Margaret

1 Do outro lado da linha


Notas iniciais
Oi, meus amores! Acho que algumas pessoas vão reconhecer esta forma de começar uma nota de autora. Faz bastante tempo desde a última vez que publiquei uma história por aqui, então retornar agora tem um significado muito especial para mim. Muitos de vocês me conheceram como Hunter Hill Foster, através das minhas fanfics de The Vampire Diaries. Parte importante da minha trajetória como escritora começou nesta plataforma, com leitores que acompanharam capítulos, deixaram comentários enormes, criaram teorias e sofreram comigo por personagens fictícios. Hoje volto como Darcy Quinn, trazendo uma história nova, personagens diferentes e uma fase completamente diferente da minha escrita. Margaret acompanha Danielle Quinn, uma brasileira que atravessa o mundo para começar a própria carreira na Coreia do Sul — sem imaginar como essa decisão transformará sua vida. A história nasceu da minha paixão por Cinema, música, romance, dramas emocionais e personagens que não conseguem atravessar a vida sem carregar algumas cicatrizes. Espero que os leitores antigos recebam esta nova história com o mesmo carinho que deram às anteriores — e que os novos leitores se sintam em casa por aqui. Comentem, criem teorias, escolham seus personagens favoritos e desconfiem de todo mundo que parecer suspeito demais. Eu estarei acompanhando cada reação. É muito bom estar de volta 🤍

Setembro de 2023

— Respira. — Yoongi sorriu de lado, percebendo que eu prendia a respiração.

— Está tão na cara assim? — respondi, soltando o ar que eu nem tinha percebido que prendia.

— Um pouco, mas pode relaxar. Seja você mesma.

— Isso que me preocupa.

Soltamos uma pequena risada ao mesmo tempo.

— Cinco minutos! — alguém avisou, tirando-o dali para uma última preparação e alguns ajustes.

Era estranho estar ali, pronta para ficar em frente a inúmeras câmeras, mas, ao mesmo tempo, era emocionante e, com certeza, irreal para a Danielle de um ano atrás.

Estava prestes a ter uma conversa quase informal com o grande produtor Suga, Min Yoongi nas horas vagas. Bom, tecnicamente, já tínhamos feito aquilo. Eu só tinha que deixar fluir.

— Tudo bem, vamos começar?

A equipe sinalizou afirmativamente.

A gravação tinha começado.

— Hoje, eu finalmente consegui convencer uma pessoa a estar aqui — alguém que passa a maior parte do tempo fugindo da frente das câmeras, mas que não resiste quando surge uma oportunidade de ficar atrás delas. Nome: Danielle Quinn. Ocupação: cineasta, apesar de eu achar que “multifunções” combina mais. “Uma melhor amiga de baixa manutenção e que não costuma falar sobre si mesma em frente a uma câmera. Farei o meu melhor.” Pode entrar.

Respirei fundo e sorri, tentando parecer o mais simpática possível, enquanto seguia para o meu lugar à sua frente, acenando com a cabeça.

Yoongi me cumprimentou de volta com uma expressão tranquila. Sua pele branca contrastava com os cabelos negros, agora um pouco mais curtos, adiantando a todos o que estava por vir em breve. Ele usava uma camiseta branca, jaqueta jeans e calça preta larga.

— Eu trouxe um presente para você. Dois presentes, na verdade.

Sentei-me.

— Uau, obrigado.

Ele sorriu, sentando-se também e pegando a sacola de papel que eu tinha em mãos. Foi só então que olhei ao redor, tendo plena visão da grandiosidade daquela produção.

— Nossa, eu não sabia que teria tantas câmeras. Olá! É uma honra estar aqui.

Ajeitei-me na cadeira. Yoongi sorria para mim, como fazia habitualmente para me acalmar. Sorri; apesar do nervosismo, queria deixar claro que queria estar ali.

— Oh, temos Hibiki aqui. — Seu sorriso se alargou, mostrando as gengivas, enquanto abria a sacola.

— Eu sei que você adora. Também trouxe uma parte do Brasil para você.

— Devo me preocupar? — perguntou, continuando a retirar os itens da sacola.

— Isso é... maracujá, certo?

Assim como meu coreano havia melhorado muito em comparação a quando cheguei, o português dele também tinha evoluído desde que me conheceu.

— Isso mesmo. Vou preparar a famosa caipirinha para você.

