Margaridas de Inverno
2 Capítulo II – Jamie e Giuli
Capítulo II – Jamie e Giuli
"E mesmo com tudo diferente, veio mesmo, de repente, uma vontade de se ver. E os dois se encontravam todo dia, e a vontade crescia, como tinha de ser."
Eduardo e Mônica, Legião Urbana
Veneza, Itália, 1989.
– Pare de correr feito um javali selvagem, Jamie! – Exclamava Giuli, enquanto tentava acompanhar o passo do melhor amigo, que já estava bem a frente do dela.
Como sempre, James ria das palavras da menina. – Todos os javalis são selvagens, Giuli. – Ele disse. – Precisa prestar mais atenção nas aulas do Sr. Japozzi.
Cerrando os olhos, a ruiva alcançara a barra da calça do menino, o puxando para trás e assumindo a frente naquela caminhada. – Não me diga o que fazer, Velatti. – Falou. – Além disso, não me recordo de nenhuma aula sobre javalis com o Sr. Japozzi.
– Por que será que não se recorda, não é?
Tentar irritar Giuli se tornara o passatempo predileto de Jamie, desde que se conheceram. O garoto adorava ver as bochechas vermelhas inflarem em um semblante de raiva adorável e até apaixonante, da menina, vez ou outra.
Seu sorriso, por outro lado, era a peça chave que fazia Giuli se derreter e perder totalmente a postura de moça durona e impenetrável. Ela achava Jamie diferente. Não era perfeitamente certinho como William, garoto filho de dois franceses, que parecia pentear o cabelo de forma que passasse uma ou duas horas; e nem desastradamente descuidado como Antônio, outro de seus colegas, que diga-se de passagem, só tomava banho por ser ameaçado com um cinto pela mãe. Jamie era... Jamie.
Talvez tivesse sido por isso, afinal, que de dois anos para cá, não se desgrudavam, fazendo até aparecer boatos entre as famílias de um possível namoro infantil. Os Velatti e os Liuzzi eram muito próximos, e por mais que soubessem que as duas crianças não passavam de boas amigas, abençoavam o suposto casal.
Assim que Giuli colocou os pés no topo do monte, onde existia uma vista para lá de privilegiada, sentiu suas costas baterem abruptamente contra o tórax de Jamie, fazendo os dois caírem sobre a relva, ainda molhada do sereno da noite.
– Céus, Jamie! Estamos molhados, agora. – Exclamou a garota, bufando e tentando se levantar do gramado, porém, sendo impedida por um braço, que a puxou, fazendo-a deitar novamente no local que estava.
– Você não gosta da sensação? – Perguntou Jamie, deitado a seu lado e olhando-a nos olhos.
A aproximação que se encontravam seus rostos, pegou Giuli de surpresa. Sua boca estava aberta, sem saber o que dizer pelo pouco raciocínio que conseguia realizar, e a respiração que Jamie sempre pensara ter aroma de suco de maçã, agora estava ali, lhe tocando o rosto.
Mas por que isso estava acontecendo? Eles eram amigos, nada mais do que isso. Nunca houve nenhuma insinuação, até porque eram crianças ainda. Jamie com seus doze anos e Giuli com dez. Claro, de certo modo, os hormônios de Jamie já estavam começando a florescer. Os cabelos da amiga agora, lhe pareciam sedosos demais, prontos para que fossem tocados; a pele de seu rosto, tão macia e sensível, parecia chamar a atenção de seus olhos e seus dedos que agora trilhavam um caminho incerto por suas bochechas, fazendo a pequena fechar os olhos repetidas e demoradas vezes. Mas o que exatamente, Jamie estava fazendo? Nem ele e nem Giuli sabiam.
– O que está fazendo, Jamie? – Perguntou ela, deixando que o tom de voz, saísse mais manso que o normal.
– Não sei. – Ele disse. – Gosto de lhe tocar o rosto. – Com tamanha dificuldade, Giuli encarou fixamente os olhos azuis do melhor amigo. Eles eram mesmo, muito bonitos, pensou. O garoto sorriu, percebendo o que a menina estava fazendo. – Gosta dos meus olhos? – Perguntou. Giuli nada respondeu. Somente com a cabeça, assentiu, fazendo-o sorrir ainda mais. – Eu também gosto dos seus.
Giuli não sabia o que pensar. Seu raciocínio e seus pensamentos estavam falhos, uma vez que a mesma tinha mergulhado na imensidão azul de Jamie, ficando quase que totalmente hipnotizada.
Mas a aproximação estava acontecendo, ela tinha consciência disso. Jamie tinha se arrastado, reduzindo ainda mais a distância de seus corpos, e segurando mais firmemente seu rosto. Giuli sabia o que ele iria fazer. Ele sabia o queria fazer.
Mas, céus! Aquilo acabaria com a amizade dos dois? Jamie nunca havia encostado seus lábios nos de outra menina, Giuli muito menos. A ideia de conhecerem aquilo juntos, lhes parecia certa, adequada. Mas até que ponto? Com esse pensamento em mente, Jamie foi largando o rosto da amiga, pouco à pouco. Elevou um pouco seu tronco, e lhe beijou a testa, como sempre fazia.
– Me perdoe, Giuli. – Ele disse, tristonho. – Acho que não deve acontecer entre nós. Digo... somos amigos.
– Sim, somos amigos. – Giuli falou, ainda deitada e entorpecida pela situação.
– Você acha errado? – Ele perguntou.
– Sou... um tanto nova, eu acho. – Ela disse. – Mas não vejo problema em ser com você.
