Margaridas de Inverno

7 Capítulo VII – Pétalas secas ao vento


Capítulo VII – Pétalas secas ao vento

"(...) Quanta tristeza
Há nesta vida
Só incerteza
Só despedida (...)"

Ai de quem ama, Vinícius de Moraes

Veneza, Itália, 1999.

– Não posso ficar faltando a faculdade, Jamie. – Giuli dizia, enquanto massageava o peito desnudo do amado com a sola do pé. Deitada na direção contrária ao mesmo, usava sua panturrilha como apoio, e deixava sua bochecha sobre ela. Seus braços a enlaçavam; e sobre sua canela, os dedos de Jamie podiam ser sentidos. Estavam ambos no chalé, às cinco da tarde; hora que a moça deveria estar em sua aula de Biologia celular e molecular. Dizendo que a levaria à universidade, o rapaz tinha desviado o caminho; alegando estar com saudade em demasia. E estava, de fato. Os estudos estavam tirando suas horas livres.

Horas após terem se amado intensamente dentre os bagunçados lençóis de algodão; estavam ambos nus, deitados sobre os mesmos, com a sonolência tomando-lhes os olhos. As palavras da mulher, tinham soado tão arrastadas, que o rapaz tivera que fazer tremenda força para entendê-las. Assim que o fez, um sorriso despontou em seus lábios.

– Eu perguntei o que você achava da ideia. – Apertou-lhe a perna. – Você não parou de me beijar.

Também sorrindo, a mulher elevou o tronco, e deitou-se novamente, mas dessa vez, no peito do homem. A pele macia e sem pêlos, sempre estava quente e pronta para acolher-lhe a qualquer hora. Os braços dele puxavam-a, como se o "perto" nunca bastasse, e nunca estivessem próximos o bastante. Para haver o encaixe perfeito, roupas não eram necessárias e nem cabíveis; ambos necessitavam estar despidos de qualquer pano ou perturbação. E assim, em momentos tranquilamente íntimos, como aquele; os jovens consolidavam o amor. Não precisava haver presentes, lugares extraordinários ou luxuosos. Tudo o que necessitavam, estava ali: Um lugar onde pudessem deitar; lençóis para cobrirem-se quando tivessem frio; junto com corpo e a alma um do outro.

Agora, Giuliana e James eram namorados. Apesar da aversão do rapaz à rótulos, o mesmo teve de se adequar à eles se quisesse que as mulheres com quem já tivera casos, o deixassem em paz. Quando o mesmo dizia que já tinha alguém que ocupava seu peito, elas riam e continuavam a se insinuar dizendo que não eram ciumentas; mas era só essa palavra sair de sua boca – namorada – para todas fecharem os sorrisos e irem procurar por outra caça. Em momento algum, Giuli fora paranóica em relação ao passado do rapaz, afinal, eram amigos, e segredos entre eles, não existiam. Em troca, James fazia valer sua confiança, e não deixava levar-se por nenhuma outra. Afinal, nenhuma outra era como Giuli.

Não ouve pedido de namoro, tampouco, precisaram disto. Estavam juntos desde a viagem à França; voltaram de mãos dadas e beijos em público. Jamie a acariciava o rosto quando ia vê-la na floricultura onde trabalhava, e qualquer um que os visse, diriam que estavam apaixonados. "Eu sempre soube que desde pequenos, havia algo a mais que amizade, pequena Giuli", dizia Marietta, dona do estabelecimento. A jovem só respondia-lhe com um sorriso enamorado na face e as bochechas rubras.

Do lado de fora da casa, o sol já se punha. As cigarras começavam a cantar, junto com os sapos no lago; os passarinhos se acomodavam à seus ninhos, e deixavam a vigia noturna para suas primas corujas, estas de olhos grandes e redondos. Quando percebeu a hora, a moça agitou-se sobre os lençóis, procurando por suas vestes.

– Ande, Jamie! Levante-se! – Exclamou ela. – Tenho que chegar em casa em meia hora, ou meus pais saberão que não fui à faculdade.

Virando-se de bruços, o rapaz riu. – Você tem 20 anos, Giuli. Lembra-se disso?

