Margaridas de Inverno
8 Capítulo VIII – Amigos e saudade, saudade de amigos.
Capítulo VIII – Amigos e saudade, saudade de amigos.
"Um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui."
Pálpebras de Neblina, Pequenas Epifanias; Caio Fernando Abreu
Chicago, Estados Unidos e Veneza, Itália; 2001
Luiggi estava deitado na espécie de cama, feita com papelão e diversas mantas que cobriam-o de todos os lados. O gatinho, achado na rua durante um passeio de bicicleta de Giuliana, não estava tão magrinho como há um mês. A mulher dedicava-se piamente em sua alimentação, dando-o leite em uma seringa, a cada duas horas e meia. Seu pêlo, era branco como as nuvens que pintavam o céu; juntamente com manchas desiguais, negras como a escuridão da noite. Pelo tamanho, Giuli arriscava dizer que tinha menos de dois meses de vida; e quando o viu pela primeira vez, em meio a um amontoado de sacolas de lixo, encarou-o. O gatinho olhou-a com seus olhos cor de mar, e miou em sua direção. Tão sozinho, pensou ela, talvez possamos juntar nossas solidões.
O levou para seu apartamento, e o deu o nome de Luiggi, pois significava "guerreiro glorioso", além de ser o nome de um de seus personagens de desenho prediletos. Durante o dia, o mesmo dormia em sua caminha improvisada, mas a noite, talvez sentindo a tristeza de sua dona, miava até que ela o colocasse aninhado em seu tronco, ouvindo e aquecendo seu coração.
Em praticamente todos os dias da semana, Giuliana fazia as mesmas coisas, mas com a chegada de Luiggi em sua vida, a moça passou a ver mais cor na mesma. Em sua primeira consulta, por exemplo, Giuli havia voltado a falar com um rapaz que não conversava há muito. William, o bonito francês de seus tempos de infância, não havia se mudado ou nada deste tipo, mas como não mais compartilhavam amigos em comum, o contato foi se perdendo. Até o dia em que a ruiva levou seu novo bichinho de estimação à clínica veterinária mais próxima, e deu de cara com o mesmo, trajando seu jaleco branco, com duas patinhas de cachorro bordados em preto no bolso. “William Bardot”, estava escrito logo em baixo.
– Sempre desconfiei que seu amor por cavalos, o levaria a algo desse tipo. – Disse ela. – Mas, não sabia que tinha se tornado veterinário.
Examinando Luiggi, ele sorriu. – Não sabemos muitas coisas um do outro. – Respondeu. – E você, o que resolveu fazer da vida?
Nestas curtas e casuais palavras, ambos tinham voltado a ter contato. O rapaz já tinha a visitado três vezes, dizendo que queria analisar o estado do bichano, e agradecida, ela lhe abria a porta de bom grado. Na última visita, achando linda a forma do rapaz tratar seu bichinho, Giuli o convidou para jantar. Não sabia que onde tinham saído as palavras, pois pensadas, elas não eram; mas resolveu arriscar. Ele não se parecia em nada com o galanteador de 1995, pelo contrário, sorria timidamente; e em um lampejo de olhar, Giuli viu tristeza no mesmo; a mesma tristeza que ela levava no peito; escondida, disfarçada. Ele também estava machucado, pensou.
Já era fim de tarde, quando Giuli começou a preparar a comida que seria servida logo mais, às oito. Havia optado por um típico prato francês, que não fosse tão difícil de ser feito; se chamava Coq au vin. Por mais que parecesse que estava tentando agradá-lo, Giuli não se importou; ela só queria ter uma desculpa para beber um pouco mais além da conta.
*
– Eu ainda não entendi o que a senhorita está querendo dizer. – Falava James, enquanto em pé, arrumava suas pastas sobre a mesa de sua sala. Esta, de paredes em tom de bege e branco, era mediana e cheia de livros sobre a enorme estante que ocupava quase todo o cômodo. O homem, com seus já 24 anos, tinha o porte corporal totalmente desenvolvido e robusto; o cabelo castanho recentemente cortado acima dos ombros; e uma rala barba lhe cobrindo o rosto. Seu estágio no Colégio Preparatório McNish, havia lhe rendido aquele emprego; e o rapaz esperava mantê-lo até que findasse seu mestrado.
