Margaridas de Inverno

9 Capítulo IX – Blues


Capítulo IX – Blues

"O Blues não é feito para fazer você se sentir melhor, ele é feito para fazer as pessoas se sentirem piores."

Bleegind Gums Murphy, Os Simpsons; Matt Groening

Chicago, Estados Unidos e Veneza, Itália; 2003

Um cigarro repousado entre os lábios, uma garrafa do conhaque mais barato do bar da esquina, e a melódica voz de Jon Bon Jovi lhe adentrando os ouvidos. Era sexta e desde o começo da semana, Pérola não sabia o que fazer em suas horas vagas, que ultimamente, faziam-se em todo decorrer do dia. Há dois meses tinha perdido o emprego de recepcionista numa agência de viagens, por ser “extremamente chamativa” ou “uma distração inaceitável para os funcionários”; termos usados por sua chefe. Sem dinheiro, foi obrigada a voltar para a casa de seus pais, onde seu quarto encontrava-se intacto, e a mesma, na minúsculas sacada, soltava fumava dentre os carnudos lábios.

Na cama, diversos lençóis davam o aspecto desarrumado no local, coisa que a mulher gostava de comparar a sua vida. Há 27 anos tinha vindo ao mundo; saíra do ensino médio como qualquer outro jovem, aos 18 para 19; resolvera não ir para universidade, pois pensara que para aquilo que queria fazer, estudos não eram necessários. Dera a cara à tapa em diversos bares de Chicago, fora para Los Angeles, Santa Mônica, até Nova Iorque conheceu sua voz suave e inebriante enquanto dedilhava seu violão; porém, gravadoras, que eram aquelas que realmente garantiriam sua sobrevivência, não apareceram. Alejandro, seu pai, um simples operário porto-riquenho que sempre sonhara em sua única filha seguindo uma carreira de sucesso, em qualquer que fosse a área; chorou com ela, quando aos 23 anos, Pérola dissera que estava desistindo da música. Seu desastroso desempenho em cálculos, contrariava a facilidade em aprender novos idiomas. Além do inglês e espanhol, enrolava qualquer nativo italiano que cruzasse seu caminho. Pelo menos, isso, pensara a mesma. Aos 24, conseguira o emprego na agência de viagens, e tudo correra consideravelmente bem, até a troca de chefes seis meses antes, e sua demissão.

Com os olhos a vagar pelas ruas mal limpas do subúrbio, Pérola, uma mulher que aos olhos dos outros, deveria estar se casando e tendo filhos, virava a garrafa de conhaque pela quinta vez àquela tarde. Nunca se apaixonara, ou nunca havia permitido-se ficar com um homem o tempo suficiente para tal. Somente um, já havia conseguido fazer as borboletas de seu estômago içarem voo, mas este, deduzira Pérola, não merecia tanta confusão em sua pacata vida. Na época, era universitário, dizia fazer economia, pelas roupas, parecia ser rico e morar no melhor bairro da cidade. Ele a enchia de palavras bonitas, e como a mesma nunca tinha as ouvido saindo de outra boca, encantou-se. Conheceram-se num bar, passaram a noite soltando devaneios em formas de palavras e ao fim desta, quando o mesmo pedira seu endereço, hesitando por alguns segundos, ela escrevera na palma de sua mão, o nome de uma rua que nunca soubera se, de fato, existia. Achou-o interessante e inebriante demais, para que gastasse seu tempo com ela. O beijara nos lábios antes de correr pelas ruas em direção a sua casa, e deixou-o lá, no bar, com a garrafa de cerveja pela metade e o coração repleto de esperança. Isso acontecera quando Pérola acabara de completar duas décadas de vida; três anos depois, encontrou o mesmo rapaz sentado numa mesa de um bar que ela estava tocando. A seu lado, uma magra mulher lhe fazia companhia e distribuía beijos em seu pescoço. Ele não pareceu reconhecê-la, mas, inconscientemente, Pérola nunca o esquecera. Pegava-se pensando no bonito homem de vez em quando, ou de vez em sempre; dependia de seu estado emocional. No começo do ano, lera uma nota no jornal falando sobre “o casamento do século”, onde os herdeiros de duas multinacionais, trocariam alianças tanto nos dedos anelares, como nos negócios. Que piada, pensou ela, e riu baixinho. Porém, suas sobrancelhas serraram em espanto, quando a foto em preto e branco na página, demarcava as suaves feições daquele que descobrira naquele momento, se chamar Gustav. Cortara a foto do jornal, eliminando a noiva a seu lado, guardando-a numa caixinha que tinha desde pequena. Seu único vestígio daquilo que poderia ter sido um belo romance. Vez ou outra olhava a imagem, lembrando-se dos macios lábios de Gustav; agarrando-se a sua pequena participação em sua vida, participação esta, que provara que em uma noite fria qualquer, num bar de Chicago, a mesma "quase" amou alguém.

