo…
– Não, não. – Foi rápido. – Quero… preciso passar esse tempo com você. Só nós… por favor. – Suplicou.
– Tudo bem. – Ela disse, por fim. – Estarei te esperando.
– Eu te amo. – Sussurrou, e pode ouvir o som de seus lábios se repuxando num sorriso.
– Eu também te amo.
Com o telefone de volta ao bolso, o mesmo deixou relaxar-se. O risoto em seu prato esfriava enquanto o homem corria os olhos pela calçada logo a frente do restaurante, com algumas árvores com folhas alaranjadas, caindo sem cessar. Era outono; algumas semanas depois do Festival de Veneza para ser mais específico. Havia levado Pérola, com o convite que tinha ganho do reitor da universidade, que não pudera ir. Nunca a vira tão encantada desde o dia em que se conheceram. As luzes refletiam no castanho de seus olhos e faziam brilhar tudo o que tocavam. Ela sorria, assustava-se e rodopiava pelo Palácio do Cinema, como uma criança numa loja de brinquedos. Fazia referências a grandes atrizes locais, e James espantou-se ao ver que mesmo não tendo nascido no país, a noiva conhecia bem mais sobre o cinema nacional que o próprio.
Atraíra os olhares de homens que o mesmo nunca vira, e acenava para todos, com uma inocência que o deixava irritado. Ao final da noite, Pérola estava radiante, tirando os sapatos de salto no sofá de seu apartamento, sem tirar da boca, as palavras sobre o local. E James, cansado, assentia e concordava, perguntando-se quando iriam compartilhar algo que ambos gostassem, e não somente um.
A imagem da melhor amiga apareceu-lhe como um feche de luz em sua mente, mas logo foi turvada por sua gargalhada, que inundava o restaurante em que o mesmo se encontrava. De imediato, James virou o pescoço em todos os ângulos possíveis, procurando por Giuliana. E a viu… adentrando o local e sorrindo, como sempre. Mas, acompanhada.
Com as sobrancelhas levemente franzidas, o homem pegou-se perguntando-se quem seria aquele tão engraçado palhaço, que parecia fazer piadas tão boas. Logo, repreendeu-se. “Vamos lá, James, não dê ouvidos ao garoto de quinze anos que há dentro de você. É um amigo, somente isso. E se não for, não é da sua conta, pare de olhá-los!”. Suspirando, Jamie voltou os olhos para seu prato, já frio, e torceu os lábios em desgosto, tinha perdido a fome.
Levantou o braço, fazendo sinal para que o garçom trouxesse a conta, e involuntariamente, seu olhar cruzou com o de Giuliana, que estava sentada de frente para o rapaz, com o lábios levemente abertos diante do susto. Sorriu sem mostrar os dentes, e ela lhe retribuiu da mesma forma, fazendo-o lembrar de como a amiga era doce, e de quanta saudade tinha dela. Em algum momento daquele contato, seu sorriso sumiu, e o mesmo reduziu-se somente a encará-la. O garçom chegou a seu lado, e ele foi obrigado a procurar algumas notas dentro da carteira, deixando-o uma gorjeta considerável. Quando sua feição elevou-se novamente, Giuliana estava ereta a sua frente. Tinha os cabelos mais curtos, nos ombros; um casto sorriso nos lábios e uma vermelhidão na ponta do nariz.
– Está resfriada? – James perguntou, de súbito, fazendo Giuliana rir, divertida.
– Há quanto tempo, Jamie! – Disse ela.
– É… – Ele sorriu, acanhado. – Fazem… alguns meses. – A mulher desviou o olhar do seu por alguns instantes, encarando o chão e roçando os dedos, fazendo James lembrar da Lia de oito anos, que tinha encontrado no lago, próximo a casa de sua avó. – Como está a floricultura?
– Mais florida do que nunca. – Falou ela, sorrindo, e fazendo o coração do amigo aquecer. Ela está feliz, ele pensou. Passou por sua mente perguntar sobre o homem que a esperava na mesa, mas resolvera que não, não iria se intrometer. Também pensou em dizer-lhe o quanto sentia sua falta, das conversas, do afeto trocado, mas novamente reprimiu-se. Algo gritava-lhe o nome de Pérola no fundo de sua consciência, aquilo não seria certo.
– Você parece feliz. – Por fim, soltou.
– Vinte e sete anos. – Falou ela, assentindo, sorrindo, confiante. – Acho que já estava mais do que na hora.
E pela primeira vez, um sorriso levado, largo e sapeca brotou dos lábios do homem. Uma risada cúmplice saiu por sua garganta, e Giuli fechou os olhos rapidamente, lembrando-se de sua juventude.
– Fico feliz em saber disso. – Levantou-se e se pôs a sua frente. Segurou-lhe o rosto entre as mãos e depositou um beijo em sua testa. – Tenho que ir.