A sua frente, estava Elizabeth Watson; Beth, como gostavam de chamá-la. A menina de cabelos loiro-escuro e bochechas rubras, era uma das únicas que não fazia parte de nenhum grupo específico de sua classe; e isso, James já havia notado. Ela era quieta; pouco chamativa, uma vez que tinha a mesma aparência da maioria das meninas do colégio; e isolada. O homem não sabia se por vontade própria, ou exclusão; e sinceramente, nunca se importou. Ensinava alunos de 16 à 18 anos; não estava lidando com crianças. Mas, algo na maneira como a garota gaguejava enquanto tentava lhe falar, o deixou curioso.
– Senhorita Watson, suas mãos estão tremendo. – Ele a disse, parando e encostando-se em frente a sua mesa, a poucos centímetros da cadeira onde a menina estava sentada. Depois de alguns instantes em silêncio, o mesmo cruzou os braços. – Quer me dizer algo?
– Minha... minha nota. – Ela balbuciou. – O senhor deve ter cometido algum engano. – E abaixou a cabeça novamente.
– Não costumo cometer enganos em minhas correções. – Foi firme, franzindo as sobrancelhas. – Lembro-me de ter lhe dado D, por alguns erros que presumo terem sido frutos de sua falta de atenção. A senhorita precisa revisar mais a matéria.
Temerosa, Beth levantou-se. Seus olhos transbordavam medo, e seu coração parecia poder pular de seu peito a qualquer momento. – Por favor, Sr. Velatti, eu não posso mostrar esse boletim a meu pai. – Ela suplicou.
Confuso, ele tentou tranquiliza-la. – Por mais ruim que possa ser, senhorita, acho que não há um ser humano no mundo que não já tenha ganhado uma nota vermelha. – James brincou. – Fique tranquila; notas não indicam a inteligência de um aluno.
– O senhor não entende... – Engoliu em seco, balançando a cabeça. – Meu pai não pensa assim. – Os olhos da menina passaram a lacrimejar, e o homem começou a ficar, verdadeiramente, preocupado. Ela parecia mais vulnerável que o normal.
– Elizabeth – Tomou a liberdade de chamá-la por seu primeiro nome, e apoiou as mãos em seus ombros. Ela já havia começado a chorar. –, há algo – Olhou profundamente em seus olhos. – que queira me contar? Eu posso ajudá-la.
Parecendo pensar em tudo que já tinha passado; desde a morte de sua mãe quando era apenas uma bebê, aos primeiros toques que causavam dor em seu corpo por parte de seu pai; a menina tremeu, como se tivesse sentido um calafrio. Encarou o azul sincero dos olhos de seu professor, mas não confiou neles. Preferiu fazer algo mais fácil.
Pôs as próprias mãos sobre o peito do homem, e amassou a camisa sob os finos dedos. Puxou-o em sua direção, e roçou o nariz no seu.
– Professor Velatti... – Murmurou, sentindo sua respiração. – o senhor não sabe o quanto é bonito.
E antes de dar espaço para que o mesmo respondesse, colou os lábios nos seus, com força. Mexeu a boca, obrigando o homem a lhe corresponder, e orou mentalmente para que conseguisse seduzi-lo a mudar sua nota do vermelho para o azul. Não aguentaria mais um dos castigos de seu pai.
Sentiu o aperto em seus ombros ganhar pressão, e soube naquele segundo que estava sendo rejeitada. Quando James conseguiu desvincilhar-se da garota; os lábios, assim como todo o rosto, estavam rubros; e o diretor do colégio, Sr. Adams, tinha os olhos arregalados em espanto na porta de sua sala.
*
Com os dorsos das mãos pousadas em cada lado de sua cintura, Giuliana bufou, fechou os olhos e expirou de uma só vez, deixando os ombros caírem.
