Margaridas de Inverno
4 Capítulo IV – Nirvana
Notas iniciais
Capítulo IV – Nirvana
"Se meus olhos mostrassem a minha alma, todos ao me verem sorrir, chorariam comigo."
Kurt Cobain
Veneza, Itália, 1993.
Já passava das duas da tarde, e o navio cargueiro acabara de ancorar no porto de Veneza. O balanço repentino e diferente daquele que se repetia dias antes, alertou Iori que, de imediato, levantou o rosto para fitar o marido. Os olhos negros como café de Taú cruzaram com os de sua esposa, e mesmo embalados pela tristeza que seguia a vida de ambos, um casto sorriso nasceu em seus lábios. Beijaram-se ali, na espécie de porão imundo que o navio dispunha, e a mulher apertou ainda mais nos braços, aquele que mais necessitava de sua proteção. Encostou os lábios na testa do pequeno, que não chegava a ter sequer um ano, e deixou que duas lágrimas caíssem, uma de cada olho. Ali, eles teriam o seu fim, e o bebê, seu novo começo.
O amigo que haviam feito ainda na Líbia, Gerard, um siciliano com pouca sorte na vida, que vivia da missangas que ganhava como carregador de mercadorias, saíra correndo da parte de cima do navio, até onde tinha os escondido, na escuridão do porão não utilizado. Com o molho de chaves em mãos, procurou aquela que abriria o cadeado que trancava os portões com correntes. O barulho fez Taú se manter alerta e a frente de sua frágil família, até reconhecer as feições delicadas e franzinas do amigo tão generoso. Se olharam e sorriram.
Gerard correu para abraçá-los, e com a mão à frente do peito, Taú fez sinal para que parasse.
– Estou imensamente feliz, Gerard, e não sabe o tamanho de minha gratidão... – O homem disse, sôfrego. – Mas, sabe que o melhor é que não nos toque.
– Deixe de bobagens, homem! – Gerard respondeu, contendo sua animação. – Estão livres de todo sofrimento, agora. Estou tão feliz por vocês! – Novamente, tentou se aproximar, e desta vez, nem os esquivos de Taú fizeram-no parar. Abraçaram-se forte e emocionados. No fundo, Taú ainda tinha medo de passar-lhe algo. A bendita doença sempre pulsaria em suas veias, nas de Iori, e muito provavelmente, nas de seu pequeno. Um martírio a mais em suas vidas. Mas, logo, o sofrimento teria fim.
Quando todos os tripulantes do navio cargueiro já haviam desembarcado, a família de negros saíra por uma pequena repartição no fundo do mesmo. A despedida já tinha acontecido, e dali por diante, estavam sós. Gerard sempre se lembraria do casal de amigos libaneses, e os mesmos, já no fim de suas vidas, conseguiram descobrir que a humanidade tinha salvação.
Com as cabeças envoltas por burcas, encolhidos e fazendo o possível para passarem despercebidos em meio à multidão, Taú e Iori seguiram pela rua mais larga próxima ao porto. Como já sabiam, aquele caminho daria ao centro da cidade, onde encontrariam o tal local que desejavam. Cada minuto que passava era um a menos.
Com esses pensamentos, inconscientemente, Iori estreitou ainda mais o aperto que seus braços faziam em seu pequeno filho, ainda sem nome. Engoliu o choro, e abaixou a cabeça. Se na Líbia já odiavam pessoas de sua cor, imagine ali, na Itália, onde os habitantes eram tão claros quanto leite. Encostou-se mais à seu marido, e assim, continuaram a caminhada.
*
– O que você está escutando? – Giuli perguntou, adentrando o quarto do amigo, de onde saía uma música alta e estrondante. – Acho que já ouvi em algum lugar.
James, que estava deitado com os olhos voltados para o teto, não os tirou de lá. Somente esticou o braço, demonstrando que queria que ela se aconchegasse ali, e assim, a menina o fez.
– Isso é Nirvana. – Ele disse, finalmente, encarando-a. – Bem melhor que aquele ruivo que você escuta.
De imediato, Giuli franziu o cenho. – Axl é somente o vocalista. – Ela rebateu. – O nome da banda é Guns n' roses. – Explicou.
– Dane-se. – Jamie simplesmente disse, e riu debochado. Ele sabia que ela ficaria irritada. – Ter uma queda pelo cara, não implica em ele fazer um "bom som".