– Mande um abraço para Pérola. – Disse ela.
– Mandarei. – Assentiu. – E por favor, também não deixe de mandar meus cumprimentos ao novo namorado. – Sua voz saiu carregada de sarcasmo, mas Giuli o conhecia bem o bastante para notar sua sinceridade.
Numa última troca de olhares, James se foi. Com um sorriso na fronte, a paz renovada, e um novo brilho nos olhos. Saber que aquela mulher – Que o mesmo tanto tinha afetado –, estava feliz, trazia-lhe a tranquilidade do mais silencioso dos montes.
Giuliana voltara para a mesa que compartilhava com Lorenzo, e sorrira para o mesmo, pois, de fato, sua vida estava mudando. Em todos os sentidos, sensações e sentimentos.
*
– Pela primeira vez, eu não senti nada, além de um imenso carinho e gratidão, quando o vi. Não sei se consegue entender… Mas, é como se… – Abriu a boca para vozear algo, e gesticulou com uma das mãos. – como se não houvesse nada a mais que um amigo a minha frente. Um amigo muito querido… que me conhece como um minúsculo mapa que já relera milhões e milhões de vezes… que teve um papel fundamental na formação da mulher que sou hoje. Mas, que… não passa de um amigo.
Num último gole, Giuliana deixou a taça de vinho descansar no chão e a seu lado. Tinha as costas descansadas na porta de vidro que dava entrada a sacada de sua nova casa, agora maior e num bairro menos movimentado, mais silencioso. Sentada no chão, junto com Lorenzo, ambos já dividiam a segunda garrafa; a mulher já tinha-lhe contado que já fora apaixonada por aquele amigo que fora cumprimentar no almoço, e o homem já havia segredado-lhe que a antiga noiva tinha falecido num acidente de carro.
Lorenzo sorriu, sutil. – Então, em curtas palavras, você não o ama mais?
– Oh, não. – Respondeu ela, balançando a cabeça. – Eu o amo. O amo muito. Só não estou mais apaixonada por ele.
– Por mais que eu ache que devesse sentir uma pontada aguda de ciúmes – Ele gargalhou, e Giuliana o acompanhou, divertida. – gostei do que disse. – Encarou-a atentamente, esforçando-se para focalizar o castanho de seus olhos mergulhados na penumbra. – Você não é solúvel ou artificial. É transparente, clara… fiel com seus próprios sentimentos.
– Sou parecida com ela?
– O quê? – Perguntou, confuso.
– Ana. – Explicou. – Você disse que nunca mais se interessou por nenhuma outra mulher, depois que ela morreu. E de repente, me conhece… – A mulher limpou o lábio inferior, que pareceu-lhe úmido. – eu… de alguma forma, te lembro ela?
Lorenzo pensou durantes longos instantes. Tinha o cenho levemente franzido e a boca numa linha rija, como se estivesse confuso, como se perguntasse-se se o destino tinha pregado-lhe uma peça. Estaria ele, ali, conversando com Giuliana, por que ela lembrava-lhe Ana? Depois de um último suspiro, um breve sorriso despontou de seus lábios. Logo após, um riso agudo saiu de sua garganta.
– Sabe que… eu nunca havia parado pra pensar direito sobre isso. – Seu olhar encarava o oeste a sua frente, onde o sol já havia se posto, deixando-lhes um céu num tom de azul claro. – Ana era introvertida. Muito tímida, não gostava de festas e nem nada que representasse tumulto ou aglomeração de pessoas. Tão insegura… – Seus olhos tinham tomado um ar melancólico. – Eu gostava de dar-lhe segurança, aconchego… Ela costumava dizer que só comigo conseguia ter um pouco de paz. – Ele fungou. – Não tive tempo de me desapegar, Giuli, não tive tempo para parar de amá-la. Uma batida certeira de um motorista bêbado, e… – Suas mãos gesticularam, e de seus olhos, lágrimas finas e desajeitadas caíam. – e ela se foi. – Seu queixo tremeu, e o de Giuliana também. A mulher segurou-lhe a mão e apertou-a dentre seus dedos. – Não deixei de amá-la e nem de ser apaixonado por ela. – Encarou-a. – Ana sempre ocupará parte do meu coração, a levarei comigo até meu último dia de vida.
– Eu o entendo, Lorenzo, não quis dizer nada do contrário. – Giuli explicou-se.