Apesar de tudo, não se arrependia da atitude que culminou no afastamento de ambos. Ele parecia estar feliz, e ela talvez fosse... quem sabe... algum dia.

*

Vagando pelos cantos de seu apartamento, Giuliana não decidia-se se era necessário fazer algo para comer àquela noite de sábado. “É simples, só diga que você não está mais afim”, falara Angelina, amiga que tinha feito há poucos meses na universidade, mas que ocupara um belo lugar em seu coração, logo após, William ter reatado com a antiga namorada. O rapaz bem que tentara visitá-la, mas dia após dia, visita após visita, ela via no desconforto da tensão em seus músculos e no receio do brilho azul de seus olhos, que de alguma forma, ela estava atrapalhando sua vida. Há exatamente cinco meses, na última vez que se viram pessoalmente, Giuliana tinha o abraçado gentilmente antes do mesmo cruzar a porta de seu apartamento, e desde então, não retornava suas ligações. Respondia com mensagens, dizendo-lhe o quanto estava ocupada por conta do último período do curso, mesmo estando entediada, olhando o horizonte por sua janela. Ele dizia: “Tudo bem, nos encontramos qualquer dia desses. Sinto sua falta”, e a mulher pensava: “Sim. Vocês sempre sentem falta o bastante para mandarem mensagens, mas nunca para virem até mim”, e sozinha, suspirava.

Ao menos, o contato com o antigo amigo tinha voltado. James a ligava semanalmente, ou até mais vezes, para contar-lhe como havia sido seu dia, reclamar da carga horária de seu trabalho, reviver a viagem à Paris – Em partes, é claro. –, e desejar-lhe boa noite. Como Will, também dizia que sentia sua falta, mas também como Will, nunca viera visitá-la. Não viam-se há três anos, e dentre os devaneios de Giuliana, o mais decorrente era: “Como será que ele está?”. O mesmo tinha dito que o cabelo estava maior e num tom mais claro de castanho por conta do sol, coisa que a mulher não gostara. A mesma sempre admirara o tom achocolatado daquelas madeixas; lembrava-se avidamente de como eram sedosas. Porém, assim como o rumo que sua vida estava levando, nem tudo era do jeito que desejaras.

O exemplo mais vivo disto, era a causa de todo o rebuliço em sua mente àquela noite: Cármen Pavese. A mulher ultrapassava a faixa de 1,73m de Giuli, sendo mais alta que a mesma alguns belos centímetros; os cabelos escorriam num liso impecável repartido ao meio e acobreado; e as sobrancelhas, num traço grosso e alongado, quando franziam-se, metiam medo em qualquer que fosse. Mas, esse não era o medo de Giuliana, a outra nunca lhe faria mal, era até um pouco paranóico pensar numa coisa dessas; o verdadeiro problema era o coração. Giuli sabia o que era ter o mesmo partido, e fazer isso com outra pessoa, também a doía.

Às oito da noite, exatamente no mesmo instante em que a mulher espalmou a mão sobre o pescoço, massageando-o com o dedos, sua campainha tocou. Suspirou uma última vez, concentrou a pouca coragem que tinha nas pernas, e passou a caminhar até a porta. Abriu-a e lá estava ela. Sorria com os lábios e com os olhos, estendia os braços em sua direção como um pedido de afeto sem palavras, e tudo que a ruiva pôde fazer foi retribuir. Retribuir, para depois mandá-la embora; a própria mente lhe gritava como ela era podre.

Antes de poder dar espaço para que Cármen entrasse, logo após o abraço, o rosto de Giuliana foi puxado em sua direção, e seus lábios pressionados nos dela. Sem conseguir segurar, Giuli deixou que uma única lágrima caísse de seu olho esquerdo; tão vazia e solitária quanto a dona. “Desculpe por isso, querida”, pensou ela.