– Não é porque Axl é lindo, que não faz um "bom som". Ele pode ter; na realidade, ele tem; essas duas qualidades. Beleza e talento. – Argumentou, animada. – Não tenha ciúme, Jamie. – Riu, sapeca.
James bufou. – Não tenho ciúmes.
– Não? – Ela perguntou. – Até pensei que tinha deixado o cabelo crescer por...
– Com toda certeza, não foi por causa dele. – sobressaltou-se, interrompendo-a. – E por favor, pare de falar nesse cara.
As cordas do baixo de Krist Novoselic¹ tocavam desenfreadas e harmoniosamente na música cujo Giuli não fazia ideia do nome, apesar de já tê-la ouvido muitas vezes. A voz de Cobain adentrou os ouvidos da menina, que fechou os olhos de imediato. Era rouca e serena, contrastando com o resto dos instrumentos musicais que faziam um som alto e alucinante. Apesar dos adjetivos, Giuli sentiu seu coração acalmar nas batidas, e uma tranquilidade sem igual.
– Eu gostei dessa música. – Ela disse, ainda de olhos fechados.
– Eles lançaram um novo álbum este ano, mas acabei de comprar esse. – O amigo disse. – Você quer?
Giuli o fitou. – Como é o nome?
– Nivermind.
– Eu compro na loja de LPs perto da floricultura. Sempre vou lá.
– Não. – James disse. – Quero te dar um presente há muito tempo, algo especial. – Explicou. – Não estava conseguindo pensar em nada até agora. Deixe que eu te dê o álbum, assim você terá algo para lembrar de mim, enquanto eu estiver viajando.
Mesmo feliz pelo amigo estar se preocupando com ela, Giuli sentiu um aperto no peito ao lembrar da tal viagem. James tinha acabado de completar 16 anos, e como presente, os pais lhe deram uma viagem para Argentina. Era tudo o que ele sempre quis, afinal. Viajar, conhecer o mundo. A garota devia estar feliz pelo amigo, e de fato, estava; porém, o medo de tê-lo longe, também era presente ali. Enraizado em sua mente, impregnado em seu coração.
Balançou, imperceptivelmente, a cabeça, e rolou para ficar de bruços em cima de Jamie. Testa com testa, tórax com tórax. Giuli beijou gentilmente a ponta do nariz do mesmo.
– Colocarei para tocar todos os dias, até você chegar. – Ela disse, entrelaçando os dedos nos seus, que estavam sobre o colchão.
– Durante os dois meses? – Ele perguntou, deixando o sorriso cobrir-lhe a boca.
– Durante os dois meses. – Confirmou.
O rapaz afastou os dedos dos da menina, e os afundou dentro do mar alaranjado de seus cabelos, fazendo-a pregar os olhos. Os narizes roçavam um no outro como se fossem gatos necessitando de carinho. Mansos, serenos, macios. As suaves mãos da moça fizeram o trajeto que tanto conheciam,e se encaixaram entre o pescoço e o rosto do mesmo, que por sua vez, virou-o para beija-lhe a palma.
James, que na maior parte do tempo, tinha várias coisas passando pela mente de adolescente prodígio – Família, futuro, cobranças, estudos, cobranças e mais cobranças. –, via na melhor amiga, uma forma de relaxar os músculos do corpo e da mente. De deixar-se cair no macio dos lençóis e de suas adoráveis mãos. Apertou-lhe as madeixas suavemente, e trouxe o rosto da menina para ainda mais próximo do seu. Entreabriu os lábios para receber os da mesma, e como frequentemente acontecia nos últimos dois meses, Giuli franziu a boca em receio, e se afastou, sentando-se a seu lado. Não estava mais em cima ou em baixo de James, estava ao seu lado. Por mais incoerente que pudesse ser, ele não estava gostando disso.
– Há outra pessoa? – Perguntou ele, sem se mover.
– É claro que há, Jamie. – A menina falou, encarando-o. Por mais que desconfiasse dos esquivos da amiga, a confirmação veio com uma bala em seu peito.
– Quem? – Perguntou, ríspido.
– Amélia, oras! – Ela exclamou, indignada. – Não me diga que esqueceu que ela é sua namorada?!
Subitamente, James levantou seu tronco, para fitar a garota nos olhos. Estava confuso. – Está me evitando por causa de Amélia? – Perguntou.
– Não estou te evitando, Jamie. Jamais faria isso por quem quer que fosse. – Rebateu.
– Está evitando meus beijos. – Disse.