– Você não se parece em nada com ela. – Confessou o homem, com a sinceridade jorrando em suas palavras, com o coração aberto, a mão entrelaçada na da nova mulher que ele ansiava para cicatrizar suas feridas. – Você é… confiante, sociável, doce com qualquer um que lhe dê um bom dia. É macia como a pétala de uma rosa, e sei disso sem nunca ter te tocado. – Seus dedos acarinharam o contorno do rosto redondo, fazendo-a estreitar os olhos, quase pendendo-os. – Não me interessei em você, pensando em outra, Giuliana. Na verdade, quando estou com você, mais a lembrança de Ana se torna vaga em minha mente. – Sua voz, suave, deixava os pêlos da nuca da mulher eriçados. – Você estanca a dor… – Ele sussurrou, e aproximou-se, ainda sentado no chão. – Me deixa te beijar?
– Está pedindo minha permissão? – Falou ela, inebriada com seu cheiro, surpresa com seu ato.
– Eu não deveria? – Perguntou, apreensivo.
E ela sorriu, afundando os dedos nos cabelos curtos, e fechando os olhos para que o paladar aguçasse e a mesma sentisse cada mínimo gosto da boca daquele homem, que ela queria para si por muito, muito tempo.
*
“Não sou mais sua amiga, James, sou sua mulher, não posso fingir que suas atitudes não me ferem. Elas me destroçam!”
Pérola havia saído do apartamento, sem se dar o trabalho de fechar a porta. Ereto, estático e sem reação, James havia ficado, vendo sua futura esposa sair em disparada a qualquer outro lugar que a fizesse esquecer que o tinha conhecido. Ele havia esquecido do jantar.
Já passava das onze da noite quando tinha chegado em casa, e avistado a noiva desajeitadamente sentada no sofá, assistindo algum filme sem importância, já sem o batom e com a parte abaixo dos olhos, manchada. Segurava um lenço de papel destroçado por suas unhas, numa das mãos, e o olhar acusador e ferido em sua direção.
Primeiro a discussão, suas possíveis desculpas, os gritos, e por último, as palavras que se repetiam gradativamente na mente do homem. “Você vai perdê-la, James. Você é um idiota, vai perdê-la”, ele pensava. Ou talvez, não merecesse, de fato, a mulher e devesse deixá-la ir.
Caminhou em direção a porta e a fechou, silenciosa. Esfregou os olhos, passou a mão pelos cabelos e os bagunçou, tentando fazer com que os demônios que o rondavam, sumissem. Não adiantou.
Sentara-se na cama, depois do banho, nu e agoniado. Precisava falar com alguém, contar sua versão dos fatos, sem ser julgado ou condenado, conseguir apoio, alguém que o acalentasse e o dissesse: “Tudo bem, você está tentando”.
– Mas que inferno, eu estou tentando! – Gritou, de olhos fechados, batendo os punhos na bancada que tinha ao lado da cama, onde encontrava-se o telefone.
Num abrir de olhos, a mesma luz que invadia sua mente nos momentos de desespero bateu-lhe a porta novamente. Ele precisava dela.
Discou os números que sabia de cor, e depois de menos de um minuto, a voz monótona de uma gravação inundou seus ouvidos, o deixando vazio.
*
Ele tinha gosto de vinho. Vinho e mais alguma coisa que ela não soube explicar; estava tão entregue, tão envolvida.
A taça que o homem bebia, virou, derramando um pouco de líquido que ainda dispunha, mas não se quebrando. Ambos levantaram-se e encheram a sala de suspiros crescentes e involuntários. Tinham sede de suor e fome de pele; lambiam-se e mordiam-se. A mulher não sabia onde havia ido parar seu vestido, agora trajava somente uma calcinha enquanto sentava-se em seu colo.
Como eram astutas, as mãos daquele homem, subiam e desciam, acarinhando a barriga de Giuliana, fazendo-a arrepiar-se e arfar, arqueando as costas. Ele mesmo tirou o emaranhado laranja daqueles ombros esguios, e venerou o busto exposto, entregue, pedindo por seus lábios.
– Você é tão bonita, Giuliana. – Ele dizia, mordendo-lhe a área mais sensível, fazendo-a gemer implorando por mais.
– Quero você. – Ela sussurrava, sendo deitada na própria cama, sentindo o peso gostoso do peito de Lorenzo por cima do seu.
– Somente esta noite? – Ele perguntara.
Giuliana parara por alguns instantes, admirando o homem que estava por cima de si aquele momento; os ombros largos, a pele macia, a barba que naquela penumbra, podia ser facilmente confundida com seus cabelos; ah, ela o queria para sempre.
– Por muito, muito tempo.
E Lorenzo sorriu, beijando-a de novo, ouvindo o toque do telefone que estava na sala ao longe, mas que aquele que estava ligando o perdoasse, não a deixaria sair dali antes do amanhecer. A pusera sobre si, e admirara aquela cena linda, que ele faria se repetir muitas, muitas vezes. E o timbre repetitivo do telefone, pouco a pouco, foi se perdendo em meio aos gemidos doces e desinibidos, daqueles que começavam a se amar, por cima dos lençóis.
*
Fale com o autor