Margaridas de Inverno
1 Parte I – Capítulo I – Mudanças
Parte 1
1987, 1989, 1991, 1993, 1995, 1997, 1999, 2001, 2003
"Meu riso é tão feliz contigo. O meu melhor amigo é o meu amor."
Velha Infância, Os tribalistas
Capítulo I – Mudanças
"As pessoas tem medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem."
Chico Buarque
Florença e Veneza, Itália, 1987
– Ande logo com isso, querida. – Dizia Sra. Lea Liuzzi, apressando sua filha, que ainda não havia saído de seu quarto.
– Me dê alguns minutos, mamãe. Quero me despedir. – A garotinha de oito anos, falou, e olhado-a pesarosamente, Lea saiu de sua linha de visão.
Haviam sido oito longos e felizes anos. Era isso que Giuliana pensava, enquanto passava a ponta de seus dedos pelas paredes do cômodo. O pequeno, porém, charmoso quarto, pintado de azul e branco, com variantes tons, havia sido o refúgio e conforto de Lia, como a chamavam, desde o seu nascimento. Era florentina de berço e de honra, e deixar sua amada Toscana, estava sendo deveras difícil.
Nunca gostara da ideia de seu pai fazer parte do exército, e pior ainda, de tê-lo sempre longe. Por essa razão, aquela mudança estava sendo necessária. Ela e a mãe, estavam indo para Veneza, pois uma nova embaixada do exército italiano estava sendo constituída, e o capitão Afonso Liuzzi tinha sido convocado.
O pró, era que seria uma forma de sempre ficar próxima a seu pai, uma vez que o mesmo faria parte da armada fixa da embaixada, quase nunca saindo de Veneza.
O contra, era que Lia teria que deixar Florença.
Com lágrimas nos olhos, Lia procurou por uma caneta-hidracor dentro de sua bolsa, escolhendo a cor preta. Ela achava que o tom de luto, se encaixava bem com a situação. Pôs a ponta da caneta na parede e passou à rabiscar.
"Aqui deixo meu coração. E aqui virei buscá-lo, quando puder.", foram as palavras saídas de sua mente, diretamente para a parede com algumas rachaduras, que até então, eram suas.
Fungou uma única vez, ainda com o queixo trêmulo, e deixou que as finas lágrimas caíssem por sua face. Ajeitou o vestido, passando a mão pelo mesmo, e logo depois, pelo rosto, enxugando os resquícios de seu choro. A filha do mais valente capitão do exército não chora. Era isso que seu pai sempre lhe dizia, e era nisso que acreditava.
Respirou fundo, e cerrou os olhos, dizendo para si mesma que aquela aguda dorzinha no coração, logo passaria. Deu longos e firmes passos para fora do cômodo e fechou a porta do mesmo, com uma tremenda batida. Seu pai lhe ensinara a ser assim. Se necessita dar fim a algo em sua vida, que dê de uma vez por todas. Não remoa o sentimento dentro de seu peito, o mate com uma só martelada. Se for para acontecer, logo acontecerá, não adianta tentarmos lutar contra o destino, pois este, é como o vento, livre e leve, não pode ser visto ou controlado, somente sentido, sem o consentimento ou condição de nada e nem ninguém. Se fosse a vontade do destino, que Lia fosse para Veneza, ela o obedeceria. E se fosse também, vontade do destino que ela voltasse algum dia para Florença, mais cedo ou mais tarde, iria acontecer.
De uma forma ou de outra, ela estava feliz. Logo, ela poderia dormir no colo quente e acolhedor de seu pai, o tempo que quisesse.
*
– Vá, mas não demore. – Falou, Sr. Henrique Velatti, dirigindo-se a seu filho.
– Não se preocupe, pai. Voltarei antes do jantar. – Disse, o garoto de cabelos grandes e lisos, com a franja já quase caída sobre os olhos azuis. Já havia passado do tempo de ir ao barbeiro.
Montou em sua bicicleta vermelha e passou a pedalar pelas estradas de Veneza. O garoto não gostava de andar no novíssimo carro de seu pai, achava deveras chato, e não entendia o porquê de seus colegas se gabarem tanto por seus pais também terem um automóvel. Andar de bicicleta era tão mais... vívido.