Surpreso com a resposta da amiga, James se remexeu no gramado, sentando-se e apoiando os cotovelos nos joelhos, pensativo. – Não quero que nada mude, Giuli. Gosto muito de você. – Disse Jamie, fazendo nascer um sorriso inocente e sincero nos lábios da mesma.
– Eu também gosto muito de você, Jamie. – Ela disse e fora o bastante.
Jamie tinha se deitado novamente sobre a relva e a seu lado. Ela de costas para o chão e ele de lado, lhe acariciando o rosto e capturando cada movimento seu, como base para suas atitudes. Ele não queria perdê-la. Não, isto estava fora de cogitação. Ele só queria... ser o primeiro? Fazer com que ela fosse a primeira? Talvez devessem isso um ao outro. Além do mais, não significaria nada a mais que amizade. Seria algo só deles. Um segredo como todos os outros que já confidenciavam.
– Quero te dar seu primeiro beijo, pois tenho medo que o faça com outro e depois se arrependa. – Ele a disse.
– Eu digo o mesmo. Seremos amigos para sempre, e não poderá haver arrependimento. Certo?
Ele assentiu. – Certo.
A última coisa que Giuli viu, foram seus límpidos olhos azuis se aproximando cada vez mais, antes da mesma fechar os próprios. Jamie tinha posto uma de suas mãos no gramado, apoiando seu peso, e a encurralando. Giuli estava calma, não demonstrava nervosismo. Um de seus momentos mais importantes, seria com seu melhor amigo e a pessoa que mais confiara em todo o mundo. Ela estava feliz.
Seus lábios se encontraram calmos. Não houve pressa ou apreensão, mesmo que não soubessem fazer a tal coisa direito, não precisavam temer, eram melhores amigos. E depois de uma leve pressão feita por Jamie, o mesmo separou-os, por fim, olhando cada movimento e expressão da menina à sua frente.
Giuli abrira os olhos vagarosamente. O toque tinha sido tão suave, tão puro. Os olhos de Jamie a avaliavam curiosos, quando a mesma os encarou, e mesmo só querendo sorrir e assentir, para mostrar-lhe o que exatamente tinha sentido, Giuli não conseguiu.
Havia sido tão mágico, tão incrivelmente bom, mas ao mesmo tempo, tão... rápido. Ele estranharia se ela fizesse de novo? Ela não sabia. Mas mesmo assim, o fez. Segurou com os dedos firmes em sua nuca, e abaixou novamente o rosto do garoto, lhe tocando os lábios pela segunda vez.
James ficou feliz com aquilo. Ele também achara que a primeira vez havia sido rápida demais.
*
Já havia passado do horário do almoço, e Giuli ainda não tinha comido nada, estava sem fome. Com o cenho franzido, lhe proporcionando uma carranca fechada, ela olhava para algum ponto sem importância ao longe, sentada em uma poltrona próxima a janela, com as pernas penduradas para o lado da mesma. Algo estava incomodando-a. Ou talvez, não. Ela não sabia bem.
Seu primeiro beijo tinha acontecido há exatamente duas horas, e a mesma ainda não sabia como reagir. Deveria ficar mais alegre? Se sentir mais viva? Ela não sabia.
Talvez tal frustração tenha aparecido depois de ver Amélia sorrindo tão abertamente para Jamie. Amélia sorria abertamente para muitos meninos, coisa que Giuli não fazia. Podiam até chamá-la de antipática ou mal educada, mas o que ela poderia fazer se nenhum daqueles que ela já tinha conhecido lhe tiravam o riso fácil? Só Jamie conseguira fazer isso.
Mas o que tanto assombrava a mente da menina de cabelos ruivos era outra coisa, outro motivo. Amélia tinha sorrido para Jamie, até então, tudo bem. O que realmente fez Giuli franzir o cenho diante da cena, e quase voar com as unhas em cima da menina, fora o modo como o próprio Jamie tinha retribuído o ato. Eles tinham acabado de se beijar, e logo após, ele saíra por aí distribuindo sorrisos? Isso era inaceitável.
Sim, ele mesmo dissera que mesmo com aquele ato, nada mudaria entre os dois, continuariam sendo amigos. Mas algo no peito da menina de dez anos mudara sim. Mais uma vez, ela não sabia bem. Uma nova chama no coração, ou talvez, um novo e diferente reboliço no estômago. Eles fariam aquilo de novo? Com certeza, não, pensou a menina. Ele deveria estar ocupado demais retribuindo sorrisos pela cidade.
Diante dos devaneios, Giuli bufou um tanto alto demais, despertando a curiosidade da mãe, que acabara de sair da cozinha para a sala.
– Está tudo bem, querida? – Perguntou, Lea. – Está com aquela carinha de emburrada que tanto parece com a de seu pai. – Riu, logo após.
Como não sabia bem das angústias que sentia, Giuli se endireitou na poltrona, focando seus olhos nos da mãe, que sentara no sofá à sua frente.
– Seu primeiro beijo foi com papai, mamãe? – Perguntou a menina, curiosa.
– Não, querida. – Respondeu. – Conheci seu pai quando já tinha dezessete anos.
– E com quem foi? – Disse, Giuli.
– Um menino que estudava comigo quando eu ainda era muito nova. – Falou. – Não foi exatamente um beijo... – Disse, explicando. – Foi um... encostar de lábios.
– Significou muito?
