Margaridas de Inverno
6 Capítulo VI – Margaridas e sentimentos
Capítulo VI – Margaridas e sentimentos
“Não existe nada de completamente errado no mundo; mesmo um relógio parado, consegue estar certo duas vezes por dia.”
Paulo Coelho
Paris e Giverny, França, 1997.
Era inverno. Por conta da geada que ocorrera na noite anterior, a pista estava lisa e escorregadia; e os pneus do carro James, derrapavam, vez ou outra, sendo vista que a motorista havia tirado a própria carteira de habilitação há alguns meses. O clima não estava, exatamente, frio. A estação exoticamente escolhida para tal viagem, não era das mais favoráveis, porém, era de agrado de ambos. Paris ficava especialmente bonita, coberta de neve.
O rapaz tinha um mapa do país desajeitadamente posto sobre o colo; cheio de dobras, riscos e pequenos rasgos. Em mãos, levava um exemplar de “50 dicas para falar francês”, e o lia com descaso, pulando parágrafos e mais parágrafos, achando desnecessária a maioria das estruturas gramaticais que o indicavam que aprendesse. Vez ou outra, franzia o cenho de forma abrupta e consequentemente cômica; arrancando risadas da amiga. Numa destas vezes, a flagrou; e cerrando os olhos em sua direção, fez bico.
– Do que está rindo? – Perguntou, em tom ameaçador. Porém, sabia ele, que poderia meter medo em qualquer pessoa, menos em Giuli.
– Você é engraçado. – Disse ela, voltando a fitar o trânsito. Riu mais uma vez, fazendo as bordas dos olhos rugarem, e os lábios repuxarem para próximo às orelhas; e mesmo sem querer, a visão fez Jamie também sorrir.
– Não sou engraçado. – Rebateu, jogando um dos braços por cima dos ombros da moça, no embaraço laranja de seus cabelos. – Você que ri de tudo. – Querendo irritá-la, o rapaz passou o próprio nariz no lóbulo da orelha da mesma, fazendo cócegas.
– Jamie, pare de me atrapalhar enquanto estou dirigindo. – Esquivou-se, fingindo estar enfezada. – Olhe, já estamos chegando! – Avisou, ela. Os céus, num tom de azul cinzento, faziam juízo a estação. Estacionando o automóvel no lugar que seu pai tinha indicado, a moça arregalou os olhos. – Mas, isso é um hotel ou um palácio?
– Capitão Afonso não poderia deixar sua garotinha dormindo em qualquer lugar, poderia? – O amigo disse, sarcástico. Dando uma total olhada no local, James deduziu que aquele deveria ser um dos bairros mais sofisticados de Paris. A grama verde, as flores com cores límpidas, vivas e padronizadas, e até mesmo as pessoas que andavam por ali. Todos inspiravam e expiravam dinheiro. Não era esse tipo de viagem que eles tinham planejado. – Seu pai deve ter gastado mundos e fundos para pagar a estadia aqui.
A garota pôs a palma da mão sobre a testa. – Poderíamos ter usado esse dinheiro para viajar por toda Europa. – Disse, desanimada.
Franzindo as sobrancelhas, e devaneando sobre a súbita e inocente ideia da amiga, uma luz foi avistada na escuridão do túnel da mente de James. – Gostaria de fazer isso? – Perguntou ele, lançando-lhe seu sorriso sacana.
– Isso, o quê?
– Viajar por toda Europa, oras. Temos o carro, temos o dinheiro que seu pai deve ter deixado nesse hotel, temos um ao outro. Do que mais precisamos?
Giuli o olhou, confusa. Os mesmos ainda estavam devidamente sentados em seus acentos, e ela com os dedos por cima do volante, pronta para outra viagem. No caminho, poderia trocar com James, deixá-lo conduzir o automóvel pela noite, já que já passava no horário do almoço, e seja lá para onde fossem, deveria ser longe. Tinham o carro, e supostamente, o dinheiro. Mas, as únicas palavras que fizeram-na considerar essa ideia mirabolante, foram as últimas. Tinham um ao outro.