– Aconteceu alguma coisa? – A voz de Will foi ouvida, assim que o mesmo adentrou a cozinha. Virando-se para fitá-lo, a moça o encarou com a expressão mais culpada que conseguiu. Luiggi estava sentado, lambendo uma das patinhas, no balcão.
– O frango queimou. – Disse ela, derrotada. – Já estava tudo pronto; o molho, o vinho, era só pô-lo por cima… – Suspirou, sentando-se numa das cadeiras de sua mesa, e apoiando o rosto nas mãos. – Desculpe, Will, o jantar foi por água à baixo.
Permanecendo com o ombro encostado numa das paredes do cômodo, o rapaz tentava segurar o riso tímido que teimava em lhe escapar dos lábios. Sem sucesso, deixou que os mesmo repuxassem, e mostrassem a moça, os belos e alinhados dentes que tinha, em um sorriso encantador. Sendo pega pela própria vergonha, Giuli também deixou-se levar pelo riso que lhe amansava a tristeza de ser uma péssima cozinheira.
– Bom… – Começou ela, enquanto olhava o mesmo sentar-se a seu lado. – ainda nos sobrou o vinho. – Arqueou a sobrancelha.
– Sim, vinhos são belos acompanhantes. – Concordou ele. – Assim como uma pizza vegana. – Completou.
Arregalando os olhos e entreabrindo os lábios, Giuli o fitou incrédula. – Não… não me diga que é vegano*…
Soltando mais uma risada, o mesmo assentiu. – Sim, eu sou. Você estava prestes a me fazer ter uma recaída.
– Mio Dio, me desculpe, eu não sabia. – Disse ela, xingando-se mentalmente por não ter pensado nessa possibilidade.
– Tudo bem, não tinha como você saber. – Will sorriu, mas passando-se alguns instantes, mordeu o lábio em receio. – Você… tem falado com o Jamie? – Perguntou, vendo-a retrair-se.
– Não. – Murmurou, num fio de voz. – A última vez que o vi foi no enterro de Camille. Trocamos algumas cartas meses depois, mas... – As palavras se perderam na imensidão da tristeza da moça, e não foram mais achadas.
– Foi uma fatalidade… – Disse ele. – a morte de Camille, ela aparentava ser tão saudável.
– E era. – Giuliana concordou, suspirando. – Toda a Veneza sabe o que realmente aconteceu, Will, presumo que você também.
– Não é do meu feitio dar ouvidos a boatos, mas se você está dizendo… – Falou. – Imagino a dor que ela estava sentindo… Perder um filho tão pequeno… Não a julgo.
– Nem eu. – Sussurrou. – Mas, Jamie… ele foi perfurado profundamente… nas duas mortes. As poucas esperanças que eu tinha antes, esvaíram-se.
– Esperanças de que ele volte? – Perguntou, olhando-a no fundo de seus olhos. Will queria saber das angústias de Giuli, quem sabe assim, poderia esquecer das próprias durante algumas horas.
– Esperanças de que ele fique bem. – Respondeu ela, e sorriu, ainda triste. – Não alimento ilusões, Will, ele nunca voltará... pelo menos, não pra mim.
O rapaz ajeitou os óculos de aros grossos e negros no rosto, e tristonho, enlaçou a mão da mulher na sua. Massageou seus dedos durante alguns instantes e fitando os mesmos, deixou que um suspiro saísse diretamente de seu peito aos lábios.
– Somos dois desastres amorosos ambulantes. – Disse ele, num sorriso amargurado. – Tive tanta sorte quanto você, no amor.
– Oh, Mio Dio, então posso lhe dizer que sinto muito. – E gargalhou, acompanhada do mais novo amigo e confidente que estava em sua frente.
Apertou ainda mais os dedos nos seus, e deixou a cabeça e algumas lágrimas tombarem na mesa de madeira daquela cozinha.
A voz de John e Paul adentravam-lhes os ouvidos na melodia de don't let me down; embalando o ambiente, e fazendo a saudade manifestar.