Agora fora a vez de Lea se surpreender e cerrar os bonitos olhos verdes com as palavras da menina. Sorriu minimamente, lembrando do acontecido há tantos anos atrás, e encarou os olhos da filha, tentando ler o que realmente tinha acontecido, para a mesma adentrar aquele assunto.
– Significou pra você? – Perguntou, Lea, deixando a garota de pele alva totalmente rubra, e desconfortável. Ela já sabia a resposta. Uma das grandes características de sua filha era ser intensa demais. Soubera disso desde quando ainda era um bebêzinho, coisa que foi aumentando gradativamente, junto com sua idade. Giuli era uma menina realista, com os pés fincados no chão, até um tanto áspera, porém, quando seu coração era conquistado, era deveras difícil que aquilo não atingisse a mesma, as vezes de forma boa, outras vezes, de forma ruim.
– Não gosto de mentir... – Falou a menina.
– Então, não minta, querida. Isso é uma virtude. – Disse a mãe, encorajando-a.
– Não vai brigar comigo se eu disser que já beijei um menino? – Perguntou.
Lea riu da vergonha da menor, e deu duas batidinhas no acento, indicando para que a mesma se sentasse à seu lado. Giuli assim o fez, mesmo que receosa.
– Então, agora diga-me tudo o que quiser.
Giuli abriu a boca, e voltou a fecha-la sem coragem para atender o pedido da mãe. Por onde começaria?
– Bem... – Começou dizendo. – digamos que eu tenha beijado um garoto hoje, mais cedo. – A menina fechou os olhos com força, esperando a pior reação possível, mas só lhe foi sentido, um afago em seu cabelo.
– Continue, querida. – Disse Lea. – Será que foi o mesmo garoto que te deu o apelido de Giuli? – Insinuou, sorrindo.
– Não poderia ter sido com outro. – A menina de olhos castanhos disse, juntando dois dedos a frente do corpo, e abaixando seu olhar, envergonhada.
– E o que te deixa tão angustiada, meu bem? – Perguntou. – Não confia totalmente nele?
– Confio, mamãe. Confio muito. – Disse ela. – Ele disse que queria que nosso primeiro beijo acontece entre nós, pois confiamos um no outro, e não poderíamos nos arrepender depois.
Lea sorriu abertamente diante das palavras da filha. Tinha certeza que a menina tivera a sorte de encontrar um belo parceiro e talvez o amor ainda muito jovem. Adorava o menino Velatti, e estava soltando fogos de alegria dentro de si.
– E por que essa carinha? – Perguntou mais uma vez.
– Amélia, mamãe. – O rosto da menina tomara uma expressão furiosa. – Ela já me falou que beijou metade dos garotos da minha sala, e hoje mais cedo quando estava com Jamie e nos encontramos, ela sorriu pra ele. Um sorriso diferente, meio... Eu nem quero pensar no que poderia significar. – Giuli falou rápido e desesperadamente, assustando a mãe. Estava nervosa. – E ainda por cima, mamãe... Ele... Ele retribuiu! Sorriu de volta! Eu tive vontade de arrancar todos os fios de cabelo dela e...
– Chega, Giuliana! – Repreendeu Lea. – Acalme-se, por favor. – Bufando e tentando se recompor, a menina voltou aos poucos à seu estado normal. A fúria era perceptível em sua carranca, e mais uma vez, Lea se assustou, pensando em como era possível, que uma filha fosse assim tão parecida com o pai. – Querida, isso é normal. James é um garoto tão bonito... Outras garotas iram se interessar por ele, também.
Giuli encarou a mãe com incredulidade. – Tem noção do que está dizendo, mamãe? James... James é meu...
– Seu... – Lea incentivou.
– Meu amigo, mamãe! – Disse. – Ele é meu amigo. Tenho bem mais direito do que qualquer uma dessas... dessas...
– Giuliana! – Repreendeu.
– Dessas garotas. – Bateu as mãos nas próprias coxas em sinal de irritação. – Elas... – Suspirou. – Elas não sentem nem metade das coisas que eu sinto, mamãe. Não por James.
– Mas você ainda é tão nova, meu bem. – Alisou a franja ruiva que já caia pelos olhos da menina. – Tenho certeza que tem sentimentos muito bonitos por James, mas isso não significa que você tenha que prendê-lo ou impedi-lo de ter novas amigas. – Tocou com carinho, a ponta do nariz da filha. – Pois se o seu sentimento for recíproco, nenhuma garota terá lugar maior no coração dele, do que você.
– Tomara que não mesmo, mamãe. – Falou baixinho, quase que para si mesma. Quase como um pedido em forma de oração.
Lea sorriu para sua pequenina, e a abraçou pelo pescoço fino e alvo. Beijou o topo de sua cabeça, e logo após, levantou com os dedos, o rosto da menina.
– Guarde isto com você, querida. Amor não se implora, amor se conquista.
– Nunca implorarei amor de ninguém, mamãe. – Afirmou.
A mãe sorriu, e voltou a abraçá-la. – Boa menina.
*
O sol já tinha nascido há, aproximadamente, duas horas. A cortina do quarto de James conseguia bloquear os raios solares, porém, infelizmente para o garoto, não era à prova de som. Seu despertador tocou exatamente às 07:00 da manhã, fazendo-o soltar o mesmo muxoxo de descontentamento de todos os dias. Saltou da cama e foi em direção ao banheiro. Tomou banho, escovou os dentes e vestiu o uniforme. A mesma vida, a mesma rotina, há doze anos. James queria mais.