– Acha mesmo que vou ser sua amante? – Falou ela, cruzando os braços. – Desculpe, mas não tenho essa vocação.
– Amante? – Perguntou, estupefato. – Eu não sabia que estava casado.
– Vocês tem uma relação! – Brandou ela. – Andam de mãos dadas, se beijam em público. Para mim, e para todos da cidade, inclusive Amélia, isto é um namoro. E se para você, não é, trate de falar isso à ela! – Exclamou, raivosa, e saiu do quarto batendo os pés.
Assim que cruzou a porta da casa dos Velatti, olhou para os dois lados da rua à sua frente. Não queria voltar para casa tão cedo, e muito menos retomar mais uma das discussões sem futuro com o amigo. Sem muitas escolhas, decidiu ir à floricultura, onde se embalaria com o aroma das flores.
*
A cada passo, uma lágrima. A cada gota de amor, um litro de dor.
Iori perguntava-se qual o resultado daquela equação, levando em conta que cada gota do seu corpo era feito de amor por seu filho. Ao longe, já podia ser vista a Basílica de São Marcos, que de acordo com Gerard, era aos fundos do orfanato de Veneza. O amigo dera aquela informação inocentemente – depois de Taú perguntar se havia algum padre ou freiras na cidade, que fizessem boas ações. – e em nenhum momento, deu-se conta de que os amigos não eram católicos. O motivo obscuro e sombrio esgueirado por trás daquela pergunta, seria posto em prática em poucos minutos. Mais do que em qualquer outro momento de sua vida, Iori queria morrer.
Já tinham considerado a hipótese de levarem seu pequeno convosco, quando fossem consumar o suicídio, porém, seria crueldade demais. O exame de HIV ainda não havia sido feito no garoto, e por mais nulas que fossem as esperanças, talvez, de fato, ele não levasse a doença nas veias. O plano a ser seguido, seria entregar o pequenino em boas mãos, e decidirem de qual forma tirariam as próprias vidas. Cruel, brutal, trágica. Os adjetivos que caracterizavam a vida do casal, eram inúmeros.
A arquitetura bizantina da Basílica erguia-se a frente dos dois, enquanto encontravam-se paralisados em meio a aglomeração de pessoas que caminhavam desenfreadamente pela praça. Um homem de estatura mediana e cintura larga, que trajava um chapéu côco mal posto em sua cabeça, de tão afobado que passou, deixou-o cair no chão, quando trombou em um dos braços de Taú. Imediatamente, o negro pegou o chapéu, estendendo-o para o homem, que se encontrava com os olhos arregalados e a boca semiaberta em total espanto. Sem nada dizer, e em um gesto bruto, arrancou seu pertence da mão daquele que tinha o ajudado em completa inocência. Franziu as sobrancelhas em desprezo, e deu-lhe as costas, assim como fizeram todos aqueles de cor mais clara que a de Taú.
Retraído, o negro deixou envergonhar-se. Recebeu um afago em seu ombro, e sorriu minimamente para sua mulher.
– Mais um cretino, como todos os outros, querido. Não se abata. – Disse ela, compadecida.
– O homem nasce bom, querida. A sociedade que o corrompe.²
Ela sorriu. – Gerard lhe disse isso?
– Sim. – A acompanhou. – Ele disse que foi uns dos poucos ensinamentos que aprendeu no colégio. Foi um bom amigo
– O melhor que tivemos. – Concordou ela.
Taú segurou em seus dois braços. – Me escute. – Disse, suave, mas firme. – É melhor que eu vá sozinho falar com o padre primeiro. Não sabemos como eles reagem a nossa cor, por aqui.
– Não deixarei que passe esse perigo sozinho. – Falou ela, decidida.
Ele riu, amargo. – O que posso perder, querida? Minha vida? Não estamos fazendo mais tanta questão dela, não é? – Iori abaixou o olhar, sendo traída pela própria incoerência. – Mas, ainda temos o nosso pequeno para salvar. Talvez salvando uma vida, antes de tirarmos a nossa própria, nossa lista de pecados para pagarmos no inferno seja menor.
– Não fale assim! – O repreendeu. – Não somos cristãos, não vamos para o inferno por querermos que nosso sofrimento acabe!
Engolindo em seco, ele assentiu. – Tem razão. – Disse. – Agora, encontre um lugar onde possa ficar sem chamar muita atenção, e esteja aqui em meia hora. Meia hora, entendeu?
