Margaridas de Inverno
3 Capítulo III – Amor, às vezes cuida. Amor, às vezes fere.
Capítulo III – Amor, às vezes cuida. Amor, às vezes fere.
É um amor pobre aquele que se pode medir.
William Shakespeare
Veneza, Itália, 1991.
Ah, o amor. Era nele que Giuli pensava enquanto refazia o ritual de quase todas as noites. Ficar apoiada com os cotovelos na ponte, e olhar o mar, olhar o céu, olhar as gôndolas, olhar o amor.
Não havia um só dia em que um casal apaixonado não passeasse em uma gôndola. Alguns acompanhados por um guia, outros sozinhos; perdidos demais em seu universo íntimo para dividi-lo com alguém. Querendo ou não, quando devaneava sobre isso, Giuli pousava as borboletas que eram seus pensamentos em uma bonita e sensível flor que se chamava James. Jamie, melhor dizendo. Se algum dia os dois passeassem de gôndola, não precisariam de um guia. O coração de Giuli nutria um amor restrito demais para que fosse dividido com outra pessoa.
Mas, para total lamurio da menina de doze anos, com o rapaz, a história não eram bem assim.
O coração de James, talvez fosse grande demais, pensava ela. Afinal, sempre cabia mais uma.
Se colocar em ordem alfabética a lista de meninas cujo James já havia beijado ou roubado o coração, fosse um esporte olímpico; Giuli já teria ganho uma medalha de ouro. Amara, Amélia, Carina, Corine, Danica, Danila; eram tantas. E mesmo que ele dissesse que Giuliana era única em Veneza e em sua vida, a garota ainda vivia por tentar juntar os cacos que pouco à pouco, seu coração foi virando. Um coração de vidro? Provavelmente não, vidro é cortante, e até o momento, Giuli fora incapaz de ferir uma mosca, quanto mais, o rapaz. Talvez seu coração fosse feito de flores. Sim, flores. Margaridas, suas prediletas. E cada vez que James se aproximava, ele floria, feito um campo em completa primavera. Cada vez que se distanciava, ele murchava. Morria em um processo lento e doloroso. Até que o rapaz viesse regá-lo novamente.
A noite estava fria, e a estação era inverno. As folhas das árvores não existiam mais, e os olhos de Giuli pendiam vagarosos e acastanhados. Fora um dia bastante comum.
– Está bem frio, não acha? – A voz firme e ao mesmo tempo suave do amigo, já conhecida e admirada, fez a menina virar-se para a direita, que era de onde ela tinha vindo. Ele estava de moletom, camisa que lhe cobria os braços, e pés descalços. Tão bonito quanto o céu estrelado, pensou ela.
– Vai dormir aqui? – Perguntou, tentando conter o sorriso. Algo lhe dizia que se o deixasse escapar, ele sairia mais aberto do que devia.
– Estava em seu quarto há um bom tempo. – Disse ele, aproximando-se. – Mas, você demorou, então decidi vir à seu encontro.
Mentalmente, Giuli se perguntou se sempre seria assim. Talvez, se ela se distanciasse um pouco, somente para que ele sentisse sua falta... Talvez assim, ele parasse de procurar preenchimento em pessoas tão vazias, enquanto ela transbordasse à sua espera.
James fixou os pés gelados em sua frente, e seu dedão encostou no dedão de Giuli. Ele a puxou pelos dois braços para que ela subisse em seus pés e conseguisse um pouco mais de altura, e assim a enlaçou em um carinhoso abraço.
Não, Giuli não poderia se afastar nem um instante sequer. Toda margarida precisava de luz, de calor. E James era seu sol.
– Senti sua falta. – Ele disse, enquanto se embriagava com a fragrância dos cabelos ruivos.
– Nós nos vimos hoje a tarde. – Disse ela, e era verdade.