Desceu em direção à cozinha, pegou uma maçã e saiu pela porta da frente; tinha marcado de pegar Giuli e não gostava de deixar a amiga esperando. A mochila pesava em suas costas, era um dos dias da semana que mais tinha aulas diferentes, e em consequência desse fato, muitos livros tinham de ser levados para a escola. Caminhava tranquilamente, quando sentiu duas mãos apoiadas em seus ombros, e logo após, um considerável peso, quase levá-lo ao chão. Antes mesmo de virar-se, o garoto já sorria abertamente; sabia que era sua amiga, ela sempre o abordava da mesma forma.
– Amélia? – Peguntou, espantado.
– Por quem mais esperava? – Perguntou, sorridente, e abraçando-o.
Mas que diabos estava acontecendo? pensou ele. A garota nunca tinha tido tanta proximidade assim com James, na verdade, era até mais amiga de Giuli, por quem ele já havia notado que tinha se afastado há alguns dias. Não havia comentado com a amiga, pois julgara algo sem importância, e de fato, era. Amélia nunca fora o tipo de menina que mexia ou atraía os olhos de James, era bonitinha demais, punha maquiagem demais, era escandalosa demais, e consequentemente, igual à metade das garotas da cidade. Comum demais.
– Na verdade, eu estava indo encontrar com Giuli. – Ele sorriu, meio sem jeito. – Por isso, esperava que fosse ela.
A menina deu de ombros. – Pois, não sou ela. – Sorriu para ele. – Sou melhor! Vamos, me acompanhe até a escola. Hoje, eu deixo.
James franziu o cenho. Mas o que aquela garota tinha na cabeça? – Desculpe, Amélia, mas já marquei com Giuli. Aliás, estou quase atrasado. Até mais. – Falou, e passou a caminhar, dando as costas à menina de cabelos negros.
– Nunca te disseram que não se dá as costas à uma Aranzze? – Ameaçou ela, com o semblante furioso e um olhar quase mortal.
Amélia era confusa, ou melhor, indecisa. Em um momento, podia ser doce como uma amora, e em outro, estar azeda como um limão. Gostava de diversos garotos dentro de um só mês, e até mesmo, de mais de um ao mesmo tempo. Adorava maquiagens, roupas coloridas e acessórios que a deixassem com "ar" de mulher adulta. Procurava chamar atenção de todas as formas, e o pior, e o que James mais repugnava na menina... era solúvel e arrogante.
– Não, Amélia, nunca me disseram. De onde tirou essa frase? De algum clássico infantil? – Entediado, James falou, ainda caminhando, sem olhá-la.
Ela riu, desdenhosa. – Eu não assisto clássicos infantis.
– Pois é o que garotas da sua idade deveriam fazer, invés de encherem a cara de tinta, desse jeito.
– Ah! Falou o adulto, não é mesmo? Se você não sabe, sou da sua idade!
Isso era um fato que James não sabia. Pensara que a menina era dois anos mais nova, assim como sua amiga, afinal, estudavam na mesma sala. Atrasada, pensou ele. Já era de se esperar.
Ela estava o seguindo. James sabia disso, pelo fato de que mesmo que ele estivesse se afastando, a voz irritante da garota, ainda fazia-se audível em seus ouvidos. Não era do feitio do garoto, ser mal educado ou fazer pouco caso das pessoas; mas céus, aquela menina era mesmo insuportável, pensou ele.
– Não me ignore, Velatti! – Brandou, enquanto o acompanhava.
– Se você deixar de me seguir, eu não vou poder ignorá-la. – Disse. – E isso é um conselho.
Franzindo ainda mais o cenho, a garota grunhiu em frustração. Sua boca formava uma linha riga, seus punhos estavam cerrados assim como seus olhos, e um imenso ódio tomava conta de seu peito. Correu para alcançar James, e assim que chegou perto o bastante, o fez virar-se em sua direção, com um puxão em seu ombro.
– Não dê as costas para mim. – Falou ela, entredentes.
Suspirando profundamente, James franziu os lábios. Queria mesmo despachar aquela garota para bem longe, e ir atrás da
garota. Da sua Giuli. Que deveria estar lhe esperando, sentada nos poucos degraus da varanda de sua casa.
– Escute, eu não sei o que deu em você hoje, mas eu estava muito bem quando só te cumprimentava nas poucas vezes que nos víamos. Todos sabem da sua fama, e se acha que vou te beijar pra você sair espalhando para os quatro cantos do colégio, está enganada. Portanto, se esse é o seu plano, dê meia volta, está perdendo seu tempo. – E assim, deu as costas à ela, novamente.
– É assim tão fiel à Giuli? – Perguntou, com desdém. – Talvez, ela não seja à você.
– Giuli é só uma menina, à tenho como se fosse minha irmã. Não fale bobagens. – Grunhiu, voltando à encará-la.
– Então por que fica tão nervoso quando falo nela? – A garota sorria venenosamente. – Será que é porque ninguém pode saber o que vocês dois fazem, próximo ao lago?
James arregalou os olhos, incrédulo. Mil e uma coisas passavam por sua mente naquele exato instante, e uma delas, eram os olhos irados do capitão Afonso Liuzzi, se soubesse de tal fato. Ele nunca mostrara descontentamento em sua amizade com sua filha, porém, aquilo se tratava de uma outra relação, de outros sentimentos. E Giuli não passava de uma garota de dez anos.
James soltou um palavrão mentalmente, frustado por não ter pensado nisso antes. O lago ficava numa planície, qualquer um que passasse pela estrada veria o que acontecia nas redondezas, e por azar do destino, Amélia tinha visto.
