Margaridas de Inverno
5 Capítulo V – Pertencer
Capítulo V – Pertencer
"Seu corpo nú, só deve pertencer a quem se apaixonar por sua alma nua."
Charles Chaplin
Veneza, Itália, 1995.
A crina do cavalo que James montava, voava livremente e negra por onde passava. Os passos rápidos e experientes davam confiança e orgulho à qualquer um que subisse em sua cela, e como em quase todos os finais de semana, ali estava ele, galopando e deixando a mente descansar por algumas horas. James tinha descoberto o amor por cavalos há pouco tempo, não mais que 3 meses; mas a partir dali, o hobby tinha se tornado firme e relaxante.
William, colega de colégio e infância, montava um belíssimo e branco Mangalarga Marchador logo atrás de si. Com o passar dos anos, havia se tornado o amigo do sexo masculino mais próximo, e com a paixão por equinos sendo compartilhada; costumavam sair muito.
O haras do Sr. Japozzi, antigo professor de ciências de ambos, era amplo e sofisticado. Tinha os mais diversos e belos tipos de cavalos; e contando com um apoio financeiro mensal, deixava que os garotos usufruíssem de seus animais de bom grado.
Depois de longas galopadas, os dois puxaram as rédeas de cada animal, fazendo-os pararem lado a lado. Tinham as bochechas rubras pelo esforço, e o suor descendo pelas laterais dos rostos. Sorriram quando se encararam, e logo, deram a volta, indo em direção ao estábulo. Os cavalos já estavam com sede.
– James, preciso falar com você. – Disse William, assim que retirou a sela do cavalo que usara, e a pusera sobre uma das tábuas do local.
Jogando o já comprido cabelo castanho para trás com uma das mãos, James respirou fundo, estava cansado. – Diga. – Falou.
William era um típico francês. Tinha o cabelo grosso e loiro ajustado em um corte não tão baixo; os olhos claros, em variantes do tom de azul; e as bochechas sempre rosadas pela coloração extremamente alva de sua pele. Havia vindo com os pais para a Itália, ainda bebê; e assim como James, tinha 18 anos, e uma bela lista de pretendentes à sua espera. Mal sabia o amigo italiano, que o francês rapaz não almejava qualquer uma.
Abrindo e fechando os lábios algumas vezes, antes de balbuciar algo, William corou. Nunca se sentira dessa forma. – É sobre a Giuli. – Confessou, encarando a reação do outro.
James, imediatamente, franziu o cenho. Não gostava do nome da amiga sendo pronunciado por outras bocas, ainda mais, de forma tão íntima. O apelido fora dado por ele, e por conta disso, sentia-se um tanto quanto mais possessivo em relação à garota. Esse sentimento, rondava o fundo mais sombrio de seu coração; por fora, o mesmo não deixava transparecer, ou sequer admitia tal fato. – O que quer falar sobre ela? – Perguntou.
– Vou convidá-la para sair. – Indagou o outro, abrindo um sorriso confiante, e talvez até, repleto de expectativa. Acreditava que se tivesse o apoio do amigo, as coisas seriam bem mais fáceis.
Encarando-o por mais algum tempo, James, simplesmente, deu de ombros. – Vá em frente.
– É só isso que tem a me dizer? – Perguntou, confuso. Com certeza, esperava mais de sua reação.
– O que quer que eu diga? – Disse ele.
– Não sei... – Falou o loiro. – Talvez, um apoio, uma discordância...
– Não me oponho a sua atitude, vá em frente, chame-a para sair. – Disse James, escorando-se em uma coluna. – Só não espere muita coisa...
– O que quer dizer?
– Giuli não é do tipo que cai na sua lábia de francês barato, Will. – Riu, debochado. – Mas, continuo a dizer, vá em frente. Se quiser pagar para ver, é claro.
Passando a entender o rapaz, William também sorriu. – Não é o que está pensando, James. Estou disposto a conquistá-la.
– Duvido muito. – Rebateu.
– Pois então, provarei à você. – Disse, desafiador.