– Sim. – Ela respondeu. – Tome cuidado. – Não conseguiu evitar dizer.
Taú assentiu e se foi.
Olhando ao redor de si, Iori sentiu-se estar no centro de um formigueiro. Pelo menos, assim, não seria facilmente notada, pensou. Resolveu caminhar para a direita, onde avistou simpáticas senhoras sentadas em mesas do que parecia um estabelecimento que vendia doces e cafés. Encostou-se em uma das paredes do local, e lançou seu olhar castanho de encontro a uma bela floricultura do outro lado da calçada. As portas de vidro davam o ar de leveza e autenticidade ao lugar impregnado de flores do todos os tipos, tamanhos e cores.
Sem nem mesmo perceber, já estava parada em frente ao local, girando o pescoço em todos os ângulos possíveis para ter uma visão mais ampla de tamanha beleza primaveril. Jamais tinha visto algo tão bonito.
– Oh, meu Deus! – Exclamou uma mulher, ao lado de Iori, fazendo a mesma apertar seu filho nos braços, e retrair-se, já esperando o que estava por vir.
– Desculpe, senhora, eu não queria barrar-lhe o caminho. – Disse, abaixando o olhar, e preparando-se para ir embora.
– Oh, não, não! – Exclamou a outra. – Eu eu só fiquei encantada com esta coisinha linda que está em seus braços – Aproximou-se e com os enormes olhos castanhos, fitou o filho de Iori, que ainda estava assustada. – Como se chama?
– Ainda não tem nome. – Murmurou a negra.
Espantada, a mulher a encarou. – E você, querida, como se chama?
– Iori.
– Eu me chamo Camille. Camille Velatti. – Sorriu ela. – Está com fome? – Ainda com o olhar baixo, Iori assentiu. – Venha, vamos tomar um café.
*
Seguindo em sua bicicleta, tão azul quanto o céu aquele dia, Giuli pedalava pelas ruas da cidade, até encontrar um lugar onde pudesse deixá-la. A encostou em umas das paredes, próximas à floricultura, e passou a andar em direção a mesma.
No centro comercial, várias lojas tinham suas vitrines tomadas por aparelhos de última tecnologia; e em uma delas, TVs de mesmo tamanho e padrão, exibiam um dos repórteres mais famosos e bonitos da Itália. Ele era o âncora do jornal mais visto no país, e falava sobre algo intitulado como "Crise mundial". Franzindo o cenho para as palavras saídas da boca de lábios finos do homem de meia idade, Giuli perguntou-se se ela própria deveria saber dialogar tão bem sobre um assunto tão importante. Deduziu que sim, deveria. Aos 14 anos, uma menina bem educada deveria saber falar muito bem sobre política, demonstrar desenvoltura e conhecimento. Mas, diferente das demais que seguiam essa instrução, Giuli não gostava de falar, mas sim de desenhar. E quase nunca seus assuntos envolviam política, para a mesma, era algo tão raso, tão seco e vazio... Gostava mesmo de desenhar flores, pontos turísticos nunca vistos por seus olhos, mas apreciados por fotos, muito frequentemente enquanto estava com Jamie, fazendo e refazendo planos de viajem.
A ideia do futuro a encantava. O futuro, tão incerto e duvidoso, repleto de imprevisibilidades, de risos ainda não ridos e olhares ainda não cruzados. De novas ventanias que traziam coisas, às vezes boas, às vezes ruins. Giuli gastava seu tempo sonhando e devaneando como estaria daqui há 5 ou 10 anos; para ela, falar sobre políticos corruptos, e dinheiro aos montes que teimavam em dizer que estava em falta, era perda de tempo e de vida.
Avistou a mãe do amigo, sentada dentro de um Café, acompanhada por outra figura coberta por panos. Confusa, Giuli perguntou-se como alguém conseguia sair vestido daquele jeito, com o calor que estava fazendo. Resolveu ir até o local para cumprimentar Camille, mas não bastaram três passos, para alguém se por a sua frente.
– Preciso falar com você, Giuliana. – Amélia disse, tentando conter o embargo em sua voz.
Giuli, que conhecia a menina fazia tempos, suspirou, já sabendo do que se tratava. – James? – Perguntou.
– Exatamente. – A morena engoliu em seco e molhou os lábios. – Preciso de sua ajuda.