Estavam ambos, quebrados; tirando o vazio de algumas taças de vinho, enquanto procuravam encher a si mesmos.
*
A sala do diretor, diferente da dos professores, era ampla e dispunha de muito mais móveis. O sofá de veludo, num cinza-claro, fazia-se vazio e solitário num dos cantos do cômodo. A estante, enorme e revestida em madeira nobre, tinha livros, diversos utensílios de decoração, junto com as fotos da família de quatro filhos de Harold Adams. Este, já havia passado dos cinquenta anos, com seu início de calvície no topo da cabeça e rugas nos cantos dos olhos. Tinha a barriga um tanto saliente, causada pelos quitutes de sua sogra; uma consequência do casamento de mais de vinte anos. Era simpático e risonho, engraçado com os alunos e funcionários; um homem exemplar que fazia de tudo para proteger sua filha caçula, a única garotinha depois de três filhos homens. A protegia, monitorava e cuidava; algo neste sentido sempre chamara a atenção de James, que achava-o muito parecido com Afonso – sendo mais baixo, e com os braços menos fortes, é claro. Mas, para o azar do rapaz, o mais velho tinha presenciado somente parte da cena há curtos instantes; momentos estes, que também o tinham pegado de surpresa. Aos olhos de qualquer um, pareceria que o mesmo estava atacando a pobre menina; tão franzina, tão pequena, sendo segurada pelos ombros por um homem já adulto, de porte atlético, que provava de seus lábios com sabor de inocência. Mas, dessa vez, Elizabeth não fora a chapéuzinho vermelho, e James, longe de ter sido o lobo mau.
Desconcertado e constrangido, o mais novo sentava-se a frente da mesa do diretor, como um aluno inocente, que fora pêgo no lugar errado e hora errada. Com os olhos baixos, deixava o suspiro sair pelos lábios, devaneando como seria procurar um novo emprego, com a ficha suja na polícia, acusado de abuso de menores ou tentativa de estupro. Elizabeth não estava em seu estado normal, ele tinha certeza; algo acontecia com a menina fora dos portões do colégio, e agora, nem ele poderia ajudá-la, afinal, ela o havia posto nesta situação. Algo o dizia que falar a verdade, não adiantaria.
– Sr. Velatti, eu tenho uma filha da mesma idade que Elizabeth. 16 anos. – Começou o homem a dizer. – E no momento que entrei em sua sala, e o vi com ela em seus braços, me pus no lugar de seu pai. Se fosse minha filha, provavelmente, eu estaria na delegacia neste exato momento, sendo acusado de homicídio doloso; e o senhor, não mais entre nós.
Suspirando, o rapaz pôs a mão sobre a testa. – Sr. Adams, imagino tudo o que deve estar lhe passando pela mente; que deve estar me achando um nojento, sem escrúpulos; mas lhe peço: Acredite em mim. – O fitou com os azuis olhos banhados em sinceridade e apreensão. – Elizabeth me beijou. – Disse ele. – Estávamos falando sobre sua última nota, eu estava dando conselhos à ela, pois a mesma não se saiu bem. – Gesticulou com as mãos. – Estava exaltada, temerosa; dizia que não podia mostrar a nota ao pai, pois ele não entenderia. Quando perguntei se poderia ajudá-la de alguma forma, ela simplesmente me beijou. Foi rápido, de repente; demorei alguns segundos para assimilar e quando consegui afasta-la de mim, o senhor estava na porta de minha sala. – Respirou fundo uma última vez, visivelmente cansado, e apoiou-se na bancada a sua frente, cabisbaixo. – Eu preciso desse emprego, senhor, não o arriscaria dessa forma.
Pensando sobre tudo que tinha lhe chegado aos ouvidos, Harold Adams, o diretor, entrelaçou as próprias mãos, procurando ser o mais justo possível. Sabia do comportamento de certas meninas em relação à beleza do jovem professor de geografia; até mesmo sua filha, que também estudava no colégio, já havia o elogiado. Mas, também sabia da personalidade de Elizabeth Watson; sempre tão quieta, concentrada; difícil pensar na garota insinuando-se a um superior. Pregando os olhos durante alguns segundos, o homem deduziu não saber o que fazer.