– Não deixarei que a machuque. – James concluiu, e deu-lhe as costas. Fez o mesmo processo que o outro rapaz, e retirou a sela e as rédeas de seu cavalo. Pendurou-as no suporte apropriado, e seguiu para fora do estábulo, sem olhá-lo.
Era começo de primavera. A grama sob suas botas era verde e vívida, assim como as folhas presas nos galhos das árvores. A ventania era agradável e bem aceita por conta raios de sol que lhe aqueciam a pele exposta dos braços. O tempo tinha passado; e o rapaz, crescido. Aos 18 anos, seus antebraços já tinham ganhado a massa muscular proporcional, assim como as coxas, que tinham se tornado fartas e bem torneadas. Tinha pouco mais de 1,78 de altura, e os castanhos cabelos, agora, já caíam pelos ombros.
A medida que caminhava de encontro a seu recém-comprado carro, franzia os lábios e cerrava os punhos. William e ele, nunca tiveram graves discordâncias; coisa esta, que ajudou para aproximação de ambos. Eram companheiros, tanto na equitação quanto no bar, onde compartilhavam copos de whisky. E em nenhum momento, havia passado pela mente de James que o outro olhasse para sua amiga com segundas intenções. Bateu com o punho fechado na parte superior da porta do automóvel, e a abriu, abruptamente. Giuli não era para o um cara como ele, pensava. Ela merecia alguém bem melhor.
– Ei, James! Espere! – Gritou Will, vindo em sua direção. – O que deu em você? – Perguntou, confuso.
– Estou normal. – Disse, ríspido. Fitar o rosto do amigo, neste momento, fazia sua ira aumentar; e por isso, deu de ombros, quase dando-lhe as costas.
– Não sabia que vocês tinham algo. – Explicou o outro, suspirando.
– Giuli e eu somos amigos. – Falou, passando a encarar o chão.
– Eu sei, cara. – William apoiou uma das mãos no carro, para ficar mais próximo ao colega. – Se está preocupado com ela, peço que não fique. Tenho sentimentos pela ruivinha, e não é de agora.
Olhando-o incrédulo, James cruzou os braços. – "Ruivinha"? – Exclamou, com a voz afetada. Teve que fazer tremenda força nas mãos, para não acertá-lo com um murro.
– Algum problema? – Perguntou o loiro. A inocência passava por seus olhos azuis, disfarçando o divertimento. Já havia notado as diferentes reações de James quando o assunto era Giuli; mas estava longe de abrir mão da garota. Ela era exoticamente bonita e inteligente. Não havia muitos garotos em seu encalço pois eram poucos aqueles que conseguiam apreciar suas qualidades escondidas, e sorria sempre que o via. Conversava normalmente, sem o tom de malícia impregnado no timbre de sua bela voz; diferente do resto das garotas que já conhecera. Sim, William poderia admitir que estava encantado.
– Acho que tenho boas chances... – Disse o francês, enfiando as mãos nos bolsos. – Pelo que sei, ela nunca se envolveu amorosamente com nenhum outro... Ficarei feliz em ser seu primeiro homem.
– Se você... – James rangeu os dentes em fúria. – Se você tocar... num frecho de pele que seja dela... William, eu juro que vou fazer você se arrepender.
O loiro, continuou calmo, encarando-o. – James, você já teve metade das garotas da cidade. Eu, diferente de você, só quero uma. Não vejo problema nisso.
– Eu vejo problema. – Se exaltou. – Existem milhares de garotas na cidade, no mundo... Procure outra que não seja...
– Não, James, eu não vou procurar outra. – Interrompeu-o, firme. – Eu já a encontrei.
– Já está avisado. – Concluiu o moreno, entrando em seu carro, e pisando fundo no acelerador.
A raiva lhe consumia por dentro, e em um momento de total desespero, dirigiu sem rumo. O suor escorria-lhe a face, e o rubor tomava-lhe as bochechas.