*

Andes corria de um lado para o outro, atravessando a sala, dando a volta na cozinha, e refazendo todo o trajeto com uma almofada parcialmente rasgada em seus dentes. A cadelinha não tinha raça definida, comia tudo o que via pela frente – Desde comidas à utensílios domésticos, que eram mastigados até perderem a forma original. –, e lambia quem lhe agradasse.

– Andes, volte aqui! – James vozeava com a cadelinha, como se pai dela, ele fosse, e a mesma entendesse suas vontades. Bom, se entendia ou não, ninguém poderia afirmar ou negar, mas ela não dava a mínima. As espumas brancas já saíam da almofada quando o homem conseguiu alcançá-la e tirá-la de sua boca, lançando-lhe um olhar de repreensão que logo foi respondido com uma lambida no queixo. – Você não tem jeito mesmo. – Riu, afagando o pêlo curto, cinza e desgrenhado da mesma. Levantou-se, levando a almofada retalhada para uma parte do quintal que a cadelinha não tivesse acesso, para que depois o mesmo pensasse em como remendá-la, e checou se os pratinhos estavam cheios de ração e água. – Venha cá, garota. – Ajoelhou-se ao mesmo tempo que Andes corria em seu encalço. – Papai vai sair hoje, tudo bem? Fique tranquila, eu não irei arranjar uma mamãe para você. – Beijou-lhe o topo da cabeça e cruzou a porta de casa.

Chicago estava fria, àquela noite. Mesmo com o sobretudo negro que lhe cobria até as coxas, a camisa de lã verde-escuro e a calça jeans, James sentia as rajadas de vento baterem em sua roupa e esfriarem sua pele. Resolvera ir à pé, pois precisava e gostava de caminhar. No trajeto, os diversos neons se faziam reluzentes e chamativos em diversas casas comerciais, a vida noturna estava apenas começando. As calçadas, cheias; as ruas, menos movimentadas do que mais cedo.

Já na Clark Street um letreiro em azul que piscava “Blue Chicago” lhe chamou a atenção, fazendo-o desviar do bar que sempre fora com os colegas. Era pequeno e tinha uma arquitetura clássica, nada extravagante ou que esbanjasse dinheiro. Aconchegante. Sim, Jamie escolheu esta palavra para descrever o lugar. Músicos instalavam os instrumentos na parte da frente no local, bastante perto das mesas, que pelo que o mesmo viu, já estavam quase escassas. Apressou o passo, escolheu um acento ao canto, mais reservado, e sentou-se ainda com os olhos vidrados nos dedos do homem de pele escura, camisa de botões amarela e chapéu branco, que parecia estar afinando uma guitarra.

– Primeira vez aqui, meu rapaz? – O senhor que aparentava mais de cinquenta anos falou, sem desviar a atenção do instrumento em seu colo.

Um tanto confuso, sem saber se estava dirigindo-se a si, James ajeitou-se na cadeira antes de responder. – Ah, sim, é a minha primeira vez. – Sorriu, logo após. – Vocês tocam Blues, por aqui, certo? Estou ansioso para ouvir.

– Começaremos daqui a pouco. – O outro disse. – Prazer, Murphy. – E encarou-o, com um sorriso sincero nos lábios.

– James, é um prazer. – Respondeu instantes antes de um vulto preto tapar-lhe o horizonte, fazendo-o franzir as sobrancelhas. Uma mulher havia aparecido em sua frente, dando-lhe a visão de suas costas vestidas numa jaqueta negra, e das nádegas que trajavam um jeans na mesma cor. De imediato, repreendeu-se. Ela falava com Murphy em tom de intimidade, soltava alguns muxoxos, ria um tanto contida. O rapaz resolveu ignorar, virou-se e chamou o garçom. Pediu Whisky, e apoiou os braços na mesa.

– Ei – Chamou ela. –, eu posso me sentar aqui? As mesas acabaram.

Em instantes, trocaram um lampejo de olhar. Ela, alta, com cabelos e olhos castanhos, fazia as roupas apertarem sua pele; “Quantas curvas”, pensou o rapaz. E apesar de ter reparado no bonito corpo, não desviou os olhos dos seus. “Quanta solidão”, pensou a moça.

– Claro, senta aí. – Disse ele.