– Não vai me dar as costas? – Soltou uma risada vitoriosa. – Ótimo, assim está melhor. Agora, quero que me acompanhe até o colégio.
James a olhou com desprezo. Relutante, enlaçou seu braço no dela, segurando-se para não a machucar, e passou a caminhar lado à lado com a garota.
*
James estava atrasado, era nisso que Giuli pensava. Balançava as pernas no ar, enquanto estava sentada em sua varanda, e bufava vez ou outra quando encarava o relógio no alto da parede de sua sala de estar, que ainda dava para ser avistado do lado de fora da casa.
Pensou na ideia de ir sozinha à escola, e de fato, talvez não fosse de todo ruim, já que àquele horário, ela deveria estar cruzando os portões de seu colégio. Mas repensou, e deduziu que em dois firmes anos de amizade, James nunca tinha a deixado. Mesmo que se atrasando algumas mínimas vezes, ele sempre esteve com ela. Caminhando à seu lado, segurando sua mão, compartilhando o guarda-chuva ou até mesmo, na maioria das vezes, boas risadas. Sorriu para si mesma, devaneando o quanto estava feliz por ter sido a primeira à beijar Jamie, e mesmo inconscientemente, desejou ser a única.
Mas o doce e sincero sorriso, imediatamente desmanchou-se, quando a ruiva menina avistou o amigo, vindo em sua direção. A garganta de Giuli secou, e agora, engolir a própria saliva, tinha se tornado difícil. O espanto em seus olhos era muito claro, e o cheiro de horror misturado à decepção era perceptível à quilômetros.
Depois de tanto tempo sem sentir nada além de amizade pelo garoto, de apenas nutrir um carinho de irmãos, logo agora, que a pequena Giuli tinha descoberto as novas sensações proporcionadas pelo primeiro amor, James a trucidou. Uma adaga no peito, doeria menos.
– Vejo, que deveria ter ido para o colégio sozinha. – Falou, seca. Deu as costas à Jamie e Amélia, que sorria, com seu braço enlaçado no do garoto.
– Giuli, espere! – Ele a chamou, se desvincilhando do aperto de Amélia.
Giuli nada fez. Continuou a caminhar, como se não tivesse ouvido a voz do mesmo, e inconscientemente, apressou o passo. Por mais que fosse difícil admitir, a cena de segundos atrás, tinha parecido horrenda à seus olhos. Como se já não bastasse a troca de sorrisos do dia anterior, ainda tiveram a coragem de aparecer entrelaçados em sua frente. Depois de tudo que passaram, depois de tudo que viveram, dos beijos trocados na relva, próximo ao lago...
– Giuli, aonde você está indo? – James puxou com firmeza o braço da amiga, virando-a para si, quando não estavam mais nas vistas do veneno de Amélia.
– Não te interessa! – Gritou ela, o empurrando, e fazendo-o segurar em seus dois braços, para não deixá-la escapar.
– Céus, Giuli! Pare com isso! – Falou, balançando-a como uma tentativa de que a sanidade da menina voltasse. – Preciso conversar com você, mas tem que se acalmar.
– Me acalmar? – Estapeou o peito do garoto, livrando-se de seu contato. – Ontem você me beija, e hoje anda de braços entrelaçados com outra? Com Amélia? Ela era minha amiga até semana passada, sabia?
A garota berrava em completo estado de fúria, e se segurava para não cair em prantos à sua frente. A adrenalina e a ira adentravam suas veias, não deixando que a dor se instala-se na mesma, pelo menos, por enquanto. Os punhos cerrados, prontos para esbofetearem qualquer um que passasse em seu caminho, faziam tamanha força, que a pele da mão doía em contato com as unhas.
– Giuli... – A chamou, carinhoso. – Sabe que eu não faria isso, se não tivesse um bom motivo. – Disse, sincero.
A menina pareceu se acalmar, e suspirou, deixando as lágrimas encherem os olhos. – E que bom motivo é esse? – Perguntou, com a voz embargada.
– Amélia nos viu, ontem. – Falou, passando a mão pelo rosto. – Viu quando nos beijamos.
Giuli arregalou os olhos. – Oh, meu Deus...
– Fiquei preocupado com o que poderiam falar de você, se soubessem. – Continuou, ele. – Seu pai poderia nos proibir de sermos amigos... Giuli, estou atendendo os quereres de Amélia, pois... pois você é importante pra mim.
Se entregando ao choro, Giuli abraçou forte o amigo. Soluçou o quanto pôde, e quis que tudo o que não dissesse respeito à eles, desaparecesse. A garota repugnava o prazer que outras pessoas tinham em se infiltrar e estragar a felicidade alheia, achava cruel demais, desumano demais. Mas outra coisa que Giuli achava bem justa, era a de que essas pessoas terem o que merecem.
– Jamie? – Falou, ainda embalada nos braços do mesmo.
– Sim?
– Temos que dar um jeito nisto.
*
As aulas tinham corrido depressa. O coração de Giuli saltitava em seu peito, contendo a ansiedade que a mesma sentia. Engolira em seco diversas vezes, pensando e repensando a própria ideia, e as consequências que aquilo podia lhe causar. Ninguém, em hipótese alguma, poderia saber o que eles planejaram. Durantes alguns instantes, a culpa lhe invadiu o peito ao pensar que faria mal à alguém. Mas logo essa compaixão vacilou, quando a ruiva pôs os olhos em cima da menina, que riu com escárnio, ao encará-la. Chega de culpa! forçou-se a pensar. Amélia plantou, e iria colher.