– Sim, nos vimos. Mas, não nos abraçamos ou conversamos direito. – James suspirou, e seu coração apertou-se ainda mais. Estava arrependido. – Giuli, me perdoe se a deixei de lado durante esses dias. – Ele a apertou com ainda mais força, e junto com ela, seus olhos. Apertou os próprios olhos, quando notou a menina se derramar em prantos em seu abraço. Estava tão frágil, que pensou em fugir para algum lugar bonito, e leva-la consigo para que parasse de chorar. – Não faça isso comigo, não chore. – Suplicou, levantando o rosto de Giuli com uma de suas mãos, e não tardando em encostar suas bocas. A dela estava gelada e salgada, por conta das lágrimas que o rapaz insistia em sugar, como um pedido para que secassem. A dele era doce e lembrava mel. Imediatamente, Giuli imaginou milhares de abelhas com os rostos das garotas da cidade, e o empurrou, rompendo o contato.
– Eu não sou uma abelha! – Ela disse, um tanto alto demais. Queria enfiar tal frase na própria cabeça.
– O quê? – Ele exclamou, ofegante. Não sabia do que diabos ela estava falando.
– Não sou uma simples abelha, no meio de uma colméia completamente louca pelo seu mel. – Ela esbravejou, enquanto o garoto franzia ainda mais as sobrancelhas. Não estava entendendo nada. – James, pare de tentar transformar nossa amizade em mais um dos inúmeros casos amorosos que você encontra em qualquer esquina de Veneza. – Ela pediu, em um murmúrio, enquanto fungava. As lágrimas tinham voltado à descer.
– Mas... – A voz do rapaz sumiu durante alguns segundos. – não estou fazendo isso, Giuli.
– Está sim. – Ela assentiu com o queixo. – Você me beija da mesma forma que as beija. Elas. As várias, as diversas. Seus inúmeros casinhos.
– Não diga isso! – Ele grunhiu, e Giuli não pôde deixar de notar o quanto a voz dele tinha engrossado com o passar dos anos. – Não se compare a nenhuma delas.
– Mas, é você que me compara, James. É você que me põe no mesmo nível que elas quando me toma pelos lábios. – Ela ralhou, enquanto chorava. O coração de flores, agora parecia feito de vidro. Estava rasgando sua própria carne.
– Nunca a comparei. Nunca a pus no mesmo nível que ninguém, sabe muito bem, que para mim, não existe nenhuma outra como você. – Ele falou, decidido. – Giuli, você é a irmã que nunca tive.
– Irmãos não se beijam! – Foi a vez dela de grunhir, e soluçar ainda mais com o choro desesperado que lhe corroía a garganta, os olhos, o coração.
– Então, é isso? – Ele perguntou. – Você não gosta dos nossos beijos?! Está os recusando!
– Não, não, não! – Ela exclamou, em total frustração. Ele não conseguia enxergar. Ela amava os seus beijos, mas se eles não podiam ser só seus, era melhor que não os tivesse. – Só não quero que faça comigo, o mesmo que faz com elas. – Sussurrou, percebendo a voz lhe faltar.
– Nossos beijos não são iguais aos outros, isso posso lhe garantir.
Giuli mordeu fortemente o lábio, contendo o que queria dizer. Talvez os beijos não fossem os mesmos, mas ela tinha medo de se iludir da mesma forma que as outras. Estava com medo de se apaixonar, mas por Deus! Já estava apaixonada. Talvez tivesse medo de deixar de ser única. Sim, talvez fosse isso.
Depois de alguns eternos instantes em silêncio, ele se pronunciou:
– Giuli, o que está acontecendo com você? – Perguntou, em forma de súplica. Ele queria, necessitava saber.
Estou te amando, seu idiota!, era isso que a mente da menina lhe gritava. – Estou com medo. – Reduziu-se a dizer.
– Mas, medo do quê, fiore mia? – Perguntou, aproximando-se o bastante para lhe tocar as mãos.
– Medo de me tornar mais uma abelha dentre milhares dentro de uma colméia. – Murmurou, fitando o chão.
Deixando que o silêncio pairasse no ar, o rapaz respirou profundamente. – Acho melhor ir dormir em minha casa.
Imediatamente, Giuli levantou os olhos, espantada. – Não! – Ralhou. – Não, por favor.
– É o melhor a se fazer, Giuli. – Disse, cansado.
Em um ato de total desespero, ela o agarrou pelo peito, enlaçando-o em seus braços frágeis e alvos. Sucumbir à seus beijos, sabendo que eles também eram de outras, eram ruim; mas tê-lo distante era pior ainda. Não estava disposta a pagar esse preço.