– Você é novo por aqui? – Perguntou-lhe, sentando-se a seu lado, deixando os braços também sobre a mesa, próximos aos seus, onde ele avistou primeiro uma, depois três, ao todo, cinco tatuagens. Ele havia feito uma também, a rosa dos ventos, pequena, discreta, na base da nuca.

– Moro há alguns anos na cidade, mas é minha primeira vez aqui. – O whisky chegou ao local que ambos compartilhavam, e antes que pudesse pensar em bebê-lo, o rapaz estendeu o copo à desconhecida, e sorriu sem mostrar os dentes.

Ela aceitou sem pestanejar, e deu o primeiro gole. – De onde você é?

– Veneza.

– Oh, un ragazzo italiano. – Arranhou a mulher, com um sotaque improvisado, mas que foi o bastante para abrir um sorriso nos lábios do outro. – Me chamo Pérola.

– James. – O rapaz disse, bebericando do segundo copo de whisky que já havia chegado à suas mãos. – O show por aqui é bom?

– Depende do seu conceito de “bom”. – Frisou ela, abrindo um sorriso sarcástico, bebendo rápido o líquido alaranjado; um, dois, três goles, e o copo estava vazio. – Você deve saber – Encarou-o. –, se está afim de nostalgia, veio ao lugar certo.

– Acho que por mais que eu não esteja afim, a vida sempre me joga um pedaço disso. – Inverteu o copo colado à boca, deixando-o igualmente vago. – Você deve saber – Levantou a mão, fazendo sinal para que o garçom trouxesse uma garrafa. –, consequências de escolhas erradas e irreversíveis.

– Arrependimentos? – Perguntou com a voz suave e sincera, apoiando o queixo em uma das mãos.

– Sim – Respondeu. – Me arrependo, mas não sei se conseguiria fazer diferente, se tivesse chance. – E calaram-se ambos, quando os primeiros acordes dos instrumentos passaram a ressoar pelo ambiente. No entanto, continuaram a se encarar. A iluminação era um tanto ruim, Pérola não conseguia visualizar o azul intenso dos olhos daquele homem, mas algo dentro de seu consciente dizia-lhe o quanto eram bonitos, atordoados e atordoantes. No entorno do castanho dos dela, o traço do lápis-de-olho negro estava borrado, manchando um pedaço do pele parda de seu rosto, que James quis limpar, tocar, fazer contato. Se deteve, não demonstrou emoções, continuou ali, sentindo algo a mais que o olhar da mulher, talvez a adrenalina ou a loucura de estar se abrindo à uma estranha. – Sou meio confuso, eu sei. – Disse, depois do primeiro blues já estar na metade.

– Não. – Ela murmurou. – Eu te entendo perfeitamente.

*

Cármen já havia entrado, colocado a bolsa marrom sobre o sofá, vestido o avental de forma rápida, e neste instante, descascava alguns tomates na pia da cozinha pequena de Giuliana. A mesma, que fechava e abria as mãos em punhos nervosamente, sentia um nó na garganta, impedindo-a de vozear os pensamentos, falar abertamente, ser honesta. Para acalmar-se, resolveu migrar para a sacada. Era compacta, assim como todo o apartamento, alugado há alguns anos, com o dinheiro suado que ganhou como gerente da floricultura.

Uma fina camada de suor descia-lhe a lateral da testa, caindo por toda extensão do rosto, fazendo-a secá-la de minutos em minutos. Os olhos ardiam, a cabeça farfalhava; ela precisava de uma taça de vinho. Andou até a cristaleira que havia ganhado de presente de seus pais; abriu-a com cuidado, as mãos tremiam; esticou os dedos para tocarem a taça, e de súbito ouviu a voz de Cármen, que lhe pareceu mil vezes mais estridente à seus ouvidos, do que o estraçalhar do vidro ao chão, instantes seguintes. Continuou estática, de costas para a mulher, os ombros trêmulos, um filete de sangue escoando pelo dorso do pé direito.

– Giú, o que está acontecendo? – Murmurou Cármen, os olhos esverdeados aturdidos. Alguns toques a mais de silêncio, a confusão, o medo. – Giú… – Desta vez, sussurrou.

– Preciso ser honesta. – Saiu fino, rasgado, era para ter sido firme.

– Então faça isso olhando em meus olhos. – Pediu, e assim Giuliana o fez, mesmo calada. – Agora me diga o que aconteceu.