*
Já sentada em frente a uma pequena mesa esférica, Camille tinha os antebraços postos sobre a mesma, e o olhar castanho vidrado e encantado. O sorriso amistoso lhe escapava dos lábios vez ou outra, e ao contrário dela, Iori parecia estar desconfortável. A respiração acelerada, e o franzir da boca carnuda, demonstravam isso. As mãos também estava trêmulas, e percebendo tal coisa, Camille se pronunciou.
– Deve estar achando a situação bem estranha, não é mesmo? – Riu, um tanto nervosa. – Nunca lhe ofereceram uma xícara de café como gentileza?
– Nunca, senhora. – Iori reduziu-se a dizer, ainda com os olhos baixos.
– Olhe para mim, querida. – Camille pediu, e a mulher, assim o fez. – De onde você é?
– Líbia. Norte da África, senhora.
De olhos arregalados, a branca italiana, sorriu ainda mais. – E tem marido? – Perguntou, curiosa.
– Sim. – Respondeu. – Ele foi falar com o padre sobre o orfa... – Interrompeu-se quando deu-se conta de que estava falando mais do que deveria, e novamente, encarou o chão.
– Orfanato? – Camille disse, espantada. As palmas de suas mãos suavam frio. – Vão abandonar o bebê?
Temerosa, Iori retraiu-se. A ideia de contar algo tão particular e íntimo de sua vida à uma completa estranha, a fez pregar os olhos em sinal de receio. Não sabia o porquê do interesse súbito em sua pobre pessoa, e as experiências já vividas, a faziam pensar duas vezes antes de confiar em alguém.
Com a pergunta ainda pairando no ar, a franzina garçonete aproximou-se da mesa, com um cardápio em mãos. Encarou Camille e sorriu, mas assim que seus olhos pousaram em Iori, as sobrancelhas franziram-se, e a pele arrepiou-se.
– Algum problema? – Camille perguntou-a, visivelmente irritada com o semblante que a empregada do local levava no rosto.
Envergonhada, a loira moça sorriu para disfarçar. – Nenhum, senhora. Aqui está o cardápio. – Disse, entregando-o.
– Traga outro cardápio para minha acompanhante. Há duas pessoas à mesa. – Ordenou em tom impaciente, e rapidamente, a garçonete fez o que lhe foi mandado.
Diante da cena, os olhos de Iori se arregalaram em incredulidade. Tirando seu esposo, nenhuma outra pessoa tinha lhe defendido ou demonstrado algum compadecimento sobre a mesma. Humilhações, já sofrera várias. Desilusões, inúmeras. Durante alguns instantes, chegou a cogitar a possibilidade de acreditar na fé cristã dos europeus, e crer nos escritos sobre anjos. Com toda certeza, Camille era idêntica a um.
– Sei que posso estar sendo um tanto invasiva, Iori. – Disse a mulher. – Mas, gostaria de saber mais sobre você e sua família.
– Por que? – Perguntou ela, o que tanto queria saber. – O quê, pessoas como nós, teríamos que lhe interessasse?
Assentindo com o queixo, Camille mordeu o lábio inferior fortemente. Se queria saber sobre a família de Iori, teria que contar-lhe sobre a sua própria.
– Meus pais já morreram, Iori. E acredite, esse não é um fato para ser lamentado. – Explicou, apertando os nós dos dedos e engolindo em seco. Lembrar o passado, reabriria a ferida que fingia estar cicatrizada. – Minha mãe casou-se muito nova, por pressão de seus pais. Meu pai tinha o dobro de sua idade, era um homem de classe social elevada. – Seu queixo tremeu, e logo, lágrimas brotaram de seus olhos. – Lembro-me que em uma de suas confissões, ela chegou a me dizer que ele praticamente a violentou na primeira noite de casada. Ela tinha apenas treze anos... – Apertou os olhos, e suspirou. – Meu pai mantinha um empregado libanês em nossa casa, ele era muito gentil... Coitado, era açoitado quase toda semana. Não bastaram alguns meses em contato com ele, para que minha mãe se apaixonasse. Eles viveram um romance muito bonito por certo tempo... Mas, minha mãe engravidou. Quando o bebê nasceu, e meu pai o viu...
– Senhora, não precisa continuar, eu já lhe entendi... Eu... eu sinto muito. – Iori interrompeu-a, já com lágrimas nos olhos.