– Não posso acreditar que tem medo de mim. – Ele murmurou, também a abraçando. – Medo de que eu faça algum mal à você. Giuli, eu te amo.
– Eu também te amo. Te amo muito. Mais do que deveria. – Ela falou, enquanto as lágrimas lhe enchiam os olhos novamente.
– Não me venha com essa de "mais do que deveria". Sabe muito bem que amor nunca é demais. – Ele disse, afogando suas mãos nos emaranhados ruivos.
– Desculpe. – Ela suplicou. – Desculpe, sou uma idiota.
– Não, não é. – Falou, segurando seu rosto entre as mãos. – Pare de chorar e de ter medo. Eu estou aqui, não estou? Nunca irei lhe deixar.
Ela assentiu, encarando seus olhos, e deixando o coração se acalmar. Dessa vez, fora ela quem segurara em seus sedosos e lisos cabelos castanhos, e quem o puxara para colar a boca à sua. Fora desesperado, e intensamente recíproco. Quando os pulmões decidiram que precisavam de ar, o peito de Giuli não doía mais. Jamie tinha o regado.
*
– Estão confortáveis? – Lea perguntou, vendo sua filha já deitada em uma das camas de solteiro, e James sentado com as costas apoiadas na parede. A cama que ele dormiria estava guardada para o outro membro da família Liuzzi que, para o lamento e a tristeza de Lea, nunca chegara.
– Estamos, mamãe. Obrigada pelo chocolate quente. – Giuliana já havia bebido todo o líquido de sua xícara, diferente de James, que ainda a tinha em mãos.
– Obrigada, Lea. – O mesmo pronunciou-se. – A noite, de fato, está bem fria.
A mulher sorriu sem mostrar os dentes, aceitando os agradecimentos. A ventania de inverno adentrava a casa, deixando todos os cômodos muito frios. A mesma queria correr para os braços de seu marido, onde ela sabia que conseguiria se aquecer.
– Não há pelo que agradecer, queridos. – Estendeu o braço para tocar a maçaneta da porta e fechá-la, mas antes disso, Afonso apareceu ao seu lado. A silenciosa mão pousou em sua cintura, e lá fez demasiada pressão. Ela sabia o que significava.
Franzindo a testa, Afonso encarou James, que o saldou com um aceno modesto. – Boa noite, capitão.
– Já sabe as regras, certo, garoto? Toque na minha menina, e Henrique será um homem sem filhos. – Afonso disse, referindo-se à seu amigo e também capitão, Henrique Velatti, pai de James.
O garoto assentiu, ainda sorrindo. Não se deixava abater pelas ameaças do pai da amiga, e Afonso gostava disso. – Tenho amor pela minha vida, capitão. – E mais amor ainda pela sua filha, terminou a frase mentalmente.
– Ótimo. Boa noite, querida. – O capitão disse, encarando Giuli, e recebendo um beijo jogado no ar pela menina. Com a mão, fechou a porta do quarto, e tratou de tomar a esposa pelos lábios. Naquela noite, como em quase todas, eles tentariam dar a vida à um novo Liuzzi.
Alguns minutos depois de ter terminado sua xícara de chocolate quente, James levantou-se para pô-la sobre o criado-mudo, ao lado da cama de Giuli. Ela o seguia com os olhos. Ele havia feito quatorze anos, já era um belo rapaz; era o que diziam as senhoras da cidade, e Giuli não podia evitar concordar. Apesar de achá-lo bonito desde a primeira vez que o vira.
O cabelo castanho, tão brilhoso, já caía pelo pescoço. Para os homens da cidade, era um tanto grande demais; mas ele mal se importava. Gostava de puxá-los para trás enquanto admirava o pôr-do-sol, próximo ao lago. Quase que subitamente, Giuli teve vontade de tocá-los.
Ele estava de pé à sua frente. Como ainda se encontrava deitada com a cabeça sobre o travesseiro, seus olhos estavam na mesma altura que os quadris do garoto. Avistou os mesmos se movimentarem, e um dos joelhos dele, pousarem em seu colchão. Depois disso, fechou os olhos. Já não queria ver, queria sentir. E sentiu.