– Cármen… – Aproximou-se, mas retraiu-se em questão de milésimos. Abriu a boca, mas palavras não vieram; fechou-a e as mesmas faziam sua mente explodir. Por fim, soluçou. Lágrimas formaram-se e caíram dos olhos, pelas bochechas. – Me perdoe. – Balançou a cabeça, enfiou os dedos no couro cabeludo e chorou. Chorou forte, desesperada, inconsolável.

Certo tempo passou-se em silêncio, nenhuma palavra, a mágoa consolidou o ambiente. Giuliana tinha os dedos no rosto; Cármen, a mão no pescoço, os olhos fechados, um nó na garganta.

Um riso amargurado cruzou o local, saído da morena. – Você vai me chutar. – Disse ela.

– Eu não faço isso. – Retrucou, o olhar melancólico. – Eu não chuto as pessoas.

– Giú – Andou em direção a moça, segurou-lhe o rosto anguloso nas mãos. –, você está confusa, não está? Eu lhe entendo, sei que é novo para você, sei que no começo as pessoas não costumam entender. Mas, eu estou aqui. – Avançou em direção as lábios da mesma, e sugou-os com avidez, desespero, enquanto a outra lhe afastava pelos ombros. Mesmo assim, não a soltou, era consideravelmente mais forte, mas sentiu os soluços saídos da garganta da menor, e largou-a pouco à pouco, sem crer no que estava acontecendo.

– Cármen – Pausou enquanto mais lágrimas caíam, e virou-lhe as costas, com vergonha das próprias atitudes, dos próprios sentimentos; sabia o quanto a feria. – Me desculpe...

– Pensa que eu não sei sobre ele? – Disse, de repente, soltando palavras como navalhas; rápidas, cortantes, certeiras. – O seu… “eterno amor”. – Deu ênfase, contorceu os lábios em nojo. – Vou lhe dizer uma coisa, Giuliana, você não é tão boa quanto pensa. – O tom de voz aumentou; imediatamente, Giuli sentiu-se pequena como uma formiga. – Faz esse papelzinho de boa moça, mas pouco se lixa para o sentimento dos outros. – Berrou ao fim da frase; agora também chorava, também demonstrava o quanto estava quebrada. – Eu estou apaixonada por você. – Melodiou, desvairada e bateu o pulso três vezes seguidas na cabeça. – Assumi para minha família, enfrentei um inferno no último mês, pra você me descartar! Do nada, sem aviso prévio, dando uma de santa! – Gritou, as sobrancelhas franzindo-se em fúria. Pegou um porta-retrato que estava sobre o criado-mudo a seu lado; uma foto de Jamie e Giuli na adolescência, sorrindo, abraçados; e balançou-o no ar. – É ele, não é? Esse tal de James que sempre te liga!

– Larga isso. – Grunhiu a ruiva, o olhar vidrado no objeto.

– Você sequer gosta de mulher? Sequer sentiu uma mínima atração por mim? – Perguntou; as lágrimas caíam, o vidro balançava, do pé de Giuliana, mais sangue escoava. – Mentirosa, cínica, dissimulada! – Berrou, e atirou o porta-retrato em direção a outra, que sem se mover, viu o mesmo estilhaçar a poucos centímetros, na parede. A ponta do objeto ainda cortou-lhe o supercílio, de onde agora, também jorrava sangue.

Cármen, com o passar do excesso de raiva, pálida ficou. Molhou os lábios, engoliu em seco, apanhou a bolsa do sofá, e correu em direção a porta. Quebrada por dentro e por fora, pegara o elevador e buscara a saída daquele prédio e da vida de Giuliana. Esta, sangrando no pé, na testa e na alma, encostou-se na parede e escorregou até o chão, segurando os joelhos, chorando compulsivamente.

A porta do apartamento ficara aberta, os soluços ecoavam pelo andar; uma senhora que morava ao lado saíra do elevador e estranhara os ruídos altos e desvairados, mas retraiu-se quando percebera que aquilo não tinha nada a ver consigo; já dentro da sala, a cristaleira encontrava-se escancarada, os cacos de vidro da taça, assim como o do porta-retrato, espalhados pelo chão; Giuliana, com sangue das mãos aos pés, sentia uma dor que àquele momento, parecia que iria matá-la de dentro para fora; não física, mas emocional; corroeria seu peito, depois as vísceras, por último, a mente; ela sabia que pensaria nele até o último segundo.