Durante todos esses anos, tinha guardado Giuli como um pequeno coelhinho frágil que necessitava de sua proteção. Dava-lhe carinho e amor, para que a mesma não se sentisse triste ou necessitasse de outros abraços. Beijava-lhe os lábios, às vezes com ternura, às vezes com fervor, para que ela não buscasse as sensações em outras bocas. Entregava-se para outras mulheres quando só queria uma diversão sem compromisso, mas fechou os olhos com extrema força, quando imaginou Giuli fazendo o mesmo. Era incoerente e egoísta, mas ele não aceitaria. Lembrou da pele suave e alva das coxas da garota, e franziu as sobrancelhas, ao devanear William as olhando, as tocando... Bateu o punho em cima do volante, e sem querer, a buzina soou. Só neste instante, foi perceber que estava parado em frente à casa da amiga.
– Jamie? – A garota tinha acabado de cruzar a porta que levava a varanda. Estava descalça, tinha os cabelos presos em um coque mal feito, e trajava um simples vestido branco de algodão que ia até a metade de suas coxas. James pegou-se olhando fixamente para a barra do pano, antes de fitá-la nos olhos.
– Oi. – Disse, meio absorto em pensamentos. – Você não deveria sair com esse vestido.
Confusa, a garota riu. – Veio até aqui para me dizer isso?
– Não. – Respondeu, depois de também rir. Demorou alguns instantes a encarando, até ter coragem de abrir a boca. Ainda não sabia o que dizer. – Quer fugir comigo?
– O quê? – Disse, franzindo as sobrancelhas.
– Fugir. – Repetiu. – Comigo. Passo para te pegar a tarde, você decide. Só quero te tirar daqui. Ficar sozinho com você.
– Para onde vamos? – Disse ela, absorta na ideia utópica de fugir com o amado. Não discutira, questionara, ou nada do tipo. Era quase como se tornasse passiva em relação as palavras saídas de sua boca.
– Eu não sei. – Confessou, saindo do carro, e parando a sua frente. O peito subia e descia rapidamente por conta da respiração, e o rapaz estralava os dedos incessantemente. – Quero te beijar. – Disse ele.
– Estamos na meio da rua... – Murmurou a garota.
– Você quer me beijar? – Perguntou, franzindo a testa.
– Quero. – Ela respondeu, assentindo com o queixo.
– Então, por favor, me beije.
– Te beijo. – Sussurrou ela, hipnotizada pelos olhos do rapaz. Pôs as mãos nos ombros do mesmo, e pôs-se nas pontas do pés. Instantes depois, todo o ambiente ao redor de ambos não existia mais. Eram só duas bocas, duas línguas, um só sentimento.
*
Ugo estava andando. Começou com seus já conhecidos engatinhamentos, correndo com os auxílios de seus joelhos e mãozinhas; e assim que segurou no estofado macio do sofá, pôs-se de pé. Todos na sala o olharam espantados; e fitando o rosto do irmão mais velho, lançando-lhe um olhar de coragem e orgulho, o pequeno Ugo gargalhou. James caminhou em direção ao mesmo, e ajoelhou-se alguns passos à frente do bebê que dali há alguns meses, faria 2 anos. – A data correta, nunca souberam, por esse motivo, o aniversário era celebrado no mês de sua chegada à casa dos Velatti.
– Ande até seu irmão, amore mio. Ele está te esperando. – Camille incentivou, não podendo conter o sorriso.
Ugo, em nenhum instante, tirou os olhos de James. Este, tinha os braços erguidos em sua direção, como uma garantia que o pequeno não iria se machucar. Os dois encaravam-se e sorriam. Até o momento em que Ugo soltou-se do sofá e, cambaleante e desajeitamente, andou até o irmão. Todos na sala bateram palmas, e soltaram ruídos de alegria e emoção. Henrique, que sempre controlara muito bem seus sentimentos, sorriu abertamente. Camille quase gritou, e James beijou os cachos do menor.
– "Zúli!" – Exclamou Ugo, arregalando os olhos e erguendo as mãos para o alto. Livrou-se do aperto do maior, e correu em direção à Giuli, que tinha acabado de fechar a porta atrás de si. A boca da ruiva entreabriu-se em espanto, e inconscientemente, abaixou-se para envolver Ugo nos braços. Ele tinha abraçado-a, e posto o rosto em seu pescoço. – "Ceilo bom." – Falou, referindo-se ao aroma das madeixas; fazendo todos rirem.