Interrompendo suas ações, e deixando a calça jeans no meio das pernas, a moça cerrou os olhos, e desferiu um tapa numa das nádegas do mesmo, que se encontrava exposta. Soltando um "ai", mais de surpresa, do que de dor, ele a fitou espantado.

– Levante-se! – Brandou novamente, terminando de subir as calças.

*

– Mamãe! Mamãe!

Camille ouviu a voz rouca de Ugo lhe encher os ouvidos, vinda do segundo andar da casa. Na cozinha, ela preparava um prato especial; cortava cebolas e tomates, tentando não fazer o mesmo com os próprios dedos; e a criança, com seus completos 6 anos, encontrava-se em seu quarto. Os chamados a preocuparam, uma vez que o garoto não aparentava seu estado normal há mais de uma semana.

Apressada, Camille correu em direção ao mesmo, e chegando aos tropeços à porta do quarto, avistou seu marido, já prontamente posto ao lado do filho; sentado em sua cama de solteiro, e acariciando sua testa. Ugo estava deitado sob lençóis azuis-marinho e fronhas alvas, que faziam com que o mesmo se destacasse dentre elas. Tinha os escuros olhos baixos e o queixo trêmulo. Camille não aguentava vê-lo chorar.

– A febre ainda persiste. – Disse Henrique, tocando mais uma vez, a fronte do filho caçula. – Ele tosse e reclama de dor no peito. – O homem abaixou o olhar, e fechou os olhos com força. – Está dando os antirretrovirais* corretamente? – Grunhiu, num fio de voz.

– Acha que arriscaria a vida do meu filho? – Perguntou ela, indignada.

Henrique levantou-se abruptamente, segurou com força nos dois braços da mulher, e a tirou do quarto para o corredor. Seus olhos estavam vermelhos de dor. – Acho que tenho um filho com HIV, e tenho o direito de me preocupar. – Esbravejou em tom furioso, mas baixo para que o garoto não escutasse. – Temos que levá-lo ao médico imediatamente. – Concluiu, soltando-a.

Camille abraçou-se, esfregando os braços. – Jamie deve chegar em poucos minutos. – Disse, falha. – É bom que estejamos todos juntos… – O choro corroía-lhe a garganta, pedindo espaço para sair, e a mulher fungava, tentando calá-lo.

De súbito, Henrique a tomou em seu abraço. Apertou-a, querendo que a mesma curasse sua dor, e ao mesmo tempo, tentando fazer o mesmo com a dela. Segurou seu rosto bonito entre as mãos, e beijou. Primeiro os lábios, depois as bochechas, e por último a testa. Também sentia culpa, o homem; não queria machucá-la ainda mais. – Me perdoe. – Disse ele. – Estou atordoado, confuso… Tenho medo de perdê-lo. – Confessou.

– Papai, mamãe. – Sem dar espaço para Camille responder, Ugo os chamou. Ambos foram em sua direção de imediato, e ajoelharam-se a sua frente. – Estavam brigando? – Perguntou o menino.

– Não, é claro que não, amore mio. – Camille prontamente respondeu.

– Estávamos conversando, Ugo. – Henrique completou. – Temos que ir ao hospital, para que fique melhor.

A expressão do garoto entristeceu. – Vai ter agulha?

Ambos sorriram, tristes. – Talvez, querido. Mas, estaremos sempre com você. – Falou a mulher.

O pequeno Ugo segurou as mãos de seus pais, e pôs cada uma sobre seu coração. – Com vocês, o desconforto do meu peito melhora. – Disse ele. – A picadinha de uma agulha não doerá tanto.

Sorrindo, ambos deixaram lágrimas caírem dos olhos. Henrique, logo, as enxugou; Camille, não se preocupou quanto à isso. Uma coisa, os dois tinham em comum: Sem Ugo, não sabiam o que fazer das próprias vidas.

*

– Você quer entrar? – Giuli perguntou, assim que sentiu o automóvel parar em frente a sua casa. A mesma tinha quase todas as luzes acesas, coisa esta, que indicava que seus pais se encontravam. Afonso, desde o início do relacionamento de ambos, demonstrou certo receio; mas nada que não tivesse sido resolvido com o tempo. Agora, até gostava da ideia de ter netos; apesar de Jamie e Giuli nunca terem tocado no assunto.

– Já está quase na hora do jantar; não vou incomodar? – Disse ele, sorrindo de lado.