O suspiro que saiu de seus pulmões e passou por seus lábios, foi intenso. – Como pegaremos esse dinheiro? – Perguntou ela.
O sorriso dele, por outro lado, foi malicioso. – Se a recepcionista for mulher, deixe comigo.
Giuli esperou. Esperou, impacientemente, durante longos vinte minutos. Seu amigo tinha saído do carro, com o sorriso de lado que sempre levara as venezianas à loucura. Mesmo significando que ficariam sem o dinheiro, e que teriam que continuar no hotel, ela desejou que com as francesas fosse diferente.
Até que sentiu a porta bater do lado oposto do automóvel, e os olhos azuis do amigo cerrarem em frustração. Giuli mordeu o lábio para conter um sorriso que queria lhe escapar.
– O que houve?
– Não gosta de homem.
Deixando a cabeça tombar no volante, a risada lhe saiu alta e estrondosa. Estava tão feliz, que não sabia expressar. – Oh, você jura? – Perguntou, sarcástica. – Vai dizer isso todas as vezes que levar um fora?
– Eu não levei um fora. – Rebateu.
– Então, por que essa carranca? – Disse ela. – Está com cara de quem chupou limão com casca e tudo.
– Ela, a recepcionista, te viu. – Falou, ríspido, sem a olhar nos olhos.
– E? – Perguntou, esperando que ele continuasse.
– Disse que talvez pensasse no nosso caso, se você fosse falar com ela.
James sabia bem o tipo de conversa que a loira queria com sua amiga. O jeito que se referiu à ela, como "a ruiva com pele suave" o deixou possesso. Ele tinha a encarado com o semblante mais furioso que conseguiu, e deixado bem claro que a pele era muito suave sim, e que só ele poderia dizer isso, pois só ele tinha a tocado. A loira, por outro lado, mordeu os lábios em animação. "Peça para ela vir falar comigo, ou sem devolução.", era o que tinha dito.
– Vamos ficar no hotel. – Ele brandou.
– Nada disso. – Giuli rebateu, tirando o cinto segurança. – Vou falar com ela.
Sua mão já estava na trava da porta do carro, quando James a segurou. – De jeito nenhum. Ela vai te puxar para algum armário de limpeza, e fazer "sabe-se lá o quê" com você, lá dentro.
– James, eu sei me cuidar. – Disse, decidida.
– E eu também sei cuidar de você. – Falou. – Não vai falar com ninguém. Não, sozinha.
– Então, venha comigo, e pare de apertar meu pulso, está machucando. – Concluiu, saindo do carro e sendo seguida por ele.
Em quarenta passos, estavam os dois, na recepção do hotel. A mulher, com aparentes trinta e poucos anos, tinha o cabelo loiro e fino amarado em um curto rabo de cavalo, deixando uma rala franja cair sobre sua testa. Lixava as unhas tranquilamente, só dando-se conta da presença de ambos, quando já estavam a sua frente. Seus olhos cinzentos tinham um brilho peculiar e felino, que Giuli jamais tinha visto.
– Bonjour... – Falou a garota, concentrando-se nas letras miúdas do crachá da recepcionista. – Margot.
– Bonjour, mademoiselle. – Respondeu ela, com o forte sotaque francês. – Posso ajudá-la?
– Sim, nós somos turistas italianos. – A ruiva disse. – Foram feitas reservas em nossos nomes, para uma estadia de uma semana. Giuliana Liuzzi e James Velatti.
Digitando algo na máquina com fundo grande e amarelado que chamavam de computador, Margot desviou o olhar por alguns instantes. Logo após, eles estavam fitando Giuli novamente. – Sim, as reservas foram feitas e já estão pagas.
– É exatamente neste ponto que queríamos chegar, querida. – Giuli sorriu, e Margot a acompanhou. – Meu amigo já deve ter lhe falado que por conta de motivos pessoais, nós não poderemos passar toda a semana em Paris. Portanto, nós queríamos saber se poderá haver a devolução do dinheiro.