– Ugo, você é pequeno garanhão. – Disse Henrique. – Mas, essa já é do seu irmão.
Imediatamente, Giuli corou. Ouviu o risinho de Camille, e avistou o sorriso sapeca de seu marido. Mas, diferente do que pensara que aconteceria, James não repreendeu o pai. Quando seus olhares se cruzaram, ele estava com um sorriso de canto. Os instantes se foram, e Giuli percebeu que passara tempo demais encarando-o. Aquilo estava começando a ficar constrangedor.
A garota pirrageou para recuperar a compostura, e voltou os olhos para o casal sentados no sofá. – Boa tarde, Henrique e Camille. – Aproximou-se de ambos, e sorriu, entregando Ugo à mulher.
– Olá, querida. Como vai? – Perguntou-a.
– Vou bem. – Respondeu, tímida. – Então, o pequeno já está andando?! Isso é ótimo. – Sorriu abertamente.
Durante toda a troca de cortesias e palavras gentis feita pela garota e o casal, James não tinha se pronunciado. Ao contrário disso, sentou-se em um dos braços da poltrona vermelha, e deixou que os olhos azuis pousassem na amiga. Ela estava mais bonita que nunca, pensou.
– Jamie? Ainda está conosco? – Perguntou Camille, tirando-o de seu transe.
O mesmo pirrageou, e assentiu. – Sim, estou. O que dizia?
– Aonde vocês vão? Giuli disse que você a levará para passear...
– É uma surpresa, mamãe. Não seja estraga-prazeres. – Sorriu, e desviou o olhar para Giuli. Ela ainda continuava corada. – Vamos? – Perguntou-lhe. Sorrindo, ela assentiu. – Mamãe, deixei um bilhete para você, em cima de seu travesseiro.
Pôs o braço em volta do pescoço da garota de cabelos ruivos, e assim, se foram.
Não demorou muito para que Camille caminhasse até seu quarto, e visse um leve papel dobrado sobre seus lençóis. Sua primeira reação ao ler, foi surpresa e preocupação. A segunda, foi rumar em direção ao telefone.
Mamãe, passarei a noite fora com Giuli. Por favor, ligue para seus pais, e diga-os que ela dormirá em nossa casa. Sei que á primeira vista, parecerá loucura e irresponsabilidade, mas a senhora me conhece. Confie em mim. Eu a amo.
Com carinho, Jamie.
*
O sol já se punha no horizonte. As nuvens davam ao céu o aspecto de obra perfeita incapaz de sido criada por um ser humano, e as pinceladas alaranjadas concluíam esse processo. Jamie, em momento nenhum, passou de 40 km/h. Para ele, aquele dia devia ser marcado pela leveza e sutileza de cada mínimo detalhe.
A seu lado, e com a cabeça tombada para trás, Giuli deixava que seus cabelos ganhassem vida própria com as rajadas de vento que o tornavam indomável. A moça se mostrava extremamente calma e tranquila, deixando de lado a ideia de que fugir com seu melhor amigo fosse algo errado ou irresponsável. Afinal, eles logo voltariam. Seria somente uma amostra grátis do sabor doce da liberdade. Depois de algumas horas, retornariam ao mundo real.
– Está feliz? – Perguntou-a, pousando sua mão na coxa exposta da garota, que mesmo familiarizada com o gesto, sentia arrepios.
A mesma parou para olhá-lo por alguns instantes, e admirar a beleza que a natureza tinha lhe dado. Pôs a mão por cima da sua, e sorriu. – Sim, estou muito feliz. Aliás, para onde está me levando?
– Para o paraíso. – Respondeu-lhe, logo depois, deixando contagiar-se com as risadas que a garota soltava. Ele a adorava assim. Leve, livre, e nua de tudo aquilo que lhe preocupasse ou tirasse o riso fácil.
O trajeto até o chalé comprado pelo pai de James, no interior da cidade, era pouco movimentado, e sossegadamente confortável. Apesar de estar dirigindo devagar, chegaram à estrada em pouco mais de 40 minutos. Até lá, o sol não podia ser mais visto no céu, pois tinha dado espaço à sua companheira, que aquela noite, estava especialmente bonita e brilhante. Os olhos castanhos de Giuli, que faziam-se negros na penumbra, brilhavam sendo iluminados pelo luar. Notando isso, James sentiu sua garganta secar, e os lábios formigarem. Era como se estivessem clamando para fazer contato com a pele macia ao seu lado.