Giuli arqueou a sobrancelha. – Desde quando precisamos dessas cerimônias? – Riu, ela. – Houve dias que você vinha dormir aqui, por toda semana.

James inclinou-se sobre a moça, e a tocou o lado do rosto. – Nestes dias, eu ainda não transava com a filha dos donos da casa. – Levantou-o com as pontas do dedos e a beijou nos lábios. – Aliás, nós precisamos agendar outra viagem. – Disse ele. – Andei pensando... Que tal: América?

– Norte, Central ou Sul? – Perguntou a mulher.

Ele pensou por alguns instantes. – Todas!

Ambos deixaram-se embalar pelas risadas que soltavam, e beijaram-se novamente; com força, com fervor. As unhas de Giuliana já deixavam marcas na nuca de Jamie, quando a moça avistou sua mãe cruzar a porta que levava a varanda, enxugando o rosto, como se tivesse chorado. De imediato, ela afastou os lábios dos do rapaz, e franziu as sobrancelhas.

– Jamie, aconteceu alguma coisa. – Murmurou para o namorado, preparando-se para sair do carro. Assim que o fez, ele a acompanhou, também ligeiramente confuso.

Os próximos acontecimentos passaram como um borrão aos olhos do rapaz, já homem. Lea, mãe de Giuli, disse algo sobre uma ligação feita por Camille, onde dizia que ela e a família estavam indo para o hospital, pois Ugo não se encontrava bem. A ruiva mulher engolia em seco de instante em instante, tentando calar o choro, para não preocupar James, já atordoado. O olhar trocado entre ele e Giuliana, era cúmplice; ela era a única que soubera de todos os medos que rondavam a família Velatti e especialmente, à o namorado. Os remédios que o caçula tomava regularmente buscavam aplacar parcialmente a doença, mas qualquer gripe e pequena infecção, era motivo de temor, lágrimas e apreensão. Àquele dia, não seria diferente.

Giuli e James foram no carro do mesmo; enquanto Lea e Afonso, em outro automóvel, os acompanhavam em direção ao hospital. Palavras não foram ditas, porém, o rapaz dirigia com o auxílio de somente uma das mãos, já que a outra estava entrelaçada na de Giuliana, que não a soltaria em nenhuma hipótese.

Na sala de espera, Camille e Henrique também encontravam-se de mãos dadas. A mulher, devota de São Marcos, agarrava a medalha que levava no pescoço, fazendo-a esquentar em sua palma. O homem, perdido em pensamentos, não levava expressão na face, a não ser o atordoamento; pela primeira vez em anos, não sabia o que fazer.

Quando um médico veio informa-los sobre a saúde do pequeno Ugo, os seis já estavam juntos, em pés e eretos à frente do mesmo. A resposta veio rápida, dolorida e afiada como uma navalha: Tuberculose.

*

A partir do dia em que Ugo foi ao hospital, o mesmo também internou-se. Os médicos responsáveis pelo mesmo, diziam estar fazendo tudo o que podiam; cada organismo reagia diferentemente aos antirretrovirais, e por algum azar do destino – Pois, Camille não conseguia acreditar que Deus a estivesse machucando daquela maneira de propósito –, não tinham feito o efeito esperado no corpo do garoto. Em um mínimo período de algumas semanas com as defesas fraquíssimas, Ugo havia contraído a doença. E com a bactéria já em seu pequenino pulmão, as chances de recuperação eram mínimas… quase nulas.

Em todos os momentos, a família Liuzzi apoiou tanto Camille quanto Henrique; dando conselhos, ou simplesmente seu acolhedor silêncio, que em momentos de angústia, fazia-se consolador. Os homens entendiam-se enquanto sentavam-se em um sofá qualquer, e bebiam whisky, uma vez que o vinho para a ocasião, pareciam-lhes doce demais. As mulheres, em meio a lágrimas, abraçavam-se e conversavam; e em um momento de extremo desespero, Camille revelou a doença primordial de Ugo para Lea, esperando o afastamento da mulher; e ganhando algo que a surpreendeu mais ainda: Compreensão. Lea não a julgou, repreendeu ou teve receio algum em relação a mulher ou ao menino; simplesmente abraçou a amiga de já tantos anos.