– Não, querida. Tenho que lhe contar tudo... – Pausou, e respirou profundamente. – Eu tinha nove anos na época, e ajudei minha mãe no parto. Fui a primeira a segurar o pequeno no colo... Assim que meu pai pôs os olhos nele, e notou a coloração escura em sua pele; pediu para que eu me trancasse em meu quarto, e não saísse até que alguém viesse me dizer para tal. Beijou minha testa e disse que eu era a única coisa verdadeira em sua medíocre vida... No dia seguinte, minha avó veio me buscar para morar com ela. Meu pai tinha obrigado minha mãe e seu amante à pularem de um precipício no oeste da cidade... Eles estavam com meu irmão nos braços... Logo em seguida, meu pai atirou em sua própria cabeça. – Olhou nos olhos estáticos de Iori, e continuou. – Seu filho se parece muito com Ugo, meu irmão.
Iori tinha ouvido atentamente cada palavra sôfrega saída dos lábios rosados da mulher a sua frente. Tinha presenciado sua garganta travar em alguns momentos, e os olhos encherem-se de água. Ela não poderia estar mentindo, pensou. Diante de tal demonstração de confiança, resolveu retribuir.
– Não temos nada. – Disse a negra, de súbito. – Eu e meu marido, não temos nada. Fugimos da Líbia, pois lá o nosso pequeno não teria expectativa nenhuma de vida. Iremos deixá-lo com o padre que cuida do orfanato, e...
– Deixe-o comigo! – Exclamou Camille, deixando que o semblante exasperado lhe tomasse o rosto. Estava quase desesperada.
– A senhora não sabe o que está dizendo – Balançou a cabeça negativamente. – Deve já ter marido e filhos... Não pode me pedir algo desta maneira, tomada pela emoção.
Camille sorriu por cima do nervosismo, e com os dedos, enxugou rapidamente as lágrimas que lhe manchavam a face. – Iori, querida... Será que não vê? – Perguntou-a. – O destino quer que eu fique com esta criança... Ou mesmo Deus... Oh, céus, sim! Não há outra explicação.
Assustada com tais palavras, Iori fitou seu filho. Ainda sem nome e futuro certo. Talvez deixá-lo com uma família bem estruturada não fosse tão má ideia. – Como posso ter certeza que, depois que toda emoção se esvair, ainda irá querê-lo como seu filho? É um pontinho negro em meio a um oceano branco... A senhora tem a mínima noção do que irá enfrentar?
– Posso não ter a noção, mas tenho o amor. – Disse, firme. – Vivi 24 anos da minha vida com as costas tortas pela culpa que carreguei e carrego até hoje. Não há um só dia em que eu não pense no inocente que teve que pagar pelo pecado de três desconhecidos. Não há um só dia, Iori, em que eu não me martirize por não ter feito nada para sequer ajudá-lo... Pelo o amor que você tem a sua família... Deixe-me ficar com o menino.
De olhos cerrados, a negra desviou o olhar do da mulher. – Há algo que você não sabe. Duvido que queira ficar com o garoto, se souber.
– Diga-me, e provarei que está errada. – Falou, decidida.
– Eu e meu marido temos HIV. – Confessou, e engoliu em seco para conseguir continuar. Camille somente entreabriu a boca. – As chances de nosso filho não ter a doença são mínimas, quase nulas... – Suspirou, e voltou a encará-la. – A decisão é sua.
*
Giuli havia pegado sua bicicleta novamente, e agora, andava ao lado da mesma e também de Amélia. A menina que tinha a mesma idade que James, sendo dois anos mais velha que a ruiva, era alguns centímetros mais baixa; e com os ombros e a cabeça curvada para frente, em uma tentativa de não expor seu rosto inchado pelo choro, dava-se a imagem de alguém vulnerável e frágil. Vez ou outra, durante a caminhada, Giuli fitava a menina, mas não conseguia ver seus olhos, somente o cabelo castanho que tapava-lhe a face.
Ah, James, você é um belo destruidor de corações, pensou ela.
Assim que chegaram em uma ponte afastada do centro comercial e pouco movimentava, Giuli apoiou sua bicicleta na mureta da mesma, e se posicionou à frente da colega de colégio. Seu rosto demonstrava pena e compadecimento. Ela, mais do que ninguém, sabia como era ter o coração nas mãos do rapaz.
– O que houve, Amélia? – Peguntou baixo, para não soar rude.
A outra passou alguns instantes em silêncio. Sabia o que queria dizer, mas tinha vergonha de o fazê-lo. – O amor nos deixa tão ridículos. – Murmurou, contendo as lágrimas. – Me sinto livre quando estou em seus braços, e ridícula quando ele me nega. – Fitou os olhos de Giuli. – A vontade que tenho é de dar-lhe as costas e nunca mais olhar em sua cara. Ele é tão cruel... – Desesperada, chorou.