Com uma mão no guidão, e a outra apoiada na cocha, James Velatti sentia o vento tocar-lhe o rosto de forma que seus grandes e castanhos cabelos, voassem para trás. A tarde era ensolarada, mas não quente demais. Seus pais costumavam dizer que Veneza tinha o clima dos deuses, e o franzino James cresceu ouvindo e aprendendo tais palavras. Desde pequeno já criara um amor especial pela cidade natal, porém, seu espírito aventureiro sempre lhe falava mais alto.
Certo dia, sua mãe lhe mostrou um mapa onde todo o mundo estava desenhado. James aprendeu que existiam cinco continentes e que cada um destes detinha sua própria cultura, língua e costumes. Aprendeu também que quem cuidava dos estudos em relação a mapas, vegetação, economia e costumes de cada território, era o geógrafo. E tamanha fora a surpresa de Camille Velatti, sua mãe, quando o garoto de apenas dez anos, lhe dissera que era aquilo que queria seguir para o resto de sua vida. James queria ser geógrafo.
Desde esse dia, as portas tinham se aberto para o garoto de olhos azuis. O mesmo observava cada canto dos lugares em que passava, buscava sempre tocar e sentir as coisas do mundo e agora, detinha o objetivo maior que seu pai sempre o cobrou desde muito cedo. Sentia-se bem, porém, ainda incompleto.
Se contado para alguém, soaria deveras engraçado, onde já se viu, um garoto com apenas dez anos, que sempre teve tudo o que quis, sentir-se incompleto? Oh, Deus. Este moleque deveria se preocupar em brincar com seus carrinhos e navios, que eram muitos e se encontravam todos, devidamente ainda empacotados e sobre suas prateleiras. Mas não. James não se importava com os tantos brinquedos que tinha. Não se importava se eles eram caros e reluzentes, para James, a coisa mais bonita, vívida e reluzente que já pôde ver, em seus dez anos de vida, fora o pôr-do-sol do lago, próximo à cada de seus avós.
E era para lá que ele estava indo.
*
Giuliana encontrava-se com a cabeça apoiada no braço de sua mãe. A senhora que mais parecia uma senhorita, com seus 26 anos, cabelos ruivos e olhos verdes, havia casado muito cedo, ainda com 18, e não bastaram seis meses para que Lia viesse à vida. Afonso, seu esposo, dois anos mais velho que a mesma, a havia encantado com seu olhar extremamente penetrante e castanho, seus cabelos loiros e braços notavelmente fortes. Um típico galanteador, que poderia ter todas à seus pés, porém, preferiu somente uma. Lea ainda o amava como há oito anos antes, e sentia-se radiante com a ideia de tê-lo sempre perto. A vida de esposa de um capitão do exército, de fato, não era fácil. E de filha, também não.
Foram incontáveis as noites em que Giuliana chorava com saudade do abraço de seu pai. Normalmente, ele passava três meses fora e voltava para casa durante quinze dias, mas especialmente, essa primavera fora diferente. Seu pai fora para Veneza ainda no inverno, passara os três meses lá, e quando se preparava para retornar ao lar, recebeu um ultimato dizendo-lhe que iriam necessitar de seus serviços por mais aquela estação. Seis meses sem ver seu pai. Lia sentia vontade de arrancar seu coração e joga-lo fora, para não ter mais aquela dor dentro do peito.
Deixou que algumas lágrimas caíssem em suas bochechas e logo tratou de enxugá-las. Não gostava que a vissem chorando.
A viajem de trem era longa a cansativa. O barulho que a máquina fazia era quase insuportável, e Lia não sabia como sua mãe conseguira dormir. Tentou fechar os olhos, para que seus pensamentos pudessem ir embora, mas não adiantara. A saudade estava ali.
Suspirou, e quando levantou novamente os olhos, uma bela moça, que aparentava ter a idade de sua mãe, sentou-se à sua frente. Sorriu, e Lia retribuiu o gesto da mesma. Se pegou pensando se quando tivesse a idade das duas, seria tão bonita quanto elas, e deduziu que não. De fato, não seria.
Fechou os olhos mais uma vez, e quando estava prestes a pegar no sono, sentiu dedos em seu braço.
– Oi. – Uma garota de cabelos negros, que aparentava sua idade disse, e sorriu. – Sou Amélia, e você?