– Talvez sim. – Margot, novamente, abriu seu sorriso amarelado. Ao seu lado, encontrava-se um cinzeiro, e rapidamente, James descobriu o motivo do cheiro desagradável. Aquela mulher não o agradava em nada.
– Nos diga o que podemos fazer para que haja a devolução. – Grunhiu, seco.
– Você parecia bem mais simpático, enquanto flertávamos, querido. – A loira devolveu, fazendo-o franzir os lábios em desgosto.
– Não o leve em consideração. – Giuli interviu, rápida. – Está cansado da viagem. Mas, diga-me, Margot: O que podemos fazer para que haja a devolução?
– Terão que ficar no hotel no mínimo, por dois dias, e posar para mim. – Respondeu, risonha.
– Eu não entendi. – Giuli disse.
– Nem eu. – James completou.
– Sou pintora, mes petits. Minha alma de artista despertou meus olhos quando os vi adentrando o estacionamento, e como a vida é muito boa comigo, aqui estão vocês me pedindo um favor. A oferta, é a seguinte: Fiquem em Paris, hoje e amanhã; posem para mim, e eu lhes dou toda a devolução do dinheiro. Simples e fácil.
– Não aceitamos. – James foi duro.
– Por que não? – Giuli, imediatamente, perguntou. – Me parece uma boa oferta.
– Boa oferta? – Ele a encarou, incrédulo. – Ela quer vê-la nua! Quer nos ver nus!
– Na verdade, não tinha pensado em nu artístico, mas é uma bela ideia, meu rapaz.
– Céus, Giuli! Pense um pouco! – James brandou.
– Sou a dona do hotel, querido. – Margot pronunciou-se. – Se quer a devolução, terão que aceitar.
Entreolhando-se, ambos pensaram sobre a oferta. James ainda encontrava-se arisco, desgostoso, não agradava-se com chantagens ou condições; tinha um espírito aventureiro, de fato. Já Giuli, adorava arte, até ficara empolgada com a ideia; além de se tornar modelo durante alguns dias, ainda teria a oportunidade de conhecer Paris e outras cidades.
Ao fim da tarde, os dois já estavam hospedados no apartamento 210.
*
– Ainda não acredito que aceitou isso, Giuli. – James resmungava, enquanto tirava a blusa e jogava em algum canto sobre o sofá.
– Não será novidade para você, afinal, metade de Veneza já o viu sem roupa. – Ela rebatia, enquanto puxava a mala para dentro de um dos quartos.
Com as mãos na cintura, o mesmo parou em meio ao corredor, bloqueando-a. – Por que está falando assim comigo? – Perguntou, direto.
– Estou falando normalmente com você. – Ela respondeu. – Só acho que já aceitamos a oferta, e nem é tão ruim assim. Poderemos conhecer alguns lugares de Paris hoje e amanhã, já que só posaremos pela tarde. Depois, ela nos dará a devolução e partiremos para outra cidade. Não é isso que quer?
Desviando o olhar para os quatro canto do apartamento e sentindo as bochechas arderem, James deu-se por vencido. – Não quero que fiquem olhando pra você. – Sussurrou, como uma confissão.
– Não me encha de proteção, como meu pai, Jamie. Já conversamos sobre isso. – Um suspiro saiu por seu nariz, e uma de suas mãos afagou o braço nu do rapaz, em uma tentativa de tranquiliza-lo. A pele quente em contato com seus dedos gélidos fizeram-no arrepiar e suavizar a dura expressão. Neste momento, as pupilas já tomavam conta de sua íris azul quase que completamente. James queria ficar nu com Giuli; mas sozinhos, em seu quarto, entre suas cobertas. Infelizmente, algo o dizia que seria um cafajeste se fizesse isso.
A palma da mão dele foi de encontro a bochecha da moça e lá se encaixou perfeitamente. Giuli fechou os olhos com a carícia, e em segundos, seus corpos estavam colados em um abraço quente e acolhedor.
– Estou crescida, Jamie. – Disse ela, enquanto sentia o calor do peito do amigo.