– James não é cruel porque quer, Amélia. – Explicou, serena. – Ele... só não suporta que o rotulem ou o prendam.
– Mas, não faço nenhuma destas coisas, Giuli! – Exclamou, balançando a cabeça. – Acha certo que ele me tome a hora que quer, e depois nem me oficialize como namorada? – Perguntou. – Como alguém, de fato, importante? Ele, pouco se importa comigo.
Levando as pontas dos dedos ao entorno do nariz e canto dos olhos, Giuli, mais uma vez, suspirou. Os lamúrios de Amélia já não lhe eram estranhos, pelo contrário. Apesar da mesma preferir andar com as meninas de sua idade, era sempre à Giuli que corria para pedir ajuda e conselhos, e em quase todas as situações, o motivo era sempre James. Desde o princípio, o rapaz deixou claro que compromisso, não era o que queria. Depois da significativa mudança de comportamento da menina, que passara de uma criança fútil e mal orientada, à uma adolescente de agradável convivência; James havia começado a olhá-la com outros olhos. Com o tempo, ele não mais queria experimentar os beijos de todas as garotas da cidade, os de Amélia lhe bastavam. Com a insistência da menina, começaram a demonstrar afeto em público, andando de mãos dadas e fazendo passeios pela cidade. Porém, havia algo que a garota de longos cabelos castanhos não sabia, e que o rapaz não abriria mão. Ter os lábios da melhor amiga nos contorno dos seus era algo que James não fazia por querer, mas por necessitar. A aventura que estava tendo com Amélia, tirava isto dele, e para tristeza da menina, ela não era prioridade.
– Giuli... ele disse que não quer mais manter o que temos. – Soluçou, e levou as mãos ao rosto. – Disse que foi bom, mas que não vê futuro em nós.
– Não quero que fique com raiva de mim, se eu lhe disser qual minha real opinião, Amélia. – Falou, vendo a garota limpar as lágrimas que teimavam em cair.
– Não ficarei... – Murmurou.
– Quando digo que James não gosta de ser rotulado, quis dizer que não o vejo firmando compromisso com alguém. – Amélia abaixou o olhar. – Sendo seu namorado, ele se sentiria preso. E é quase como se James tivesse asas, você já percebeu? – Perguntou. – Já o observou o bastante quando não estão falando nada? A maneira como ele senta na grama com um dos joelhos deitado e o outro erguido, e como as costas se curvam... Nesses momentos, eu consigo ver claramente... um par de asas tão brancas como as nuvens, Amélia.
– Você também o ama? – Perguntou a menina, tirando Giuli do curto monólogo que se seguia. Piscando os olhos três rápidas vezes seguidas, a ruiva saiu de seu transe pessoal. Sem saber onde focar o olhar, o direcionou as águas do canal abaixo da ponte.
– James é meu melhor amigo. – Respondeu.
– E também seu primeiro amor. – Disse a outra. – Lembro-me muito bem, que desde sua chegada em Veneza, nunca mais se desgrudaram. Giuli, vocês tem algo? – Perguntou, cerrando os olhos.
– Temos, Amélia. – Voltou a encará-la. – Uma bela e verdadeira amizade.
– Então, você não o ama? Como homem.
– Amo James de todas as formas que consiga imaginar. – Confessou. – Daria minha vida por ele.
– Vocês estão juntos? É por isso que ele terminou comigo?
Giuli balançou negativamente a cabeça, e riu sem humor. – Se o conhecesse o bastante, saberia que ele não mente. James e eu, sempre estivemos juntos, Amélia. Mas, só o conhecendo verdadeiramente, para saber que ele é incapaz de firmar algo. Firmar, para ele, significa ser obrigado a manter. James gosta de estar em um lugar por livre e espontânea vontade, e não por pressão.
– Eu não o pressionei em momento nenhum! – Brandou. – Eu só queria o amar do jeito certo.
– Amélia, irei lhe contar uma coisa. Há alguns anos, eu agia dessa mesma forma. Eu não gostava que James beijasse outras garotas, meu coração se quebrava ao ver isso. Eu o cobrava coisas que ele nunca me prometeu, e como consequência, ele se afastou de mim. O medo de o perder foi tão grande que quase me tirou as forças. – O olhar de Giuli era duro. – Mas, só a partir daquele momento, eu o compreendi. A partir daquele momento, eu deixei James me amar livremente. Eu não o prendo a mim, não tento segurá-lo de forma alguma, eu somente o amo... E ele está comigo até hoje.