Lia franziu o cenho, surpresa com a aproximação repentina da menina, e pensou já estar em Veneza, onde as pessoas não eram tão normais como em Florença.
– Sou Giuliana. – Falou, ainda meio assustada.
– Ah. – A garota disse. – Você estuda? Nunca te vi no colégio de Veneza.
– Estou chegando de viagem, acabei de me mudar. – Falou Lia, já se ajeitando na poltrona.
Amélia abriu a boca, demonstrando espanto, e logo após, sorriu. – Que incrível. – Disse. – De onde você é?
– Florença. – Falou, e cerrou os olhos. – As pessoas daqui são todas assim? – Perguntou.
– Assim como? – Disse Amélia, confusa.
– Assim... – Reforçou a florentina, fazendo gestos com as mãos. – Meio... apressadas.
– Ainda não entendi, mas tudo bem. – Sorriu. – Essa é a sua mãe?
– É.
– Vocês são muito parecidas. – Disse. – Menos os olhos. Eu vi vocês de longe, ela tem os olhos verdes.
– Meu pai tem olhos castanhos, que nem os meus.
– Oh. – Amélia falou, e sorriu triste. – Você tem pai, certo?
– Mas, é claro. – Falou a ruiva. – Você não tem?
– Não. – Murmurou a outra.
E neste momento, Lia sentiu seu coração apertar ainda mais. Até então, a garota nunca tinha conhecido uma pessoa que não tivesse pai, ainda mais, da mesma idade que ela. Se pegou pensando em como seria uma vida sem o Sr. Afonso Liuzzi, e balançou a cabeça com o intuito de tirar tais pensamentos da mente. Ela não queria pensar. Não queria, porque seu pai sempre estaria com ela. Ele mesmo tinha prometido.
– Me desculpe se fui grossa. – Falou. – Eu não sabia.
– Tudo bem. – A morena disse. – Já faz um ano, estou tentando acostumar.
– Eu nunca acostumaria. – Lia deixou escapar, recebendo o olhar triste da menina em troca. – Oh, por favor, me perdoe. Não foi minha intenção te deixar assim.
A garota de cabelos e olhos negros, nada falou. Continuou cabisbaixa, talvez pensando em seu pai, pelo qual ela nunca teve muita proximidade, mas que mesmo assim deixou uma ausência enorme e difícil de ser preenchida.
Vendo o estado que tinha proporcionado à menina, que com certeza só queria ser simpática, Lia engoliu em seco, pensando no que dizer. – Você quer caramelo? – Perguntou.
– Bala de caramelo? – Disse a menina, arregalando os olhos e a olhando fixamente. Lia assentiu. A mesma sorriu abertamente. – Sim, por favor. É o meu sabor predileto.
Feliz por ter feito Amélia sorrir, Lia pegou a bala de caramelo da bolsa e estendeu à menina, que se encontrava extremamente eufórica. Amélia abriu a bala e a pôs na boca, revirando os olhos, logo após.
– Oh, Deus! Isso é muito bom!
Lia riu com o comentário da menina, e logo após, deixou que a pena lhe tomasse conta.
Lia sentiu pena de Amélia, pois mesmo que ela sentisse falta do pai que já não tinha, era solúvel ao ponto de esquecer da tristeza com uma simples bala de caramelo. Pessoas solúveis tinham tendências a sofrer no decorrer da vida, pois nunca amavam verdadeiramente e consequentemente, nunca eram amadas. Se fossem, deixavam que aquele sentimento escorresse pelos dedos, e logo o perdiam.
Lia torceu para que com Amélia não fosse assim. Ela tinha gostado da menina.
*
– Querido, que surpresa! – Falou Doroth Velatti, avó de James.
Como planejado, o garoto tinha ido até a casa de seus avós. Chegara, e deixara a bicicleta deitada por cima dos degraus que davam entrada para a varanda da casa da mãe de seu pai, e fora lhe dar um beijo.
– Vim passar a tarde aqui, vovó. – Disse ele. – Mas, tenho que voltar antes do jantar.
– Seu pai e suas regras. – Disse a senhora, jogando as mãos para o alto, fazendo o neto rir. – Venha, querido. Entre!
James adentrou a casa que já conhecera há muito tempo, e se jogou no sofá da sala. Encarou o teto de madeira, e começou a pensar se algo diferente poderia acontecer recentemente. Ele tinha o dom nato para aventuras, porém sua vida não estava lá essas coisas todas.