– Não quero deixar de te proteger, por conta disso. – Murmurou ele, apertando-a ainda mais.
A moça sorriu, passando a encará-lo. – Que tal esquecermos isso, por um tempo? Estamos em Paris, Jamie! Paris! – Exclamou, animada. – Vou tomar banho, e depois daremos uma volta pela cidade.
Forçando um sorriso, ainda meio triste, James assentiu. Sentiu frio quando a moça de cabelos flamejantes desvencilhou-se de seus braços, e levou a mão ao coração, massageando o lugar, querendo fazer tal sentimento aquietar-se. Sim, Giuli já era uma bela mulher, não precisava de tanta proteção, sabia cuidar de si mesma. Será que por isso, ele estaria a perdendo? Foi tudo o que pensou, antes de ouvir o barulho da água caindo do chuveiro.
*
A neve tinha cessado, e segundo os meteorologistas, a próxima nevasca só aconteceria dali há três dias; tempo suficiente para que ambos se deslocassem de Paris, para outra cidade das redondezas. Apesar da notícia, ainda estava frio. As botas de Giuli tinham um tom mais claro de castanho, enquanto as de James, desenhavam-se a seus pés, em um achocolatado, parecido com o de seus cabelos. Trajando calças e casacos, ambos caminhavam em direção ao Campo de Marte*. A grama, antes verde na primavera, agora adormecia sob lençóis e mais lençóis de neve. As camadas grossas e brancas davam ao lugar, um tom de paz e tranquilidade, poucas vezes vista em uma cidade tão visitada.
Em meio a tanta brancura, os cabelos de fogo de Giuliana não necessitavam de muito para destacarem-se. Camuflados com uma toca de lã, brilhavam em direção aos olhos de qualquer um que cruzasse seu caminho. Jamie a abraçava pelos ombros, puxando seu corpo para colar-se ao seu. Há tempos, sentia os abraços menos quentes, e os beijos, mais amigáveis do que amorosos. O laço de amizade que os prendia não estava desgastado, longe disto. Mas, algo dizia ao rapaz, que mais cedo ou mais tarde, um outro homem poderia adentrar a vida de sua amiga. Poderia amá-la assim como si próprio, e ser somente dela; coisa que o mesmo ainda não era. Vez ou outra, enquanto degustava de seu conhaque predileto no bar que costumava frequentar em Veneza, perguntava-se se conseguiria fazer a amiga feliz, caso engajassem um relacionamento sério. Talvez, fosse até mais fácil do que imaginava. Mas, logo, o torpor do álcool lhe atordoava os olhos, e uma bela garçonete entrava em sua linha de visão. Esta, pensava ele, não precisava de esforço ou carinho algum; afinal, sorria para qualquer um que lhe desse uma gorjeta maior ou uns belos tapas no traseiro. Giuli era diferente. Gostava de desenhar, era tão boa nos rabiscos, quanto Shakespeare com as palavras. Era doce, meiga, e ao mesmo tempo, decidida. Apesar do dom nato, amava as flores, e queria ser botânica. Trabalhava na floricultura da cidade, e seria a mãe perfeita de quantos filhos tivesse. Voltando a pensar em si, James sentia-se inferior. Sua única vontade era estudar geografia, para saber mais sobre todos os lugares que ainda passaria, enquanto viajasse. Queria andar, voar se possível. Não era o ideal para Giuli. A decisão, apesar de dolorosa, era a melhor para ambos. Se algum homem merecedor entrasse no caminho da garota, James não se colocaria à sua frente. Tudo o que mais queria, era vê-la feliz.
– É mais alta do que imaginava. – Falou ela, sorrindo, e olhando para cima, onde a torre Eiffel fazia-se grandiosa. James, no entanto, olhou para a feição da mesma, que à seu ver, era imensamente mais bonita que qualquer coisa que já tivesse visto. Franziu o cenho enquanto fechava os olhos com força, querendo que tal dor que invadia seu peito fosse embora. Sem sucesso, voltou os olhos para a torre, que vista de baixo, parecia-lhe assustadora. "Você é um moleque idiota!", ela lhe gritava.