Franzindo os lábios e as sobrancelhas em uma expressão de pura mágoa, Amélia deixou que mais lágrimas caíssem. – Vocês se merecem. – Murmurou, e deu-lhe as costas.
Sentindo-se culpada por magoar a menina, Giuli continuou olhando a água abaixo dos pés por mais algum tempo. Pensou em James, e em como queria correr para beijá-lo até que os lábios doessem. Amélia podia estar sentindo-se traída, mas o sentimento de Giuli, havia vindo de muito antes dela.
Sorriu consigo mesma, e a culpa se esvaiu. Estava feliz. Voltaria a deixar-se ser beijada pelo amigo.
Tamanha era a agitação dentro de si, que mal percebeu que não tinha ido a floricultura, como planejara. Ao contrário disso, se dirigiu à loja de LPs, e lembrando-se das palavras do amigo, pediu o álbum mais recente do Nirvana.
Enquanto pedalava em direção à casa de James, In Utero balançava dentro da cesta de sua bicicleta, agora, não tão azul quanto o céu. Este, já estava com tons escuros da cor, beirando o negro da noite. O sorriso que a menina levava no rosto era aberto e cheio de emoções escondidas que pediam desesperadamente para sair. James tinha aberto mão de outra das várias garotas da cidade, por ela, por Giuli. Não havia prova de amor, maior.
Assim que adentrou a rua do amigo, um vulto coberto por panos foi avistado pela menina. Nas mãos, uma cesta grande e redonda era levada; e o que mais fez Giuli franzir as sobrancelhas em confusão, foi a atitude seguinte. Aquela pessoa tinha deixado a cesta no chão, na porta da casa de James. Sem aviso prévio, esgueirou-se pelas sombras das árvores e desapareceu.
Com a curiosidade tomando conta de si, Giuli pedalou o mais rápido que pôde. Ao descer da bicicleta, tropeçou e quase caiu. Deixou-a encostada em um arbusto qualquer, pegou o álbum e correu em direção a varanda dos Velatti. Assim que se ajoelhou para ver o que tinha dentro da cesta, os olhos arregalaram-se e a boca abriu-se em espanto. No mesmo instante, James abriu a porta de sua casa; afinal, alguém havia tocado a campainha.
– Giuli, foi você que tocou a campainha? Por que está ajoelhada e que cesta... – O garoto interrompeu-se, assustado. – De quem é essa criança?
– Eu... eu não sei, Jamie. – Gaguejando, ela o fitou confusa. – Estava vindo para cá quando vi uma pessoa deixando essa cesta em sua porta... Céus, eu acho que abandonaram este bebê.
Ainda espantado, Jamie abaixou-se para pegar a criança nos braços. Era molinho, frágil e pequeno. Os ralos cabelos formavam caracóis em cachinhos e a pele morena era macia como uma pluma. Sem explicação plausível para aquilo, Jamie sentiu-se apegado.
– É uma... fofura. – Giuli soltou, sem nem mesmo perceber. Também estava encantada.
Não mais que de repente, o barulho do motor de um automóvel invadiu os ouvidos de ambos. Henrique acabara de chegar do trabalho. Assim que seus cansados olhos conseguiram ver e compreender toda a situação, o mesmo já estava a alguns passos do filho.
– De quem é essa criança, James? – Perguntou, ligeiramente confuso.
– Não faço ideia, papai. – Explicou. – Mas, se foi deixada na nossa porta então, é porque, a partir de agora, ela é nossa.
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O Nirvana se apresentou em diversas cidades da Itália em 1994. Giuliana e James assistiram o show em Roma no dia 22 de fevereiro, mesmo com Afonso a proibindo.Enquanto estava perto do palco, Giuli enfiou um bilhete dentro a botina de Kurt, agradecendo por ele ter escrito músicas tão incríveis, mesmo tendo tantos problemas. Na saída do show, Giuli avistou a banda saindo em um veículo preto e o mesmo sorriu para ela. Kurt Cobain cometeu suicídio, menos de dois meses depois, em 05 de abril de 1994. No mesmo dia, Iori e Taú pularam juntos de um penhasco no oeste de Veneza. Ambos foram enterrados como indigentes.
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