– Sr. Velatti, eu ainda não falei com Elizabeth; uma das professoras a levou à enfermaria para poder acalmar-se. Portanto, até o momento, não darei nenhum veredito. – Disse o mais velho. – Saiba que o senhor é um dos melhores professores desse colégio, eu lamentaria muito perdê-lo. Isso é só; entrarei em contato assim que possível. Está liberado.
Assentindo, James se pôs de pé. Reduziu-se ao silêncio, dando passos largos até a porta e a abrindo e fechando, instantes depois. Fitando o chão, o homem não se deu conta da presença ao lado, até que a mesma se pronunciasse.
– Ei, cara, 'tá tudo bem?
Virando-se para a direita, James fitou Dave Baxter, professor de Educação Física; negro de cabelo curto, quase raspado; amigo há mais de um ano, quando tinham se conhecido no estágio. Encarou os olhos cheios de preocupação do rapaz, e o lançou um sorriso, mesmo que triste, para amansar-lhe. Andou em direção aos portões do colégio, e fez um sinal com a cabeça para que ele lhe acompanhasse.
– Eu fui liberado. – Disse.
– Mas, você não tinha mais uma aula hoje? – Perguntou Dave.
Cabisbaixo, James assentiu. – Elizabeth Watson me beijou.
Franzindo o cenho, sem entender as palavras do amigo, Dave parou em frente à saída. – Beijou? A garotinha do primeiro ano? A que vive pelos cantos?
– Essa mesma. – Confirmou. – Me beijou no mesmo instante em que Adams entrou na minha sala. – Riu, amargurado. – O resto, você já deve imaginar.
– Mas… como isso aconteceu, J? Ela, simplesmente, se jogou em você? Sem motivos; do nada? – Perguntou, gesticulando com as mãos, visivelmente alterado.
– Foi de repente; num segundo estávamos conversando sobre sua nota, no outro, ela estava… – Bufou, querendo espantar a raiva. – Não quero falar mais sobre isso, Dave; eu vou pra casa…
– J, o que Adams disse? Não me diga que…
– Disse que entraria em contato comigo, assim que tivesse uma decisão. – Sacou a chave do carro do bolso, e apertou o ombro do amigo. – Se essa menina não falar a verdade, eu estou acabado.
E saiu em direção ao estacionamento, tentando por todos os pensamentos em ordem. A raiva tinha lhe sucumbido durante alguns minutos, mas assim que o vento beijou-lhe a face, e a paisagem de Chicago fez-se visível a seus olhos, permitiu relaxar-se. Estava ali, sentado em seu automóvel novo, com os bancos e volante revestidos em couro – Por ideia de Dave. –, indo em direção a um dos melhores bairros da classe média, onde morava desde que chegou à cidade; uma vida boa, ótima para um rapaz ainda no início da vida adulta; mas ainda assim, insuficiente. Quase todas as noites, James pega-se devaneando sobre seu futuro, dali para frente. De início, não pensara em se formar com o intuito de ser um professor integral, que trabalhava quatro dias por semana, com somente um mês de férias a cada ano. Não, para ele era trabalho demais, estresse demais; se sentia preso.
Bufou, quando percebeu que a ponte da avenida Michigan seria levantada para passagem de algumas balsas, e desleixou o corpo no acento, deixando que os olhos fechassem e os pensamentos voltassem para Itália. O rapaz sentia saudade.
*
Sentada no banco de trás do automóvel do diretor, Elizabeth olhava a paisagem da cidade natal como se fosse a última vez. Nos olhos cor-de-mel já borrados pelo lápis-de-olho negro que usava, o vazio podia ser visto, assim como algumas pitadas de dor. A garota, que acabara de completar seu décimo sexto aniversário, já sabia o que o futuro lhe reservava. Não conhecia parentes próximos, e aqueles que talvez existem; ela tinha certeza, nunca a iriam querer por perto.