*
– Sejam bem vindos à um pequeno pedaço do meu paraíso particular. – Dizia Margot, em tom melodioso, enquanto dava espaço aos dois jovens italianos para que entrassem em seu ateliê.
Era um apartamento sem cômodos. Um quarto feito somente com um propósito; pintado de areia, com jornais espalhados por todos os cantos do piso, com a exceção de um único lugar, onde um colchão forrado com seda azul, posto sobre uma plataforma de madeira; podia ser visto.
Ao redor, escorados em quase toda a extensão das paredes; quadros e mais quadros faziam-se presentes; cintilantes e vívidos. Boa parte retratava pontes sobre canais, o campo de Marte, ou somente, a grandiosa Torre Eiffel. Outros, em menor quantidade, traziam casais. De todos os tipos, cores e formas. Haviam gordos, magros, negros, pardos, brancos. Alguns dançavam, outros cozinhavam ou, até mesmo, faziam amor. Todos juntos, abraçados, ligados.
De olhos arregalados em admiração, Giuli perambulava por entre as obras, fazendo de si própria, uma arte viva. Fazendo com que as duas outras pessoas presentes no local, a fitassem e a almejassem; uma com os olhos, outra com o coração.
– Nunca pintei ninguém com os cabelos desta cor. – Murmurou Margot, para James, enquanto ambos ainda encaravam-a. – Me sinto encantada, só de olhá-la.
– Se seus cabelos fossem do mais comum dos castanhos ou loiros, eu ainda me encantaria. – Falou o rapaz. – Não tem a ver com a cor dos cabelos, mas sim, com a cor da alma.
Sorrindo, a mulher fitou-o. – Oh, estou lidando com um homem apaixonado.
Sendo pego de surpresa, James retraiu-se. A olhou de esguelha e de imediato, deu de ombros. Afinal, não tinha porquê desabafar com aquela mulher; que parecia tão ardilosa quanto maquiavélica. – Vamos logo, com isso. – Disse ele, um tanto mais alto, para que a amiga também o escutasse.
Em poucos minutos, estavam ambos sentados sobre o colchão, no centro do ateliê. James, completamente nu, somente com o tecido azul que lhe cobria da cintura para baixo, ainda deixando suas pernas expostas. Em meio a estas, Giuliana encontrava-se sentada, com os joelhos trazidos ao próprio tronco, onde escondiam seu busto; trajando somente uma calcinha turquesa.
Andando em círculos ao redor da plataforma, Margot, com seus felinos olhos cinzentos, captava cada detalhe de ambos modelos. A tensão nos músculos dos braços do rapaz, por exemplo, que seguravam seu peso; o leve arrepiar da pele da nuca exposta da garota… Isso significava que ambos estavam um tanto nervosos, apreensivos… A pintora, logo, daria um jeito naquilo.
Cerrando as sobrancelhas, sua voz foi ouvida. – Quero que se aproximem o máximo possível. – Brandou ela. – Quero seus corpos quase fundidos em um abraço. Quero suas costas no peito dele, seus braços em volta das coxas dela, as segurando. Finjam que acabaram de fazer amor, e que o amor, mesmo acabado, não findou…
Ouvindo cada palavra como um som ecoado há quilômetros, James a tocou. Primeiro a palma de suas mãos deslizaram dos ombros por toda extensão dos braços; destes, passaram para as coxas; e por baixo destas, entrelaçaram-se; imitando uma espécie de corrente, que a prendia, que a amava.
Sentindo-se incendiada pelos suaves toques, Giuliana deixou o pescoço cair para um lados, sentindo todo o emaranhado de seu cabelo. No outro, Jamie depositou seus lábios, seus beijos, seus carinhos. A apertou firme; não queria deixá-la ir embora. A queria perto; bem perto, bem sua.
Nesta posição, os dois ficaram. Margot sorriu, estasiada com a visão; Giuli suspirou, tentando calar seu coração; e Jamie… Jamie despertou. Se ele queria que aquela moça fosse bem sua, primeiro, ele teria que ser bem dela.