Ao contrário de ambos, que buscavam apoio nos amigos; o outro membro da família Velatti, retraiu-se. James não conversava, não comia, sequer bebia algo regularmente. Os pais, em meio às próprias angústias, não percebiam, ou julgavam suas dores imensas demais, para preocuparem-se com a de outro alguém. Giuli foi a única que mesmo com a aparente frieza, seguia em seu encalço. Caminhava com ele, mesmo quando dizia que queria ficar sozinho; o forçava a morder um sanduíche, quando não queria comer; e o abraçava enquanto derramava lágrimas, mesmo quando James falava que não queria que ela o visse chorando.

A dor era palpável. Pela primeira vez em anos, o rapaz não se sentia livre, mas sim, enjaulado. O bom humor tinha ido pelos ares; a sensibilidade trocada pela ignorância; e a felicidade, pelas lágrimas. Dia após dia, sua vida resumia-se a visitar o irmão caçula e as pesquisas da faculdade. Tinha entrado em um programa de intercâmbio pelo simples fato de ter de se empenhar em algo e manter a mente ocupada. Não notificou à ninguém pois, para o mesmo, era irrelevante; sabia que não conseguiria adentrar nas pouquíssimas vagas. Em raras noites, deixava-se embalar pelo perfume de Giuliana e o torpor do álcool, fazendo amor até o sol raiar. Mas, o problema, existia exatamente ali. O sol sempre elevava-se no céu trazendo um novo dia. Dia este, cheio de dor, apreensão e esperanças vazias.

E mesmo deitado na maca do hospital, o sorriso do pequeno Velatti não lhe deixava o rosto. Não lhe deixava o bonito rosto que ainda marcado pelos traços jovens, já mostravam as marcas de uma tormento forte demais para ser suportado. E de tempos em tempos, de meses em meses, o sorriso foi perdendo a força. As pequenas curvas que ainda lhe deixavam as bochechas salientes não existiam mais, tudo tinha virado pó. A esperança tinha se esvaído, primeiro dando espaço ao desespero e depois à aceitação.

E nos últimos dias de sua vida, o mesmo ainda sorriu para o irmão, lhe dizendo em um único mínimo sorriso, em um único gesto, que cá estava ele, disposto a aceitar o que o destino tinha lhe reservado. E neste momento, James teve de sair da sala do hospital, e ir atrás de um lugar fechado e isolado de tudo e de todos. Precisava chorar. E chorou. Chorou como a criança que já não era, como um pequenino bebê que tinha perdido seu chocalho. Sentou-se, aproximando os joelhos do rosto, e lá despejou suas lágrimas e lamurias até perder todas as forças e gotas de água que existiam em seu corpo. Afundou os dedos nos próprios cabelos, fazendo força ao puxá-los, querendo que por algum milagre, aquela dor lhe curasse da que já sentia corroendo seu peito. Não adiantou. Estava perdido.

*

O enterro de Ugo foi discreto e melancólico, como qualquer outro. Olhando ao seu redor, Camille deu-se conta de como era sozinha. Havia perdido os pais ainda criança, e a avó que a criara já havia falecido há alguns anos. Tudo o que lhe restava era a recente família, agora abalada pela perda de uma criança que a mesma tinha posto na vida de todos. Apesar de saber que poderia ter poupado tal sofrimento ao ignorar a falecida Iori, na calçada em que se conheceram; algo em seu coração dizia-lhe que cada segundo da vida do garoto que foi prolongada, serviu-lhe de revigoramento. Ela jamais fora tão feliz, como nos anos em que Ugo esteve em sua vida. E agora, nunca fora mais triste como em sua perda.

Henrique seguia em caminho ao cemitério, com o braço em um aperto firme nos ombros da esposa. Talvez, para evitar uma possível queda da mesma; ou sua própria, não sabia bem. Marcado pela perda do pai, ainda jovem; conhecer Camille foi a maior prova de amor que Deus pôde ter lhe dado. Logo após, ter James em seus braços fortaleceu ainda mais os laços entre eles; e quando o casamento parecia enfrentar uma crise; Ugo adentrou sua casa da forma mais repentina possível. O pequenino trouxera a estabilidade de volta àquele lar; mas agora, com sua partida; Henrique não sabia se Deus poderia ajudá-lo novamente. Algo o dizia que aquele fato viveria por assombrá-los pelo resto de seus dias.