Seus braços a enlaçaram, e ele acomodou-se em suas costas. Tudo estava ligado, conectado. As mãos, as pernas, o peito com os ombros; tudo. Giuli levantou os olhos novamente, meio turvos pela sensação, e deixou que eles pregassem pela última vez, quando James a puxou para o meio de suas coxas e para cima de si. Agora, ela estava deitada sobre seu peito. Aspirou o aroma de sua pele e ele, o perfume de seus cabelos. A apertou ainda mais, e nada disseram. Palavras não eram necessárias. Nada queriam dizer, agora, ambos queriam sentir.
*
Quando despertou, ainda entre seus lençóis e os braços de seu marido, Lea abriu os olhos confusa e atordoadamente. Ainda estava escuro, o sol não tinha nascido e consequentemente, seus raios ainda não atravessavam a janela.
Algo a fez levantar – calmamente, para não acordar seu amado. – e a mesma ainda não sabia do que se tratava. Por um impulso, vestiu a camisola que se encontrava em algum canto qualquer pelo chão de madeira, e logo após, pôs o robe de seda azul pelos ombros. A madrugada era extremamente gelada na Itália, e os pés descalços de Lea fizeram-na tremer.
Dando passos curtos e incertos pelo corredor, ela checara o relógio que estava preso à parede. 3:55 da manhã. Seu esposo se acordaria dali à 35 minutos.
Sem saber ao certo o porquê, esses pensamentos levaram a mulher a se dirigir ao quarto da filha. Parada em frente a porta, seus dedos seguraram a maçaneta, e a abriram cuidadosamente. No fundo de seu coração, ela já sabia o que veria.
Era tão bonito, que merecia ser pintado. Os olhos verdes encheram-se de lágrimas, e um sorriso sincero lhe escapou, sendo contido logo após com uma de suas mãos. A visão de sua menina dormindo tão tranquila e serenamente no peito do rapaz, a fez lembrar-se de si mesma.
Não havia acontecido nada além daquilo, ela tinha certeza. As roupas estavam em seus devidos lugares, e Lea confiava piamente em sua pequena. A paixão podia ser vista até no rubor em suas bochechas. A mulher sorriu mais uma vez, encantada. Mas, logo, a realidade lhe pegou desprevenida. Se Afonso sequer imaginasse esta cena, o resultado não seria nada bom.
Fechando a porta atrás de si, Lea caminhou em direção aos garotos. Sua mão foi de encontro ao rosto do rapaz, e a pele gélida fez o mesmo se remexer imediatamente. Em alguns instantes, o mesmo estava abrindo os olhos e retomando a consciência.
– Lea? – Ele perguntou, atordoado e um tanto surpreso. Quando sentiu o peso de Giuli em seu peito, sua expressão ficou aterrorizada.
– Não se assuste, querido, está tudo bem. Mas, não posso dizer o mesmo, caso Afonso os veja. – Ela murmurou, enquanto o fitava ternamente.
Cuidadoso, James tirou Giuli de cima de si e a pôs sobre o colchão, precupando-se em cobri-la até o pescoço. Antes de ir para sua cama, o mesmo fitou a mãe de sua amiga, sem nada dizer.
– Não a magoe, meu rapaz. – Lea pediu, temerosa.
– Estou tentando. – Ele disse, e a mesma assentiu, deixando o quarto em que os dois se encontravam.
Antes de deitar-se, James foi até Giuli novamente, e se ajoelhou a sua frente. Ela ainda dormia.
– Estou tentando, fiore mia.
*
Quando Giuli despertou, não abriu os olhos de imediato. Os braços que a enlaçavam na noite anterior, não estavam mais lá. Nem as pernas, o tórax, ou simplesmente, os dedos. Nada.
Quando, finalmente, teve coragem de levantar as pálpebras, a realidade lhe pegou em cheio. Estava se sentindo vaziamente sozinha. O refluxo subiu-lhe a garganta, e em um ato ácido e sufocante, ela o engoliu, fazendo a laringe queimar. Soltou pelos lábios, o ar que prendia, e se negou a sequer deixar que as lágrimas lhe invadissem os olhos. Onde estava a jovem destemida? Nem ela mesma, sabia.