Bufou entediado, e logo se levantou para ir atrás da avó. Encontrou a mesma na cozinha, tirando uma travessa de biscoitos do forno.
– Quer leite, querido? – Perguntou.
– Sim, vovó.
Enquanto sua avó despejava o leite da jarra em seu copo, James passou a pensar em diversas perguntas que rodeavam sua mente sobre as origens de sua família.
– Vovó?
– Sim, querido.
– Como a senhora e vovô se conheceram? – Perguntou o menino, fazendo sua avó se assustar.
– Bom... seu avô era siciliano, e em umas de suas viagens com a embaixada do exército, nos conhecemos. – Falou a senhora.
O garoto sorriu. – Então, ele passou a profissão para papai.
– Sim. – A senhora sorriu. – Mas apesar disso, seu pai e seu avô nunca se deram muito bem.
– Eles brigavam muito? – James perguntou.
– Quase o tempo todo. – Suspirou, tristonha. – Ambos eram muito parecidos, tinham os gênios muito fortes.
– Mamãe me disse que papai ficou muito abalado... – Disse James. – Digo, quando vovô morreu.
– Todos ficamos, querido. – Ela falou. – Mas acho que atingiu, especialmente, Henrique. Ele ainda era muito novo, e ver o pai morrer sem ter a oportunidade de se desculpar por tudo o que já tinha dito e feito, o fez se amargurar por demais. – O olhar da mulher baixou. – Sua mãe foi como uma luz no fim do túnel.
James sorriu minimamente. – O amor e seus milagres? – Disse o garoto, repetindo as palavras que sua avó sempre dizia.
Ela concordou, sorrindo. – O amor e seus milagres.
*
– Parece que chegamos, Lia. – Disse Sra. Liuzzi, já levantando-se de seu acento.
Surpresa, Lia arregalou os olhos e ficou totalmente alerta. – Verdade, mamãe? Papai está aqui? – Perguntou eufórica.
Lea sorriu, e assentiu. – Sim, meu amor. Ele está.
Giuliana sorriu abertamente, e segurou a mão de sua mãe, enquanto se levantava. Ficou de pé, sorriu e acenou para Amélia que também segurava a mão da que julgara ser sua mãe, e já se afastava.
O trem estava cheio. Um pequeno tumulto se formou em meio a única porta de saída do vagão, e Lia franziu o cenho irritada. Queria ver logo seu pai.
Entre a multidão e alguns empurrões, a mão que deixava Lia e Lea conectadas, fora puxada e não mais que de repente, Giuliana se viu sozinha, dentre aquelas centenas de pessoas.
Deu alguns dificultosos passos para frente, e ao levantar os olhos para ter uma visão melhor e achar sua mãe, avistou, pela janela do vagão, a manga comprida de uma jaqueta verde deveras conhecida. Seu pai.
Mais empurrões lhe foram dados, e a menina quase foi ao chão. Se recompôs e passou a correr. Correr em direção à seu querido pai.
Conseguiu passar pelas tantas pessoas e logo se viu atordoada e sem saber para onde ir, na estação de trem. Olhou para um lado, olhou para outro, girou, e não o encontrou. O desespero já tomava conta de seu peito, a menina não aguentava mais tanta saudade, tanta agonia. Tinha certeza que aquela jaqueta que vira era de Afonso, ela almejava mais que tudo encontra-lo.
E sendo pega de surpresa, Lia sentiu duas mãos em sua fina cintura, e depois de um estridente grito de espanto e de ser girada em 180 graus, aqueles olhos se encontraram. O castanho original que tinha dado a vida à sua cópia mais fiel.
Afonso tinha avistado os lisos cabelos ruivos de longe, tinha corrido em direção à sua pequena, e segurado sua fina e frágil cintura para girá-la a seu encontro. Não sabia expor em palavras a saudade que sentia, não sabia sequer como pôde aguentar tanto tempo longe. Mas agora ela estava ali, em seus braços, e tudo o que passava pela mente dele, era que nunca mais a soltaria.
Giuliana enlaçava o pescoço do pai com tamanha força, que seria capaz de enforca-lo, suas perninhas rodeavam sua cintura, tirando a mesma do chão e a deixando à mesma altura do homem de 1,88m.
