No capítulo anterior...

- Talvez ele tenha ficado decepcionado por Alice não ter aparecido para o desaniversário dele e a estivesse procurando, não?

- Sei lá. – Dei de ombros.

- Vamos logo comer! Eu estou ficando louco de tanta fome! – Simon disse, deixando de lado o assunto Gato.

- Sim, vamos. — Eu devia estar horrível, com um vestido preto básico que já estava aos trapos e o cabelo loiro desgrenhado, do jeito que acordei, mas enfim.

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Então seguimos pelo castelo até a sala de jantar. Uma das salas de jantar. Deviam ter outras em um lugar enorme assim. Simon me guiava pelos inúmeros corredores. Sem dúvidas conhecia muito mais aquele castelo do que eu.

- Bom dia. – Eu cumprimentei, sorrindo, as pessoas que estavam ali.

- Bom dia. – Sarah respondeu, retribuindo o sorriso.

- Bom dia. – Haji também me cumprimentou. Eu sabia que sua expressão era séria e sem sentimento algum, mesmo ele estando sentado na janela do outro lado do cômodo.

-Bom dia. – Joel murmurou, em sua cadeira de rodas.

- Ohayo, Mag. – Eu sabia que aquela era a voz de Diego antes mesmo dele segurar minha mão e beijá-la em um gesto de cavalheirismo, para então voltar para o lado de Sarah, em seu posto de “guarda-costas”.

Saya permaneceu indiferente. Parecia totalmente intrigada com seu sanduiche misto. Eu não sabia que as rainhas dos quirópteros comiam assim. Quer dizer, não pela forma animalesca com que ela devorava a refeição, mas achei que eles só bebessem sangue, sabe? Pelo menos o Haji não estava comendo nada... E, pensando bem, não me lembro de ter visto o Diego comer nada depois... Que ele se transformou, há quase três anos. Me dava um nó na garganta a ideia de Diego beber sangue. Argh. Eu engoli em seco.

- Então, esteja à vontade, pode comer o que quiser. – Sarah falou.

- Desculpe, eu estava faminta então já comecei a comer, mas ainda irei acompanhá-los. – Saya se desculpava por comer antes da hora.

- Tudo bem. Não é justo que você fique com fome porque eu dormi demais! – Eu dispensei as desculpas, realmente não era necessário uma rainha pedir desculpas por não ter paciência de esperar pela minha boa vontade de acordar.

Joel, Sarah e seu Chevalier começaram a rir. Saya começou a preparar outro sanduiche, dizendo que esse era para me acompanhar. Simon foi logo até a sexta de frutas, pegou um jambo bem madurinho e se acomodou na cadeira de bebê. Ele só veria por baixo da mesa se ficasse numa cadeira normal. Joel cortava um pedaço do bolo de laranja.

Era uma mesa retangular de seis lugares, de forma que eu, Diego e Sarah, nessa ordem, sentamos de um lado e Saya, Simon e Joel do outro. Haji continuava no tédio da janela. Só eu parecia notar o olhar ameaçador que o Cavaleiro da Morte dirigia a Simon. Estava começando a ter a leve impressão de que ele sabia algo que eu não sabia sobre meu lêmure...

- Sarah, eu gostaria de lhe pedir permissão para ir à cidade, comprar algumas coisas das quais estou precisando. Roupa, essas coisas. – Aproveitei a oportunidade para pedir.

- Claro. – A garota de longos cabelos pretos e muito mais velha do que aparentava, respondeu.

- Mas eu não sei andar na cidade, sabe. Nunca estive lá. Nem o Simon, creio eu. Então...

- Diego irá com você, não se preocupe. – Ela antecipou.

- Muito obrigada, Sarah-sama. – Agradeci.

- Nada de formalidades, por favor. Pode chamar de Sarah-chan. – Ela sorriu amigavelmente.

Então, seguiu-se um café-da-manhã de pouca conversa. Aquele silêncio soava tenso, doentio e melancólico. Havia um toque de morte do ar, talvez pela preocupação de Sarah e Saya com a saúde do velho. Saya parecia mais viva hoje, parecia ter recuperado algumas lembranças. Esse castelo devia ajudar e as pessoas que estavam ao seu redor. Elementos de seu passado e tudo mais. O jeito indefinido de Haji, que tinha sempre aquela expressão que escondia plenamente o que se passa na mente dele me despertava curiosidade quanto ao rapaz...

Quando terminei, pedi licença e voltei até o meu quarto. Admito que se não fosse pelo meu lindinho listrado eu teria me perdido por aquele castelo, ainda não dava para se acostumar com aquele lugar gigantesco em uma noite, se é que me entende. Tomei um banho na suíte (não sei se já mencionei, mas tinha um banheiro no meu novo quarto, decorado com o mesmo bom gosto).

- Eu também vou com vocês, não é? – Simon perguntou, fazendo a maior cara de cãozinho sem dono.

- Não. – Eu respondi instantaneamente, olhando no espelho que tinha dentro do meu armário vazio como tinha ficado com o vestido que Sarah me emprestara. Não era muito agradável me vestir com a roupa que pertencia a um quiróptero. Mas ter ódio de Sarah só pelo fato de que ela era um quiróptero era como ter obrigação de odiar Diego também. Se bem que há uma grande diferença entre nascer quiróptero e transformar-se em quiróptero, eu acho... Ou não.

A verdade é que estava simplesmente lindo. Só não era muito a minha cara, essa coisa de roupas meigas e coloridas. Era rosa com um laço branco enorme na cintura, uns três dedos acima dos joelhos, um pouco decotado. O sapatinho parecia de boneca e eu me recusei a por o laço cor de rosa que ela me deu para o cabelo. Me sentia totalmente estranha, quer dizer, eu costumo usar roupas pretas, botas, all star, colares de soqueira, cintos com tachinhas, coisas assim... Mais darks.

Até por que as únicas roupas que eu conseguia no tempo em que vivia pela floresta com o meu lêmure eram as roupas que Sônia Hosvand, uma feiticeira que morava em uma cabana perto de um rio, me dava. É meio estranho, mas ela me tratava como uma filha. Era muito doce, embora todos a temessem, por ela ser feiticeira. Uma pena ela ter se isolado tanto e não fazer ideia de como ir para um mundo paralelo a esse, quem dirá o meu mundo... Droga, eu quero voltar para casa.

- Mas... – Ele começou a contestar.

- Simon, você fica e pronto. Não tem nada para você na cidade, não discuta! – Eu explodi. Talvez eu estivesse sendo injusta, mas isso de que ele deveria saber como voltar aquele lugar preto e branco por onde chegamos aqui estava martelando em minha mente. E aquele olhar de Diego, como se soubesse algo que não sei sobre Simon... Um dia na cidade com o Chevalier da Morte seria uma boa oportunidade para entender isso, então não era interessante para mim que Simon estivesse lá.

- Eu não entendo porque você está assim comigo de repente. – Ele parecia magoado quando disse isso.

Depois ficou quieto, provavelmente mergulhado em seus próprios pensamentos. Mas eu não tinha tempo agora para ficar preocupada em ter magoado ou não meu animalzinho de estimação. Eu já tinha perdido malditos quatro anos nessa droga de lugar, talvez por culpa dele e não queria perder nem mais um segundo. Eu estava decidida a encontrar o caminho de volta para casa.

By: Alice M. Schiller

Notas finais
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