Invés de compaixão, agora seu peito estava repleto de ódio. Se pegou relembrando a imagem de James e Amélia entrelaçados, adentrando o colégio, com todos os olhando e fuxicando mentiras e teorias. É claro que comentariam! Ele era dois anos à frente das duas, e aquela cena, sempre se repetia, porém, com Giuli à seu lado. A verdade era clara na cabeça da ruiva menina, estava com ciúmes. Ciúmes e raiva, por estarem tentando roubar o lugar que já era seu há muito tempo. James era seu amigo. De mais ninguém.
Mas o plano já havia sido bolado, e se tudo desse certo, aquele teatrinho medíocre de Amélia, acabaria hoje.
O sinal soou por entre os corredores e salas da escola, indicando o horário de almoço. Os alunos apressaram-se em sair de seus lugares, deixando suas mochilas ainda sobre as carteiras, já que teriam aula por mais dois horários à tarde.
Fingindo não ter acabado de escrever o assunto posto no quadro-negro por seu professor de ciências, Giuli rabiscava coisas sem sentido em seu caderno. Cerrou os olhos e balançou a cabeça, quando percebeu que tinha escrito "Jamie" em quase todas as linhas, e fechou-o com força, quando não havia mais ninguém no local. Seria agora.
Mordeu o interior do lábio de ansiedade, e soltou um suspiro aliviado quando avistou os cabelos cheios e bagunçados num tom de castanho brilhoso vindo em sua direção. Ele parecia apreensivo.
– Conseguiu? – Perguntou, ela.
– Sim, está aqui. – Pegou um pequeno saquinho do bolso e balançou à sua frente. – Pó de pimenta. Puro. – Olhou nos olhos castanhos da amiga e sorriu, quase perverso.
– Quer mesmo fazer isso? – Disse. Queria uma confirmação para poder sentir-se totalmente segura.
– Já te deixei sozinha, alguma vez? – Perguntou.
– Não.
– Então já sabe a resposta. – Ele disse e ela sorriu. Eram cúmplices cometendo um crime, e Giuli adorava isso. – Seja rápida, vou ficar vigiando a porta. – Jogou o saquinho com o pó marrom- avermelhado para amiga, que o pegou no ar. Se direcionou à porta, enquanto ela corria para a carteira onde encontrava-se a mochila da menina. Mal precisou abri-la, pois o que procurava estava logo acima da mesa.
O pegou, o abriu, espalhou tudo uniformemente, e o pôs de volta no lugar. Perfeito. Ninguém os vira, ninguém saberia de nada.
– Está feito? – Perguntou o garoto, da porta.
Ela sorriu animadamente, e correu para seu braços, onde ele a recebeu com os mesmos abertos. Ninguém, nunca, tomaria o lugar de Giuli.
Enlaçou a amiga pelo pescoço, e saíram caminhando pelos corredores do colégio em direção ao refeitório. Estavam com fome, e logo, o show iria começar.
*
Giuli achara melhor almoçar com as poucas colegas que tinha em sala, assim, mesmo que sempre andassem juntos, ela e Jamie não seriam suspeitos do que acabaria de acontecer.
O garoto se encontrava encostado em uma das paredes do refeitório, conversando com alguns meninos de sua idade, com as mãos enfiadas nos bolsos. Vez ou outra arriscava um olhar à menina de cabelos ruivos, que logo o correspondia, sorrindo imperceptivelmente, para que só ele reparasse.
Assim que Giuli desviou os olhos dos azuis de Jamie, passou a fitar Amélia, à duas mesas da sua, levantando-se e indo em direção à sala de aula. Aquilo era quase um ritual. Depois do almoço, sempre, Amélia ia até a sala, pegava seu estojo de maquiagem, e retocava a mesma no banheiro.
Uma risada nervosa e contida saiu da garganta de Giuli, ao imaginar o que estava por vir, e outro olhar cúmplice foi dado entre os dois. Jamie sorriu abertamente, lendo os pensamentos da amiga.
A garota de cabelos castanhos foi avistada novamente indo em direção ao banheiro, e Giuli fechou os olhos e mordeu os lábios de ansiedade. Só os abriu, quando um tremendo grito fez-se audível pelos quatro cantos do refeitório, espantando os alunos e chamando a atenção até dos próprios funcionários do colégio.
Todos correram para a porta do banheiro feminino, por onde saía uma menina aos berros, com as mãos tapando o rosto, onde podiam ser avistadas várias marcas vermelhas.
– Está ardendo muito! – Ela gritava, enquanto alguns professores que já haviam corrido para ajudá-la, tentavam acalmar a mesma.
– Missão cumprida. – Foi sussurrado ao ouvido de Giuli, e imediatamente, ela virou-se de encontro ao amigo. Um sorriso aliviado estava estampado em seu rosto, mas logo foi desmanchado quando o mesmo avistou a expressão da menina. – O que houve? – Perguntou preocupado, alheio ao tumulto já formado.
– Pensei que aquilo fosse mais fraco, Jamie. – O horror estava exposto nos olhos castanhos. – Ela... ela está gritando. Deus, deve estar doendo!
Com o cenho franzido de surpresa, James lambeu o lábio inferior. Sim, ele não havia pensado muito bem nas consequências daquela brincadeira, talvez pesada demais, só estava furioso e sedento por uma vingança justa.
– Não é algo que se prolongue por muito tempo, Giuli, acalme-se. – Afirmou ele.