Num ato desesperado, correra em direção ao telefone, e discara o número dele. “Por Deus, me atenda”.

*

– Como é o nome dela?

As perguntas de Pérola eram sempre assim. Objetivas, claras. Depois de certo tempo tentando esquivar-se delas, talvez por cansaço ou pelo efeito do álcool, James deixou-se levar pela conversa, pela voz firme, o olhar atento. Murphy ainda tocava ao lado deles, já havia passado de uma da manhã, a maioria das pessoas ou já tinham se retirado ou estavam fazendo isso, enquanto ambos, não faziam estes planos.

– Giuliana. – Disse. – E o dele?

– Gustav. – Murmurou, abaixando o olhar. – Ele se casou no começo do ano.

– Sinto muito.

– Eu também senti, mas de uns tempos pra cá, percebi que não faria a mínima diferença. – Falou, ríspida consigo mesma, desviando o olhar, sem querer que mais uma vez, o pensamento voltasse a pousar no homem de cabelos cacheados, que em uma hora daquelas, deveria estar compartilhando sono com sua bonita esposa.

– E parou de sentir por conta disso? – Perguntou.

Depois de alguns instantes em silêncio, balançou a cabeça. – Não.

– Esse é o ponto. – Concluiu, piscando um dos olhos e bebendo o resto do líquido de seu copo. Pegou a garrafa, levantando-a no ar, mas percebeu que a mesma encontrava-se tão vaga quanto sua mente, e bufou. – Vou pedir outra.

– Não, James, eles já vão fechar. – Repreendeu a mulher, tocando-lhe a mão, e atraindo a atenção do rapaz para si. Ele fitou o tocar de seus dedos por cima de seu dorso, e gostou daquela maciez, daquele conforto. James gostara de Pérola. E entendera aquilo naquele momento. – Vou pedir a conta e a gente divide, certo?

Um tanto confuso, ele simplesmente assentiu. Apanhou a carteira do bolso, ainda com o olhar preso nos movimentos da outra, que levantava o braço, chamando o garçom. Só instantes depois foi perceber o quanto não estaria sendo cavalheiro, caso não pagasse toda a conta, mas pensou melhor, e deduziu que Pérola não era esse tipo de mulher. Diferente das demais, era independente, apesar de ter-lhe contado que aos 27 ainda morava com os pais; segura, mesmo que no momento não tivesse emprego; e autêntica, apesar de à primeira vista, não parecer. Um passarinho engaiolado, ele pensou. Bonito, porém, preso. De imediato, identificou-se.

– Eu queria viajar e conhecer o mundo. – Ele a disse, de repente, assustando-a com sua confissão e mais ainda, com o olhar cabisbaixo e sincero que tinha no rosto. Por um momento, Pérola pensou que veria o homem chorar. – Fiz geografia para conhecer mais sobre as culturas, as formações, economia, vegetação… Eu queria saber o máximo possível sobre essas coisas, para absorver ainda mais quando as visitasse. Hoje, eu tenho mestrado. Sei sobre muita coisa, mas pouco as conheci verdadeiramente. No fim das contas, me tornei aquilo que menos queria. Saí da Itália, por não querer me prender a um lugar, e acabei estagnado aqui. Um professorzinho “meia-boca”, amarrado a uma rotina irritante, à estudantes imaturos, sem nem sequer poder olhar o rosto dela, cara a cara. Sinto falta dela, Pérola. Sinto tanta falta, que chega a doer. – E neste momento, apoiou os cotovelos na mesa e o rosto nas mãos. A mulher deixou que lágrimas caíssem de seus olhos, assim como ela sabia que caía dos dele. O garçom chegou a seu lado, e limpando a face com o dorso das mãos, ela pagou toda a conta, sem ter a coragem de chamá-lo. Ele a amava tanto, ela pensou. Suas palavras repletas de dor e arrependimento, perfuravam fundo o peito da mulher que o escutava. Ele a queria de volta, ela sabia. Mas o próprio havia a afastado, assim como ela tinha feito com Gustav há anos atrás. Do mesmo modo que sabia que nunca poderia reatar qualquer laço feito àquele dia no bar, sabia também que James estava fadado a conviver com a saudade.