Ao adentrar o cemitério, James avistou pessoas que jamais pensara que veria ali. O rapaz acompanhou de perto o desenvolvimento do irmão na escola, e sabia desde o início que não seria fácil. Mesmo sendo inteligente e simpático, Ugo ainda era negro. Na mente do mais velho, isso era um detalhe irrelevante; mas o mesmo sabia do tamanho imenso de preconceito que as pessoas tinham dentro de si. Encarando a direita; James avistou o garotinho de cabelos cor-de-palha que tinha dito que não seria amigo de Ugo, pois ele tinha a pele suja. A seu lado, a diretora do colégio que dissera não aceitar crianças de raças inferiores. Ambos tinham as feições tristes e talvez, culpadas; mas a vontade de James, era chutá-los dali. Virando o rosto, para estancar a raiva; o mesmo encontrou a garotinha que Ugo sempre lhe dissera que gostava. De traços delicados, e com os olhos castanhos cheios de lágrimas; em certo momento, a menininha não aguentou a dorzinha que se instalava em seu ser, e agarrou a barra da saia da mãe; chorando descompensada. Ao presenciar tal cena, involuntariamente, os braços do rapaz puxaram Giuli em direção à seu peito. A moça espalmou a mão no coração do rapaz, por baixo da jaqueta preta e sobre a blusa azul-marinho; e massageou ali. Ela sabia o quando doía, estava doendo nela também. Em certo momento, o olhar de ambos se cruzaram e James perguntou-se: “Como vou fazê-la feliz, se não consigo sequer fazer isto comigo mesmo?”.

*

Outono havia se passado, e o inverno estava no fim de seu primeiro mês. Quatro meses sem a presença de Ugo na casa dos Velatti, e por mais que tentassem seguir a vida livrando-se do fardo da dor; as tentativas faziam-se falhas. Henrique trabalhava três horas a mais que seu horário de expediente no quartel, e quando chegava ao lar, todos já encontravam-se dormindo. Camille, sozinha na maior parte do tempo; gastava o mesmo, fazendo pratos de comida para festas de caridade; e aproveitava para chorar enquanto cortava cebolas; pois se a vissem, não desconfiariam de seu estado. James estudava. Livros formavam pilhas em sua mesa, na cama, ou em qualquer outro canto de seu quarto. Quando não estava em casa, a faculdade era seu ponto de encontro para esquecer das angústias tão pesadas que lhe curvavam as costas. Evitava encontrar estranhos, pois sabia que eles lhe fariam perguntas sobre seu estado emocional; evitava encontrar os pais, pois olhar em seus rostos, era pedir para chorar. Por fim, passou a evitar Giuliana. Pois, o castanho de seus olhos, lembrava o negro dos de Ugo. E assim, querendo esquecer cada coisa boa que tinham passado, pois também lhe trazia a saudade dura demais para ser suportada; James adentrou a sala do reitor da universidade.

Seu olhar opaco e sem foco, milagrosamente, se cruzou com o do senhor de aparentes cinquenta e tantos anos; e o mesmo fez sinal para que se sentasse.

– Acho que até hoje, não tive a oportunidade de oferecer meus pêsames por seu irmão; Sr. Velatti. – Disse ele. Sem saber o que responder, diante das palavras ouvidas pela milésima vez, James somente assentiu. – Apesar do ocorrido, fico feliz em saber que isso não afetou seu desempenho na universidade. Na verdade… bom, suas pesquisas mostraram-se impressionantes.

– É a única coisa que consigo fazer para não lembrar. – Confessou o rapaz, fitando um ponto fixo na bancada do reitor. As palavras tinham saído involuntariamente, e assim que deu-se conta do que tinha dito e do silêncio ali imposto; ajeitou-se na cadeira. – Desculpe a grosseira, reitor; mas o senhor me chamou, exatamente, para quê?

Recompondo-se e arrumando o paletó, o mesmo pôs os braços sobre a bancada. – Como lhe disse, suas pesquisas foram muito elogiadas, Sr. Velatti. E não sei se o senhor soube, mas alguns professores estadunidenses, fizeram-nos uma visita essa semana.