Em nenhum momento, sua mão saiu da coxa da moça. A outra perna, ela tinha puxado para colar-se a seu tronco, e aproximar-se de seu rosto. Se estivesse de vestido, James teria uma ampla visão de sua calcinha. Mas, como não estava, o mesmo pegou-se sentido-se decepcionado com o fato.
– Onde está aquele vestido branco? – Perguntou ele.
– Em minha casa. – Respondeu, em tom de obviedade. – Por quê?
– Poderia ter vindo com ele. – Sugeriu o rapaz.
Rindo, Giuli encaro-o. – Aquilo é uma camisola, Jamie. Eu uso para dormir.
– Oh, tem razão. Hoje, não irá precisar dela. – E sorriu, diante da frase que só ele sabia o real significado.
O motor do automóvel tinha parado de ranger, e só nesse instante, Giuliana percebeu que tinham chegado ao destino final. Ao leste, podia ser visto o chalé, um tanto mais alto que o resto da área verde; e ao oeste, um lago artificial, onde patos, gansos e cisnes nadavam tranquilamente.
Nas outras direções, tudo o que poderia ser avistado era extremamente verde e vívido. – Meu Deus, trouxeram uma floresta para Veneza? – Ela disse, saindo do carro e rodopiando, para ver melhor cada detalhe daquele lugar.
– Tem vezes, que penso que sim. – James falou, puxando-a pela cintura, e colando suas costas em seu peito. – Que bom que gostou.
– Por que só me trouxe aqui, agora? – Perguntou ela, virando-se em sua direção.
Meio confuso, Jamie molhou os lábios. Não sabia ao certo a resposta à dar a amiga, até porque, ele mesmo não tinha parado para pensar nisso. O chalé havia sido comprado há pouco menos de um ano, e em todas as oportunidades que teve de levar Giuli ao lugar, ignorou-as. Talvez a conversa com William, tenha o abalado de tal forma, que deduziu que precisasse mostrar à mesma, o quanto seu sentimento ia além da amizade que mantinham. Apesar dos beijos e das carícias doces que compartilhavam, ele queria mostrá-la outras sensações. Queria ser o primeiro a fazer isso, e talvez, o único. Mas, algo dentro do peito, sempre lhe gritava: "Ela merece alguém melhor. Melhor que você.". James estava atordoado.
– Está bem distraído, hoje. – Ela falou, fazendo-o piscar os olhos quatro vezes seguidas, antes de centrar-se novamente.
– Alguns problemas... – Esquivou-se, sorrindo de leve. – O clima entre eu e meu pai não está dos melhores. – E era verdade.
Giuli franziu as sobrancelhas em preocupação. – O que houve? Vocês pareciam bem, mais cedo.
– É, mas... – Suspirou. – Não a trouxe aqui para falarmos em problemas.
– Jamie. – A garota pousou suas duas mãos, uma em cada lado do rosto do rapaz. Abaixou-o para fitar-lhe nos olhos, e viu tristeza nos mesmos. – Sou sua amiga, acima de qualquer coisa. Diga-me o que aconteceu. – Pediu.
Ele, por sua vez, nada falou. Estava enfeitiçado pelos olhos castanhos que lhe encaravam com tanta curiosidade e temor; e com as mãos que lhe tocavam a face, tão macias quanto a pelagem suave de um coelho. Pôs um dos braços em volta de sua cintura, e com o outro, adentrou os fartos cabelos de fogo. Eles também eram macios. Tudo em Giuli era. Ele desejou poder tocar-lhe a carne por debaixo das vestes, naquele exato instante.
*
– Aconteceu algo meio estranho, hoje. – Giuli disse, enquanto abria a geladeira e pegava um embrulho de dentro da mesma. O pôs sobre o balcão, e tirou com todo o devido cuidado o papel alumínio que o cobria. Pegou um salgado de camarão misturado com algum tempero exótico e o provou. Gostando do sabor, deu o que sobrara à James, que abriu a boca para recebê-lo, enquanto tirava a rosca do vinho. – William ligou para minha casa. – Falou ela, lambendo os resquícios dos dedos.