No coração, só guardava uma única pessoa: Seu irmão, John. Da mãe, não se lembrava, e do pai, sentia nojo. Contara toda sua história ao diretor Adams, e como de esperado, estavam indo para a delegacia. Só mais alguns quilômetros e algumas palavras, e o pesadelo de Elizabeth teria fim. Não haveria mais toques, dor ou repulsa. Pela primeira vez em anos, rezou. Não por si, mas por John. Ela sempre o protegeria e amaria, independente de onde e com quem estivessem.
*
– E então, o que me diz? Gostou? – Perguntou Will, com um sorriso esperançoso no rosto, fitando a moça. Giuli, com uma fatia da pizza vegana em uma das mãos, e a taça de vinho em outra, fez um tremendo esforço para engolir o que já tinha posto na boca. Logo após, bebeu todo o líquido avermelhado. Forçou um sorriso, e fez Will gargalhar. – Tudo bem, eu entendi, não gostou.
– Não é ruim… – Ela remediou. – Só… diferente. – E sorriu, dessa vez, verdadeiramente. William estava transformando sua tediosa noite em algo deveras divertido.
Estavam ambos sentados no sofá, um de frente para o outro, com os pés descalços e postos por baixo do cobertor que Giuli tinha ido buscar em seu armário. Na tv, alguma série de comédia passava, e entre os dois, acomodado em um espaço fofinho, Luiggi encontrava-se dormindo. Já passava das dez da noite, quando o rapaz apoiou a cabeça no encosto do sofá, e encarou Giuli profundamente nos olhos.
– Seus óculos te deixam fofo. – Sorrindo, ela disse, e apertou-lhe a ponta do nariz com o indicador.
Instantes depois, William os tirou e voltou a posição anterior. – Você não gosta de mim, sem eles? – Perguntou.
E deixando-se embalar pelos vívidos olhos azuis-claros do rapaz, rodeados e realçados por cílios mais loiros que seu cabelo, junto com o perfume sutil que emanava de sua clavícula e pescoço, Giuli espalmou uma de suas mãos na bochecha do mesmo. O fitou pelo que pareceu uma eternidade, talvez para ter certeza de que o que iria fazer seria consentido e recíproco, e finalmente, o beijou.
Não foi fervoroso tampouco ardente; não houve mais que carícias nas maçãs rosto e suaves toques; fora terno, amigável, amistoso. As línguas, tão tímidas, mal se tocaram; os lábios, mesmo pressionados, nada fizeram sentir no resto do corpo. Nada de arrepios, suspiros ou gemidos. Inconscientemente, Giuli pensou: "Esse deve ser um verdadeiro beijo entre amigos. Com James, não era assim". E se afastaram, cabisbaixos.
Com um sorriso tristonho, ele acariciou os cabelos alaranjados. – Amigos? – Perguntou.
Sentindo um buraco no fundo do peito por não conseguir ocupar ou aliviar a ausência do homem de cabelos compridos em sua vida, a moça sorriu por cima das lágrimas que se formaram nos olhos e não caíram. Segurou a mão daquele que estava em sua frente, e desejou que algum dia, ele conseguisse esquecer ou voltar para os braços daquela que ela sabia que rondava sua mente, mesmo sem ele ter lhe dito.
– Amigos. – Confirmou, e se alinhou com a cabeça no colo do rapaz, focando a atenção nos créditos finais de algum programa, para esquecer as angústias do coração.
*
Depois de parar em alguma lanchonete qualquer, James seguia em direção a sua casa, com um saco de hambúrguer, babatas fritas e refrigerante no banco de passageiro, lhe fazendo companhia. Todos os dias, antes da cinco da manhã, o mesmo se levantava e ia pedalar pelas ruas da cidade, ainda sem tanto movimento. Voltava às seis, tomava banho e se arrumava para chegar pontualmente às sete no trabalho; serviço esse, que o rapaz não sabia se continuaria a desenvolver.