Os passos até o banheiro, foram interrompidos por inúmeros tropeços e "quase-quedas". De súbito, seus pés e suas mãos tinham ficado tão pesados quando pedras de granito. E assim que a menina pousou os olhos em seus pulsos, as veias saltavam em contraste com o resto de sua pele. Ela não sabia se estas estavam azuis demais ou se era ela mesma que se encontrava amarelada.
Assim que adentrou o pequeno cubículo, o espelho fora seu pior inimigo. Ela estava horrível. A aparência doentia e anêmica denunciava seu estado físico e emocional. Por que ele tinha que fazer aquilo com ela?
Sem aguentar mais a angustia que tinha no peito, a menina desceu as escadas, onde parou no último degrau, avistando a mãe virada para a pia da cozinha.
– Mamãe, onde está James?
Assustada, a mãe sobressaltou-se. – Giuli? Pensei que não fosse mais acordar, querida. Bom dia!
– Onde ele está, mãe? – Insistiu, ignorando as palavras da mesma. As gotículas ameaçavam descer-lhe a face, e a agonia, explodir o coração. Eles tinham passado uma noite juntos, não tinham? Não era isso que os adultos queriam dizer, quando falavam que duas pessoas "faziam amor sobre os lençóis"? A menina não sabia bem, mas tinha certeza que significava algo.
– Querida, acalme-se! Você está bem? Me parece tão abatida... – Lea murmurou, preocupada.
Sem conseguir mais segurá-las, Giuli deixou-as cair. As lágrimas fizeram caminhos grossos e tortos, desde os olhos, até o queixo da menina, onde encontraram um precipício. Com uma respiração calma e regular, Giuli sentiu sua visão tremer. A mão, imediatamente, foi em direção ao corrimão da escada. Se não conseguisse se segurar, ela também iria ao chão.
– Giuliana! – Lea gritou, vendo a filha prestes à cair.
Antes que a mãe pudesse ajudá-la, Giuli sentiu braços ao seu redor, a tirando do assoalho. Os olhos tombavam involuntariamente, e a mesma fazia um tremendo esforço para mantê-los abertos. Quando sentiu as costas serem depositadas gentilmente no sofá, olhos azuis entraram em sua linha de visão.
– Jamie? – Ela sussurrou, chorando de alívio e felicidade. Ele estava ali.
– O que aconteceu, Giuli? – Perguntou, ajoelhado à sua frente, passando o dorso de seus dedos pela bochecha da menina. – Fiore... fale comigo. – Pediu, sentindo o peito apertar.
A mesma fungou algumas vezes, antes de juntar saliva o suficiente na boca, para conseguir sibilar algo. – Aonde você foi? – Saiu baixo e falho.
James não entendeu de imediato o que a amiga estava perguntando. Precisou olhá-la por mais alguns instantes e ter total certeza de que estava minimamente bem, só assim, seu raciocínio pôde trabalhar verdadeiramente.
– O quê? – Preferiu ouvir a pergunta novamente.
– Você não estava no quarto… quando acordei. – A menina sibilou, engolindo quase em seco, para que o ato não lhe doesse tanto a garganta.
– Eu… – James forçou a mente, de novo, buscando a resposta que ela tanto queria. Estava atordoado. – Eu fui buscar flores. – Ele a disse, somente.
Percebendo o silêncio, Lea, que estava também ao lado da filha e segurando-lhe a mão, pronunciou-se. – Querida, você tem se alimentado? Irei ligar para seu pai, ele precisa levá-la ao médico. – A mulher disse, aos tropeços; levantando-se e indo em direção ao telefone.
– Você… foi colher flores? – Giuli voltou a falar, quando sua mãe saiu da sala, deixando-os à sós.
James encarou-a nos olhos. – Sim. – Ele disse. – Esqueceu que dia é hoje?
Giuli franziu as sobrancelhas, e consequentemente, sua cabeça doeu. – Esqueci.
Pela primeira vez, Jamie sorriu. Mesmo que minimamente. – 20 de março, fiore mia. – Acariciou-lhe os cabelos. – Estamos na primavera.