— Trinta e nove por cento de teor alcoólico — disse, observando a garrafa. — Da última vez que você fez alguma coisa com álcool...

— Você sobreviveu. — Sorri.

— Acho que fui uma péssima influência para você.

Ele terminou de dispor os itens sobre a mesa enquanto eu começava a preparar o drinque.

— Enfim, acho que você nunca participou de um talk show ou coisa do tipo, certo?

— Estou sempre atrás das câmeras, nunca na frente delas. Bom, quase nunca, agora.

— Não vai ser difícil, já que somos bem próximos.

— É, nos conhecemos há mais de um ano.

— Já faz um ano?

— Já. Parece uma vida inteira. — Sorri.

— Pois é. Acho que é porque nos tornamos próximos muito rápido quando você começou a trabalhar na HYBE.

— Será devido ao nível da nossa bateria social?

— Talvez. Nossos níveis são péssimos; devem se comunicar.

Finalizei a preparação dos drinques, acrescentando a cachaça, e ele pegou um dos copos, já dando um belo gole. Quanto à resistência ao álcool, ele nunca poderia reclamar.

— Isso é bom. Cai-pi-ri-nha — disse devagar, sílaba por sílaba.

— Ah, eu esqueci de brindar. Vamos brindar.

Erguemos os copos, fazendo-os se tocar levemente, e, por fim, tomamos mais um gole da bebida.

— Bom, eu comentei que você veio para a Coreia trabalhar na HYBE, não é? Departamento Audiovisual.

— Sim, eu ia começar fazendo um trabalho mais geral, como assistente, mas aí me colocaram para ajudar a cobrir o show de Busan, os bastidores e aí as coisas foram acontecendo....

— E você já tinha experiência com isso, não é? Afinidade com a área.

Assenti com a cabeça.

— Mas sua carreira não começou lá necessariamente.

— Não, começou bem antes...

***

Junho de 2022

— Ah, é isso? — Foi a única pergunta que consegui formular na minha cabeça. — Mas, na descrição da vaga, estava escrito que vocês eram uma produtora em expansão e precisavam de alguém para trabalhar na pós-produção, com edição de vídeos...

— Sim, mas é isso mesmo.

— Mas não informaram que era edição de filmes pornôs.

Minha indignação era palpável, tanto que a entrevistadora engoliu em seco.

Agora eu sabia exatamente o que as pessoas queriam dizer quando falavam que algo tinha sido “um balde de água fria”. De repente, eu me via pensando em toda a minha jornada acadêmica, em todo o sufoco e em todas as dificuldades que me levaram até o diploma, para estar ali, naquela entrevista de emprego.

— É... Você tem interesse?

Suspirei. Era frustrante e, com certeza, cômico.

— Não, eu não tenho interesse em fazer edição de vídeos pornôs — respondi, ajeitando a bolsa e me preparando para me levantar.

— Certo, mas, olha... Se mais para a frente abrir uma vaga em outro departamento da nossa empresa, você teria interesse?

— Não, eu agradeço, mas não. Obrigada pelo seu tempo.

Eu me levantei e, sem aguardar uma resposta da entrevistadora, retirei-me do local.

Um sentimento de incredulidade ainda pairava em mim. Com certeza, aquela oferta de emprego seria ótima para alguém, mas não para mim, não para a pessoa que eu era.

Enquanto andava, repousei a mão direita sobre o braço esquerdo, sentindo o corte recente me incomodar. Olhei para o céu, amaldiçoando o clima quente fora de época; estava cada vez mais difícil viver em São Paulo.

Então, soltei uma risada baixa. Eu podia não ter certeza sobre quase nada naquela vida, mas, de uma coisa, eu tinha certeza: era completamente patética e a vida era uma droga.

Sentei-me no banco de pedra assim que cheguei ao ponto de ônibus. A caminhada até lá havia sido tortuosa. Eu quase não tinha fôlego, a fadiga era grande e meu corpo começava a dar os primeiros sinais da crise de dor que viria.

Assim que o ônibus chegou, acomodei-me devagar em um banco vazio e baixo, daqueles que têm um pequeno apoio para os pés. Peguei o celular e digitei o número da única pessoa que ficaria tão chocada quanto eu.

— E aí? Como foi?

— Mãe, você não vai acreditar.

***

Os olhos da minha mãe pousaram sobre mim assim que coloquei os pés em casa. Eu estava exausta: quase duas horas presa no transporte público para nada.