*
“Giverny não era uma cidade, mas sim, uma comuna francesa.” Algo nessa especificação saídas dos lábios de Giuli, atraiu os olhos de Jamie, para que com os dela, se cruzassem. A grandiosidade de Paris tinha sido deixada para trás, no exato instante que ambos sentaram-se nos bancos do automóvel. A devolução já tinha sido feita no dia anterior, assim que a tela de Margot acabara de ser pintada. Na despedida, Giuliana tinha a abraçado; e James, num retraído aceno de cabeça, tinha avistado as sobrancelhas arqueadas da mulher. Num último momento, ela havia lhe gritado: "Se a felicidade estiver batendo, apanhe, meu rapaz", e com um casto sorriso, ele deu partida e pisou no acelerador.
Agora, estavam ambos, Jamie e Giuli, novamente sós. Em mãos, ela levava o livro "50 lugares para visitar na França"; já ele, tinha o volante. Embalados em um confortável silêncio até instantes antes, pensavam sobre tudo que estavam vivendo. O rapaz; em meio ao desapontamento de seu pai, cujo pensava que seguiria a carreira do exército, e ainda, com as angústias que levava no próprio peito; deixava a respiração sair pesada por entre os lábios, tentando esvaziar o pulmão e a alma. A moça; absorta em dúvidas e mais dúvidas, deixava outra pergunta formar-se em sua mente: "Eu já havia me conformado em ser somente amiga, então por que, fora tão difícil dormir no quarto ao lado na noite anterior?". Para mudar os pensamentos, voltou os olhos para o livro que trazia, e leu em voz alta a citação sobre Giverny.
– Você acha uma boa ideia? – Perguntou ele.
– Pelo que li, é há poucos quilômetros daqui. – Explicou, e passando o olhar pelas entrelinhas, sorriu. – Pelas imagens, é um lindo lugar.
– Próxima parada: Giverny! – Exclamou o rapaz, arrancando risadas da amiga.
Durante curtos instantes, encararam-se profundamente. Calaram as risadas, juntaram as mãos; e entrelaçaram os dedos, assim como suas vidas.
Assim que chegaram ao local, Jamie estacionou o carro ao lado da único pousada da comuna. Pequena e toda revestida em madeira rústica, a estalagem tinha cheiro de pães e cafés. Parando em frente a mesma, Giuli sorriu. Encarou James, e o mesmo não conseguiu evitar abraçá-la. A envolveu nos braços, e a acarinhou as maçãs do rosto. Eram quase tão rubras quanto as madeixas da mesma.
– Queria lhe dizer… – Começou ele, interrompendo-se logo após, e engolindo em seco. – lhe dizer que… – As palavras morriam em sua boca; e sentindo o coração acelerar, Giuli fitou-o com os olhos cheios de apreensão e esperança. – que… estou… – Forçou os olhos, e balançando fortemente a cabeça, expirou de uma só vez. – simplesmente… adorando a viagem.
Franzindo minimamente as sobrancelhas, Giuli encolheu-se. Durantes rápidos instantes, as esperanças de que o amigo lhe dissesse outras palavras, foram mínimas, mas existentes. Piscando repetidas vezes seguidas, a mesma abaixou o olhar, antes de respondê-lo. – Oh. – Exclamou baixinho. – Eu… eu também estou gostando. Gostando… de verdade.
Antes que o rapaz tivesse outra chance de dar voz à seus verdadeiros sentimentos, ruídos de chinelos de couro arrastando-se contra madeira, chegaram à seus ouvidos. Um senhor, de aparentes sessenta e tantos anos, encontrava-se sentado em uma cadeira de balanço na varanda da pousada, com uma das mãos posta em sua própria perna, e a outra, sobre uma bengala de madeira desgastada. Olhando-os como se fossem espelhos sem luz, o senhor não estressava emoção alguma; permanecendo imóvel, sem dizer absolutamente nada. Ainda assustados com a presença; Jamie, inconscientemente, apertou Giuli ainda mais em seus braços. Respirou fundo, inflando o peito, e forçou um sorriso.