A felicidade explodia em seu interior, as lágrimas caíam de seus olhos e lhe molhavam todo o rosto, a angústia, finalmente, teve fim.
– Nunca mais vá embora, papai. Nunca mais, por favor. – Pedia a garotinha com a voz embargada.
Afonso sorriu, radiante. – Estou aqui, minha pequena. Agora, tudo ficará bem.
Lea avistou seu marido já com a filha nos braços, e sorriu de alívio e felicidade. Correu em direção aos dois, e os abraçou, rendendo-se ao choro. Agora, todos estavam juntos, como tinha que quer. A família que se formara em Florença, e que cruzou o país para permanecer junta. O amor mais puro que existia em todo o mundo.
Tudo o que Giuliana mais queria neste momento, era dormir no quente e macio colo de seu pai.
*
– Vovó, irei ao lago. Quero ver o pôr-do-sol antes de voltar para casa. – Disse James, terminando de tomar seu leite.
– Vá, querido. Mas tome cuidado, sim?
– Sempre tomo.
O garoto de aproximou da avó e se pôs nas pontas dos pés para beijá-la. Sorriu para a mesma e correu para varanda, onde sua bicicleta se encontrava ainda deitada sobre os degraus. Montou em seu acento preto, e passou a pedalar, pensando em como o dia estava bonito hoje. James queria ter alguém com quem compartilhar seus pensamentos.
O lago não era tão longe dali, com algumas rápidas pedalas chegaria em dez minutos. O caminho por onde passava era uma estrada, ainda de terra, onde dos dois lados, se encontravam grandes árvores com caules notavelmente finos. Seu pai lhe dissera que se chamavam eucaliptos. Não eram tão comuns em Veneza, pelo menos, James só os tinha visto naquela parte da cidade.
Assim que começou a avistar o azul esverdeado do lago, pedalou o mais rápido que pode. Sorriu, e desceu da bicicleta, a deixando sobre o gramado, como sempre fazia quando vinha ali.
Caminhou até a beira da água e tirou os sapatos, deixando os pés submersos. James adorava aquela sensação. Arqueou as costas, e deitou por cima da grama, sem se importar se pinicava ou não.
O garoto queria que algo de diferente acontecesse em sua vida.
*
Afonso abrira a porta de sua casa, ainda com sua filha nos braços. Lia sorria e apertava o pescoço de seu pai com muita força, não queria largá-lo. Lea se encontrava ao lado dos dois, colocando suas sacolas ao pé do sofá.
– Há uma senhora, que mora aqui ao lado. – Falou Afonso. – Se chama Doroth, é muito simpática e mãe de um amigo do trabalho. Vocês podem se tornar amigas, Lea.
– Claro, querido. – Ela sorriu. – Adoraria conhecê-la.
– Mais tarde. – Ele disse, sorrindo de lado. – Temos assuntos à tratar, antes disso.
A atração que os dois sentiam ainda estava ali. Viva, ardendo. Os mesmos olhos desejosos que tinham deixado Lea extremamente encabulada há tanto tempo atrás, ainda eram os mesmos. Ainda tinham o mesmo desejo. Os dela, por outro lado, tão verdes e claros como as águas das mais cristalinas lagoas, expressavam saudade, amor. O carinho que ela sempre guardara para si enquanto estava longe do mesmo, mas que na verdade, queria enchê-lo de tal. Eles ainda se queriam do mesmo modo de quando ainda eram adolescentes.
Lea sorriu envergonhada, e se aproximou do marido, roçando seus narizes. – Estou com muita saudade.
– Não mais do que eu.
Vendo o que estava prestes a acontecer, Lia pirrageou, chamando a atenção dos pais, e fazendo os dois rirem. – Na minha frente, não. – A garota falou.
– Então a senhorita não se importaria de ir para o seu quarto e se trancar por lá, certo? – Perguntou o pai, arqueando uma sobrancelha.
– Afonso! – Repreendeu, Lea.
Com o cenho franzido, Lia soltou-se do aperto de seu pai, e caiu com os pés no chão. Ela estava com saudade sim, mas também sabia de todos os choros de sua mãe enquanto se encontrava longe do marido. Ela não sabia ao certo o que eles faziam trancados dentro do quarto, mas algo a dizia que era uma coisa só deles. Com esses pensamentos, Lia ajeitou o vestido com as mãos, e voltou-se para a porta de sua mais nova casa.