— Ai, filha, é cada coisa que acontece hoje em dia... Eu não acreditei quando você me contou.

Minha mãe segurava uma colher em uma das mãos e tinha um pano de prato apoiado no ombro, enquanto a comida estava no fogo.

— Pois é, nem eu acreditei. Mas pode rir, eu deixo. Não vou ficar nem mais nem menos patética.

— Ah, não! — disse, em reprovação. — Você não é patética. Eles que mentiram, dizendo que eram uma produtora que fazia e acontecia, e, no final, era essa palhaçada. Eles que não têm noção nenhuma.

— Três anos, mãe. Não consigo ajudar nas despesas, meus remédios são caros, eu...

— Vai explodir desse jeito.

Ela se aproximou com as mãos na cintura, e eu suspirei.

— Já mandei currículos para todos os lugares, só falta mandar para o pute...

— Ei, filha, me escuta: você não nos deve nada e, na hora certa, o emprego certo vai aparecer. Você já está fazendo a sua parte.

— É... Eu estou muito estressada. Vou tomar um banho.

— Isso, toma um banho e esfria a cabeça. Daqui a pouco, a comida fica pronta.

Sorri levemente enquanto entrava no banheiro.

A água caía sobre o meu corpo tenso. Meus pensamentos não eram nada agradáveis e iam além do desastre da entrevista. Apertei o braço esquerdo por cima do corte mais uma vez e controlei a respiração. Não queria deixar aquilo se transformar em algo pior do que já era.

Não podia.

Após longos minutos tentando aproveitar minimamente o banho, saí do chuveiro. Fui direto para o quarto, coloquei a roupa mais leve que encontrei e me deitei na cama logo em seguida.

Cada centímetro do meu corpo doía, e as fisgadas não ajudavam nem um pouco. É isso que acontece quando uma pessoa com fibromialgia é submetida a altas doses de estresse e a um clima maluco.

Peguei o celular e ignorei a maioria das notificações, principalmente as mensagens. Não queria falar com ninguém, não enquanto ainda repassava em minha mente tudo o que passei para produzir meu portfólio e, no final, ser submetida àquele tipo de situação.

Não que eu esperasse grandes coisas depois da faculdade. Afinal, desde o começo, eu sabia que o mercado de cinema e audiovisual no Brasil, com as suas panelinhas bem fechadas, não era nada fácil.

Mas também não esperava aquilo: negativas atrás de negativas, um silêncio mortal depois das poucas entrevistas que conseguia, até mesmo em áreas que não tinham absolutamente nada a ver com a minha.

Três anos...

Depois de dispensar as notificações, queria descansar um pouco antes do jantar e da rotineira maratona de séries com a minha mãe, mas uma notificação me impediu de desligar o aparelho.

Uma mensagem do meu pai.

“Hi dear, it's been a long time... How are you?”

A mensagem, escrita em inglês, era a mesma que ele mandava de tempos em tempos. Quando não era isso, era algum presente caro. Mas era impressionante como ele não conseguia fazer o mínimo: conversar comigo na minha língua materna.

Ele não fazia questão de aprender sequer uma frase simples.

Normalmente, eu ignoraria a mensagem e responderia depois de forma completamente genérica. Porém, uma ideia passou pela minha cabeça. Uma ideia perigosa. Uma loucura extremamente atraente.

Prendi a respiração por alguns segundos e pensei na minha mãe... Ela, com certeza, me mataria. Mas, daquela vez, só daquela vez, decidi não me prender tanto aos pensamentos, como costumava fazer com tudo na minha vida.

Segui meu instinto e, quando percebi, já tinha discado o número dele.

— Hello, darling.

Notas finais
Darcy Again! Obrigada a todos que leram até o final ! ✦ Sintam-se à vontade para comentar durante a leitura. Eu adoro saber o que vocês estão sentindo, quais teorias estão criando e de quais personagens já estão desconfiando — porque sim, provavelmente haverá motivos para desconfiar de algumas pessoas. Esta é uma fanfic sem fins lucrativos, inspirada no universo do BTS. As personalidades, os relacionamentos e os acontecimentos apresentados são inteiramente ficcionais e não representam a vida real dos artistas ou de qualquer empresa mencionada. Danielle Quinn e os demais personagens originais, assim como o enredo desenvolvido para a história, são de minha autoria. Espero que vocês recebam Danielle com carinho e embarquem comigo nessa nova história. Darcy Quinn Antes, Hunter Hill Foster