– Ligou? – James perguntou, tentando controlar o tom de desgosto. – O que ele queria?
– Pensei que você soubesse. – Apoiou-se no balcão, de frente para o rapaz. – Não estava com ele no haras, pela manhã?
– Estava. – Respondeu, sem tirar o olhos do saca-rolhas.
– Então?
– Então, o quê, Giuli? – Disse ele, desistindo da atividade que fazia, e fitando a moça. Podia notar o brilho diferente em seus olhos cerrados.
Ela, por sua vez, tirou a garrafa de vinho de sua mão, e em menos de cinco segundos, retirou a rolha da mesma; servindo o líquido avermelhado em duas taças.
– Já ouviu aquele provérbio francês? – Perguntou-o, sem ganhar resposta. – Na água, você vê o reflexo do seu rosto.
– No vinho, o reflexo da alma do outro. – Ele completou, tomando um gole da bebida alcoólica, e suspirando, logo após. Não demorou muito, para que sorrisse. – Está disposta a me mostrar sua alma, senhorita Liuzzi?
Giuli riu, balançando a cabeça. – Não me trate do mesmo jeito que as trata, James.
– Não estou fazendo isso. – Logo, rebateu. – Mas, talvez William queira fazer...
– Ah, é? – Disse, sarcástica, cruzando os braços. – E por que diz isso?
– Porque o conheço. – Falou, simplesmente, dando de ombros. – Ele faz com todas.
– Assim como você?
– O foco nesta conversa não sou eu. – Disse, decidido.
– Está enganado. – Falou ela. – O foco nesta conversa não é William, e nem nenhum garoto que me chame para sair, James. O foco nestas conversas, sempre será nós dois. – Pausou, e fechou os olhos, respirando profundamente, tentando conter os ânimos. – Acha que não sei porque me trouxe aqui? – Fitou-o. – Até onde vamos chegar, dessa forma, James?
– Eu, sinceramente, não sei do que está falando. – Esquivou-se, pondo mais vinho do que deveria, em sua taça.
Giuliana riu, amargurada. – Você insiste em dizer que só somos melhores amigos, mas quando um rapaz tenta se aproximar de mim, você o afasta! Praticamente, me sequestra... O que é isso? Medo?
– Eu lhe sequestrei? – Perguntou, arregalando os olhos, e soltando uma gargalhada mais alta que o normal. Os efeitos da bebida já começavam a ser notados. – Não seja dramática, Giuliana!
– Não seja idiota, James Velatti! – Gritou ela, assutando-o e deixando que as lágrimas lhe enchessem os olhos. – Passei anos da minha vida amassando esse sentimento que tenho dentro do peito, toda vez que te via nos braços de outra! Dizendo a mim mesma que talvez, nosso destino, não quisesse que nós ficássemos realmente juntos. Que poderíamos ser somente amigos, apesar dos pesares... Eu nunca te cobrei, ou te privei de nada, James!
Levou as mãos aos olhos, e sentou-se no banquinho próximo ao balcão. Não deixou que nenhuma lágrima caísse, pois não estava triste, estava com raiva. Com raiva por todo sofrimento que teve que aguentar há tanto tempo, e que agora, parecia ter sido em vão.
– Você o quer? – Perguntou ele, depois de vários minutos em silêncio.
As cigarras cantavam fora do chalé, junto com os sapos e algumas rãs no lago. Não havia nenhuma nuvem no céu, pelo contrário, estava extremamente estrelado. Como não existia luz próxima, dava para se ver claramente, cada pontinho brilhante na escuridão. Giuli, com toda certeza, se encantaria com a paisagem. Mas, aquela noite, o único trajeto que a mesma fez, foi da cozinha para o quarto.
– Eu não aceitei o convite de William. – Ela o falou, levantando o rosto para fitá-lo.
– Por quê?
– Com certeza, ele tentaria me beijar.
– É... Com toda certeza, tentaria. – Afirmou, engolindo em seco, ao imaginar tal cena.