– Darei uma volta pelas redondezas. – Falou a menina. – Eu não demoro, portanto, andem logo.
E com essas palavras, fechou a porta atrás de si, deixando os pais atônito e risonhos dentro do cômodo. Eles tinham mesmo, uma filha de ouro, isso não podiam negar.
Afonso logo tratou de puxar sua esposa pela cintura, dando-a um beijo intenso e cheio de amor. As mãos de Lea não tardaram em alisar os cabelos curtos e loiros do mesmo, descendo por seu pescoço, e demorando nos botões de sua jaqueta. Ela adorava tirar sua farda.
Eram naqueles momentos que o mais valente capitão do exército italiano se via à mercê. Lea era a única que conseguira fazer isso com ele, e por mais que aquilo fosse contra tudo que tinha aprendido em toda sua carreira, ele gostava. Gostava de ser domado.
*
James se encontrava com os olhos fechados, quando escutou um estranho ruído em meio aos galhos secos. Levantou seu tronco imediatamente, e teve seu olhar cruzado com uma garota caminhando pela estrada de terra.
Franziu o cenho, e se perguntou o que diabos uma menina tão pequena e franzina estava fazendo por ali, uma hora daquelas. Tudo bem, ele também não era um adulto e nem muito maior do a mesma, mas ele ia ali quase todos os dias, e nunca a tinha visto.
Era algo diferente de se ver. Isso, diferente. Alguém lá em cima devia ter escutado seus pensamentos e os atendido, afinal, James sentia que aquela ruivinha tinha sido enviada pelo destino.
Retirou seus pés da água, e calçou os sapatos, logo levantando do lugar, e caminhando em direção à menina.
Giuliana caminhava tranquilamente por uma estrada de terra, onde se tinham muitas e cheirosas árvores. Abriu os braços, rodopiando, e fazendo, tanto seus cabelos flamejantes, quanto seu vestido branco voarem em meio a ventania gostosa e gelada do local. Ela tinha gostado dali.
Diante da cena da garota desconhecida rodando em meio a estrada, James gelou, ficando deveras surpreso. Sim, sem dúvida nenhuma, era alguém diferente. Sentiu um estranho formigamento na barriga, e apertou a mesma, querendo fazer aquela sensação passar. Balançou a cabeça, tirando tais pensamentos esquisitos da mente, e voltou a se aproximar.
– Oi. – Ele disse, próximo o bastante para a menina escutar e se espantar. – Desculpe, não queria te assustar.
– Quem é você? – Perguntou Lia, já com seu cenho franzido.
James adoraria ter sido o mais gentil e educado dos garotos, mas aquela menina, de fato, não sabia o que era isso. Mas que petulância, pensou. – Bom, eu que deveria te perguntar tal coisa. – Disse ele. – Já que é você que fica rodopiando perto da propriedade dos outros.
Lia inflou o peito e se sentiu bastante ofendida. E quem aquele fedelho pensava que era, para falar daquele jeito? – Bom, já eu acho que posso rodopiar por onde quiser. Afinal, as pernas são minhas.
Diante da resposta afiada da ruivinha, James ficou sem ação. De fato, o argumento da mesma era válido, ele nunca tinha se oposto à comportamento algum, de quem quer que fosse, muito pelo contrário, era um garoto amistoso e simpático. Até gostara de ver a menina de cabelos flamejantes, rodando seu vestido por entre as folhas daquela parte da cidade, era algo bonito. Ela era bonita.
Vendo que não poderia dar continuidade à uma discussão tão infantil, James suspirou. – Tem razão, me perdoe. Eu não quis ser antipático, só... – Outro suspiro. – Enfim, eu poderia saber o nome da senhorita?
Lia ainda se encontrava com o cenho franzido e os olhos cerrados. Certo dia, alguém tinha lhe dito que com aquele semblante, ela ficara a cara do pai, e a menina gostou disso. Adotava essa postura propositadamente, e nem de longe sabia a impressão que àquilo dava as pessoas. Quase todos passavam à achá-la irritante. James, por outro lado, estava passando a achá-la fascinante.
– Não vai me responder? – Perguntou, de novo.
– Me chamo Giuliana, e antes que me pergunte, não. Não sou daqui, venho de Florença. – Falou a menina, surpreendendo-o. – Onde, sinceramente, as pessoas são bem mais educadas.