– Olá?! – Disse o rapaz. – O senhor é o dono da pousada? – Perguntou.
– Ele não fala. – Brandou uma voz vinda de dentro da estalagem. Em passos trôpegos, uma simpática senhora saiu pela porta da mesma, fazendo seu rodado vestido visível. Tinha barriga e seios fartos, cobertos por roupas em tom de anil e pastel; cabelos ralos e brancos, com mechas castanhas nas pontas, indicando uma possível tintura que estaria por se acabar, e a pele do rosto com tantas pregas, que quase lhe encobriam os suaves olhos verdes. Exceto pelas vestes, era idêntica ao senhor. – Desculpem-o, por favor. Ele sempre fica assim quando vê um casal.
– Tudo bem, não se preocupe. – Giuli pronunciou-se, oferecendo à mulher um sorriso amigável. – A senhora é a dona da estalagem? Gostaríamos de nos hospedar.
– Sim, sim. – Respondeu ela, animada. – Entrem, les enfants.
Ambos adentraram a varanda rústica, caminhando lado a lado. Em certo momento, James ficou alguns passos atrás das mulheres, e sentindo uma fisgada nos dedos de sua mão esquerda, parou abruptamente. O senhor havia lhe segurado a mão.
Os olhos, antes inexpressivos, agora transmitiam uma dor tão avassaladora, que seria capaz de cortar o coração do rapaz em pedaços. A mão, que tremia em contato com a sua, arrepiava-o; não de medo, mas sim, pela comunicação ali iniciada.
– Pessoas boas sofrem. – Sibilou o velho, quase sem voz. – Não adianta ser bom, se não há quem o faça feliz.
– Eu sou feliz. – Murmurou o rapaz.
– E quando ela se for? Você ainda será?
Jamie sentia suas entranhas contorcendo-se por baixo de sua pele. Sentia suas veias e artérias correndo o sangue, seu coração bombeando-o, e sua mente à farfalhar. Durante vagos e curtos instantes, viu-se sozinho em meio ao nada, gritando o nome da amada, sem resposta lhe chegar. Viu-se com frio, sem os cabelos de fogo para lhe esquentar, e fingindo fazer amor com outras, sem com nada, se agradar. Queria correr, fugir; até encontrar um lugar onde se aquietar. Mas, esse lugar, sabia ele, era nos braços daquela que tinha tomado seu coração, e lhe ensinado a amar.
– Minha felicidade foi embora com a dama que amei, e ainda amo. – Disse o senhor. – Agora, só abro a boca neste mundo imenso e imundo, para alertar pessoas como você. Não cometa o mesmo erro que eu. Não a deixe ir.
– Jamie? – A voz melodiosa de Giuliana soou nos ouvidos do rapaz, fazendo-o cortar a conexão com o senhor; tanto nas mãos, quanto nas palavras. Ele a fitou, ainda de olhos arregalados. – Você vem? – Perguntou ela.
– Sim. – Confirmou, sem dar-se conta do que realmente estava falando. – Irei, daqui há alguns instantes. Você esperará por mim? – Perguntou, em forma de súplica.
Giuli sorriu. – É claro. – E sumiu por entre a entrada da estalagem.
Novamente com o olhar voltado para o senhor, Jamie engoliu em seco. – Como se chama? – Disse ele.
– Esqueci-me de muitas coisas. Porém, lembro-me de minha mãe me alertar a não dizer meu nome, antes de saber o do forasteiro. – Respondeu o senhor.
– Me chamo James.
– Jean. Não Valjean*, mas Baudelaire. – Um súbito sorriso nasceu na face gasta, mas logo sumiu. – Ela gostava de fazer esse adorável trocadilho.
– Gostava de Victor-Hugo?
– Assim como peixes gostam de água. Se chamava Annie... – Murmurou.
– Como a perdeu? – Perguntou o mais novo.