A pele opaca da menina, marcada fortemente pelo anil de suas veias que rodeavam-lhe os olhos, pouco à pouco, enrubesceu. O sorriso floresceu nos lábios que tomaram cor, e na alma que antes estava doentia. O medo da perda tinha lhe tirado as forças e as alegrias, e somente com algumas palavras, ele havia conseguido repô-las novamente. Algo dizia a Giuli que sempre seria assim.
Vendo o rubor nas bochechas da amiga, Jamie segurou-lhe o rosto entre as mãos e roçou o nariz no seu. Estava tão próximo que poderia beijá-la. Mas, ao contrário disso, fora ela quem encostou os lábios no dele. Fora rápido, sem deixar de ser terno. Rápido, sem deixar de significar o imenso sentimento que traziam no peito.
– Onde estão as flores? – Ela perguntou, deixando a euforia sair pelos poros. Em uma tentativa de se levantar, sentiu-se tonta, e o amigo a deitou sobre o sofá, colocando uma almofada sob a cabeça.
– Deixei-as na varanda, não se levante tão abruptamente. – Pediu, elevando-se. – Vou buscá-las, fique aqui.
James saiu rapidamente pela porta, e logo após, retornou pela mesma. Trazia consigo um buquê feito com tulipas amarelas e cordinhas de cipó. Eram tão lindas que fizeram Giuli chorar novamente. Tão lindas que aqueceram-na as mãos, os pés e o coração.
– Fiori per una fiore.¹
*
Afonso encontrava-se em sua mesa cheia de papéis que precisavam ser vistos e carimbados. Como todos os dias da semana, menos o domingo, ele tinha chegado à unidade, pontualmente, às 5:15 da manhã.Como era sábado, sairia um pouco mais cedo.
O homem estava envolvido demais em sua leitura, para notar a presença de seu amigo, e também capitão, Henrique, que estava parado em frente à porta, com a boina em mãos.
– Afonso? – Disse ele, adentrando a sala, e passando a mão pelos cheios cabelos castanhos. – Acha que consegue acabar isso, hoje?
Encarando o colega de trabalho, Afonso passou os olhos novamente pela pilha de papéis. Seria um dia cheio. – Sinceramente? Talvez, se eu virar a noite aqui.
Sentando-se no sofá marfim que o cômodo dispunha, Henrique afrouxou os botões da jaqueta. – Camille quer dar um jantar para você e sua família em nossa casa. Que tal amanhã? – Perguntou ele.
O outro sorriu, deixando o trabalho de lado durante alguns instantes. – Acho ótimo. Estamos mesmo precisando sair com os amigos.
– Esperamos vocês às sete, então. – Concluiu. – Me diga uma coisa, James dormiu em sua casa ontem? – Perguntou, franzindo as sobrancelhas em curiosidade.
– Sim, dormiu.Por quê?
– Você sabe… – Henrique suspirou. – Esses garotos com os hormônios à flor da pele, sempre aprontam. Tudo o que não preciso é de um pai louco, gritando asneiras em meu ouvido, porque James tirou a honra de sua filha.
A famosa carranca tomou conta do rosto de Afonso, assim que ouviu tais palavras. – Não sabia que James já estava com essa mentalidade. Quantos anos ele tem?
– 14. – Disse Henrique. – Mas, por favor, não se preocupe. A relação que ele tem com Giuli é totalmente diferente, você já deve ter percebido.
– Impossível não perceber. – Falou, ainda com o cenho franzido. – Não se desgrudam.
Henrique riu, passando os dedos pela testa. – Sua filha seria a nora dos sonhos, Afonso. Tenho que admitir.
– Giuliana é uma criança, ainda não pensa em coisas desse tipo. – Cortou, imediatamente.
– Eu sei, eu sei. – Apressou-se em dizer. – Só estou falando que… dentre as muitas meninas da cidade, ela é uma das melhores. Uma bela e inteligente menina.
– Criei-a para isso. – Falou, dando um pequeno sorriso de canto. – Seu filho também não é dos piores.
Soltando uma rápida risada, Henrique assentiu. – Não é mesmo.
O silêncio pairou na sala, e só neste momento, os dois homens conseguiram ouvir o telefone que tocava incessantemente. Rápido, Afonso levantou-se de sua cadeira, pegou-o e o pôs em seu ouvido esquerdo. Já passava das onze da manhã.