– Não, eu não soube. – Respondeu o rapaz.

– Eles vieram pessoalmente selecionar os alunos para o programa de intercâmbio.

Subitamente, o ambiente ao redor de James emudeceu. O mesmo voltou a lembrar dos meses em que o irmão tinha ficado internado; e em como ele estava obcecado por manter a mente ocupada. A inscrição no programa de intercâmbio com bolsa de estudos para as melhores universidades de pesquisa dos Estados Unidos; e o falecimento de Ugo, logo após, fazendo-o atordoar os pensamentos e o coração. Então, tinha dado resultado, de fato; pensou.

– Sr. Velatti? Está me escutando? – Perguntou o reitor.

– Não, o senhor poderia repetir? – Pediu.

– Sua pesquisa foi selecionada. – Afirmou ele. – Você tem duas semanas para confirmar sua ida, pegar o visto e embarcar para Illinois. Todas as despesas serão bancadas pelo governo; você deve estar informado, afinal, se inscreveu, não é mesmo? – Sorriu, o homem. – Estou orgulhoso de tê-lo como aluno, James.

Sem saber o que responder, novamente, James assentiu. Passou os dedos pelas têmporas, suspirou e saiu da sala. Não tinha a mínima ideia de como aquilo afetaria sua vida, e nem de como informar à todos, qualquer que fosse sua decisão. Afundou a mão no comprido cabelo, e o puxou. Naquele momento, o único nome que rondava sua mente, era o dela. Giuliana.

*

O rapaz estava em frente a casa da amada há aproximadamente quinze minutos. Vez ou outra tentava tocar a maçaneta com os dedos, mas logo, retraia-se, sem coragem para fazê-lo. Há uma semana, o mesmo encontrava-se em frente ao reitor, recebendo uma notícia que poderia ser considerada boa, caso estivessem em outras circunstâncias. Mas, não estavam. James estava tão atordoado, como no dia que soubera que o irmão tinha uma doença que o mataria. Tão atordoado como no dia em que ele morreu, e levou um pedaço do coração e da alma do rapaz consigo.

Quando finalmente juntou coragem para bater na porta, a mesma se abriu. Giuliana estava no outro lado, há poucos centímetros de distância do rapaz; com os cabelos desgrenhados em um mal feito rabo de cavalo, e rosto vermelho e inchado pelo choro. Não importaria o quanto James remediasse ou eufemizasse suas palavras; Giuli o conhecia, e sabia o que ele tinha vindo fazer ali.

– Quanto tempo planejava ficar aí? – Perguntou ela, com o olhar desfocado. – Vi, pela janela, quando seu carro estacionou.

– Eu... – Suspirou. – estava a pensar.

A moça assentiu, e deu espaço para o mesmo adentrar a sala. Assim, o homem fez; e parou logo atrás dela, esperando-a virar-se para si. Mas, diferente do que pensara, Giuliana continuou de costas. Cerrou os punhos, fincando as unhas nas palmas das mãos; e chorou. Um choro triste, de perda. Os ombros balançavam pelos soluços, e o peito ardia pela dor. Estava aos frangalhos, o coração da pobre mulher.

Jamie a abraçou por trás, colando seus corpos. Descansou a bochecha no topo de sua cabeça, e permitiu que suas lágrimas também descessem. A olhou, a cheirou, a beijou, na curva do pescoço. Queria gravar cada canto dos encantos de sua eterna amada em seus pensamentos para poder devanear nos anos que se seguissem.

Livrando-se do aperto, Giuliana finalmente encarou-o. – Não me beije, para depois ir embora. – Grunhiu, magoada.

– Giuli, tente me entender, por favor. – Suplicou ele.

– Há meses, eu venho esperando por isso, James. Há meses, sinto sua frieza, e a empurro goela a baixo, por saber que você está passando por um momento difícil. Mas, eu – Pôs a mão sobre o peito. – eu também não sou de ferro. Eu choro, fico triste, me desespero; também sou humana, James; e saiba que você está me matando aos poucos.

Suspirando, acabado; o rapaz levou as mãos aos cabelos, fechando com força os olhos. – Não sei o que fazer. – Confessou, em meio às lágrimas. – Estou aos pedaços por dentro, e consequentemente, contagio as pessoas ao meu redor, Giuli; por favor, me perdoe.