Tocou-lhe as mãos que ainda se encontravam sobre o rosto, e afastou-as lentamente, tendo a visão das bochechas molhadas, os olhos meio inchados e a tristeza impregnada em toda feição. Espalmou uma das mãos em sua face, e enxugou-a com os polegares, fazendo-o pregar as pálpebras. Num movimento rápido, ele segurou seu pulsos e beijou seus dedos, respirando rápido e profundamente. – Não quero ir embora. – Pela primeira vez, a encarou, balançando negativamente a cabeça.

– Eles já vão fechar. – Ela o explicou, massageando-lhe as maçãs do rosto, enxugando gradativamente as gotículas que ainda caíam de seus olhos.

– Então, deixe que eu te leve à minha casa. – Ele pediu, quase suplicou. – Me sinto melhor com você. – O homem sentia um desconforto que começava no peito, e parecia poder asfixiar-lhe a qualquer momento. O dedos de Pérola, amassados entre suas grandes mãos, eram quentes e traziam conforto; um bote salva-vidas, pensou ele.

– Você está bêbado, James. – Disse ela.

– Então finja que também está, e venha comigo.

Os olhos da mulher arregalaram-se, e algo no fundo de seu coração, deu um mínimo sinal de vida. Engoliu em seco, suspirou, e continuou a encará-lo. Apesar do torpor do álcool, parecia estar em sã consciência, agarrava sua mão por completo agora, e suplicava-lhe um “sim” com o brilho azul.

A caminhada foi rápida, alguns feches de pessoas seguindo a seu lado ou em direções contrárias, algumas esquinas, e por último, o gramado que ambos atravessavam. Que bela casa, pensou a mesma. Que belo peito, voltou a pensar, quando já estavam os dois, na sala de estar, ele sem o sobretudo e a camisa de lã, ela com a jaqueta preta já ao chão. Respirações descompensadas, beijos carinhosos, apertos firmes que doíam levemente. No sofá, ele a deitou e se pôs sobre a mesma; sem abrir os olhos, só sentindo-lhe a pele, era macia como a casca de um pêssego. Em algum momento da noite, ele devaneou madeixas alaranjadas, e deixou que os olhos pregassem fortemente e que da boca de lábios rosados, saísse um gemido audível e rouco. Ele a tinha sobre si, nua e linda, dormindo serenamente; às vezes pensava nela, às vezes em outra, de certo, tinha o chalé, Veneza e canais rondando sua mente, até dormir.

*

Eram quase dez da noite na Itália quando a voz de James adentou os ouvidos de Giuliana, fraca, rouca e sonolenta. Ela pensou um pouco, e deduziu que deveriam ser quase três da tarde no outro país, e o amigo, obviamente de ressaca, com certeza teria bebido demais na noite anterior.

– Giuli? Ai… – Ouve uma pausa da parte dele, e um ruído, como se estivesse sentando-se na cama, ou no sofá. – que dor de cabeça. – Murmurou ele, talvez para si mesmo, talvez para ela, não sabia.

– Bebeu muito? – Perguntou-o, e soltou um risinho, disfarçando seu verdadeiro estado.

– Sim. – Confirmou; a voz desconfortável, o cansaço audível aos ouvidos de Giuli.

– Você deve estar precisando de um café bem forte. – Disse, fechando os olhos com força para que mais lágrimas não caíssem. – Podemos nos falar mais tarde.

– Não, espere um minuto. – E um sentimento de esperança gostoso impregnou o coração da mulher, fazendo-a pensar: “Ele se importa comigo, ele sempre está, mesmo que por telefone, quando eu preciso”. Mas a mesma sensação, dissipou-se quando a ruiva ouviu alguns sussurros do outro lado da linha. “Bom dia”; “que horas são?”; “fique, por favor, só preciso de alguns minutos, e tomamos café juntos”; foram as palavras ouvidas por ela, e as responsáveis por trucidarem ainda mais seu pobre coração, já tão despedaçado quanto a taça de vinho e o porta-retrato. Queria correr, gritar, até não ter mais um pingo de energia no corpo. Como fora boba, pensara a mesma, ele já tinha outro alguém. Finalizou a chamada com um baque estrondoso no gancho, retirou o cabo e jogou-o em qualquer canto daquela sala. Não queria conversar com mais ninguém, não queria ouvir conselhos ou desculpas, o amigo não devia nada a ela, não tinham mais nenhum compromisso; ele era livre, como sempre desejara. E ela, quebrada, como nunca pensou que seria.

*