– Afonso? – A voz desesperada de sua mulher lhe atingiu os ouvidos, antes mesmo que tivesse tempo de dizer algo.
– Lea? O que houve? – Perguntou, exalando preocupação. Henrique pôs-se de pé, imediatamente.
– Giuli ficou tonta enquanto descia a escada, querido. – Sua voz estava embargada. – Não foi ao chão, pois James a segurou antes disso. Creio que tenha desmaiado por alguns instantes…
– Chego em casa em alguns minutos. – Disse, prontamente.
O olhar duro fitou o amigo, e logo após, pegou a boina que estava sobre a mesa. – Minha filha precisa de mim.– Falou, e saiu.
*
– Querida, já liguei pra seu pai. Ele chegará em alguns minutos. – Lea disse, ficando ao lado de sua filha novamente.
– Eu já estou bem, mamãe. – Giuli falou, segurando a mão de sua mãe. – Não precisava tê-lo incomodado.
– Você precisa ir ao médico, Giuli. – James pronunciou-se. – Precisamos saber o que você teve, para que possamos ajudá-la.
Fitando o amigo por alguns longos instantes, Giuli perguntou-se se “tristeza aguda” era nome de doença. Deduziu que não, e abaixou o olhar. – Estou bem, agora. – Concluiu.
– Mesmo assim, é melhor levá-la ao médico, querida. James, você pode ajudá-la à subir as escadas? Prepararei um banho quente em minha banheira, e logo vou chamá-la, Giuli.
Ambos assentiram, e se levantaram. Quando Giuli apoiou-se nos ombros de James, para começar a andar; ele segurou-a pelas costas, logo após, suspendendo suas pernas. Giuli estava em seus braços. Fraca, anêmica, e com o peito aquecido. Apoiou a cabeça na curva do pescoço do rapaz e fechou os olhos. Talvez, ficar doente não fosse tão ruim assim.
– Não, não me ponha na cama. – Pediu ela, quando o mesmo estava prestes a o fazer.
Interrompendo sua ação, James sorriu, vendo o divertimento no semblante da amiga. – E o que quer que eu faça? – Perguntou ele.
– Quero que deite comigo. – Ela pediu, voltando a se aconchegar no peito quente. – Vamos fazer amor sobre os lençóis.
– O quê? – James espantou-se, franzindo as sobrancelhas.
– O que fizemos ontem, oras. – Levantou os olhos, para fitá-lo. – Quando duas pessoas dormem juntas… Não é essa a expressão que usam? “Fazer amor sobre os lençóis”?
Tentando entender o que Giuli estava dizendo, James tomou conta de como a amiga ainda era inocente. Bom, talvez ele fosse um tanto precoce, não sabia bem.
– Giuli, não use essa expressão perto de alguém que não seja eu, tudo bem? – Ele pediu, sentando na cama, ainda com a menina em seu colo.
– Por que não?
– É algo… íntimo demais. Com o tempo você vai entender melhor. – Explicou.
Mesmo sem compreender, Giuli assentiu. – Mas, posso usá-la com você, certo?
James não disse nada durante algum tempo. – Pode… é claro que pode.
Giuli sorriu, e acomodou-se melhor ao colo do amigo. – Eu gosto de fazer amor sobre os lençóis com você, Jamie.
Aquilo era desonesto, ela não sabia o que estava dizendo; James pensou. – Eu também gosto. – Disse.
– Poderíamos fazer mais vezes. – Sugeriu ela.
– Sim, com toda certeza, poderíamos. – Ele concordou, sentindo-se ofegar. Aquilo não estava certo. – Mas, agora, você precisa descansar, tomar banho e ir ao médico, tudo bem?
– Giuli, seu banho está pronto.Venha logo, seu pai já chegou. – Lea gritou, do quarto ao lado.
– Consegue andar? – Ele a perguntou.
– Sim, consigo.
James a pôs no chão, mas continuou apoiando-a. – Jamie?
– Sim. – Ele a fitou.
– Quando eu voltar do médico… você ainda vai estar aqui? – Perguntou ela.
– É claro que sim.
Ela sorriu. – Vamos fazer amor hoje novamente?
Ele a acompanhou e beijou-lhe os cabelos. – Sim, fiore. Faremos.
*
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