– Eu também estive assim, Jamie; compartilhei da sua dor... – Explicou ela. – Mas, eu estou aqui pra você, estou com os braços abertos para lhe dar todo amor que tenho dentro do peito, e você parece estar... – Soluçou. – recusando.

– Giuli, escute... Sente-se. – O mesmo proximou-se da moça, puxando-a para o sofá. – Vim aqui... pois, não posso continuar fazendo isso com você.

– Você quer terminar comigo. – Completou.

– Não, Giuli, eu não quero terminar com você. – Explicou o rapaz. – Mas, eu não posso mais ficar aqui.

– Como assim? – Perguntou ela. – Do que está falando?

James engoliu em seco, antes de continuar. Ele sabia que não teria volta. – Meu projeto de pesquisa foi selecionado num programa de intercâmbio.

O silêncio pairou a partir daquelas palavras. Os olhos levemente arregalados da mulher, passavam a formar mais lágrimas; e seu coração ferido, a latejar.

– Você vai embora. – Ela sussurrou, para si mesma. – Vai embora... Vai me deixar aqui, e vai embora. – Num fio de voz desesperada, a mesma levou as mãos ao rosto.

– Giuli...

– Não! – Brandou ela. – Não diga mais uma palavra... – Levantou-se abruptamente, enxugando as lágrimas. – Desde quando, você está participando de um programa de intercâmbio? Porque à mim, você não disse nada!

– Ugo ainda estava internado na época, Giuli. Eu estava desesperado por algo que ocupasse minha mente; tinha certeza que não passaria.

– Mas, você passou. – A moça concluiu, passando os dedos desesperamente pelo rosto. Por fim, caiu de joelhos. Os pêlos do tapete lhe amaciavam as pernas, e um desconforto descomunal queimava-lhe a pele. Ele vai embora, ela pensou; irá partir.

Jamie ajoelhou-se a sua frente, e lhe segurou os braços. A fitou profundamente nos olhos, e lhe passou um pouco de sua dor por eles. – Giuli, tudo aqui, me lembra Ugo. – Sussurrou. – A padaria onde ele comprava doces, a escola em que estudava, a loja de bicicletas em que fomos comprar a sua... Eu evito encontrar meus próprios pais, por saber que se nossos olhares se cruzarem, eu vou desabar... Por favor, fiore mia, entenda-me. Se eu não sair daqui... acho que vou explodir...

Lhe tocando os contornos do rosto, Giuli abaixou o olhar. Sentiu a pele macia sob seus dedos, sabendo que aquele toque, poderia nunca mais se repetir. Fincou, novamente, as unhas nas palmas das mãos, tentando calar seus demônios; e o fitou, por fim.

A raiva tinha se dissipado, e como todos sabem, agora, viria a pior parte. A amargura, a dor; seca, nua e crua.

– Faça o que tem de fazer. – Murmurou ela. – Só não me peça para lhe esperar.

Sentindo um nó em sua garganta, o rapaz assentiu. Eu a perdi, pensou ele. – Te amo demais, para lhe pedir uma coisa dessas.

– Mas, não me ama o bastante para ficar. – Murmurou, abatida. – Jamie, me faça um favor...

– Faço. – Disse ele, deixando as lágrimas caírem.

– Feche a porta quando sair.

Com os lábios semiabertos, o rapaz levantou-se. A culpa e a dor continuavam por curvarem-lhe as costas, e agora, o peito latejava mais do que nunca. Estava deixando sua amada para trás, ele sabia; e talvez nunca mais a tivesse. Mas, ela encontraria outro alguém. Alguém que a amaria, e a faria feliz; como ele jamais conseguira.

Antes de bater a porta, o mesmo virou-se para a moça; tendo a visão da mesma ainda ajoelhada no chão. Giuliana escutou as palavras do amado, sabendo que não conseguiria atender-lhe aquele pedido. Não, sem ele.

– Seja feliz, Giuli. Por favor, seja feliz.


*

Notas finais
Antirretroviais*: Os medicamentos antirretrovirais surgiram na década de 1980, para impedir a multiplicação do vírus no organismo. Eles não matam o HIV, vírus causador da aids, mas ajudam a evitar o enfraquecimento do sistema imunológico.