– O único que eu quero beijar é você. – Sussurrou ela, abaixando o olhar, logo após.
Não bastaram cinco curtos passos, para que James estivesse a frente da moça. Pôs sua taça sobre o balcão novamente, e avistou a da mesma, ainda em suas mãos. – Beba o vinho. – Ele mandou, e ela, obedeceu. A segunda taça já fazia companhia à primeira, quando Giuliana foi puxada de encontro ao corpo do garoto, já homem.
O primeiro toque, dos dedos do rapaz, emoldurando os lábios avermelhados da moça, foi terno, sem deixar de ser quente. Na verdade, queimava. Ambos estavam em chamas. As mãos dela emaranhavam-se nas madeixas castanhas, compridas e soltas, que o faziam parecer mais exótico do que já era. As dele, apertavam-lhe a carne das coxas, tão suaves, tão macias; do jeito que ele gostava. Quando as bocas se encontraram, uma luta foi travada. Chupões cheios de carinho, mordidas cheias de lascívia. Os olhos, brilhando em completa luxúria, cruzaram-se. Atordoados, embaçados pelo desejo.
– Seja minha... – Suplicou, ofegante.
– Sou sua há tanto tempo... – Segredou-lhe o fato, não tão escondido.
Em instantes, os dois já estavam adentrando o quarto principal do chalé. Beijavam-se, mordiam-se, e sorriam. Estavam radiantes, em completo êxtase.
James foi quem tomou a primeira iniciativa de tirar-lhe as vestes. Olhou compenetrado os botões da blusa branca, tão meticulosamente justa que lhe moldavam os médios seios sem amassá-los, ou deixá-los soltos demais. Giuli odiava sutiã. Baixou a boca na altura dos mesmos, e um á um, desabotoou-a com os dentes. Uma de suas mãos subiu, de encontro à pele do quadril, e apertou-a antes de se livrar do pedaço de tecido, que foi jogado ao chão. Com a roupa de baixo, aconteceu o mesmo, e sem nenhum aviso prévio, James a jogou sobre os lençóis. Tirou a própria camisa antes de cobrir o corpo da mesma com o seu, e passou à explorá-la.
Beijou-lhe as pernas, a barriga, os seios, e o pescoço. Giuli apertava-o com os dedos, e arranhava-lhe as costas, como uma felina em desespero. A noite era de primavera, mas estava fria o bastante para que vestissem casacos; porém, a partir do momento que adentraram o cômodo, este começara a arder em chamas de luxúria.
Gemidos passaram a ecoar, Giuli pensava não poder aguentar tanta tensão. Guiou a própria mão à segas, pelos caminhos demarcados pelos músculos do corpo do amado, e conseguiu encontrar a fivela de seu cinto, que tilintou em atrito com suas unhas. Atrapalhou-se nos movimentos, mas enfim, alcançou o objetivo de abrir suas calças. James não usara cueca, aquela noite.
– Tenho que lhe contar um segredo. – Sussurrou ele, ao pé do ouvido.
Mal tendo ar para os próprios pulmões, Giuli sibilou. – Diga...
– Você está sendo minha primeira mulher. – Murmurou, beijando-a nas bochechas, e depois nos lábios.
Os corpos encaixavam tão bem, tão simetricamente perfeitos, como se tivessem sido feitos um para outro. Giuli pôde ouvi-lo, mas segundos depois, foi tomada por algumas finas pontadas de dores, que pouco à pouco, iam se esvaindo. E à medida que uma sensação ia embora, outra chegava; remexia suas entranhas, desorganizava sua mente. Ela gritava, vozeava, gemia. Era sons tão suaves, e ao mesmo tempo, tão libidinosos, que incentivavam o rapaz a ir cada vez mais rápido, mais fundo; queria cumprir com sua palavra, e levá-la ao paraíso.
Por fim, chegaram. Ambos. Suados, cansados, ofegantes. Completamente nus de vestes, e de qualquer outra coisa que lhe atrapalhassem o sono, que agora, começavam a compartilhar. Dormiram eles; abraçados, apaixonados, amados. Não só amigos, agora, amantes.
*
Fale com o autor