Estacionou o automóvel em frente a sua residência, e saiu do mesmo, carregando as sacolas em mãos. Em meio a caminhada do gramado aos pequenos degraus que levavam a sua varanda, o homem fechou os olhos; estava apreensivo e cansado; desgastado pela rotina maçante que vivia, e no fundo de seu peito, aliviado. Talvez, sair do colégio não fosse tão ruim assim, pensou.
Assim que se pôs a frente da pequena escada e posicionou seu pé direito para começar a subí-la, uma figura pequena e franzina lhe chamou a atenção. Elizabeth estava sentada, com as pernas cruzadas infantilmente, empatando-lhe a passagem para a porta. Mesmo com uma expressão temerosa no rosto, a menina continuou ali, estática, petrificada. Com o cenho franzido, e a raiva começando a correr em suas veias juntamente com seu sangue, o homem fechou as mãos em punhos, encarando-a com o olhar mais furioso que conseguiu.
– O que está fazendo aqui? – Cuspiu ele.
Elevando-se, a garota abraçou-se, esfregando os braços em sinal de receio. – Vim… vim me desculpar. – Disse ela, falha. – Professor, eu não queria lhe causar problemas…
– Mas, causou. – Interrompeu-a, rude. – Causou muitos problemas; o que deu em você, garota? O que passou pela sua mente? Que eu mudaria sua nota se transasse comigo?
Assustada com o estrondo que a voz do homem causou em seus ouvidos e em seu peito, a menina retraiu-se, deixando que as primeiras lágrimas, há muito guardadas, caíssem por seu rosto. Tinha sido uma péssima ideia, ela sabia; o professor Velatti nunca seria cúmplice de tal ato. Elizabeth tinha sido baixa, interesseira e o pior, havia prejudicado alguém que não tinha nada a ver com seus problemas pessoais. Ouvir a voz daquele que sempre lhe ensinou com tanta paciência e doçura, agora embargada de raiva e ódio direcionadas a si, a feriu no fundo mais obscuro de sua alma.
Mesmo sabendo que seu ataque de ira era mais que justificável, James sentiu uma fina agulhada na consciência quando viu a aluna se derramar em prantos a sua frente. Ela tinha problemas, isso era deveras notável; talvez até piores que o do mesmo, mas não o diziam respeito. Ele era seu mestre, e ela, sua aprendiz; nada a mais e nada a menos.
– Elizabeth… – Suspirou, levando os dedos as têmporas, as massageando. – vá embora, por favor.
– Eu… – Ela fungou, recompondo-se. – eu falei toda a verdade para o Sr. Adams, não se preocupe, seu emprego está a salvo.
James deixou o ar sair de uma só vez pelas narinas, sem saber ao certo, se achava aquilo bom ou ruim. – Obrigado. – Murmurou, num fio de voz.
– Eu… vou me mudar. – Disse a garota, enxugando as lágrimas. – Acabei de sair da delegacia, estava indo para casa para arrumar minhas coisas… Vou para um orfanato.
Fitando-a nos olhos, James entreabriu os lábios, dando-se conta de tudo o que sempre esteve bem a baixo de seu nariz, sem que nunca tivesse se movido para interceder. – Você tinha falado do seu pai… – Ele começou.
Com o queixo trêmulo, a mesma assentiu. – Sim, os policiais falaram que ele será preso. – Soluçou. – Eu e o meu irmão seremos levados para um orfanato de outra cidade, por segurança. Eu pedi para vir até aqui, pois precisava me desculpar… Não fiz com a intenção de lhe prejudicar, profe…
E antes que a menina tivesse tempo para terminar suas palavras, o homem largou as sacolas no gramado e estendeu os braços em sua direção, a encaixando em seu peito, sobre a camisa azul de algodão; camisa esta que horas antes, ela havia amassado sobre os próprios dedos. Sentiu as lágrimas descerem quentes dos olhos da mesma, e pousarem no tecido, molhando também sua pele, deixando a culpa lhe consumir. Culpa, e medo pelo futuro daquela pobre criança em meio a um orfanato, onde não teria quem a cuidasse integralmente, pelo contrário, ela teria de cuidar. John, irmão de Elizabeth, era mais novo que a mesma. Lembrou de Ugo, e de como parecia-lhe vulnerável e indefeso, coberto somente por mantas, dentro de uma cesta. A dor queimou-lhe os olhos em forma de lágrimas, e o homem a abraçou ainda mais forte.