Giuli olhou mais uma vez para Amélia, ajoelhada no chão, chorando desesperadamente. Encarou o amigo. – Temos que fazer alguma coisa. – Sussurrou.
Suspirando, Jamie assentiu. – Farei isso por você. – Deixou claro. Não havia culpa em seu coração. A garota que agora berrava, tinha feito por merecer aquilo e muito mais. Em sua concepção, ela havia se metido em uma relação restrita, que não lhe dizia respeito, e que era totalmente íntima entre ele e Giuli. Se aquilo se repetisse, ele não deixaria barato, mesmo que a amiga se opusesse.
Caminhou tranquilamente de encontro ao banheiro masculino, e lá pegou um pouco de água num frasco qualquer que ficava na pia. O encheu, e foi em direção à menina, que ainda não havia parado de gritar. Abaixou-se a sua frente, tirou as mãos que cobriam-lhe o rosto, e jogou todo o líquido no mesmo.
No mesmo instante, fez-se um silêncio absoluto no local. Amélia ofegava, aliviada. Olhou profundamente nos olhos de Jamie, e mais uma vez, viu-se encantada. – Obrigada. – Sussurrou ela.
– Não atrapalhe minha amizade com Giuli. Essa será sua forma de agradecimento. – Murmurou ele, levantando-se e escondendo-se em meio à multidão.
*
As manchas vermelhas no rosto já estavam menos intensas e não doíam tanto. Amélia estava sentada no sofá de sua casa, enquanto escutava as broncas de sua mãe que já se prolongavam há meia hora. Não a olhava nos olhos, estava alheia a voz da mesma. Seus pensamentos se resumiam a um só ser, uma só pessoa. A um emaranhado charmoso e castanho, junto com um par de olhos que mais pareciam o céu de um dia ensolarado. Àquele momento, ela desejou que o mesmo par de olhos azuis e cintilantes, a olhassem da mesma forma que olhavam para sua colega de sala de cabelos flamejantes. Mas Amélia sabia, isso nunca aconteceria.
– Amélia, está me ouvindo? – Perguntou a mãe, indignada.
O olhar da menina, pouco à pouco, foi direcionado à ela. – Não. – Falou, seca.
Anita, já com seus 28 anos, pôs as mãos na cintura, tentando conter os ânimos. – Eu sempre lhe disse que usar maquiagem aos montes, não faria bem a sua pele. Aí está o resultado.
– E eu nunca lhe dei ouvidos, pois sou filha do meu pai. – Encarou-a furiosa e arisca. – Meu pai, seu marido... que morreu antes mesmo de ter a capacidade de dar amor a filha! – Grunhiu, contorcendo o cenho para não chorar. O coração batia descompensado, o corpo magro tremia em meio à exasperação, o peito ardia. Ardia feito uma ferida aberta com álcool sendo derramado sobre, ardia feito o inferno, pensou ela. Amélia estava quebrada.
– Não fale assim do seu pai... – Murmurou a mãe, já sentindo suas entranhas se apertarem por dentro. – Não o culpe por algo que é seu.
– Se ele conseguia te dar o amor que necessitava, meus parabéns. Parabéns para ele, pois é isso que todo marido deve fazer. Mas dar amor, proteger, cuidar... também são funções de um pai. – Brandava Amélia, tomada pela dor. – E antes mesmo de cumprir com seu dever, ele morre! – Gritou. – Morre e me deixa sozinha, solitária, sem amor e o cuidado que deveria ter me dado! E você sabe por que sou tão parecida com ele? – Perguntou, cerrando os olhos. A mãe não respondeu, estava aos prantos. – Porque assim como você pede a minha atenção e eu não lhe dou, eu também pedia a atenção dele. Ele sequer olhava pra mim.
A caixa torácica da menina subia e descia em uma respiração que a mesma tentava controlar. As lembranças de seu pai eram turvas e manchadas, não pelo mesmo ter morrido quando ainda era muito jovem, mas por pura opção. Amélia queria que fosse assim. Disfarçava a dor que sentia, a ausência do amor que nunca teve. Enchia-se de coisas fúteis e solúveis, não queria nada intenso perto de si, não queria nada que lhe fizessem sentir o amor incondicional que sentiu por seu pai, e que tanto lhe feriu. Não queria sofrer.
Olhou para a mãe uma última vez e foi até o banheiro com passos longos e firmes. Jogou água no rosto, e o enxugou. Se direcionou a porta da casa, e escutou a voz da mesma.
– Aonde vai, Amélia?
– Ter uma atitude diferente da do meu pai. – Falou, e saiu.
*
– O que está fazendo aqui? – James perguntou, suave.
A menina que adiava suas palavras e tentava conter o choro cabisbaixa, encarou-o. Nada. Nenhuma expressão, nenhum sentimento guardado. Ele era mesmo de Giuli, pensou.
– Vim... vim lhe pedir desculpas. E lhe agradecer mais uma vez. – Falou Amélia, com a voz baixa.
– Olhe, Amélia, para ser totalmente sincero com você, quem me pediu para fazer algo para ajudá-la foi Giuli. Então, se quer mesmo agradecer alguém, deve ir falar com ela.
A menina olhou-o assustada. Então, não havia sido ele. Não havia partido dele o sentimento de compaixão para com ela, na verdade, só havia feito tal coisa por causa de outra pessoa. Por causa dela.
Deixando cair uma lágrima, a menina forçou um sorriso. – Com certeza, irei agradecê-la. E fique tranquilo, não irei atrapalhar o relacionamento de vocês.