– Uma história triste demais para um rapaz tão cheio de vida. – O senhor abaixou os olhos, e os fechou para não chorar. Era velho demais para aquilo. – A vida é dura e não se apega à ninguém, diferente de nós. A vida leva e nos deixa sós.
Sós. Só. Sozinho. As palavras embaralhavam-se e soavam no fundo na mente de James, fazendo-o pregar os olhos em confusão. Não queria ficar sozinho. Queria ter alguém, mas não desejava ser dependente. Queria ser sempre livre… Mas, talvez, o seu conceito de liberdade estivesse equivocado.
*
Giverny era extremamente florida, apesar da estação. Haviam jardins e campos por todos os lados possíveis, e mesmo que Giuliana corresse, encantada com cada canto daquele lugar; James, não demonstrava ter paz. Os poucos flocos de neve que ainda caíam irritavam-lhe a pele, os galhos das árvores arranhavam-lhe os braços, e o cheiro das flores faziam seu nariz pinicar. Estava tentando, pela milésima vez, matar um mosquito que insistia em lhe embravecer, quando a voz da amiga lhe encheu os ouvidos.
– Jamie, venha até aqui. Rápido.
Arrebatado pelo entusiasmo da garota, Jamie correu em sua direção. Passou pela modesta ponte que beirava o lago congelado, cruzou todo o Jardim de Monet*; e parando por curtos segundos, sem saber onde encontrá-la, a viu. Tinha as suaves mãos sobre o peito, os grandes olhos castanhos arregalados e os robustos lábios rosados entreabertos. Ela fitava o campo tão intensamente, que o rapaz desejou ser o alvo daqueles olhos. Aproximou-se, fincando seus pés ao lado dos delas, e permitindo-se esvaziar os pulmões.
– É tão bonito. – Disse Giuli, ainda hipnotizada.
– Não tão bonito quanto você. – Ele respondeu, sem fitá-la. Sem conseguir resposta, o mesmo prestou mais atenção na visão que tinha a sua frente. – Pensei que margaridas gostassem de sol, do verão.
– E gostam. – Confirmou ela. – Mas estas parecem ser, especialmente… intensas. Estão enfrentando o inverno mais bonitas do que nunca. Tão delicadas… Tão intensamente... fortes.
Abaixando o rosto, pela primeira vez, o rapaz a encarou. – Também somos assim?
– O que quer dizer? – Perguntou, sem tirar o olhos do campo de margaridas.
– Também enfrentamos os invernos, sem nos deixar fraquejar? Também somos intensamente fortes?
– Intensos, sim. Fortes, também; mas não, invencíveis. – Respondeu.
– Não me sinto forte, Giuli. Me sinto vazio.
– Também me sinto assim. – Respondeu ela, virando-se para encarar o rapaz. – Me sinto assim há muito tempo, James, há anos. Quando estou com você, me sinto bem…
– Mas, quando penso que você não me pertence… – Completou ele.
– Não posso me doar inteiramente, enquanto isso não for recíproco. – Crispou os lábios, querendo não chorar.
– Quero que seja recíproco… – Confessou ele, murmurando. – Quero que seja minha… Giuli, eu quero ser seu. – Segurou nos dedos de unhas sem esmaltes da moça, e os apertou. – Eu sempre achei que… que você merecia alguém melhor. Alguém realmente merecedor, mas… descobri que à meus olhos, ninguém será merecedor de tê-la, pois… pois, você é perfeita demais pra quem quer se seja…
– Não me diga essas coisas, Jamie. – Pediu ela. – Sempre o amei, e perfeições não existem. Amo tantos seus defeitos, que para mim, eles se tornaram qualidades…
– Me perdoe por ser tão imaturo. Eu… quero tentar consertar isso… de alguma forma. – Abaixou o olhar. – Sei que posso estar sendo egoísta, mas… por favor, dei-me esta chance.
Giuli balançou a cabeça negativamente. – Não sei lhe dizer “não”.
E assim, consumaram o ato mais puro de todo e qualquer apaixonado. Beijaram-se, amaram-se.
*
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