De olhos arregalados e boca semi-aberta, James soltou um ruído de indignação. – E bem mais petulantes, pelo que posso ver. – Lia abrira os lábios para falar algo, mas ele fora mais rápido. – E antes que me afronte novamente, só queria lhe dizer que só estava tentando ser gentil. Atencioso com uma turista.
– Não sou turista. – Disse a menina. – E muito menos petulante, não fale sobre coisas que não sabe.
– Deixe que eu saiba então, ruiva. – James disse, já sorrindo. – Por que não acalma esse gênio e me acompanha?
– E quem lhe deu intimidade para me chamar por apelidos? – Disse, exasperada. – Escute aqui...
– O pôr-do-sol! – Exclamou o garoto, interrompendo à Lia e fixando seu olhar ao oeste, onde os céus já estavam pintados de laranja. – Escute, vim até aqui para ver o pôr-do-sol, se quiser me acompanhar, ficarei feliz em conhecê-la melhor.
E com estas palavras, James se virou, passando a andar ao lugar que se encontrava, antes de ter as primeiras e ásperas palavras com Giuliana. Sentou-se, mas dessa vez, não pôs os pés na água. Não queria correr o risco de ficar resfriado.
Parada em meio à estrada, Lia ainda se encontrava estupefata. Ninguém jamais tinha falado com a menina com tamanha intimidade, até mesmo, pois todos morriam de medo de seu pai. Talvez o garoto não conhecesse o capitão Afonso Liuzzi, por isso tal atrevimento. Mas se ele achava que poderia simplesmente dar as costas à uma Liuzzi, ele estava deveras enganado, ela tinha um sobrenome cheio de honra à zelar.
Pôs-se a subir o pequeno morro que dava caminho às terras protegidas por uma cerca de arame farpado, e a ultrapassou sem muita dificuldade. Olhou ao redor, avaliando a área, e o avistou sentado bem próximo a um lago. Caminhou à passos largos e firmes para perto do menino, e assim que o mesmo a notou, um sorriso para lá de simpático surgiu em seus lábios.
– Então, resolveu ver o pôr-do-sol comigo, hã? – Disse ele. – Sente-se. Fica mais bonito à cada minuto.
Lia estranhou a voz suave do garoto, e novamente cerrou os olhos para o mesmo. Ela não tinha vindo até ali para admirar nada, tinha vindo para confrontá-lo e ainda lhe falar boas verdades. Mas não mais que de repente, toda a raiva e fúria acumulada em seu peito, tinha se esvaído. A garota não notara antes o quanto os olhos do menino eram extremamente azuis.
Balançou negativamente a cabeça, querendo tirar tais pensamentos da mente, e suspirou, rendendo-se aos quereres do mesmo. Sentou-se a seu lado, com seus braços se roçando, e o olhar focado no oeste.
– Céus! – Ela exclamou. – É lindo!
James a olhou admirado e riu consigo mesmo. – Você é diferente. – Ele disse.
– Diferente como?
– Eu estava aqui pensando em como minha vida é extremamente tediosa, e pedindo para que algo realmente diferente acontecesse. – Falou. – Você aconteceu.
Com uma de suas sobrancelhas arqueada, Lia deixou que um sincero sorriso de canto nascesse em seus lábios. Aquele tinha sido um elogio, afinal.
– Você ainda não me disse seu nome. – Ela falou.
– James Velatti. – Disse ele, sorrindo. – Não me leve à mal, mas você é bem estressadinha, sabia?
– Você não é o primeiro que me diz isso.
– Tenho certeza que não serei o último. – James riu e Giuliana o acompanhou em sua risada gostosa e entusiasmada, tendo ficado com a coloração das bochechas um tanto mais rubra que o normal. – Posso te chamar de Giuli? – Perguntou.
– Já me chamam de Lia.
O mesmo pareceu pensar por algum tempo, e logo após, a encarou. – Prefiro Giuli.
– Tudo bem. – Ela falou. – Agora sou Giuli.
Os dois riram animadamente, enquanto desviavam os olhares e logo após cessarem as risadas, voltaram a se fitar.
Giuli tinha encontrado um amigo. E James, bom... De fato, algo diferente tinha acontecido em sua vida.
*
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