James não gostava de fazer aquilo. Não gostava de ser frio com as pessoas, de fazê-las chorarem. Mas Amélia tinha mexido com a única pessoa, além de sua família, que ele não admitiria que fizessem mal. Giuli era sua irmã. Uma irmã de coração.
– Minha intenção nunca foi magoá-la, Amélia. Eu nunca tive nada contra você. – Falou ele.
– Não se sinta culpado, por favor. – Disse, secando as lágrimas e fungando. – Acho que fiz por merecer.
– Por que quis se aproximar de mim? – Perguntou, direto.
Amélia não sabia bem. A mesma havia se afastado de Giuli há uma semana, sem motivos claros. Simplesmente passou a ver na colega de classe, uma menina que sempre teve a maior e mais duradoura das amizades, e sentiu-se inferior. Sabia que Giuli tinha algo que a mesma nunca teria, e sentiu a mais descarada das invejas. Passou a observá-los de longe, sem que os mesmos vissem, e pegou-se encarando fixamente as sardas que o garoto tinha no entorno dos olhos e nariz; pois na opinião dela, eram fofas. Mas só àquele momento, de frente para James, depois de já ter causado todo o mal, foi que percebeu. Ela quis se aproximar, pois gostava dele. Gostava pra valer, daquele jeito.
– Eu... a-acho que senti inveja. – Sua voz falhou. – Inveja da bonita amizade que você tem com Giuli, eu nunca tive um amigo assim.
– Você é bem mais agradável assim. – Disse ele. – Sem toda aquela tinta que esconde seu verdadeiro rosto, sem palavras fúteis ou risadas escandalosas. – Foi sincero. – Eu me sentiria muito feliz em ser amigo dessa Amélia. A outra não me atrai.
Mesmo que imperceptivelmente, a menina sorriu. O coração aqueceu-se e a esperança renasceu. – Desculpe. – Falou ela. – Por tudo, me desculpe, mesmo.
Ele sorriu, sem mostrar os dentes. – Não se preocupe com isso. – Aproximou-se da mesma, retirou uma de suas mãos dos bolsos e puxou a cabeça da menina para perto de si. Beijou-lhe a testa, e fitou-a. Amélia queria gritar de felicidade. – Vamos, eu te acompanho até sua casa.
*
Giuli tinha o olhar direcionado atentamente aos céus, já pintados de azul-marinho, quase negro, e enfeitados pelos pequeninos pontinhos brancos que piscavam sem parar.
Aquela era a parte predileta de sua casa. A ponte que dava passagem de uma rua à outra, passava pelo meio da estrutura de tijolos rústicos, e davam uma belíssima vista para um dos vários canais da cidade. Giuli sorria consigo mesma, admirando pela milésima vez a beleza do lugar. As sacadas das casas iluminavam todo o trajeto que o canal fazia, e ao longe, Giuli pôde ver mais um dos diversos casais apaixonados, que passeavam de gôndola, sorrindo um para o outro. De súbito, seu pensamento foi parar em Jamie.
– A lua parece gostar de você. – A voz do amigo fez-se audível aos ouvidos da menina, que virou-se imediatamente.
– Por que diz isso? – Perguntou ela, deixando um sorriso escapar.
– Não percebeu? – Disse ele, juntando-se à garota e apoiando os cotovelos na ponte. – Ela até saiu de trás da nuvem para lhe admirar.
Ela riu dos galanteios precoces do garoto. Olhou-o e aproximou-se ainda mais, encostando seus ombros e braços. – Soube que levou Amélia até a casa dela, mais cedo. – Disse a menina. – Como ela está?
– Sinceramente, acho que nunca esteve melhor. – Fitou a amiga. – Ela precisava de um choque de realidade, ninguém poderia viver para acatar seus caprichos.
Depois de alguns segundos em silêncio, encarando seus próprios dedos, Giuli falou:
– Então, quer dizer que Amélia Aranzze virou o tipo que atrai os seus olhos? – Perguntou, risonha. Não queria deixar transparecer a pontada aguda de ciúmes que sentia.
James riu, deixando a cabeça tombar para frente. Logo após, ficou sério. – As garotas daqui não me atraem, Giuli, sabe disso. São tão comuns... Pelo menos, até hoje, nunca senti nada além do normal.
Olhando-o profundamente, Giuli percebeu a veracidade do desabafo do amigo. De fato, as meninas da cidade nunca tinha lhe chamado atenção, ele mesmo dizia.
Mordeu minimamente o lábio, e fitou o chão abaixo de seus pés. Um único garoto já tinha lhe atraído, pensou ela, em dizer. Mas com certeza, Jamie a acharia uma tola.
– A única garota que já despertou algo em mim, não é daqui de Veneza. – Jamie rompeu o silêncio, virando-se parcialmente para ela. – É de Florença.
Surpresa com tais palavras, somente sorriu. Sorriu abertamente, até mais do que achava que deveria. Sorriu de felicidade.
Jamie afagou-lhe o braço com uma de suas mãos, e aproximou-se, juntando suas testas. – James, meu pai... – O dorso dos dedos do menino em contato com sua bochecha, calaram as palavras que estavam por vir.
– Tenho que ir pra casa. – Murmurou ele. – Só quero lhe dar um beijo de "boa-noite". – Entreabrindo os lábios, Giuli recebeu a boca de Jamie, que colou-se à sua, terna e cuidadosamente. Depois de alguns segundos, afastaram-se. – Até mais, Giuli.
Ainda suspirando, a mesma abriu os olhos que estavam fechados. – Até mais.
*
Fale com o autor