– Ficará tudo bem. – Sussurrou-lhe. – Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, não hesite em fazer contato.
Ela assentiu, ainda sem querer soltá-lo, sem querer ir embora e deixar a segurança que o mesmo lhe passava. Por fim, se afastaram. Elizabeth virou-se em direção ao carro estacionado na esquina da rua, onde a assistente social lhe esperava, e não viu as lágrimas grossas que caíram dos olhos do rapaz.
Ele recolheu as sacolas, antes de adentrar sua casa e dar de cara com a típica e já amiga, solidão, que sempre lhe esperava e fazia companhia nas noites frias. Tirou todas as peças de roupas e as jogou pelo chão, no caminho até o banheiro. Abriu o registro e cerrou os punhos quando os jatos de água fria lhe tocaram a pele. Lavou os cabelos e massageou o rosto; queria fazer toda aquela onda de tristeza sair de seu corpo.
Como de costume, não conseguiu. Já vestido com a calça de moletom, que não era lavada há três dias, jogou-se na cama. De braços abertos, o mesmo tomava todo o móvel, coisa que o fazia sentir-se mais solitário ainda. Agarrou-se a um cobertor, e decidiu que adotaria um animalzinho de estimação no dia seguinte; talvez assim, se sentisse melhor.
Virou-se para a esquerda, e encarou o negro telefone que repousava por cima de uma bancada ao lado da cama. Não precisaria de esforço algum, seria só esticar o braço e discar o número que sabia de cor. Assim o fez, e depois de alguns instantes, a voz da amiga lhe aqueceu os ouvidos e o coração.
– Giuli? Sou eu, James.
Com os pensamentos ainda tomados pelo sono, Giuliana elevou o tronco do colchão e cobertores que antes estava deitada. Olhou ao redor, meio atordoada, e vendo Luiggi deitado a seu lado, conseguiu por a mente em ordem.
– Jamie? – Perguntou, assustada. – Aconteceu alguma coisa?
– Não. – Ele disse, cabisbaixo. – Quer dizer... – Engoliu em seco. – Como você está?
– Com sono. – Riu, ela. – Já passa de meia-noite.
– Ah, é... – Sorriu, desconcertado. – Fuso horário; eu me esqueci completamente. Me desculpe, a gente pode se falar outra hora...
– Não. – Exclamou. – Não, Jamie, pode falar. Não estou mais com... tanto sono. – Riu, envergonhada. – Você está bem? Está com a voz triste.
– Acho que... – Suspirou, e lançou o olhar para o teto, sem saber como lhe dizer. – estou com saudades, Giuli. Acho que é isso. Sinto sua falta.
Mirando os próprios dedos, a moça lutou contra a vontade de dizer: "Então volte, estou te esperando", e pirrageou, respirando fundo. – Eu também sinto, Jamie. – Murmurou ela. – Mas, sabe... hoje eu fiz algo que pensei nunca ser capaz, depois que você se foi... – Segredou-lhe. – Um amigo.
– Eu... eu fico feliz. – Falou ele, mesmo sentindo uma profunda dor lhe corroendo o peito, e as gotículas nos olhos.
– Eu também, Jamie. – Sorriu, triste. – Também fico feliz. – Mentiu, por cima das lágrimas, da dor e da saudade. Mentiu, pois felicidade, não era o que ambos estavam sentindo. Felicidade era algo imensamente maior que fazia bem a alma. E no momento, a alma dos dois, escorria pelo rosto, enquanto a boca falava palavras inverídicas e dolorosas. Doloridas e machucadas.
– Boa noite, Giuli. – Sussurrou, mesmo sem escuridão. – Eu te amo.
Sentindo a patinha de Luiggi lhe tocar a coxa, e o rosto molhado, a moça pregou as pálpebras. – Também te amo, Jamie. Boa noite.
*
Fale com o autor